domingo, novembro 02, 2003

André Kertèsz (II)



A exposição "André Kertèsz: l´intime plaisir de lire" exibe até 1 de Dezembro de 2003 as fotografias do livro "On Reading". O único problema é que a mostra está patente no Musée de la Crèche, em Chaumont, França. Os meros mortais como eu terão de se contentar com o texto de apresentação do evento, que reflecte sobre a importância do tema da leitura na obra do fotógrafo húngaro:

"Qu’il soit dans un jardin, un autobus, un café, une bibliothèque ou un salon, sur sa terrasse ou dans son lit, à l’école ou à la guerre, debout, assis ou couché, le lecteur est ailleurs : dans un autre univers et dans un temps qui n’est pas le présent. Il est dans sa lecture, dans ses pensées, dans ce qu’il apprend, dans ce qu’il ressent, dans un autre monde réel ou dans l’imaginaire.

C’est ce décalage spatial et temporel, affectif et spirituel, qu’André kertész a photographié avec la connivence de l’initié. Il l’a fait en douceur, sans s’immiscer, sans perturber le lecteur qu’il connaît bien, son semblable, son frère. Ainsi, nous aussi, grâce à lui, partageons-nous l’intime plaisir de lire et de voir des images. Celui d’être informé, de savoir, de goûter les mots, de voyager, d’être relié à des inconnus et lié à des amis, d’apprécier des émotions, des sentiments inédits, d’en découvrir de nouveaux.
Ce plaisir que kertész a éprouvé, il nous l’a donné en faisant des photographies qui l’expriment et le transmettent d’autant mieux qu’il savait lire avec le cœur, les images aussi bien que les textes.

André kertész avait publié une partie des ces images dans un « On Reading », édité en 1971 et désormais introuvable. L’exposition actuelle rassemble une sélection de photographies issues du fond André Kertész de Patrimoine photographique."



André Kertèsz


Autoretrato com gato, Paris (1927)

Apaixonei-me por André Kertèsz quando li "A Câmara Clara", de Roland Barthes. Agradeço ao ensaísta francês esta prenda. Depois tropecei num ensaio de Maria Filomena Molder (não confundir com a Mónica), publicado no livro "Semear na Neve" (Relógio D´Água). Neste texto, Molder fala de um livro belíssimo chamado "On Reading", que reúne imagens de pessoas comuns a ler. A beleza das imagens registadas pelo fotógrafo húngaro reside precisamente no facto dele enxergar no comum aquilo que ninguém vê, apesar de ter ao alcance dos olhos. Curiosamente, ele próprio se retrata a ler, mergulhado nas páginas de um livro.



"Como estado ideal, a leitura transtorna muitas das distinções que permitem diferenciar os homens entre si e os fazem a nossos olhos mais justos ou menos justos. De um rosto que está entregue à leitura sobe o sussurro ou o murmúrio de quem participa numa grande mente. Cada um que lê reúne-se a uma imensidade pensante, em repouso, quem lê está em estado de levitação, pertence a uma imagem pairante." Maria Filomena Molder



"Neste livro [On Reading, de Kertèsz], aqueles que lêem nascem à luz do dia, a luz apresenta-se reinando. Não é pela inquietação do obscuro que a leitura descobre a sua irmandade com a morte e com o sono; se estes são seus familiares, isso deve-se à posição do corpo e à pacificação dos seus ritmos inerentes, como estando ido para uma viagem que anuncia a derradeira e redime sempre, sempre. Aquele que lê tem os olhos baixos, mesmo que seja ao de leve (há exemplos vertiginosos, como o da velha lendo longas folhas num cais de Paris, 1928, ou o homem que lê enquanto caminha numa rua de Buenos Aires, em 10 de Julho de 1962, ou duas, entre várias, das admiráveis fotografias de crianças, uma quase deitada sobre um montão de detritos de revistas e jornais, Nova Iorque, 12 de Outubro de 1944 (...)" Maria Filomena Molder



"O livrinho [On Reading], que contém sessenta e três fotografias dedicadas à leitura, abre com uma multidão de pássaros de luz, esvoaçando sem sair do mesmo ponto entre as folhas adivinhadas de uma árvore e os revérberos de um cortinado: sobre uma mesa em frente da janela está um livro aberto, à esquerda uma caixa de porcelana cuja tampa tem a forma de um pássaro, uma pomba. O que é um livro aberto sobre uma mesa? Um convite à rememoração, um chamamento de luz, procurar cada vez mais luz."





Outros trabalhos do artista na capital francesa, cidade que escolheu para viver e fotografar com uma Leica:


Fete Foraine

"The moment always dictates in my work. What I feel, I do. This is the most important thing for me, Everybody can look, but they don't necessarily see. I never calculate or consider; I see a situation and I know that it's right, even if I have to go back to get the proper lighting." Andre Kertesz


Torre Eiffel, Paris (1925)


In les hall, Paris (1929)

sexta-feira, outubro 31, 2003

Os jardins de Virgínia Woolf



"Virginia move-se pelo jardim como que impelida por uma almofada de ar; começa a compreender que existe outro jardim debaixo deste, um jardim do mundo subterrâneo, mais maravilhoso e terrível do que este e que é a raiz de que nascem estes relvados e estas pérgulas. É genuína a ideia de um jardim e está longe de ser tão simples quanto é belo."

"As Horas", de Michael Cunningham

Pobre Portugal

Acabo de ler aqui que Portugal é o país mais pobre da União Europeia. Era o que faltava para deixar a nossa auto-estima novinha em folha.

Sophia reina

Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou um prémio com o seu nome. Uma satisfação para aqueles cuja metade da alma também "é feita de maresia".

MAR
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Clochards de Paris



Esta fotografia foi registada pelo brasileiro Flávio Rodrigues no ano em que nasci, em 1976. Gosto muito deste trabalho. Leio num dos meus sítios favoritos que este fotógrafo tem 59 anos e "guarda o mundo numa velha caixa de sapatos que, aberta neste ensaio de retratos, refaz a trajetória do artista entre os estudos em Nova York, a carreira iniciada em Paris, as viagens pela Europa e a volta ao Brasil.

Dono de um inarredável espírito de voyeur, Flávio coleciona em seu arquivo de fundo de armário reminiscências em preto e branco de personagens inauditos e malditos, felizes e tristes, carinhosos, às vezes ferozes. "Não sei e nem me importo muito se o conjunto se inscreve no âmbito da fotografia autoral ou documental, mas estou certo que resulta de uma interação com pessoas, lugares, emoções, incertezas." Há algo de muito pessoal nessas imagens."

José Cardoso Pires

Nelson de Matos chama atenção para o esquecimento rápido do homem que nos deu "O Delfim" e "A Balada da Praia dos Cães". E escreve: "O Diário de Noticias e a sua equipa da cultura, estão hoje de parabéns. Bonita homenagem (nas páginas 2, 3, 4, 5 e 6, com chamada na primeira), pela passagem do 5º aniversário da morte de José Cardoso Pires. No Público (jornal onde o Zé escreveu semanalmente as suas crónicas no tempo da direcção de Vicente Jorge Silva), nem uma palavra." Ele escreve e ele tem razão.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Um texto inédito de Eduardo Lourenço

"O poeta e os outros"


Ortega y Gasset tem um ensaio intitulado aristocraticamente “os intelectuais e os outros”. Como todas as assumpções da aristocracia, esta comporta um risco, um não pequeno e grave risco. As eleições são sempre contestáveis mas a auto-eleição realiza nesse capítulo um sucesso particular: não tendo a garantia de Deus nem dos eleitores, é duplamente contestável. Intelectual, Ortega y Gasset erigiu o seu estatuto mental em situação ímpar de humanidade. Talvez tenha razão. A linhagem de onde procede esse solitário e altivo sentimento de diferença superior a considerações de raça, religião e classe é antiqüíssimo e venerável. Platão brilha no meio do círculo dos eleitos mas o zodíaco da inteligentzia está cheio como um coro de anjos: todo o Renascimento, o Classicismo, o Romantismo aí proclamam a glória unânime do homem da inteligência.

Os inteligentes se extasiam na sua inteligência. Os antigos altamente excusáveis pois jamais viram nela senão a inteligência do Homem. O particular não foi nunca objecto da atenção “divina” de Platão. Os modernos, inexcusáveis, pois dizendo inteligência e eleição é a sua inteligência que elegem, a dos outros tendo-se tornado para todos eles confusa e problemática. E todavia como não exaltar a inteligência sem diminuir o homem? Como proceder para não ficar prisioneiro de um contestável orgulho? Não há solução alguma isenta. Quando se afirma uma diferença, quando nos separamos do género humano proclamando uma diferença qualquer, essa decisão nos absolve e nos condena.

Pode acontecer contudo que a diferença se torne visível por si mesma e se manifeste de tal modo que ao ser expressa por nós seja ainda compatível com a isenção. O destino pode colocar-nos na situação de exteriores ao espectáculo onde a diferença humana se manifesta. Ou interiores a ela mas miraculosamente neutros. Tal pretende ser a situação humana privilegiada dos críticos em relação à poesia quando ela não o é senão por um acaso quase tão raro como o da própria poesia. A situação íntima e real da maioria da crítica literária – em especial universitária - é a de uma não sei que subtil, confusa mas obstinada consciência de não sei que superioridade em relação ao poeta. De outro modo como se teria ele inventado crítico? Embalsamadores imaginam-se ressuscitadores, glosadores de vivos crêem-se inventores de mortos. São insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta. O amor os inventou, sua crítica é o diálogo, o discurso sem fim que o amor suscita, segundo diz o Fedon, e o amor os salva. No mundo da criação, mais implacável que o terrestre mundo que a todo instante se esboroa ou que o da inteligência que a si mesma se divide e agoniza, só há na verdade OS POETAS E OS OUTROS.

Eu pertenço aos outros e por isso não tenho mérito algum em o confessar. Como é da essência dos outros, e em especial da fauna crítica, que é o sumo dessa “alteridade”, também eu talhei e medi, fiz comparecer réus e testemunhas, pronunciei sentenças de morte para pessoas que não podiam morrer, concedi liberdade a escravos deles mesmos, ofereci vida a cadáveres confusos, enfim alucinei-me sobre poderes que Deus não concede senão aos criadores. Em suma, cedi à tentação de ser crítico."

Texto publicado no mais recente número da revista luso-brasileira "Metamorfoses"

Eduardo Lourenço e a crítica

O volume quatro da revista luso-brasileira "Metamorfoses", já disponível nas livrarias, traz um cuidado dossier sobre Eduardo Lourenço. Um dos artigos foi escrito por alguém muito importante para mim e, sendo assim, não fica nada bem estar a elogiá-lo. Pensei em nem sequer mencionar esta novidade no Cais, mas depois cheguei à conclusão que seria uma pena não dar a conhecer um inédito do autor que ali vem ali. Chama-se "O Poeta e os Outros" e foi escrito por um jovem Lourenço, já muito consciente da dificuldade de julgar uma obra de arte.

O ensaísta português, radicado em Nice há muitos anos, fala nesse texto da crítica literária que se quer responsável e não máquina destruidora de criadores. Os críticos, para ele, "são insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta." Daí que Lourenço defenda a crítica daquilo que nos toca. Se um texto não encontra no crítico o seu leitor ideal - ou simplesmente é, na sua opinião, um texto fraco - não escrever sobre ele poderá ser talvez o tratamento mais honesto. Por isso encontramos na vasta obra de Lourenço análises apaixonadas sobre criações que o ensaísta leu com extremo desvelo. A literatura que não mereceu o movimento da sua mão não é necessariamente má, apenas não lhe tocou.

As mãos e os frutos



Só as tuas mãos trazem os frutos,
Só elas despem a mágoa
destes olhos, e dos choupos,
carregados de sombra e rasos de água

Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos
_ Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos.

Encontro de Eugénio de Andrade com a mineira Ana Regina Nogueira , fotógrafa e poeta

O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam

Para homenagear o escritor argentino, a Fundação Internacional Jorge Luis Borges vai criar até ao fim deste ano um verdadeiro jardim dos caminhos que se bifurcam, mais precisamente na quinta Los Álamos, na província de Mendoza, no sopé dos Andes. Quem quiser saber como vai ficar este gigantesco labirinto tem de ir até ao país do tango nos próximos meses. Este equipamento de sonho terá ainda uma biblioteca em braille (para provar que os dedos que escrevem também lêem) e um miradouro.

Quentin Tarantino



Acabo de ver a quarta obra de Quentin Tarantino. Depois de "Cães Danados" (1992), "Pulp Fiction" e "Jackie Brown", o realizador nos convoca para mais uma bem humorada sessão de violência: "Kill Bill". Uma Thurman aparece com um fato amarelo no melhor estilo Bruce Lee, cortando com uma espada samurai braços, pernas e cabeças. O sangue das vítimas jorra como poços de petróleo de banda desenhada. Aliás, Tarantino também recorre ao formato de desenhos animados para fazer algumas cenas de flash back. Com figuras orientais com olhos gigantescos e tudo.

Múltiplas linguagens, ícones liquefeitos por varinhas mágicas, uma pitada saudosa (mas com nova roupagem) de artes marciais. Cá temos o nosso velho Tarantino a contar histórias banais de um jeito fantástico, a fazer da violência a coisa mais divertida que podemos ter ao fim de um dia de trabalho. Ele próprio confessa: "A violência é a coisa mais engraçada que se pode fazer em filmes".

Há menos diálogos do que nas fitas anteriores. Em troca, temos mais acção. O filme apresenta-se como um livro, por capítulos. E o que podemos ver hoje nas salas de cinema constitui apenas o primeiro volume dessa obra. A sequela, só em Fevereiro de 2004. Apenas nessa altura saberemos como a heroína (Uma) completa a sua vingança contra aqueles que a tentaram matar no dia do seu casamento (um deles o Bill, o pai do filho que trazia na barriga).

Falem da banalização da violência, falem da dissolução da moral. O que é facto é que eu ri imenso. Porque aqui o poder atroz contra a vida (e a integridade física dos corpos, literalmente) atinge níveis tão elevados e descontextualizados que só nos resta não identificar tal violência como plausível e, por isso mesmo, rir desse descompasso entre vida e morte.

É o caso da cena em que a "guerreira dos cabelos cor de feno" luta contra uma inimiga vestida de quimono branco (Lucy Liu, ex-Anjo de Charlie): o cenário é um jardim zen, com flocos de neve desprendendo-se do céu, mas a música que embala este sonho nipónico é "Don´t let me be misunderstood", dos Santa Esmeralda. A japinha acaba por ser escalpelada, sendo que o seu couro cabeludo vai pelos ares até, em curva descendente, cair no chão alvo e gelado. Na sequência, aparece o crânio incompleto da criatura, que (pasmem!) ainda é capaz de dizer uma frase completa e gramaticalmente correcta.

Como conter o riso? Um riso incomodado e catártico, é certo, mas riso. Um riso que nos deixa mais confortados do que muitos filmes politicamente correctos.

sábado, outubro 25, 2003

À porta de Llansol (IV)

Tenho ainda "O Começo de Um Livro É Precioso" (Assírio & Alvim, 2003), de Maria Gabriela Llansol, em minhas mãos. Na estância 35, lê-se:

"Apesar de ele ter decidido não compreender, ela / Persistia em explicar-lhe por que lia a Gabriela Llansol ___ / «É a casa que ensina a ler (pausa) imagina um extraordinário /Atractivo para o amor (pausa) o livro fala (pausa) / Procura a página que te fala (pausa) são da substância / Dos beijos e da boca (pausa) sentam-se à mesa / Num estético convívio (pausa) a sua liberdade / É tal que, se as folhas se partem, regressam por si sós ao ponto de partida e juntam-se, esperando (pausa) são / Pombas somente ligadas por uma fita de voo (pausa) / Não vês?» (continua) ".

É curioso que a autora inclua no seu próprio texto o reflexo que provoca nos seus leitores. Talvez Llansol saiba que nem todos aqueles que assomam à sua porta se sentem confortáveis. É preciso pausas muitas vezes. Daí os hiatos ___________ que com frequência intercalam as suas palavras. Esses mesmos sinais gráficos que pontuam as obras são, por ela mesma, maravilhosamente descritos como "pombas ligadas por uma fita de voo". Cada um poderá entender como quiser este interstício que aparta (une?) o leitor da escrita. Eu vejo como uma imagem metafórica do leitor que se debruça sobre páginas, lendo-as, mas que, num dado momento, interrompe a leitura e pousa o olhar no horizonte. Esta paragem, que pode ser representada como _____________, também é leitura, ainda que os olhos não estejam pousados sobre as palavras impressas. Uma escrita assim permite um espaço inigualável de liberdade ao leitor.

quinta-feira, outubro 23, 2003

Ferreira Gullar


As edições Quasi acabam de lançar a "Obra Poética" de Ferreira Gullar. Obviamente, não pude deixar de comprar. O livro conta com um belíssimo prefácio de 18 páginas assinado por Ivan Junqueira. Tenham paciência, pois as próximas mensagens serão dedicadas ao meu querido poeta brasileiro.

O sítio Outras Palavras também me informa que Ferreira Gullar chega a Internet e nos permite, através de seu site, receber um e-poema diretamente via e-mail. A internet também nos traz coisas belas."

Para despertar o apetite, segue o poema que forra a contracapa do volume editado entre nós pela Quasi.

"Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo - deuses frágeis -
eu colho a ausência que me queima as mãos."

sábado, outubro 18, 2003

À porta de Llansol (III)

Leio no blogue de Alexandra Barreto mais um testemunho sobre a leitura dos textos de Llansol. Ela fala sobre "O Jogo da Liberdade da Alma", um livro recém-lançado pela autora portuguesa. A obra veio a lume precisamente num colóquio no Convento da Arrábida, juntamente com outro título, "O Começo de Um Livro éPrecioso" (Assí­rio & Alvim, ilustrações lindas de Ilda David). São apontamentos de leitura que dão conta da lenta viagem que é chegar até à textualidade de Llansol.

"Para Llansol, escrever, ler, amar e existir são formas de investigação do mistério do real através de um texto que não aceita as limitações nem da prosa nem do verso.
Neste livro que se constrói a partir de "menos-valias" (p. 13), de "dias perdidos, textos reconstituídos, ossos ressequidos à espera que o texto lhe renascesse em volta" (p. 20), o conceito de "ressurreição" é fulcral. O mundo, a vida, o amor e a literatura dependem das ressurreições que devem processar-se constantemente para que algo subsista do conflito entre o texto e o tempo: "o texto, na sua trajectória, não me queria no Tempo, onde, indubitavelmente, o meu corpo me quer" (p. 27). Mas num conflito pode haver uma (trans)fusão entre os dois pólos em causa. E para o texto vencer o tempo tem de aceitar confrontar-se com ele, tem de conseguir ser "livre, e anterior a si mesmo, e posterior a si mesmo____a substância narrando-se" (p. 12).
Tenho uma confissão a fazer: há muito tempo que não conseguia ler um livro de Maria Gabriela Llansol até ao fim. Geralmente impaciento-me com alguma imprecisão das palavras que se vêem subitamente desprovidas dos seus referentes lexicais tradicionais sem necessariamente lhe serem atribuídos outros que permitam ao leitor um ponto de apoio. No entanto, este livro terminei-o muito rapidamente, quase sem interrupções."

sexta-feira, outubro 17, 2003

Ainda as Edições 2 Luas

Fiz uma pesquisa na internet para encontrar artigos sobre Llansol e, juro de pés juntos, acabei por tropeçar numa estrevista de Paulinho Assunção ao sítio Novos Livros . Então vi-me obrigada a voltar a falar nas Edições 2 Luas. O escritor brasileiro define assim a sua oficina artesanal:

"A Edições 2 Luas não é propriamente uma editora, é um gesto, um ato utópico de produzir livros manualmente fazendo uso de objetos e ferramentas rústicas e rudimentares: tabuinhas de encadernar, pegadores de papel, tesoura, agulha, cola, uma guilhotina manual, uns cordões, uns barbantes, quinquilharias que cabem numa pasta de colégio e causam júbilo e êxtase no meu filho de seis anos.
Diagramo e edito os textos em PageMaker, imprimo-os em uma impressora, mas todo o processo de feitura dos livros é à mão. Fiz até agora em torno de 20 títulos, desde 1998, em edições reduzidas, de 30, 50, 100 exemplares no máximo. Fiz inclusive uma pequena edição fora do mercado de um belíssimo texto manuscrito de Maria Gabriela Llansol, "Carta ao Legente". E também editei um pequeno livro de poemas do meu querido amigo, o poeta, romancista e dramaturgo português Jaime Rocha, chamado "Arco de Jasmim".
Mas não me considero um editor. Sou um escritor que, através do exercício da confecção manual de livros, lança e estende a alguns poucos leitores, leitores especiais, leitores fulgurados e de fulgurações, certas cartas em busca de bons destinatários."

Sobre Llansol e a Literatura Portuguesa:

"tenho vinculações muito fortes com os autores portugueses: de Camões a Eça, de Eça a Pessoa, de Pessoa a Maria Gabriela Llansol, na qual, o que mais me encanta, o que mais me apaixona, é suprema iluminação alcançada em seus livros pela língua portuguesa. Em Llansol, a língua portuguesa atinge uma solidez incomparável, a partir um registro tão leve e delicado como a pluma. Mas há outros autores pelos quais tenho extrema admiração. Por exemplo, para citar apenas dois, o José Cardoso Pires e a Hélia Correia. E, há poucos dias, publiquei no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, meia página sobre "Fazes-me Falta", de Inês Pedrosa, uma escritora também admirável."

quinta-feira, outubro 16, 2003

Evandro Teixeira



Uma vez me disseram que aqueles que têm um dom raramente o manisfestam. Por outras palavras, as pessoas mais preciosas que já encontrei não trazem um letreiro a indicar isso. Então acontece nas relações humanas aquilo a que chamo "efeito-violeta": estão ali, num canto, com as suas folhas aveludadas e as suas florinhas perfeitas. Se frequentarmos muito uma casa com violetas, não conceberemos mais os parapeitos sem os pequenos vasos. Mas se estivermos lá, no meio de uma festa relâmpago e ruidosa, provavelmente nunca diremos: a casa tinha violetas.

Isto tudo é para dizer que o fotógrafo brasileiro Evandro Teixeira é uma violeta.



Sabe como poucos interpretar a realidade brasileira. Trabalha com gosto, trata grandes repórteres e estagiários com a mesma simplicidade. Tem mais energia do que alguns colegas vinte anos mais novos do que ele. O Jornal do Brasil teve a horna de tê-lo na sua equipa. Carlos Drummond de Andrade dedicou-lhe um poema, texto que considero o elogio máximo do fazer fotojornalístico.

"Diante das fotos de Evandro Teixeira

A pessoa, o lugar, o objecto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.



É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.



Fotografia - é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.



Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras, tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?



Marcas da enchente e do despejo,
cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova Iorque
a moça em flor no Jóquei Clube,



Garrincha e Nureiev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.



Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança de brotar das cinzas.




Olhos redondos no reino da China



"Documentário de Ronald Levaco sobre a saga dos caucasianos residentes na China, de 1930 até os dias atuais. Mostra uma família que desapareceu no interior do país quando a revolução de Mao estourou em 1949, mas o foco central é a trajetória de um russo da região do Cáucaso que aderiu à revolução maoísta e decidiu se tornar chinês.
O filme tenta elucidar um mistério: os motivos que levaram Israel Esptein a permanecer sob um regime que obrigou muitos estrangeiros a fugir e o confinou numa prisão durante 5 anos, na década de 70.

A história é narrado por um cineasta chinês (vivendo nos EUA desde os 10 anos de idade) que volta ao seu país 45 anos mais tarde para desvendar o destino de Esptein, o homem que foi o melhor amigo do pai."


Contributos para um colar de olhos (II)

A Sara mandou-me mais um contributo para o colar de olhos, que há alguns dias tento construir. A ideia é reunir num fio, como se construíssemos uma gargantilha, vários elementos textuais ou imagéticos que façam alusão aos olhos. Sara entrega-me olhos que são "peixes verdes sem mar", trá-los numa caixa metálica, forrada com gelatina, para que não fiquem ressecados.

A Cristina também já nos ofereceu uma imagem do fotógrafo cego Bavcar.

"Poema", de António José Forte

Esta a cabeça em fúria do poeta
como está nas fotografias tiradas de avião
depois de cair em chamas no mar de ninguém

estes dentes
o alfabeto doido com que vai escrever

e aqui está a sua mão direita
estátua de manhã e automóvel à noite
salvo acidente mortal

e eis os seus olhos
peixes verdes sem mar
a sua boca aquela voz horrível no deserto

os seus pés
dois príncipes encantados no palácio dos passos
perdidos
antes de encontrar-te meu amor

À Porta de Llansol (II)



Lúcia Castello Branco deu-me um texto seu chamado "Livro de Cenas Fulgor - caderno de contemplações". A obra é publicada pelas Edições 2 Luas, uma oficina artesanal comandada por Paulinho Assunção. Leio no prólogo que este projecto nasceu da experiência de Lúcia com a textualidade de Llansol e de Sei Shônagon, esta nascida no Japão por volta do ano 965. Lúcia explica então que teve a ideia de fazer uma espécie de listagem (que é uma marca formal de Sei) de "cenas fulgor" (que é um dos princípios construtivos da obra de Llansol, a par com a ideia de "encontro inesperado do diverso").

Para Llansol, as "cenas fulgor" podem ser "uma pessoa que realmente existiu", uma frase, um animal ou uma quimera". "Este é o jardim que o pensamento permite" é um exemplo de cena fulgor. Daí que Lúcia tenha tido a vontade de listar cenas fulgor da sua própria vivência. O resultado é um livro muito delicado, entremeado por páginas de papel vegetal onde figuram pedaços de renda e pétalas de rosas secas. Reproduzo abaixo uma das listas singelas de Lucia Castello Branco.

"Coisas que fazem o coração bater mais forte:

Um planador conduzido segundo a feição do vento
O dorso desnudo de um bebê adormecido
O olhar de um cão, em direcção à mãe que amamenta o bebê
O olhar de uma criança, em direcção àquilo que não compreende
Tâmaras secas sobre um prato de cristal
Aquele amigo distante que retorna
Deitar-se só, num quarto deliciosamente perfumado de incenso
O clarão da lua atrás da nuvem"

Lúcia Castello Branco, diz o livro, nasceu no Rio de Janeiro e vive actualmente em Belo Horizonte, no Brasil. É professora de literatura na Universidade Federal de Belo Horizonte e tem mais de dez livros publicados. É "legente" de Llansol e do mundo. E, o mais importante, é mãe de David e Julia.