Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
quarta-feira, novembro 12, 2003
Jorge Marmelo
Eu gostava de ter escrito mais cedo este texto (não gosto muito da palavra post, quer dizer, também não desgosto, mas evito). Esta tarde, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, o escritor Jorge Marmelo apresentou a sua nova obra: um livro infantil escrito a quatro mãos com Maria Miguel, a sua filha de 10 anos. Também gostava de ter lá ido, mas não pude. Mas, enfim, o que importa é que "A Menina Gigante" (Campo das Letras, com ilustrações lindas de Susana Traina) é um livro belo, que fala de coisas como a adopção, a crueldade embutida nas crianças e a questão da diferença durante a infância.
sexta-feira, novembro 07, 2003
A iconografia da leitura
Na sequência das imagens de Kertèsz, que registavam o acto de leitura como algo muito corporal, encontrei esta ilustração de Jorge Colombo. Interessa-me imenso a inconografia sobre a leitura. Como as pessoas lêem? Como seguram os livros? Começam pelo fim, pelo início ou folheiam antes de mergulhar na leitura? Robert Scholes fala um pouco sobre isso no seu precioso "Protocolo de Leitura" (edições 70), onde faz uma detalhada análise de um quadro de Georges de La Tour. Nesta pintura, Santa Ana aparece ensinando Maria a ler, sob a luz insuficiente de uma vela. Scholes escreve:
"Se acaso se trata de Maria aprendendo a ler, o nosso desejo de plenitude narrativa incita-nos a procurar um nível de especificidade idêntico quanto a outros pormenores do texto. Isso leva-nos a identificar a mestra como sua mãe, Santa Ana, e a tecer conjecturas sobre qual será o livro lido em voz alta com tamanha gravidade. Considerando-a futura mãe de Jesus, distinguimos também nesse curioso gesto da mão direita uma postura conhecida, pois figura em muitas pinturas que representam Cristo ou os santos. O gesto constitui um sinal hierático que acompanha os milagres e as revelações quando é pronunciada a Verdade ou quando esta se revela em acção. Mas é também, claro, um guarda-luz da chama da vela, um reflector cor de carne que talvez saliente o brilho do texto. Este qual é, porém? Que lê Maria?"
O Corvo
Imperdível a tradução de Isa Mara Lando para "O Corvo", de Poe. Ela é brasileira e está hospedada numa casa portuguesa .
O lago de Virginia Woolf
"Antes de ir com Angelica para o roseiral, Virginia demora-se mais um momento, ainda de mãos dadas com Vanessa, observando os filhos da irmã como se eles fossem uma lagoa na qual poderia ou não mergulhar. Isto, pensa, é a verdadeira realização, isto continuará a viver depois de o ouropel das experiências na narrativa ter sido encaixotado e abandonado juntamente com as velhas fotografias, os vestidos de baile de máscaras e os pratos de porcelana nos quais a avó pintava as suas melancólicas paisagens inventadas."
"As Horas", de Michael Cunningham
terça-feira, novembro 04, 2003
Nahuas, México
Eu não sei se estiveste ausente.
Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.
Nos meus sonhos tu estás junto a mim.
Se estremecem os brincos das minhas orelhas
eu sei que és tu que te moves no meu coração.
Este poema da "Rosa do Mundo" é uma prenda cândida de uma amiga.
Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.
Nos meus sonhos tu estás junto a mim.
Se estremecem os brincos das minhas orelhas
eu sei que és tu que te moves no meu coração.
Este poema da "Rosa do Mundo" é uma prenda cândida de uma amiga.
segunda-feira, novembro 03, 2003
Inspirado por André Kertèsz
Colorado State University
Fort Collins, USA (1988)
O fotógrafo Don Eddy, inspirado por André Kertèsz, criou uma série de imagens também elas dedicadas ao tema da leitura. Algumas delas são muito bonitas. Don Eddy escreveu sobre a experiência com o livro "On Reading" e também sobre o encontro com o próprio Kertèsz. Reproduzo abaixo o texto:
"Regarding the On Reading series
Accidentally one day I stumbled upon a small book of photographs taken by André Kertész. The book encompassed a great many of his photographic years and were images of not only people reading, but birds, statues, and paintings! They were taken, for the most part, on purpose for depicting "reading". Not too long after seeing the little book, I was going over many of my old contact sheets and discovered that I had also captured many people "reading", but quite by chance. So I put together this series of my “On Reading"
I’d met André, a quiet and simplistic photographer, while he was with six other Magnum photographers covering the Xerox stockholders’ meeting near Rochester, NY in an outdoor setting under huge, white tents. At the time I was the staff photographer at the George Eastman House and was asked by Beaumont Newhall if I’d like to give a tour of the House to several Magnum photographers who were in town. André was not on the tour and I did not know the extent of the photographers until they asked if I’d like to assist them while they covered the meeting. Who could have refused!
At the event Inge Bondi asked me to have a hundred copies of model releases made at another tent that Xerox had set up just for the purpose. At the time, 1966, Xerox was heading the high speed copy equipment market. The attendant said he would be happy to and for me to have a seat on a supplied garden bench they’d placed nearby. I watched as he set the copier into action. It began scanning the original I’d given to him and spitting out copies at the rate of maybe 10 per minute!
I took a seat.
There was an elderly gentleman sitting there to my right. He seemed to be resting and perhaps was a stockholder—but he looked familiar. I’d seen him before or at least thought I had. Then it struck me, he might be André Kertész. I turned to him and said in a questioning way, "You’re André Kertész . . ."
He turned, smiled with a twinkle in his eye and responded quietly, "I know that", with a slight emphasis on I."
Saudades do Cazuza
Vi esta foto hoje no Palavras da Tribo e senti uma enorme saudade do Cazuza. Não consegui deixar de pensar que, se a doença tivesse sido diagnosticada hoje, ele poderia recorrer a um coquetel de medicamentos. Teria oportunidade de lutar contra o vírus. Quantas mais canções não teria escrito?
domingo, novembro 02, 2003
André Kertèsz (II)
A exposição "André Kertèsz: l´intime plaisir de lire" exibe até 1 de Dezembro de 2003 as fotografias do livro "On Reading". O único problema é que a mostra está patente no Musée de la Crèche, em Chaumont, França. Os meros mortais como eu terão de se contentar com o texto de apresentação do evento, que reflecte sobre a importância do tema da leitura na obra do fotógrafo húngaro:
"Qu’il soit dans un jardin, un autobus, un café, une bibliothèque ou un salon, sur sa terrasse ou dans son lit, à l’école ou à la guerre, debout, assis ou couché, le lecteur est ailleurs : dans un autre univers et dans un temps qui n’est pas le présent. Il est dans sa lecture, dans ses pensées, dans ce qu’il apprend, dans ce qu’il ressent, dans un autre monde réel ou dans l’imaginaire.
C’est ce décalage spatial et temporel, affectif et spirituel, qu’André kertész a photographié avec la connivence de l’initié. Il l’a fait en douceur, sans s’immiscer, sans perturber le lecteur qu’il connaît bien, son semblable, son frère. Ainsi, nous aussi, grâce à lui, partageons-nous l’intime plaisir de lire et de voir des images. Celui d’être informé, de savoir, de goûter les mots, de voyager, d’être relié à des inconnus et lié à des amis, d’apprécier des émotions, des sentiments inédits, d’en découvrir de nouveaux.
Ce plaisir que kertész a éprouvé, il nous l’a donné en faisant des photographies qui l’expriment et le transmettent d’autant mieux qu’il savait lire avec le cœur, les images aussi bien que les textes.
André kertész avait publié une partie des ces images dans un « On Reading », édité en 1971 et désormais introuvable. L’exposition actuelle rassemble une sélection de photographies issues du fond André Kertész de Patrimoine photographique."
André Kertèsz
Autoretrato com gato, Paris (1927)
Apaixonei-me por André Kertèsz quando li "A Câmara Clara", de Roland Barthes. Agradeço ao ensaísta francês esta prenda. Depois tropecei num ensaio de Maria Filomena Molder (não confundir com a Mónica), publicado no livro "Semear na Neve" (Relógio D´Água). Neste texto, Molder fala de um livro belíssimo chamado "On Reading", que reúne imagens de pessoas comuns a ler. A beleza das imagens registadas pelo fotógrafo húngaro reside precisamente no facto dele enxergar no comum aquilo que ninguém vê, apesar de ter ao alcance dos olhos. Curiosamente, ele próprio se retrata a ler, mergulhado nas páginas de um livro.
"Como estado ideal, a leitura transtorna muitas das distinções que permitem diferenciar os homens entre si e os fazem a nossos olhos mais justos ou menos justos. De um rosto que está entregue à leitura sobe o sussurro ou o murmúrio de quem participa numa grande mente. Cada um que lê reúne-se a uma imensidade pensante, em repouso, quem lê está em estado de levitação, pertence a uma imagem pairante." Maria Filomena Molder
"Neste livro [On Reading, de Kertèsz], aqueles que lêem nascem à luz do dia, a luz apresenta-se reinando. Não é pela inquietação do obscuro que a leitura descobre a sua irmandade com a morte e com o sono; se estes são seus familiares, isso deve-se à posição do corpo e à pacificação dos seus ritmos inerentes, como estando ido para uma viagem que anuncia a derradeira e redime sempre, sempre. Aquele que lê tem os olhos baixos, mesmo que seja ao de leve (há exemplos vertiginosos, como o da velha lendo longas folhas num cais de Paris, 1928, ou o homem que lê enquanto caminha numa rua de Buenos Aires, em 10 de Julho de 1962, ou duas, entre várias, das admiráveis fotografias de crianças, uma quase deitada sobre um montão de detritos de revistas e jornais, Nova Iorque, 12 de Outubro de 1944 (...)" Maria Filomena Molder
"O livrinho [On Reading], que contém sessenta e três fotografias dedicadas à leitura, abre com uma multidão de pássaros de luz, esvoaçando sem sair do mesmo ponto entre as folhas adivinhadas de uma árvore e os revérberos de um cortinado: sobre uma mesa em frente da janela está um livro aberto, à esquerda uma caixa de porcelana cuja tampa tem a forma de um pássaro, uma pomba. O que é um livro aberto sobre uma mesa? Um convite à rememoração, um chamamento de luz, procurar cada vez mais luz."
Outros trabalhos do artista na capital francesa, cidade que escolheu para viver e fotografar com uma Leica:
Fete Foraine
"The moment always dictates in my work. What I feel, I do. This is the most important thing for me, Everybody can look, but they don't necessarily see. I never calculate or consider; I see a situation and I know that it's right, even if I have to go back to get the proper lighting." Andre Kertesz
Torre Eiffel, Paris (1925)
In les hall, Paris (1929)
sexta-feira, outubro 31, 2003
Os jardins de Virgínia Woolf
"Virginia move-se pelo jardim como que impelida por uma almofada de ar; começa a compreender que existe outro jardim debaixo deste, um jardim do mundo subterrâneo, mais maravilhoso e terrível do que este e que é a raiz de que nascem estes relvados e estas pérgulas. É genuína a ideia de um jardim e está longe de ser tão simples quanto é belo."
"As Horas", de Michael Cunningham
Pobre Portugal
Acabo de ler aqui que Portugal é o país mais pobre da União Europeia. Era o que faltava para deixar a nossa auto-estima novinha em folha.
Sophia reina
Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou um prémio com o seu nome. Uma satisfação para aqueles cuja metade da alma também "é feita de maresia".
MAR
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
MAR
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Clochards de Paris
Esta fotografia foi registada pelo brasileiro Flávio Rodrigues no ano em que nasci, em 1976. Gosto muito deste trabalho. Leio num dos meus sítios favoritos que este fotógrafo tem 59 anos e "guarda o mundo numa velha caixa de sapatos que, aberta neste ensaio de retratos, refaz a trajetória do artista entre os estudos em Nova York, a carreira iniciada em Paris, as viagens pela Europa e a volta ao Brasil.
Dono de um inarredável espírito de voyeur, Flávio coleciona em seu arquivo de fundo de armário reminiscências em preto e branco de personagens inauditos e malditos, felizes e tristes, carinhosos, às vezes ferozes. "Não sei e nem me importo muito se o conjunto se inscreve no âmbito da fotografia autoral ou documental, mas estou certo que resulta de uma interação com pessoas, lugares, emoções, incertezas." Há algo de muito pessoal nessas imagens."
José Cardoso Pires
Nelson de Matos chama atenção para o esquecimento rápido do homem que nos deu "O Delfim" e "A Balada da Praia dos Cães". E escreve: "O Diário de Noticias e a sua equipa da cultura, estão hoje de parabéns. Bonita homenagem (nas páginas 2, 3, 4, 5 e 6, com chamada na primeira), pela passagem do 5º aniversário da morte de José Cardoso Pires. No Público (jornal onde o Zé escreveu semanalmente as suas crónicas no tempo da direcção de Vicente Jorge Silva), nem uma palavra." Ele escreve e ele tem razão.
quinta-feira, outubro 30, 2003
Um texto inédito de Eduardo Lourenço
"O poeta e os outros"
Ortega y Gasset tem um ensaio intitulado aristocraticamente “os intelectuais e os outros”. Como todas as assumpções da aristocracia, esta comporta um risco, um não pequeno e grave risco. As eleições são sempre contestáveis mas a auto-eleição realiza nesse capítulo um sucesso particular: não tendo a garantia de Deus nem dos eleitores, é duplamente contestável. Intelectual, Ortega y Gasset erigiu o seu estatuto mental em situação ímpar de humanidade. Talvez tenha razão. A linhagem de onde procede esse solitário e altivo sentimento de diferença superior a considerações de raça, religião e classe é antiqüíssimo e venerável. Platão brilha no meio do círculo dos eleitos mas o zodíaco da inteligentzia está cheio como um coro de anjos: todo o Renascimento, o Classicismo, o Romantismo aí proclamam a glória unânime do homem da inteligência.
Os inteligentes se extasiam na sua inteligência. Os antigos altamente excusáveis pois jamais viram nela senão a inteligência do Homem. O particular não foi nunca objecto da atenção “divina” de Platão. Os modernos, inexcusáveis, pois dizendo inteligência e eleição é a sua inteligência que elegem, a dos outros tendo-se tornado para todos eles confusa e problemática. E todavia como não exaltar a inteligência sem diminuir o homem? Como proceder para não ficar prisioneiro de um contestável orgulho? Não há solução alguma isenta. Quando se afirma uma diferença, quando nos separamos do género humano proclamando uma diferença qualquer, essa decisão nos absolve e nos condena.
Pode acontecer contudo que a diferença se torne visível por si mesma e se manifeste de tal modo que ao ser expressa por nós seja ainda compatível com a isenção. O destino pode colocar-nos na situação de exteriores ao espectáculo onde a diferença humana se manifesta. Ou interiores a ela mas miraculosamente neutros. Tal pretende ser a situação humana privilegiada dos críticos em relação à poesia quando ela não o é senão por um acaso quase tão raro como o da própria poesia. A situação íntima e real da maioria da crítica literária – em especial universitária - é a de uma não sei que subtil, confusa mas obstinada consciência de não sei que superioridade em relação ao poeta. De outro modo como se teria ele inventado crítico? Embalsamadores imaginam-se ressuscitadores, glosadores de vivos crêem-se inventores de mortos. São insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta. O amor os inventou, sua crítica é o diálogo, o discurso sem fim que o amor suscita, segundo diz o Fedon, e o amor os salva. No mundo da criação, mais implacável que o terrestre mundo que a todo instante se esboroa ou que o da inteligência que a si mesma se divide e agoniza, só há na verdade OS POETAS E OS OUTROS.
Eu pertenço aos outros e por isso não tenho mérito algum em o confessar. Como é da essência dos outros, e em especial da fauna crítica, que é o sumo dessa “alteridade”, também eu talhei e medi, fiz comparecer réus e testemunhas, pronunciei sentenças de morte para pessoas que não podiam morrer, concedi liberdade a escravos deles mesmos, ofereci vida a cadáveres confusos, enfim alucinei-me sobre poderes que Deus não concede senão aos criadores. Em suma, cedi à tentação de ser crítico."
Texto publicado no mais recente número da revista luso-brasileira "Metamorfoses"
Ortega y Gasset tem um ensaio intitulado aristocraticamente “os intelectuais e os outros”. Como todas as assumpções da aristocracia, esta comporta um risco, um não pequeno e grave risco. As eleições são sempre contestáveis mas a auto-eleição realiza nesse capítulo um sucesso particular: não tendo a garantia de Deus nem dos eleitores, é duplamente contestável. Intelectual, Ortega y Gasset erigiu o seu estatuto mental em situação ímpar de humanidade. Talvez tenha razão. A linhagem de onde procede esse solitário e altivo sentimento de diferença superior a considerações de raça, religião e classe é antiqüíssimo e venerável. Platão brilha no meio do círculo dos eleitos mas o zodíaco da inteligentzia está cheio como um coro de anjos: todo o Renascimento, o Classicismo, o Romantismo aí proclamam a glória unânime do homem da inteligência.
Os inteligentes se extasiam na sua inteligência. Os antigos altamente excusáveis pois jamais viram nela senão a inteligência do Homem. O particular não foi nunca objecto da atenção “divina” de Platão. Os modernos, inexcusáveis, pois dizendo inteligência e eleição é a sua inteligência que elegem, a dos outros tendo-se tornado para todos eles confusa e problemática. E todavia como não exaltar a inteligência sem diminuir o homem? Como proceder para não ficar prisioneiro de um contestável orgulho? Não há solução alguma isenta. Quando se afirma uma diferença, quando nos separamos do género humano proclamando uma diferença qualquer, essa decisão nos absolve e nos condena.
Pode acontecer contudo que a diferença se torne visível por si mesma e se manifeste de tal modo que ao ser expressa por nós seja ainda compatível com a isenção. O destino pode colocar-nos na situação de exteriores ao espectáculo onde a diferença humana se manifesta. Ou interiores a ela mas miraculosamente neutros. Tal pretende ser a situação humana privilegiada dos críticos em relação à poesia quando ela não o é senão por um acaso quase tão raro como o da própria poesia. A situação íntima e real da maioria da crítica literária – em especial universitária - é a de uma não sei que subtil, confusa mas obstinada consciência de não sei que superioridade em relação ao poeta. De outro modo como se teria ele inventado crítico? Embalsamadores imaginam-se ressuscitadores, glosadores de vivos crêem-se inventores de mortos. São insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta. O amor os inventou, sua crítica é o diálogo, o discurso sem fim que o amor suscita, segundo diz o Fedon, e o amor os salva. No mundo da criação, mais implacável que o terrestre mundo que a todo instante se esboroa ou que o da inteligência que a si mesma se divide e agoniza, só há na verdade OS POETAS E OS OUTROS.
Eu pertenço aos outros e por isso não tenho mérito algum em o confessar. Como é da essência dos outros, e em especial da fauna crítica, que é o sumo dessa “alteridade”, também eu talhei e medi, fiz comparecer réus e testemunhas, pronunciei sentenças de morte para pessoas que não podiam morrer, concedi liberdade a escravos deles mesmos, ofereci vida a cadáveres confusos, enfim alucinei-me sobre poderes que Deus não concede senão aos criadores. Em suma, cedi à tentação de ser crítico."
Texto publicado no mais recente número da revista luso-brasileira "Metamorfoses"
Eduardo Lourenço e a crítica
O volume quatro da revista luso-brasileira "Metamorfoses", já disponível nas livrarias, traz um cuidado dossier sobre Eduardo Lourenço. Um dos artigos foi escrito por alguém muito importante para mim e, sendo assim, não fica nada bem estar a elogiá-lo. Pensei em nem sequer mencionar esta novidade no Cais, mas depois cheguei à conclusão que seria uma pena não dar a conhecer um inédito do autor que ali vem ali. Chama-se "O Poeta e os Outros" e foi escrito por um jovem Lourenço, já muito consciente da dificuldade de julgar uma obra de arte.
O ensaísta português, radicado em Nice há muitos anos, fala nesse texto da crítica literária que se quer responsável e não máquina destruidora de criadores. Os críticos, para ele, "são insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta." Daí que Lourenço defenda a crítica daquilo que nos toca. Se um texto não encontra no crítico o seu leitor ideal - ou simplesmente é, na sua opinião, um texto fraco - não escrever sobre ele poderá ser talvez o tratamento mais honesto. Por isso encontramos na vasta obra de Lourenço análises apaixonadas sobre criações que o ensaísta leu com extremo desvelo. A literatura que não mereceu o movimento da sua mão não é necessariamente má, apenas não lhe tocou.
O ensaísta português, radicado em Nice há muitos anos, fala nesse texto da crítica literária que se quer responsável e não máquina destruidora de criadores. Os críticos, para ele, "são insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta." Daí que Lourenço defenda a crítica daquilo que nos toca. Se um texto não encontra no crítico o seu leitor ideal - ou simplesmente é, na sua opinião, um texto fraco - não escrever sobre ele poderá ser talvez o tratamento mais honesto. Por isso encontramos na vasta obra de Lourenço análises apaixonadas sobre criações que o ensaísta leu com extremo desvelo. A literatura que não mereceu o movimento da sua mão não é necessariamente má, apenas não lhe tocou.
As mãos e os frutos
Só as tuas mãos trazem os frutos,
Só elas despem a mágoa
destes olhos, e dos choupos,
carregados de sombra e rasos de água
Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos
_ Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos.
Encontro de Eugénio de Andrade com a mineira Ana Regina Nogueira , fotógrafa e poeta
O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam
Para homenagear o escritor argentino, a Fundação Internacional Jorge Luis Borges vai criar até ao fim deste ano um verdadeiro jardim dos caminhos que se bifurcam, mais precisamente na quinta Los Álamos, na província de Mendoza, no sopé dos Andes. Quem quiser saber como vai ficar este gigantesco labirinto tem de ir até ao país do tango nos próximos meses. Este equipamento de sonho terá ainda uma biblioteca em braille (para provar que os dedos que escrevem também lêem) e um miradouro.
Quentin Tarantino
Acabo de ver a quarta obra de Quentin Tarantino. Depois de "Cães Danados" (1992), "Pulp Fiction" e "Jackie Brown", o realizador nos convoca para mais uma bem humorada sessão de violência: "Kill Bill". Uma Thurman aparece com um fato amarelo no melhor estilo Bruce Lee, cortando com uma espada samurai braços, pernas e cabeças. O sangue das vítimas jorra como poços de petróleo de banda desenhada. Aliás, Tarantino também recorre ao formato de desenhos animados para fazer algumas cenas de flash back. Com figuras orientais com olhos gigantescos e tudo.
Múltiplas linguagens, ícones liquefeitos por varinhas mágicas, uma pitada saudosa (mas com nova roupagem) de artes marciais. Cá temos o nosso velho Tarantino a contar histórias banais de um jeito fantástico, a fazer da violência a coisa mais divertida que podemos ter ao fim de um dia de trabalho. Ele próprio confessa: "A violência é a coisa mais engraçada que se pode fazer em filmes".
Há menos diálogos do que nas fitas anteriores. Em troca, temos mais acção. O filme apresenta-se como um livro, por capítulos. E o que podemos ver hoje nas salas de cinema constitui apenas o primeiro volume dessa obra. A sequela, só em Fevereiro de 2004. Apenas nessa altura saberemos como a heroína (Uma) completa a sua vingança contra aqueles que a tentaram matar no dia do seu casamento (um deles o Bill, o pai do filho que trazia na barriga).
Falem da banalização da violência, falem da dissolução da moral. O que é facto é que eu ri imenso. Porque aqui o poder atroz contra a vida (e a integridade física dos corpos, literalmente) atinge níveis tão elevados e descontextualizados que só nos resta não identificar tal violência como plausível e, por isso mesmo, rir desse descompasso entre vida e morte.
É o caso da cena em que a "guerreira dos cabelos cor de feno" luta contra uma inimiga vestida de quimono branco (Lucy Liu, ex-Anjo de Charlie): o cenário é um jardim zen, com flocos de neve desprendendo-se do céu, mas a música que embala este sonho nipónico é "Don´t let me be misunderstood", dos Santa Esmeralda. A japinha acaba por ser escalpelada, sendo que o seu couro cabeludo vai pelos ares até, em curva descendente, cair no chão alvo e gelado. Na sequência, aparece o crânio incompleto da criatura, que (pasmem!) ainda é capaz de dizer uma frase completa e gramaticalmente correcta.
Como conter o riso? Um riso incomodado e catártico, é certo, mas riso. Um riso que nos deixa mais confortados do que muitos filmes politicamente correctos.
sábado, outubro 25, 2003
À porta de Llansol (IV)
Tenho ainda "O Começo de Um Livro É Precioso" (Assírio & Alvim, 2003), de Maria Gabriela Llansol, em minhas mãos. Na estância 35, lê-se:
"Apesar de ele ter decidido não compreender, ela / Persistia em explicar-lhe por que lia a Gabriela Llansol ___ / «É a casa que ensina a ler (pausa) imagina um extraordinário /Atractivo para o amor (pausa) o livro fala (pausa) / Procura a página que te fala (pausa) são da substância / Dos beijos e da boca (pausa) sentam-se à mesa / Num estético convívio (pausa) a sua liberdade / É tal que, se as folhas se partem, regressam por si sós ao ponto de partida e juntam-se, esperando (pausa) são / Pombas somente ligadas por uma fita de voo (pausa) / Não vês?» (continua) ".
É curioso que a autora inclua no seu próprio texto o reflexo que provoca nos seus leitores. Talvez Llansol saiba que nem todos aqueles que assomam à sua porta se sentem confortáveis. É preciso pausas muitas vezes. Daí os hiatos ___________ que com frequência intercalam as suas palavras. Esses mesmos sinais gráficos que pontuam as obras são, por ela mesma, maravilhosamente descritos como "pombas ligadas por uma fita de voo". Cada um poderá entender como quiser este interstício que aparta (une?) o leitor da escrita. Eu vejo como uma imagem metafórica do leitor que se debruça sobre páginas, lendo-as, mas que, num dado momento, interrompe a leitura e pousa o olhar no horizonte. Esta paragem, que pode ser representada como _____________, também é leitura, ainda que os olhos não estejam pousados sobre as palavras impressas. Uma escrita assim permite um espaço inigualável de liberdade ao leitor.
"Apesar de ele ter decidido não compreender, ela / Persistia em explicar-lhe por que lia a Gabriela Llansol ___ / «É a casa que ensina a ler (pausa) imagina um extraordinário /Atractivo para o amor (pausa) o livro fala (pausa) / Procura a página que te fala (pausa) são da substância / Dos beijos e da boca (pausa) sentam-se à mesa / Num estético convívio (pausa) a sua liberdade / É tal que, se as folhas se partem, regressam por si sós ao ponto de partida e juntam-se, esperando (pausa) são / Pombas somente ligadas por uma fita de voo (pausa) / Não vês?» (continua) ".
É curioso que a autora inclua no seu próprio texto o reflexo que provoca nos seus leitores. Talvez Llansol saiba que nem todos aqueles que assomam à sua porta se sentem confortáveis. É preciso pausas muitas vezes. Daí os hiatos ___________ que com frequência intercalam as suas palavras. Esses mesmos sinais gráficos que pontuam as obras são, por ela mesma, maravilhosamente descritos como "pombas ligadas por uma fita de voo". Cada um poderá entender como quiser este interstício que aparta (une?) o leitor da escrita. Eu vejo como uma imagem metafórica do leitor que se debruça sobre páginas, lendo-as, mas que, num dado momento, interrompe a leitura e pousa o olhar no horizonte. Esta paragem, que pode ser representada como _____________, também é leitura, ainda que os olhos não estejam pousados sobre as palavras impressas. Uma escrita assim permite um espaço inigualável de liberdade ao leitor.
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