quinta-feira, outubro 07, 2004

Deslumbramento de Outono



Já há folhas caídas no Little Black Spot.

Os acordes do lixo

Tinha que ser no Brasil. A criatividade própria das favelas deu origem, mais uma vez, a uma orquestra feita inteiramente de lixo. O projecto chama-se "Reciclagem, Misancene e Música" e tem sido desenvolvido na comunidade Mangueiral, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Canos de PVC, caricas, caixinhas de doces, cascas de árvores e até campainhas de telefones velhos dão origem a instrumentos musicais. Dessa forma, os jovens aprendem a fazer música e a produzir as suas próprias ferramentas de trabalho. Leia mais sobre a iniciativa aqui.



terça-feira, outubro 05, 2004

O perfume e a curiosidade

Há mais de 200 anos, o físico alemão Christof Lichtenberg escreveu no seu diário:

"To invent an infallible remedy against toothache, which would take it away in a moment, might be as valuable and more than to discover a new planet... but I do not know how to start the diary of this year with a more important topic than the news of the new planet".

O cientista queria dizer que a descoberta do planeta Urano, em 1781, era algo importantíssimo para o conhecimento do mundo, independentemente de ter ou não uma utilidade prática. Curiosidade, em síntese.

Foi divulgada, ontem, a atribuição do Prémio Nobel da Medicina 2004 aos investigadores Richard Axel e Linda Buck, ambos norte-americanos. A dupla estudou milhares de genes envolvidos no olfato. Estavam movidos pela curiosidade, embora admitam agora que os seus estudos, publicados em 1991, possam vir a ser úteis no tratamento de pessoas sem olfato. Descobriu-se assim que podemos armazenas numa base de dados cerca de dez mil cheiros, sendo certo que muitos deles nos fazem lembrar o homem amado ou uma fatia da infância.

Só mesmo no Brasil

O jornalista Marcelo Camacho teve a ideia de reunir em livro 1001 razões para gostar do Brasil. A editora brasileira sextante publicou esta lista afectiva num volume de bolso. A leitura é deliciosa. Seguem alguns exemplos.

1) Tratar garçons de um restaurante pelo nome

2) João Gilberto cantando "Chega de Saudade"

3) Tratar todo mundo por "você" e "senhor", mesmo que seja o presidente da República

4) O bico do tucano

5) Rapadura

6) Ouvir dizer que Deus é brasileiro

7) Os romances policiais de Rubem Fonseca

terça-feira, julho 27, 2004

Esperar por Borges



"Lembro-me de ter encontrado, há já muitos anos, Jorge Luís Borges. Na porta da sua casa, na rua Maipú, uma pequena placa e cobre: "Borges". La mucama, a governanta que, tenho quase a certeza, se chamava Fanny, como a avó inglesa, abriu-me a porta e conduziu-me ao salão. Ele estava ao fundo, sentado num sofá, com as mãos apoiadas na bengala, a conversar com um indivíduo. Ao longo a parede, sentados em cadeiras, outros esperavam a sua vez: um pretendia o seu patronato para um centro cultural de bairro, outro uma dedicatória, e por aí fora. Qualquer pessoa tinha acesso à casa dele, e mais tarde até me contaram que turistas americanos chegaram ao ponto de se fotografarem ao lado dele. Dir-se-ia a sala de espera de um dentista, embora no dentista não se assista aos tormentos do cliente que nos precede. Fiquei horrorizado. Não tinha qualquer pergunta para lhe fazer."

Este é um excerto do livrinho "Paisagens Originais", de Olivier Rolin (o mesmo de "Porto Sudão"; "A Invenção do Mundo", "O Meu Chapéu Cinzento" e o recente "Tigre de Papel") , editado entre nós pela Asa. Faz parte daquela colecção "Pequenos Prazeres", que, neste momento, está a ser vendida por preços entre os 1, 5 e os 3,5 euros em hipermercados. Nesta obra deliciosa, que se lê em apenas uma ou duas horas, Rolin traça breves perfis de cinco homens memoráveis: Hemingway e Nabokov, por exemplo. Há ainda reproduções de fotos destes autores quando crianças. Vale a pena. Vale muito a pena.

domingo, junho 13, 2004

walk in my shoes

saladas

Acho que as pessoas que colocam muitas especiarias em saladas, como eu, correm o risco de não detectarem atempadamente insectos furtivos nas dobras das alfaces. Hoje deparei-me com um estranho pedacinho de orégano e indaguei-me se, de facto, tratava-se de um ser do reino animal ou vegetal.

sábado, maio 22, 2004

Manhã improvável

Está sol. Mas uma densa massa branca tolda a paisagem, não se vê além dos nossos tímidos horizontes domésticos, algo a que chamamos janela. Alguém acabou de sair, fechou a porta com pouco cuidado. Escuto Vanessa da Mata cantar "não me deixe só, tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz".

terça-feira, maio 04, 2004

Marrocos

Tenho um amigo que diz sempre que moro em Marrocos, ou seja, Vila Nova de Gaia. Eu nunca compreendi bem estes bairrismos do Norte, até porque nunca soube explicar de forma exacta por que é que eu moro em Gaia e não no Porto ou em Matosinhos. Mas isso não importa. O que interessa é que eu até consigo gostar de Marrocos, aprecio sobretudo a indecisão de um concelho meio agrário, meio urbano, meio balnear. Na janela em frente da qual escrevo há, por exemplo, um quadro anacrónico: vejo duas habitações com hortas contíguas - sim, couves, batatas, salsa, alfaces e árvores frutíferas cultivados por dois casais de idosos - e, ao fundo, o inacreditavelmente brega GaiaShopping, contruído num estilo neo-caravelesco.

Gosto disso. É engraçado.

Hoje, quando voltava a pé dos correios, vi mais um exemplo dessa identidade híbrida. Para espantar os pássaros das suas plantas, um camponês gaiense construiu um artefacto futurista recorrendo a CDs usados e barbante. É uma experiência estética inigualável. Recomendo.

quinta-feira, abril 15, 2004

Da solidão

"No século XXI, há uma doença que não ousa dizer o seu nome: a solidão. Hoje, solidão é sinónimo de revés amoroso, que por sua vez se tornou um estigma do insucesso actualmente fracassar no amor é como estar desempregado."

"O Suicida Feliz", de Paulo Nogueira (Publicações D. Quixote, 2004)

segunda-feira, abril 05, 2004

Uma abelha na chuva

Finisterra



"O jardim familiar (primeira fase de abandono): montões informes de silvedo, buxo descabelado, urtigas, flores selvagens. As palmeiras de pouco porte incharam tanto que fazem pensar em anões velhos, doentes, com as suas cabeleiras, as suas folhoas emaranhadas, caindo em arco até ao chão".

Carlos de Oliveira

quinta-feira, março 25, 2004

Mude

Aqui está um manifesto contra inércia. A favor de toda mudança que nos faz ver o mundo sob novos ângulos. Demora seis minutos para carregar, mas vale mesmo a pena.

sábado, março 20, 2004

Raízes do Brasil



Começou hoje a ser exibido nas salas de cinema cariocas um documentário de Nelson Pereira dos Santos ("Vidas Secas") chamado "Raízes do Brasil". Trata-se de uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda, historiador que escreveu o famoso livro homónimo. A obra de Pereira dos Santos está divida em dois capítulos, ou seja, em dois filmes. Mas o Espaço Unibanco oferece o bilhete para a segunda sessão na compra de um ingresso para um dos dois filmes. Nesse caso, assisti hoje de enfiada os dois episódios. E só então entendi a oferta: o capítulo um é delicioso, com comentários da família (incluindo o filho Chico Buarque) e de alguns amigos sobre o Sérgio como pai, marido e profissional; ao passo que o segundo episódio é uma compilação de seus apontamentos para um currículo resumido, montado de forma preguiçosa e soporífera.



Vale a pena, isso sim, ver quem viveu com o autor de "Visão do Paraíso" a contar os aspectos mais humanos e curiosos de Sérgio Buarque de Holanda. É delicioso saber que ele lia desbragadamente, ao ponto de ter de fazer conluios com a empregada da família para conseguir manter o vício. Isso porque os sete filhos exigiam uma renda mensal significativa, restando muito pouco para a aquisição de volumes vindos da Inglarterra ou Alemanha. Assim, o professor comprava as obras e entregava à empregada pela janela, antes mesmo de entrar em casa. Depois, tocava a campainha e entrava com as mãos livres de embrulhos. Isso deixava a sua mulher, a sempre zelosa e companheira Maria Amélia, tranquila no que toca ao orçamento doméstico.

O capítulo um conta ainda detalhes preciosos, como o facto do professor ter a superstição de nunca deixar 13 cigarros dentro do maço de tabaco, a mania de não gostar de ver crianças rondando o seu escritório caótico, o gosto de brincar de chapeuzinho vermelho com os netos (deixando o papel mais viril, o do lobo, para as crianças) etc.

O primeiro episódio de "Raízes do Brasil" mostra-nos, numa edição limpa e de bom gosto, o retrato de um homem que soube amar as palavras e o conhecimento sem perder a candura com os amigos e a família. O segundo, no entanto, não passa de um inventário de feitos literários e académicos justaposto com imagens históricas de sucessivos presidentes brasileiros, sem uma contextualização histórica que permitisse às novas gerações compreender a evolução política do país (exactamente o contrário do que Sérgio preconizava), sem o cuidado de encontrar uma liguagem de documentário mais criativa e inovadora. Nada disso. Apenas a repetição, a declaração compassada e a alternância de vozes previsível. A leitura monótona dos textos do autor. Sem produção de significado através da montagem. Sem extrair a beleza da palavra lida. Como se fosse um programa de rádio. Nem parece Nelson Pereira dos Santos.

quinta-feira, março 18, 2004

W. G. Sebald II

Duas fotos de "Os Emigrantes", do escritor W. G. Sebald, aparecem na capa do próprio livro (reproduzida numa mensagem recente neste cais). Elas revelam um cemitério judeu, uma árvore portentosa e uma ferrovia. São elementos muito importantes nas quatro histórias de vida que compõem estas obra. Sebald reconstruiu a partir de diários, imagens, relatos, cartas, pinturas e observações a existência de quatro pessoas que deixaram as suas terras, mas jamais conseguiram abolir o peso da memória.



Há um pintor russo, cujos pais foram deportados e eliminados durante a Segunda Guerra Mundial, que foge para Manchester porque julga que ali esquecerá o passado.

Mas a nossa pré-história é um sobretudo muito comprido, nós fechamos a porta num estrondo e o tecido não deixa o trinco bater. Então nós puxamos a roupa de forma febril, puxamos tudo para conseguir enfim cerrar, selar e trancar a sete chaves essa porta que deixa o turbilhão da lembrança se abater sobre nós. Suspiramos de alívio. Mas quando olhamos à volta, vemos que arrastamos com a cauda do sobretudo os nossos fantasmas e esqueletos mais terríveis. Entramos em desespero e tentamos despir esse casaco inglório, arrancar a peça que nos aquece e congela a alma ao mesmo tempo, mas tudo é vão porque o sobretudo está costurado à pele com uma linha de aço.

O velho pintor só percebe isso muitos anos depois, quando vislumbra em Manchester tudo aquilo que deixou para trás: as cartas dos pais que nunca mais chegaram, a humilhação recorrente, o diário da mãe que só teve força para ler apenas duas vezes. Esta é uma das quatro histórias pungentes que Sebald conta em "Os Emigrantes", um livro recheado de fotos e recortes, elementos que em vez de limitarem a capacidade imaginativa do leitor instigam-na ainda mais. Vale a pena a leitura.

Para quem quiser saber mais sobre este autor alemão, há aqui um artigo interessante de Michael Thorpe sobre como Sebald confronta com os seus textos a amnésia colectiva. Algo que nos faz pensar sobre os recentes atentados de Madrid e Nova Iorque.

Coisas doces na blogosfera II

É apenas um pouco cedo para dizer isso, mas este é o "post" mais lindo que li este ano. Chama-se "Boas intenções". Para os preguiçosos, transcrevo na íntegra:

"Apetece-me escrever um poema e enterrá-lo bem fundo depois de decorar cada um dos seus versos. Havia de ser o mais belo poema do mundo, sem nenhuma palavra em excesso, luminoso e branco, polido e redondo como uma pérola acabada de trazer do fundo do mar, ainda manchado, porém e por isso, dos limos submarinos, dos segredos do sal, do rumor obscuro das águas que o sol não aquece. Sussurrá-lo-ia uma única vez, baixinho, ao ouvido que pode e sabe escutar. Ali apenas, e no arquivo desorganizado da minha memória, existiria esse poema náutico, só aí ecoaria o rumor e o segredo desses versos de luz. Num e noutro sítio estaria guardado até ao dia distante em que juntos o desenterrássemos e víssemos que a vida nos deu razão aos dois. Nessa manhã havíamos de olhar para trás e ver que a vida foi toda um poema que eu não soube escrever."

quarta-feira, março 17, 2004

Coisas do Brasil IV

Conheci hoje na praia de Copacabana um senhor chamado Luís. Ele trazia no ombro uma alfaia bizarra, um utensílio semelhante àquele que se usa para limpar piscinas, mas à volta da rede circular havia dentes de aço aguçados como os de um forcado. Perguntei: "O senhor usa isso para catar tatuí?" (O tatuí é um bichinho que se esconde na areia molhada da praia, mas que está cada vez mas raro na Zona Sul do Rio de Janeiro devido à poluição.) Ele sorriu, fazendo rugas bonitas na pele queimada pelo sol, e disse que não, não caçava tatuís. "Eu procuro na areia os objectos que as pessoas perdem no mar. O que as águas levam as águas trazem sempre de volta", explicou. Luís trabalha 365 dias por ano e sustenta a família com o seu inusitado garimpo marítmo. Encontra moedas, colares e objectos de metais preciosos. Depois, vende-os. Quanto há espectáculos na praia à noite, chega cedo ao areal na manhã seguinte. Após as oferendas à Iemanjá na passagem de ano, idem. Garimpa, garimpa. Gosta do que faz. E tem orgulho da profissão. Diz que já saiu até uma reportagem sobre ele no Fantástico. Sonha encontrar uma jóia muito, muito preciosa.

terça-feira, março 16, 2004

Telhados de vidro

Como todo mundo, fiquei chocada com o atentado em Madrid e com o lamentável desempenho da tribo de Aznar, que tentou empurrar a batata quente para as mãos da ETA (e depois pagou o pato nas urnas). Depois de tanta coisa escrita nos blogs e nos jornais, não me atreveria a repetir as ideias esmiuçadas durante o período em que não pude "postar" (o computador da minha mãe simplesmente enlouqueceu).

Contudo, há algo que sucede à dor pelo (e do) outro: o olhar trémulo para o próprio quintal. Pelo menos no Brasil, a comunidade portuguesa está agora mais preocupada com um possível atentado em Portugal do que com o que passou em 11 de Março de 2004.

Será que a solidariedade humana pela dor do outro só é possível porque, ainda que inconscientemente, nós tememos a dor que não sentimos mas que podemos vir a sentir? Aquele que sente dor é capaz de sentir compaixão por aquele que enfrenta uma dor homóloga? A dor do outro nos afecta porque é um prenúncio de que a dor pode vir a ser nossa também? Por outras palavras, não será que exaltamos intimamente o facto de estarmos ilesos quando vemos a catástrofe em terras alheias? A dor que sentimos é uma fraternidade ibérica e humana ou um pavor de quem vê a seara do vizinho arder junto às suas posses?

São perguntas para as quais eu não tenho respostas. Susan Sontag aponta alguns caminhos plausíveis em "Olhando o Sofrimento dos Outros", livro do qual já falei neste cais.

segunda-feira, março 15, 2004

Coisas do Brasil III

Há árvores na Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, que dão flores roxas incrivelmente belas. Ninguém cultiva ou rega as plantas. Só a chuva e a sabedoria da pouca terra que lhe dá sustento.