terça-feira, novembro 25, 2003

André Kertész (V)


"Ernest", Paris, 1931

"A data faz parte da foto, não por denotar um estilo (isso não me diz respeito), mas porque ela faz erguer a cabeça, faz o cômputo da vida, da morte, a inexorável extinção das gerações: é possível que Ernest, jovem colegial fotografado por Kertèsz em 1931, viva ainda hoje (mas onde? como? Que romance!). Eu sou o ponto de referência de toda a fotografia e é nisso que ela me provoca o espanto, ao pôr-me a questão fundamental: por que razão vivo aqui e agora?"

"A Câmara Clara", Roland Barthes (p. 119, Edições 70)


"One of the portarits in "Enfants" is Ernest who was photographed in his classroom in 1931. This and other photographs in the book give us wonderful glimpses of French childhood in the 1930s. Ernest is pictured wearing his black school smock and very long flannel short trousers. A schoolmate in the background does not appear to be wearing a smpck so it does not appear to have been a school rule. The photograph not only shows us how French school children dressed in the 1930s, but what their school room with the heavy wooden desks looked like."

André Kertész (IV)


"A Balada do violinista", Abony, Hungria, 1921

"Por muito fulgurante que seja, o punctum possui, mais ou menos virtualmente, uma força de expansão. Essa força é muitas vezes metonímica. Kertèsz tem uma fotografia (1921) que representa um cigano cego, a tocar violino, conduzido por um miúdo; ora aquilo que vejo, através desse olho que pensa e que me faz acrescentar qualquer coisa à fotografia, é a calçada de terra batida: a terra dessa calçada dá-me a certeza de estar na Europa Central. Percebo o referente (aqui, a fotografia ultrapassa-se realmente a si própria: não será essa a única prova da sua arte? Anular-se como médium, deixar de ser um signo, passando a ser a própria coisa?), reconheço totalmente os povoados que atravessei quando, há tempos, viajei pela Hungria e pela Roménia."

"A Câmara Clara", de Roland Barthes (p. 71, Edições 70)

André Kertész (III)


"On the quais", Paris, 1926

"Os redactores da [revista] Life recusaram as fotos de Kertész quando ele chegou aos Estados Unidos, em 1937, porque, segundo afirmavam, as suas imagens "falavam demasiado"; elas faziam reflectir, sugeriam um sentido – um sentido diferente da palavra. No fundo, a Fotografia é subversiva não quando assusta, perturba ou até estigmatiza, mas quando é pensativa."

"A Câmara Clara", de Roland Barthes (p. 61, Edições 70)

domingo, novembro 23, 2003

Ainda Dogville



Contributos para a discussão sobre "Dogville":

1) O repórter Luiz Carlos Merten, do jornal brasileiro "O Estado de São Paulo", escreve que von Trier é "um demiurgo, apontador de caminhos". Achei a designação feliz se pensarmos na palavra demiurgo à luz do seu berço grego: criador do universo, magistrado. Demiurgo também é o nome dado pelos filósofos platónicos ao criador do homem. Assim, von Trier figuraria como um criador de universos (e não do universo, é claro). Um homem capaz de construir a partir da sua arte um sistema coerente, um sistema dotado de elementos que se regem segundo uma orgânica própria.
A aldeia gizada no chão do estúdio, ou seja, a aldeia cinematográfica de "Dogville" consegue ser um universo próprio, um espaço que se teletransporta do ecrã para o espectador. Essa construção em nós de uma imagem mental, uma paisagem que retrata um sítio específico, é formidável. Eu sou capaz de sentir o cheiro das maçãs que rolam sobre o camião. Eu sou capaz de sentir o cheiro bafiento da casa do ceguinho, sempre com as cortinas fechadas. Isto é estética da recepção. É conseguir construir um mundo a partir de muito pouco, de exíguos recursos cenográficos. Assim sendo, concordo com Carlos Merten: von Trier faz filmes com mãos de demiurgo.

2) Lutz escreve-me a dizer que "Dogville" "é um grande filme", mas uma obra que faz "uma generalização inaceitável". Na sua casa recém-inaugurada - a "Quase Em Português" -, Lutz explica que "o filme é de um anti-americanismo de fazer sombra ao Bin Laden. Se não fossem os últimos minutos dos créditos, com a sequéncia das fotografias conhecidissimas das vítimas da grande depressão americana dos anos 30, com a banda sonora de "Young Americans" de David Bowie, ainda seria possível entender todo o resto, o setting numa aldeia no interior da América puritana, a referéncia aos classicos filmes de gangster, como um dispositivo do dramaturgo para fazer o seu ponto, ou seja ficava a hipótese que podia ter havido outro setting qualquer. Mas von Trier faz questão de não deixar aqui dúvidas."

3) A MVG mandou uma mensagem com um comentário muito interessante. Tomo a liberdade de reproduzi-lo neste cais:

"Não nos podemos esquecer que von Trier respondeu às acusações dizendo que também ele era americano. Uma pequena coisa em que discordo, porém, é a da identificação do espectador com Kidman ao ponto de a querer vingar. Penso que há ali um grande trabalho de ironia (no sentido romântico de distanciação), dada não só pela voz do narrador, mas também pelo cenário esteticizado e até pelo genérico final com as imagens que remetem para um tipo de fotografia americana dos homens desperdiçados (que as imagens, no entanto, parecem cristalizar com uma nota de compaixão e quase esperança) dos anos 30 e 40, dando a impressão de um arrependimento tardio e, por isso, desacreditado.
Julgo que é o facto de ser impedido ao espectador sofisticado qualquer tipo de identificação (e de catarse libertadora) que torna o filme mais inquietante: constantemente nos perguntamos qual a atitude a tomar face ao que nos é apresentado."

segunda-feira, novembro 17, 2003

De olhos bem fechados



Por vezes tenho a sensação de ver os filmes de olhos bem fechados. Apreciei "Kill Bill", como já aqui escrevi. Depois li que o Carlos Vaz Marques achou o filme "oco", sem substância. Valorizo profundamente o trabalho de CVM e, portanto, se calhar o problema é meu.

Hoje aconteceu o mesmo com "Dogville". Chamaram-me atenção para o texto de Augusto M. Seabra nas páginas do Publico, divulgado no passado dia 10 de Outubro. Bem, a sua coluna "Inclinacões" simplesmente arrasa com von Trier. Diz que o cara não fez rigorasamente nada que prestasse (excepto "Ondas de Paixão"). E acusa esta última obra de ser "um programa ético sobre a miséria humana", uma "teologia de pacotilha", "um antiamericanismo cultural". Enfim, eu não reparei em nada disso quando vi o filme. Mais uma vez, o problema dever ser meu.

No meu modesto ponto de vista, von Trier causa uma estranheza no seu "Dogville" - a aldeia marcada a giz no chão - para depois conduzir o seu espectador à sua própria condição humana. Queremos vingar Nicole Kidman todo o tempo, mas, por outro lado, sabemos perfeitamente que é dessa maldade que somos feitos. "Dogville" fala também de como acolhemos o estranho que chega à nossa aldeia, de como sugamos dele tudo aquilo que podemos e como o tememos ou o dispensamos quando nos convém. Não é assim quando falamos de imigração? Não é isso que criticamos em Bush e na sua politiquinha western "dead-or-alive"?

Vasco Câmara escreveu no Y que "Dogville" é "um tratado filosófico, pessimista, sobre a bestialidade humana, quando os homens estão isolados do mundo e vivem segundo as suas próprias leis, como se fossem deuses de uma moral que inventaram". Ora, mas não é exactamente isso que criticamos na administração Bush? Eu também nunca pus os pés nos EUA e penso isso mesmo sobre este Governo (e não sobre o povo americano, o que seria uma generalização burra).

A crítica antiamericana, contudo, é o que menos me interessa em "Dogville". Despertou mais os meus sentidos aquilo que se prende com a crueldade humana. E com a capacidade criativa do realizador. O que von Trier fez ao gizar uma aldeia nas Montanhas Rochosas, nos anos 30, foi imaginar uma história num lugar. Não é o que todos fazem? Quando falamos de arte cinematográfica não nos reportamos para o pacto da representação? Pois bem, ao saber que von Trier treme só pensar em entrar num avião e que, por isso mesmo, nunca foi à terra do Tio Sam, eu fiquei ainda mais contente!

Isso quer dizer que "Dogville" nasce de uma imagem mental, por vezes contaminada por estereótipos ou pela inexperiência do lugar, é certo, mas obviamente liberta do passo irreversível que é o conhecimento. Pois é sabido que não se pode "des-saber" algo que já se conhece, não se pode anular um acontecimento já transcorrido. Nunca ter estado nos EUA permite um sem número de possibilidades de representação desse mesmo país e, por outro lado, não reduz o criador à angústia de estar a ser influenciado pela parte que conheceu de um todo.

Lars von Trier encerra em "Dogville" uma imagem própria, parcial dos EUA - é a primeira fita de uma trilogia - que, na minha opinião, é tão legítima como tantos outros retratos que já se fizeram sobre os Estados Unidos, tanto no cinema como na literatura.

quarta-feira, novembro 12, 2003

Jorge Marmelo

Eu gostava de ter escrito mais cedo este texto (não gosto muito da palavra post, quer dizer, também não desgosto, mas evito). Esta tarde, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, o escritor Jorge Marmelo apresentou a sua nova obra: um livro infantil escrito a quatro mãos com Maria Miguel, a sua filha de 10 anos. Também gostava de ter lá ido, mas não pude. Mas, enfim, o que importa é que "A Menina Gigante" (Campo das Letras, com ilustrações lindas de Susana Traina) é um livro belo, que fala de coisas como a adopção, a crueldade embutida nas crianças e a questão da diferença durante a infância.

sexta-feira, novembro 07, 2003

A iconografia da leitura



Na sequência das imagens de Kertèsz, que registavam o acto de leitura como algo muito corporal, encontrei esta ilustração de Jorge Colombo. Interessa-me imenso a inconografia sobre a leitura. Como as pessoas lêem? Como seguram os livros? Começam pelo fim, pelo início ou folheiam antes de mergulhar na leitura? Robert Scholes fala um pouco sobre isso no seu precioso "Protocolo de Leitura" (edições 70), onde faz uma detalhada análise de um quadro de Georges de La Tour. Nesta pintura, Santa Ana aparece ensinando Maria a ler, sob a luz insuficiente de uma vela. Scholes escreve:

"Se acaso se trata de Maria aprendendo a ler, o nosso desejo de plenitude narrativa incita-nos a procurar um nível de especificidade idêntico quanto a outros pormenores do texto. Isso leva-nos a identificar a mestra como sua mãe, Santa Ana, e a tecer conjecturas sobre qual será o livro lido em voz alta com tamanha gravidade. Considerando-a futura mãe de Jesus, distinguimos também nesse curioso gesto da mão direita uma postura conhecida, pois figura em muitas pinturas que representam Cristo ou os santos. O gesto constitui um sinal hierático que acompanha os milagres e as revelações quando é pronunciada a Verdade ou quando esta se revela em acção. Mas é também, claro, um guarda-luz da chama da vela, um reflector cor de carne que talvez saliente o brilho do texto. Este qual é, porém? Que lê Maria?"



O Corvo

Imperdível a tradução de Isa Mara Lando para "O Corvo", de Poe. Ela é brasileira e está hospedada numa casa portuguesa .

O lago de Virginia Woolf



"Antes de ir com Angelica para o roseiral, Virginia demora-se mais um momento, ainda de mãos dadas com Vanessa, observando os filhos da irmã como se eles fossem uma lagoa na qual poderia ou não mergulhar. Isto, pensa, é a verdadeira realização, isto continuará a viver depois de o ouropel das experiências na narrativa ter sido encaixotado e abandonado juntamente com as velhas fotografias, os vestidos de baile de máscaras e os pratos de porcelana nos quais a avó pintava as suas melancólicas paisagens inventadas."

"As Horas", de Michael Cunningham

terça-feira, novembro 04, 2003

Nahuas, México

Eu não sei se estiveste ausente.

Eu deito-me contigo, e levanto-me contigo.

Nos meus sonhos tu estás junto a mim.

Se estremecem os brincos das minhas orelhas

eu sei que és tu que te moves no meu coração.


Este poema da "Rosa do Mundo" é uma prenda cândida de uma amiga.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Inspirado por André Kertèsz


Colorado State University
Fort Collins, USA (1988)

O fotógrafo Don Eddy, inspirado por André Kertèsz, criou uma série de imagens também elas dedicadas ao tema da leitura. Algumas delas são muito bonitas. Don Eddy escreveu sobre a experiência com o livro "On Reading" e também sobre o encontro com o próprio Kertèsz. Reproduzo abaixo o texto:

"Regarding the On Reading series

Accidentally one day I stumbled upon a small book of photographs taken by André Kertész. The book encompassed a great many of his photographic years and were images of not only people reading, but birds, statues, and paintings! They were taken, for the most part, on purpose for depicting "reading". Not too long after seeing the little book, I was going over many of my old contact sheets and discovered that I had also captured many people "reading", but quite by chance. So I put together this series of my “On Reading"

I’d met André, a quiet and simplistic photographer, while he was with six other Magnum photographers covering the Xerox stockholders’ meeting near Rochester, NY in an outdoor setting under huge, white tents. At the time I was the staff photographer at the George Eastman House and was asked by Beaumont Newhall if I’d like to give a tour of the House to several Magnum photographers who were in town. André was not on the tour and I did not know the extent of the photographers until they asked if I’d like to assist them while they covered the meeting. Who could have refused!

At the event Inge Bondi asked me to have a hundred copies of model releases made at another tent that Xerox had set up just for the purpose. At the time, 1966, Xerox was heading the high speed copy equipment market. The attendant said he would be happy to and for me to have a seat on a supplied garden bench they’d placed nearby. I watched as he set the copier into action. It began scanning the original I’d given to him and spitting out copies at the rate of maybe 10 per minute!

I took a seat.

There was an elderly gentleman sitting there to my right. He seemed to be resting and perhaps was a stockholder—but he looked familiar. I’d seen him before or at least thought I had. Then it struck me, he might be André Kertész. I turned to him and said in a questioning way, "You’re André Kertész . . ."

He turned, smiled with a twinkle in his eye and responded quietly, "I know that", with a slight emphasis on I."

Saudades do Cazuza



Vi esta foto hoje no Palavras da Tribo e senti uma enorme saudade do Cazuza. Não consegui deixar de pensar que, se a doença tivesse sido diagnosticada hoje, ele poderia recorrer a um coquetel de medicamentos. Teria oportunidade de lutar contra o vírus. Quantas mais canções não teria escrito?

domingo, novembro 02, 2003

André Kertèsz (II)



A exposição "André Kertèsz: l´intime plaisir de lire" exibe até 1 de Dezembro de 2003 as fotografias do livro "On Reading". O único problema é que a mostra está patente no Musée de la Crèche, em Chaumont, França. Os meros mortais como eu terão de se contentar com o texto de apresentação do evento, que reflecte sobre a importância do tema da leitura na obra do fotógrafo húngaro:

"Qu’il soit dans un jardin, un autobus, un café, une bibliothèque ou un salon, sur sa terrasse ou dans son lit, à l’école ou à la guerre, debout, assis ou couché, le lecteur est ailleurs : dans un autre univers et dans un temps qui n’est pas le présent. Il est dans sa lecture, dans ses pensées, dans ce qu’il apprend, dans ce qu’il ressent, dans un autre monde réel ou dans l’imaginaire.

C’est ce décalage spatial et temporel, affectif et spirituel, qu’André kertész a photographié avec la connivence de l’initié. Il l’a fait en douceur, sans s’immiscer, sans perturber le lecteur qu’il connaît bien, son semblable, son frère. Ainsi, nous aussi, grâce à lui, partageons-nous l’intime plaisir de lire et de voir des images. Celui d’être informé, de savoir, de goûter les mots, de voyager, d’être relié à des inconnus et lié à des amis, d’apprécier des émotions, des sentiments inédits, d’en découvrir de nouveaux.
Ce plaisir que kertész a éprouvé, il nous l’a donné en faisant des photographies qui l’expriment et le transmettent d’autant mieux qu’il savait lire avec le cœur, les images aussi bien que les textes.

André kertész avait publié une partie des ces images dans un « On Reading », édité en 1971 et désormais introuvable. L’exposition actuelle rassemble une sélection de photographies issues du fond André Kertész de Patrimoine photographique."



André Kertèsz


Autoretrato com gato, Paris (1927)

Apaixonei-me por André Kertèsz quando li "A Câmara Clara", de Roland Barthes. Agradeço ao ensaísta francês esta prenda. Depois tropecei num ensaio de Maria Filomena Molder (não confundir com a Mónica), publicado no livro "Semear na Neve" (Relógio D´Água). Neste texto, Molder fala de um livro belíssimo chamado "On Reading", que reúne imagens de pessoas comuns a ler. A beleza das imagens registadas pelo fotógrafo húngaro reside precisamente no facto dele enxergar no comum aquilo que ninguém vê, apesar de ter ao alcance dos olhos. Curiosamente, ele próprio se retrata a ler, mergulhado nas páginas de um livro.



"Como estado ideal, a leitura transtorna muitas das distinções que permitem diferenciar os homens entre si e os fazem a nossos olhos mais justos ou menos justos. De um rosto que está entregue à leitura sobe o sussurro ou o murmúrio de quem participa numa grande mente. Cada um que lê reúne-se a uma imensidade pensante, em repouso, quem lê está em estado de levitação, pertence a uma imagem pairante." Maria Filomena Molder



"Neste livro [On Reading, de Kertèsz], aqueles que lêem nascem à luz do dia, a luz apresenta-se reinando. Não é pela inquietação do obscuro que a leitura descobre a sua irmandade com a morte e com o sono; se estes são seus familiares, isso deve-se à posição do corpo e à pacificação dos seus ritmos inerentes, como estando ido para uma viagem que anuncia a derradeira e redime sempre, sempre. Aquele que lê tem os olhos baixos, mesmo que seja ao de leve (há exemplos vertiginosos, como o da velha lendo longas folhas num cais de Paris, 1928, ou o homem que lê enquanto caminha numa rua de Buenos Aires, em 10 de Julho de 1962, ou duas, entre várias, das admiráveis fotografias de crianças, uma quase deitada sobre um montão de detritos de revistas e jornais, Nova Iorque, 12 de Outubro de 1944 (...)" Maria Filomena Molder



"O livrinho [On Reading], que contém sessenta e três fotografias dedicadas à leitura, abre com uma multidão de pássaros de luz, esvoaçando sem sair do mesmo ponto entre as folhas adivinhadas de uma árvore e os revérberos de um cortinado: sobre uma mesa em frente da janela está um livro aberto, à esquerda uma caixa de porcelana cuja tampa tem a forma de um pássaro, uma pomba. O que é um livro aberto sobre uma mesa? Um convite à rememoração, um chamamento de luz, procurar cada vez mais luz."





Outros trabalhos do artista na capital francesa, cidade que escolheu para viver e fotografar com uma Leica:


Fete Foraine

"The moment always dictates in my work. What I feel, I do. This is the most important thing for me, Everybody can look, but they don't necessarily see. I never calculate or consider; I see a situation and I know that it's right, even if I have to go back to get the proper lighting." Andre Kertesz


Torre Eiffel, Paris (1925)


In les hall, Paris (1929)

sexta-feira, outubro 31, 2003

Os jardins de Virgínia Woolf



"Virginia move-se pelo jardim como que impelida por uma almofada de ar; começa a compreender que existe outro jardim debaixo deste, um jardim do mundo subterrâneo, mais maravilhoso e terrível do que este e que é a raiz de que nascem estes relvados e estas pérgulas. É genuína a ideia de um jardim e está longe de ser tão simples quanto é belo."

"As Horas", de Michael Cunningham

Pobre Portugal

Acabo de ler aqui que Portugal é o país mais pobre da União Europeia. Era o que faltava para deixar a nossa auto-estima novinha em folha.

Sophia reina

Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou um prémio com o seu nome. Uma satisfação para aqueles cuja metade da alma também "é feita de maresia".

MAR
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Clochards de Paris



Esta fotografia foi registada pelo brasileiro Flávio Rodrigues no ano em que nasci, em 1976. Gosto muito deste trabalho. Leio num dos meus sítios favoritos que este fotógrafo tem 59 anos e "guarda o mundo numa velha caixa de sapatos que, aberta neste ensaio de retratos, refaz a trajetória do artista entre os estudos em Nova York, a carreira iniciada em Paris, as viagens pela Europa e a volta ao Brasil.

Dono de um inarredável espírito de voyeur, Flávio coleciona em seu arquivo de fundo de armário reminiscências em preto e branco de personagens inauditos e malditos, felizes e tristes, carinhosos, às vezes ferozes. "Não sei e nem me importo muito se o conjunto se inscreve no âmbito da fotografia autoral ou documental, mas estou certo que resulta de uma interação com pessoas, lugares, emoções, incertezas." Há algo de muito pessoal nessas imagens."

José Cardoso Pires

Nelson de Matos chama atenção para o esquecimento rápido do homem que nos deu "O Delfim" e "A Balada da Praia dos Cães". E escreve: "O Diário de Noticias e a sua equipa da cultura, estão hoje de parabéns. Bonita homenagem (nas páginas 2, 3, 4, 5 e 6, com chamada na primeira), pela passagem do 5º aniversário da morte de José Cardoso Pires. No Público (jornal onde o Zé escreveu semanalmente as suas crónicas no tempo da direcção de Vicente Jorge Silva), nem uma palavra." Ele escreve e ele tem razão.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Um texto inédito de Eduardo Lourenço

"O poeta e os outros"


Ortega y Gasset tem um ensaio intitulado aristocraticamente “os intelectuais e os outros”. Como todas as assumpções da aristocracia, esta comporta um risco, um não pequeno e grave risco. As eleições são sempre contestáveis mas a auto-eleição realiza nesse capítulo um sucesso particular: não tendo a garantia de Deus nem dos eleitores, é duplamente contestável. Intelectual, Ortega y Gasset erigiu o seu estatuto mental em situação ímpar de humanidade. Talvez tenha razão. A linhagem de onde procede esse solitário e altivo sentimento de diferença superior a considerações de raça, religião e classe é antiqüíssimo e venerável. Platão brilha no meio do círculo dos eleitos mas o zodíaco da inteligentzia está cheio como um coro de anjos: todo o Renascimento, o Classicismo, o Romantismo aí proclamam a glória unânime do homem da inteligência.

Os inteligentes se extasiam na sua inteligência. Os antigos altamente excusáveis pois jamais viram nela senão a inteligência do Homem. O particular não foi nunca objecto da atenção “divina” de Platão. Os modernos, inexcusáveis, pois dizendo inteligência e eleição é a sua inteligência que elegem, a dos outros tendo-se tornado para todos eles confusa e problemática. E todavia como não exaltar a inteligência sem diminuir o homem? Como proceder para não ficar prisioneiro de um contestável orgulho? Não há solução alguma isenta. Quando se afirma uma diferença, quando nos separamos do género humano proclamando uma diferença qualquer, essa decisão nos absolve e nos condena.

Pode acontecer contudo que a diferença se torne visível por si mesma e se manifeste de tal modo que ao ser expressa por nós seja ainda compatível com a isenção. O destino pode colocar-nos na situação de exteriores ao espectáculo onde a diferença humana se manifesta. Ou interiores a ela mas miraculosamente neutros. Tal pretende ser a situação humana privilegiada dos críticos em relação à poesia quando ela não o é senão por um acaso quase tão raro como o da própria poesia. A situação íntima e real da maioria da crítica literária – em especial universitária - é a de uma não sei que subtil, confusa mas obstinada consciência de não sei que superioridade em relação ao poeta. De outro modo como se teria ele inventado crítico? Embalsamadores imaginam-se ressuscitadores, glosadores de vivos crêem-se inventores de mortos. São insuportáveis, mesmo os melhores, e quanto melhores piores. A esse destino de aves mortuárias da criação só escapam os críticos a quem o amor deu asas para queimar na luz descoberta. O amor os inventou, sua crítica é o diálogo, o discurso sem fim que o amor suscita, segundo diz o Fedon, e o amor os salva. No mundo da criação, mais implacável que o terrestre mundo que a todo instante se esboroa ou que o da inteligência que a si mesma se divide e agoniza, só há na verdade OS POETAS E OS OUTROS.

Eu pertenço aos outros e por isso não tenho mérito algum em o confessar. Como é da essência dos outros, e em especial da fauna crítica, que é o sumo dessa “alteridade”, também eu talhei e medi, fiz comparecer réus e testemunhas, pronunciei sentenças de morte para pessoas que não podiam morrer, concedi liberdade a escravos deles mesmos, ofereci vida a cadáveres confusos, enfim alucinei-me sobre poderes que Deus não concede senão aos criadores. Em suma, cedi à tentação de ser crítico."

Texto publicado no mais recente número da revista luso-brasileira "Metamorfoses"