segunda-feira, janeiro 12, 2004

Mais comunidades de leitores

A exemplo da Comunidade de Leitores que já existe na Biblioteca Almeida Garrett, criada no Porto por Manuel Pina, Maria João Seixas vai orientar um grupo de bibliófilos na Fundação de Serralves. A iniciativa arranca no dia 29 de Janeiro e será composta por seis sessões. Quem quiser participar já pode começar algum dos livros abaixo:
"Antígona", de Sófocles (29 de Janeiro)
"Cartas de uma Religiosa Portuguesa" (12 de Fevereiro)
"No Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill (26 de Fevereiro)
"A Hora da Estrela", de Clarisse Lispector (11 de Março)
"Desconhecido nesta Morada", de Katharine Kressmann Taylor (25 de Março)
"O Leitor", de Bernard Schlink (8 de Abril)


O Público também avisa que em Lisboa, “a Culturgest dá continuidade ao ciclo "Os Livros em Volta", com a sétima edição a arrancar no próximo dia 20 e a prolongar-se até 16 de Março. Iniciativa conjunta com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, este programa de debates quer igualmente pôr em diálogo escritores e leitores, a partir do destaque de uma obra de uma editora menos conhecida e de livros de diversos géneros e áreas, das artes à história, das ciências sociais à ficção, da poesia ao ensaio. A sessão do dia 20 será dedicada à ficção portuguesa e terá como moderador o crítico literário Pedro Mexia. Segue-se, dia 27, a ficção estrangeira, com Mário Jorge Torres; dia 3 de Fevereiro, as artes, com António Pinto Ribeiro; dia 10, a poesia, com Fernando Pinto do Amaral; e dia 17, a literatura infanto-juvenil, com Alice Vieira. Em Março, os temas serão o ensaio (dia 2, com Eduardo Prado Coelho), a ciência (dia 9, com José Mariano Gago) e, a finalizar o ciclo, a história e as ciências sociais (dia 16, com António Costa Pinto)”.

sábado, janeiro 10, 2004

Imensidão gelada


Foto de Mario Chainho

"Viagem"

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.


Miguel Torga

sexta-feira, janeiro 09, 2004

Menina amordaçada

Estrangeiros & Imigrantes

Pegando carona (ou boleia) na discussão "estrangeiros & imigrantes" levantada no querido Aviz , transcrevo aqui uma mensagem enviada pelo Nuno . Espero que ele não se importe.

"Portugal sempre foi um País de emigrantes.
Ainda não há muito tempo, uma parte significativa do nosso PIB resultava das remessas desses mesmos emigrantes.
Com a adesão à U.E., o nosso nível de vida melhorou significativamente, tornando menor esse fluxo emigracional.
Em compensação, com a globalização crescente da economia e a queda do Muro de Berlim, passou a dominar um fenómeno oposto o da imigração, que aos africanos do pós-25 de Abril somava agora brasileiros e cidadãos de várias nacionalidades do Leste Europeu.
De uma forma geral, cidadãos que procuram em Portugal o que os nossos pais e avós procuraram em França, Alemanha, EUA, Canadá, entre outros, uma vida melhor para si e para os seus.
De acordo com os números oficiais, existirão em Portugal cerca de meio milhão de estrangeiros, sendo a comunidade brasileira aquela que maior peso tem.
São cidadãos que, na sua imensa maioria, executam em Portugal trabalhos pesados e mal remunerados que, de uma forma geral, os portugueses não querem desempenhar, como trabalhos de construção civil, restauração, engomadoria e outros do género.
Com o surto de desemprego que se abateu sobre o país, rapidamente começaram a surgir as notícias sobre as máfias de Leste, os problemas com negros nos bairros periféricos e degradados das grandes cidades, nomeadamente Lisboa (curiosamente na sua maioria estes problemas surgem com negros 100% portugueses, normalmente 2ªs e 3ªs gerações revoltadas com as condições de vida que têm) e as histórias de vigarices com brasileiros.
E rapidamente os estrangeiros que fazem o trabalho que não queremos fazer passam a ser os odiados. Tendo em conta a recente sondagem do Público, que diz que 75% dos portugueses não querem mais emigrantes, que ciclicamente existem problemas com as comunidades ciganas e o fait-divers que foi a discussão sobre a eliminação de todos os negros no programa Ídolos, ficando para o final os concorrentes brancos, por votação directa dos espectadores, a questão que se põe a debate é:
Somos um povo xenófobo?
Infelizmente, cada vez estou mais convencido que sim..."

Aproveito a oportunidade para listar três casos de preconceito com brasileiros:

1) O músico Léo veio a Portugal, no final de Dezembro de 2003, para tocar no Algarve com Carlinhos Brown durante a passagem de ano. Foi até ao Algarve Shopping comprar um par de sapatilhas e diz ter sido perseguido por um segurança do equipamento ao longo de toda a sua visita. Contou que esta será uma má recordação que levará de Portugal. E sabe que isto só aconteceu porque é negro, brasileiro. Não estava de fato, mas sim com calças de ganga largas e um gorro no melhor estilo rastafari. Diz ter até comprado as sapatilhas, na esperança de que a atitude mostrasse de alguma forma ao segurança que não era necessário segui-lo, que ele era de facto um consumidor com poder de compra.

2) Um grupo de brasileiros que veio a Portugal participar num congresso literário, em 2003, teve as suas malas reviradas de forma agressiva no Aeroporto de Lisboa. Uma das mulheres do grupo disse que foi tratada com algum desrespeito e até um jeito sonso. É tempo de cantar a canção de Maria Rita - que, aliás, nos deu ontem um show (concerto) memorável -, aquela que diz que "nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda".

3) O funcionário que me atendeu na Fnac do GaiaShopping, em Novembro de 2003, quando eu estava a pedir o meu cartão de aderente, não soube interpretar as informações contidas no meio bilhete de identidade. Confundiu "naturalidade" com "nacionalidade" e pensou que eu incorria no terrível erro, no equívoco geográfico que é ser brasileira. Ficou incomodado, ligou para Lisboa, chamou um superior hierárquico. Perguntou se eu não tinha um telefone fixo, se só tinha mesmo o telemóvel. O constrangimento durou cerca de dez minutos, até que o seu chefe chegou à nossa mesa, sobre a qual estavam todos os documentos exigidos para se ter um cartão de aderente, e afirmou com algum alívio: "Ah, ela não é brasileira! Ela só nasceu no Brasil, mas é portuguesa!"

Guerras homéricas 2

"A convicção de que a guerra é uma aberração, ainda que não seja possível detê-la, é fulcral nas espectativas modernas e é um sentimento ético moderno. De que a norma é a paz, ainda que inatingível. Isto, obviamente, não é a maneira como ao longo da história se tem visto a guerra. A guerra tem sido a norma e a paz excepção.

A descrição exacta da maneira como os corpos são feridos e mortos em combate é um clímax recorrente nas histórias narradas na "Ilíada". A guerra é vista como algo que os homens fazem, inveteradamente, sem se demoverem pela acumulação de sofrimento que ela inflinge; e descrever a guerra em palavras ou em imagens exige profundo e inflexível distanciamento."

Esta passagem foi retirada do livro "Olhando o Sofrimento dos Outros", de Susan Sontag, recentemente publicado pela editora Gótica. A obra reúne um conjunto de textos da autora, todos eles reflectindo sobre a iconografia da dor provocada pela guerra. Um livro obrigatório.

Guerras homéricas

Leio num jornal antigo - adoro ler edições velhas, de semanas anteriores - que dois soldados norte-americanos foram ontem mortos a tiros em Mossul, Norte do Iraque. Nada de novo se não lêssemos em seguida, nesta edição do Publico de 24 de Novembro de 2003, que testemunhas oculares relataram o ultraje dos cadáveres por "uma multidão de adolescentes", que durante vários minutos atiraram blocos de cimento para cima dos defuntos. Depois, os corpos dos dois soldados foram arrastados pelo solo.

Sei que a crueldade habita dos dois lados desta linha bélica. Mas não consigo deixar de pensar no Heitor da "Ilíada" de Homera enquanto leio esta notícia, porque também o guerreiro troiano ultrajado pelos gregos após a sua morte. O grande Aquiles estava magoado pelo anterior assassinato do seu grande amigo, o guerreiro Pátroclo, que não resistiu ao combate com os troianos. O ódio mútuo, há três mil anos, provocou a mesma atrocidade simbólica de destruir o corpo inerte de um rival. Assim foi nos nove anos de guerra entre gregos e troianos, assim foi na guerra do Iraque, assim será enquanto houver mais de um homem na Terra a se considerar diferente do outro.



"O Pelida [Aquiles], no entanto, chorava / o companheiro dileto, a virar-se de um lado para o outro, / sem pelo sono, a que todos domina, sentir-se vencido. / Lembra-lhe a força de Pátroclo, a indigente e provada coragem, / bem como os trabalhos que juntos haviam sofrido / nas cruas guerras dos homens e, assim, sobre as ondas revoltas, / Essas visões o levavam o pranto a verter amaríssimo [...] / Por fim, levantando-se, / anda ao comprido na praia do mar. Porém logo que a Aurora / via raiar, reflectindo-se na água e na areia nitente, / ao jugo atava os cavalos velozes, de origem divina, / atrás do carro o cadáver de Heitor amarrando. / E, após o corpo arrastar por três vezes à volta do túmulo / do ínclito Pátroclo, à tenda voltava a acolher-se, deixando-o / na branca areia, de bruços."

(Trecho retirado da edição brasileira da Ilíada, traduzida em versos por Carlos Alberto Nunes e publicada pela Ediouro em 2001)

As diferenças, obviamente, são muitas. Uma está no facto de, no poema homérico, a ira de Aquiles estar personificada pela figura de Pátroclo - ao contrário do ódio entre iraquianos e norte-americanos, suportado por razões circunstanciais que todos conhecemos. Contudo, não podemos nos esquecer que cada mágoa iraquiana está igualmente associada à perda sucessiva de pessoas próximas. Sob ambas as guerras paira um conflito lato que tem sempre dimensões particulares a cada esquina em ruínas. Mas esta porção particular do universal não vem na notícia.








sábado, dezembro 13, 2003

Mulheres de Pedro Martinelli



O fotógrafo brasileiro Pedro Martinelli acaba de lançar no Brasil a obra "Mulheres da Amazónia", que reúne 300 imagens captadas naquela região ao longo dos últimos trinta anos. Para quem não sabe, Martinelli é um dos grandes "homens de sal de prata" do país, tendo sido editor de fotografia da Editora Abril e recebido uma série de prémios. Tem imagens lindas. Quem quiser ver mais coisas dele pode ir até o No Mínimo .

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Ainda Eduardo Coutinho

A professora universitária Consuelo Lins está a ultimar um livro ensaístico sobre a obra deste cineasta brasileiro de 70 anos. Chama-se "O Documentário de Eduardo Coutinho - Cinema, vídeo e televisão" e deverá ser publicado no Brasil em 2004 pela Zahar Editores. Num texto divulgado há sete anos, na Revista Cinemais, Consuelo Lins explicava porque Coutinho consegue as melhores confissões do seu entrevistado. É uma mistura de respeito, disponibilidade, ética e dom da palavra.

"Coutinho dá tempo a seus personagens de formularem algumas ideias sobre suas vidas e efectivamente os escuta. Faz poucas perguntas mas obtém respostas que surpreendem entrevistador e entrevistado. Tem-se a nítida impressão de que muitos estão pensando certas coisas pela primeira vez, ali diante da câmera. Como se até então não tivessem tido tempo para tal. Em um certo sentido, há nos filmes de Coutinho uma dimensão analítica: a análise é particularmente o lugar da escuta. E talvez o que mais falte na actual produção incessante de imagens, palavras, sons, informações é justamente uma escuta que possa pontuar e dar algum sentido à fala dos personagens."

Volto a lembrar que o doumentário "Edifício Master" (2002), premiado na Categoria Melhor Documentário no Festival de Gramado, no Sul do Brasil, será exibido hoje, às 22h00, na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira. É uma oprtunidade única. Não só porque este filme não passará nas salas de cinema, nem nas Blockbusters da vida, mas também porque o autor estará presente nesta cerimónia de homenagem.

Hoje é dia de Eduardo Coutinho



A séptima edição do Festival de Cinema Luso-Brasileiro homenageia hoje, às 22h00, o realizador brasileiro Eduardo Coutinho. Será exibido no auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira o documentário "Edifício Master" (2002), um trabalho muito revelador sobre a classe média carioca. O filme foi feito com dezenas de moradores de um prédio em Copacabana, no Rio de Janeiro. A câmera entra em vários dos apartamentos minúsculos do edifício, dando voz (e rosto) às vivências dos moradores. Há a garota de programa, a mulher que tem medo de olhar nos olhos dos outros, o porteiro que não sabe quem é o pai... São, enfim, relatos de pessoas comuns - Coutinho "odeia" figuras públicas -, discursos em primeira pessoa que fazem deste cineasta de 70 anos um mestre da arte de entrevistar. É o que explica o crítico Carlos Alberto Matos nas citações abaixo, que são fragmentos da introdução do livro "Eduardo Coutinho: o Homem que Caiu na Real", apresentado hoje em Santa Maria da Feira.

"A obra-prima Edifício Master chegou às telas no ano de 2002, num momento em que o documentário despontava como uma das vedetes da retomada do cinema brasileiro (como é chamado o reaquecimento da atividade após quatro anos de congelamento à época do governo Collor). Tão diversificados quanto os filmes de ficção, os documentários então conquistavam público, prestígio, espaços de exibição no cinema e na TV, mecanismos de apoio e patrocínio, repercussão em festivais etc. O discreto Eduardo Coutinho é parte importante desse renascimento e sua obra se oferece como referência de qualidade e compromisso."


Fotograma de "Cabra Marcado para Morrer"

"Eduardo Coutinho tornou-se o mais importante e influente documentarista brasileiro da atualidade não somente por seu modo judicioso de proceder, mas também pelo corpo de obra que erigiu ao longo da carreira. Nela os temas evoluem como galhos de uma árvore construtivista, comunicando-se de filme a filme e passando de secundários a principais. A religiosidade popular foi objeto de sua atenção crescente em "Santa Marta: Duas Semanas no Morro", "O Fio da Memória" e "Santo Forte." A vida na favela esteve presente em "Santa Marta", "Santo Forte" e "Babilônia 2000". As rivalidades familiares no Nordeste brasileiro estiveram em foco no ficcional "Faustão" e no documentário "Exu, uma Tragédia Sertaneja". O poder no campo foi tema de "Cabra Marcado para Morrer" e "Teodorico, o Imperador do Sertão". A subsistência retirada do lixo foi tangenciada em "A Lei e a Vida" antes de passar a assunto central de "Boca de Lixo"."


Fotograma de "O Fio da Memória"

"A Coutinho interessa o Outro, o diferente social e culturalmente. Por isso é difícil imaginar que ele ainda venha a se interessar pela elite da qual, incomodamente, participa. Os condôminos de classe média baixa enfocados em "Edifício Master" parecem constituir o seu limite em matéria de aproximação da vizinhança social."


Fotograma de "Santo Forte"

"Parte integrante desse cinema de pessoa a pessoa é a exposição do processo de documentação dentro do próprio filme. As chegadas da equipe, sempre documentadas por uma câmera de apoio a duplicar o eixo da câmera principal, tornaram-se uma marca desde Cabra Marcado para Morrer. Da mesma forma, a imagem do diretor, face a face com seus interlocutores e quase completamente desligado do aparato técnico ao seu redor, aparece intermitentemente - não para torná-lo catalisador do espetáculo da informação (como ocorre com Michael Moore e Nick Broomfield), mas apenas o suficiente para sublinhar a condição de encontro e o caráter de conversa. A montagem assimila também "ruídos" de diálogo, pagamento de cachês, retalhos de conversas circunstanciais à margem da entrevista etc, elementos habitualmente escamoteados na edição de documentários tradicionais."

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Nanook of the North



"Nanook of the north" é considerado o início da história do documentário. O filme mudo de Robert J. Flaherty, elaborado em 1922, apresenta-nos um ano da vida de um esquimó completamente alheio à vida industrial, vivendo essencialmente da caça, da pesca e de algum comércio. No texto "How I Filmed "Nanook of the North", Flaherty conta como foi despertado para a arte que, a exemplo do jornalismo, procura coleccionar fragmentos do real. Ele conta assim a sua jornada antropológica de conhecimento do Outro:

"In August 1910, Sir William MacKenzie whose transcontinental railway, the Canadian Northern, was then in the initial stages of construction, commissioned the writer to undertake an expedition to the East Coast of Hudson Bay to examine deposits of certain islands upon which iron ore were supposed to be located. […]
As a part of my exploration equipment, on these expeditions, a motion-picture outfit was included. It was hoped to secure films of the North and Eskimo life, which might prove to be of enough value to help in some way to defray some of the costs of the explorations.



While wintering in Baffin Land during 1913-14 films of the country and the natives were made as was also done on the succeeding expedition to the Belcher Islands. The film, in all, about 30,000 feet, was brought out safely, at the conclusion of the explorations, to Toronto, where, while editing the material, I had the misfortune of losing it all by fire. Though it seemed to be a tragedy at the time, I am not sure but what it was a bit of fortune that it did burn, for it was amateurish enough."

O fogo que consumiu estes primeiros registos de Flaherty acabou por deixá-lo cada vez mais interessado em filmes. Ele explica assim:
"New forms of travel film were coming out and the Johnson South Sea Island film particularly seemed to me to be an earnest of what might be done in the North. I began to believe that a good film depicting the Eskimo and his fight for existence in the dramatically barren North might be well worth while. To make a long story short, I decided to go north again- this time wholly for the purpose of making films."

O projecto acabou por ter o financiamento dos Revillon Freres (como se pode ver no cartaz original do filme, no topo desta mensagem). No dia 18 de Junho de 1920, o realizador partir novamente para as terras frias. Como equipamento levava 75 mil pés de rolo de filmes (não sei converter esta medida, peço desculpas), um projector, holofotes Haulberg, duas câmaras Akeley e ainda uma impressora que permitia identificar eventuais falhas técnicas durante as filmagens. Nesta expedição, conheceu Nanook, um esquimó adorável. Juntos, enfrentaram obstáculos como a falta de comida e o confronto com os desmandos da natureza - algo que os aproximou profundamente e permitiu a cumplicidade necessária para a realização do documentário. Criou-se o elo necessário para a existência daquele que "rouba" a imagem do outro e, por extensão, daquele que se deixa retratar. No fim do seu relato, Flaherty diz que "it was not all loss: I was richer by a fuller knowledge of the fine qualities of my sterling friends, the Eskimos."

PS. Não me perguntem porque, mas "Nanook of the North" me faz lembrar um outro filme, o "Dersu Uzala" (Kurosawa, 1975). Nunca esqueci a parte em que o protagonista – também ele na pele do Outro – considera imponderável (é o que nos revela o seu olhar) que se possa vender a água, algo tão elementar à vida humana. Ele via água como um direito.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Invasões Bárbaras

Os jornais brasileiros, os meus amigos brasileiros, a minha mãe e até o Eduardo Prado Coelho - na sua coluna de hoje do Publico - já falaram maravilhas do "Invasões Bárbaras. Ainda bem que o filme estreia hoje em Portugal. Já estava me sentindo uma outsider.

domingo, novembro 30, 2003

Keith Arnatt


Keith Arnatt está nos Universos Desfeitos. Mais coisinhas de Keith na sua floresta.

Os cárceres de Goethe



A versão primitiva de "Fausto", de Goethe (1749-1832), encantou o encenador Nuno M Cardoso sobretudo pela "relação que era estabelecida entre amor e morte, personificada pela personagem Gretchen". No texto de apresentação da peça "Gretchen", em cartaz no Teatro Carlos Alberto, lê-se:

"Gretchen torna-se, então, personagem principal, pelo desespero, pela ascese na perda, pelo acolher da morte com alegria. [...] Gretchen é também o reconhecimento da inevitabilidade da morte."

No ensaio de João Barrento - responsável pela tradução do texto -, regressamos à questão da mulher que, de alguma forma, rouba a cena ao Fausto.

"O fragmento abre com uma cena que se situa no universo claustrofóbico do protagonista (mas teremos de nos interrogar desde já sobre o "protagonismo" de Fausto numa montagem que preferiu o título "Gretchen", e que pretende claramente deslocar esse protagonismo para a figura da mulher), e fecha com a condenação e morte de Gretchen num cárcere real. [...]
No entanto, nesta primeira versão ainda sem a estrutura e o escopo épico-simbólicos da versão definitiva do Fausto, a acção decorrerá de certo modo em circuito fechado, de cárcere a cárcere: o primeiro, de Fausto, é o laboratório da cena inicial, cárcere de invenções, mas não de vida, que gera outro, o cárcere do coração fechado e morto; o segundo, de Gretchen, mãe solteira, infanticida condenada e enlouquecida, é aquele para onde a lançam a lei e as normas sociais e morais vigentes."

Temos então, parece-me, duas linhas interessantes nesta montagem de Nuno M Cardoso: a questão da mulher "pobre e seduzida" (e, no entanto, protagonista) e a ideia de um círculo fehado que encarcera o drama. E é sobre esta que recaio quando penso na cenografia de Paulo Capelo Cardoso: há várias paletes de madeira sobre o palco, umas empilhadas com rigor, outras dispersas. Formam volumes de diferentes alturas. E sugerem precisamente um ambiente fechado e ao mesmo tempo contraditório. Um armazém lacrado? Um contentor vazio de mercadorias? Mas esses espaços não são feitos para conter, armazenar? E se estão vazios não traem a sua própria essência? É esse incómodo do cenário que reaparece num outro comentário de João Barrento:

"De desejo se trata, de facto, e de uma dinâmica muito goethiana: a da oscilação dialéctica entre sístole e diástole, abertura e fechamento, liberdade e necessidade."

As paletes empilhadas trazem em si não só a carga simbólica do consumo - comparece aqui a burguesia de que fala Goethe -, mas também a diáléctica asfixiante de Gretchen. Traduzem-se em uma oscilação entre cheio e vazio, em um movimento cíclico. As paletes estão em constante movimento para o transporte de mercadorias ,de um lado para o outro, mas o seu carácter funcional não se altera com a mudança de sítio. E, de resto, obedecem a um ritmo de carga e descarga sem ruptura possível. Como o círculo fechado e inevitável que aprisiona Gretchen. Essas ideias são depositadas no cenário subliminarmente, a par com a óbvia plasticidade da madeira traçada: cruz, grade, cárcere e caixão.

Hoje é o último dia para ver "Gretchen", de Goethe, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

sexta-feira, novembro 28, 2003

A biblioteca ideal

Ivan diz que a sua biblioteca ideal teria apenas sete livros. E explica o porquê:
“Há um indicador infalível que me diz que ando meio-chateado: se compro muitos livros. Tenho as prateleiras cheias de livros que nunca li. Se andasse sempre feliz, suponho que a minha biblioteca teria uns sete volumes. Os outros leria emprestados de amigos, tomados a bibliotecas; e, reciprocamente, ofereceria os livros já lidos a amigos e a bibliotecas. (Isto já eu faço às vezes). Há pessoas que se orgulham de ter colecções pessoais com 12 mil livros. Nunca terei uma biblioteca desse tamanho: se isso estivesse para acontecer ter-me-ia, seguramente, suicidado primeiro.”

terça-feira, novembro 25, 2003

André Kertész (V)


"Ernest", Paris, 1931

"A data faz parte da foto, não por denotar um estilo (isso não me diz respeito), mas porque ela faz erguer a cabeça, faz o cômputo da vida, da morte, a inexorável extinção das gerações: é possível que Ernest, jovem colegial fotografado por Kertèsz em 1931, viva ainda hoje (mas onde? como? Que romance!). Eu sou o ponto de referência de toda a fotografia e é nisso que ela me provoca o espanto, ao pôr-me a questão fundamental: por que razão vivo aqui e agora?"

"A Câmara Clara", Roland Barthes (p. 119, Edições 70)


"One of the portarits in "Enfants" is Ernest who was photographed in his classroom in 1931. This and other photographs in the book give us wonderful glimpses of French childhood in the 1930s. Ernest is pictured wearing his black school smock and very long flannel short trousers. A schoolmate in the background does not appear to be wearing a smpck so it does not appear to have been a school rule. The photograph not only shows us how French school children dressed in the 1930s, but what their school room with the heavy wooden desks looked like."

André Kertész (IV)


"A Balada do violinista", Abony, Hungria, 1921

"Por muito fulgurante que seja, o punctum possui, mais ou menos virtualmente, uma força de expansão. Essa força é muitas vezes metonímica. Kertèsz tem uma fotografia (1921) que representa um cigano cego, a tocar violino, conduzido por um miúdo; ora aquilo que vejo, através desse olho que pensa e que me faz acrescentar qualquer coisa à fotografia, é a calçada de terra batida: a terra dessa calçada dá-me a certeza de estar na Europa Central. Percebo o referente (aqui, a fotografia ultrapassa-se realmente a si própria: não será essa a única prova da sua arte? Anular-se como médium, deixar de ser um signo, passando a ser a própria coisa?), reconheço totalmente os povoados que atravessei quando, há tempos, viajei pela Hungria e pela Roménia."

"A Câmara Clara", de Roland Barthes (p. 71, Edições 70)

André Kertész (III)


"On the quais", Paris, 1926

"Os redactores da [revista] Life recusaram as fotos de Kertész quando ele chegou aos Estados Unidos, em 1937, porque, segundo afirmavam, as suas imagens "falavam demasiado"; elas faziam reflectir, sugeriam um sentido – um sentido diferente da palavra. No fundo, a Fotografia é subversiva não quando assusta, perturba ou até estigmatiza, mas quando é pensativa."

"A Câmara Clara", de Roland Barthes (p. 61, Edições 70)

domingo, novembro 23, 2003

Ainda Dogville



Contributos para a discussão sobre "Dogville":

1) O repórter Luiz Carlos Merten, do jornal brasileiro "O Estado de São Paulo", escreve que von Trier é "um demiurgo, apontador de caminhos". Achei a designação feliz se pensarmos na palavra demiurgo à luz do seu berço grego: criador do universo, magistrado. Demiurgo também é o nome dado pelos filósofos platónicos ao criador do homem. Assim, von Trier figuraria como um criador de universos (e não do universo, é claro). Um homem capaz de construir a partir da sua arte um sistema coerente, um sistema dotado de elementos que se regem segundo uma orgânica própria.
A aldeia gizada no chão do estúdio, ou seja, a aldeia cinematográfica de "Dogville" consegue ser um universo próprio, um espaço que se teletransporta do ecrã para o espectador. Essa construção em nós de uma imagem mental, uma paisagem que retrata um sítio específico, é formidável. Eu sou capaz de sentir o cheiro das maçãs que rolam sobre o camião. Eu sou capaz de sentir o cheiro bafiento da casa do ceguinho, sempre com as cortinas fechadas. Isto é estética da recepção. É conseguir construir um mundo a partir de muito pouco, de exíguos recursos cenográficos. Assim sendo, concordo com Carlos Merten: von Trier faz filmes com mãos de demiurgo.

2) Lutz escreve-me a dizer que "Dogville" "é um grande filme", mas uma obra que faz "uma generalização inaceitável". Na sua casa recém-inaugurada - a "Quase Em Português" -, Lutz explica que "o filme é de um anti-americanismo de fazer sombra ao Bin Laden. Se não fossem os últimos minutos dos créditos, com a sequéncia das fotografias conhecidissimas das vítimas da grande depressão americana dos anos 30, com a banda sonora de "Young Americans" de David Bowie, ainda seria possível entender todo o resto, o setting numa aldeia no interior da América puritana, a referéncia aos classicos filmes de gangster, como um dispositivo do dramaturgo para fazer o seu ponto, ou seja ficava a hipótese que podia ter havido outro setting qualquer. Mas von Trier faz questão de não deixar aqui dúvidas."

3) A MVG mandou uma mensagem com um comentário muito interessante. Tomo a liberdade de reproduzi-lo neste cais:

"Não nos podemos esquecer que von Trier respondeu às acusações dizendo que também ele era americano. Uma pequena coisa em que discordo, porém, é a da identificação do espectador com Kidman ao ponto de a querer vingar. Penso que há ali um grande trabalho de ironia (no sentido romântico de distanciação), dada não só pela voz do narrador, mas também pelo cenário esteticizado e até pelo genérico final com as imagens que remetem para um tipo de fotografia americana dos homens desperdiçados (que as imagens, no entanto, parecem cristalizar com uma nota de compaixão e quase esperança) dos anos 30 e 40, dando a impressão de um arrependimento tardio e, por isso, desacreditado.
Julgo que é o facto de ser impedido ao espectador sofisticado qualquer tipo de identificação (e de catarse libertadora) que torna o filme mais inquietante: constantemente nos perguntamos qual a atitude a tomar face ao que nos é apresentado."

segunda-feira, novembro 17, 2003

De olhos bem fechados



Por vezes tenho a sensação de ver os filmes de olhos bem fechados. Apreciei "Kill Bill", como já aqui escrevi. Depois li que o Carlos Vaz Marques achou o filme "oco", sem substância. Valorizo profundamente o trabalho de CVM e, portanto, se calhar o problema é meu.

Hoje aconteceu o mesmo com "Dogville". Chamaram-me atenção para o texto de Augusto M. Seabra nas páginas do Publico, divulgado no passado dia 10 de Outubro. Bem, a sua coluna "Inclinacões" simplesmente arrasa com von Trier. Diz que o cara não fez rigorasamente nada que prestasse (excepto "Ondas de Paixão"). E acusa esta última obra de ser "um programa ético sobre a miséria humana", uma "teologia de pacotilha", "um antiamericanismo cultural". Enfim, eu não reparei em nada disso quando vi o filme. Mais uma vez, o problema dever ser meu.

No meu modesto ponto de vista, von Trier causa uma estranheza no seu "Dogville" - a aldeia marcada a giz no chão - para depois conduzir o seu espectador à sua própria condição humana. Queremos vingar Nicole Kidman todo o tempo, mas, por outro lado, sabemos perfeitamente que é dessa maldade que somos feitos. "Dogville" fala também de como acolhemos o estranho que chega à nossa aldeia, de como sugamos dele tudo aquilo que podemos e como o tememos ou o dispensamos quando nos convém. Não é assim quando falamos de imigração? Não é isso que criticamos em Bush e na sua politiquinha western "dead-or-alive"?

Vasco Câmara escreveu no Y que "Dogville" é "um tratado filosófico, pessimista, sobre a bestialidade humana, quando os homens estão isolados do mundo e vivem segundo as suas próprias leis, como se fossem deuses de uma moral que inventaram". Ora, mas não é exactamente isso que criticamos na administração Bush? Eu também nunca pus os pés nos EUA e penso isso mesmo sobre este Governo (e não sobre o povo americano, o que seria uma generalização burra).

A crítica antiamericana, contudo, é o que menos me interessa em "Dogville". Despertou mais os meus sentidos aquilo que se prende com a crueldade humana. E com a capacidade criativa do realizador. O que von Trier fez ao gizar uma aldeia nas Montanhas Rochosas, nos anos 30, foi imaginar uma história num lugar. Não é o que todos fazem? Quando falamos de arte cinematográfica não nos reportamos para o pacto da representação? Pois bem, ao saber que von Trier treme só pensar em entrar num avião e que, por isso mesmo, nunca foi à terra do Tio Sam, eu fiquei ainda mais contente!

Isso quer dizer que "Dogville" nasce de uma imagem mental, por vezes contaminada por estereótipos ou pela inexperiência do lugar, é certo, mas obviamente liberta do passo irreversível que é o conhecimento. Pois é sabido que não se pode "des-saber" algo que já se conhece, não se pode anular um acontecimento já transcorrido. Nunca ter estado nos EUA permite um sem número de possibilidades de representação desse mesmo país e, por outro lado, não reduz o criador à angústia de estar a ser influenciado pela parte que conheceu de um todo.

Lars von Trier encerra em "Dogville" uma imagem própria, parcial dos EUA - é a primeira fita de uma trilogia - que, na minha opinião, é tão legítima como tantos outros retratos que já se fizeram sobre os Estados Unidos, tanto no cinema como na literatura.

quarta-feira, novembro 12, 2003

Jorge Marmelo

Eu gostava de ter escrito mais cedo este texto (não gosto muito da palavra post, quer dizer, também não desgosto, mas evito). Esta tarde, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, o escritor Jorge Marmelo apresentou a sua nova obra: um livro infantil escrito a quatro mãos com Maria Miguel, a sua filha de 10 anos. Também gostava de ter lá ido, mas não pude. Mas, enfim, o que importa é que "A Menina Gigante" (Campo das Letras, com ilustrações lindas de Susana Traina) é um livro belo, que fala de coisas como a adopção, a crueldade embutida nas crianças e a questão da diferença durante a infância.