domingo, janeiro 23, 2005

Austerlitz

"Os viajantes solitários que passam dias inteiros num silêncio ininterrupto normalmente agradecem quando lhes dirigem a palavra."

"Austerlitz", de W.G. Sebald, (Teorema, 2004, p.9)

sexta-feira, outubro 15, 2004

Ainda Jacques Derrida

Mais uma tradução de Pedro Eiras, em homenagem ao filósofo francês:

"Porque, de cada vez, e de cada vez singularmente, de cada vez insubstituivelmente, de cada vez infinitamente, a morte não é nada menos do que um fim do mundo. Não só um fim entre outros, não o fim de alguém ou de algo no mundo, não o fim de uma vida ou de um vivo. A morte não põe um termo a alguém no mundo, nem a um mundo entre outros, a morte marca de cada vez, e de cada vez contra a aritmética, o fim absoluto do único e mesmo mundo, daquilo que cada um abre como um único e mesmo mundo, o fim do único mundo, o fim da totalidade daquilo que é ou pode apresentar-se como a origem do mundo para um certo vivo, um único vivo, humano ou não.
Então, o sobrevivente fica sozinho. Além do mundo do outro, ele fica ainda de algum modo além ou aquém do próprio mundo. No mundo fora do mundo e privado do mundo. Sente-se pelo menos como o único responsável, chamado a transportar em si o outro e o seu mundo, o outro e o mundo desaparecidos, responsável sem mundo (weltlos), sem o solo de qualquer mundo, doravante, num mundo sem mundo, como sem terra mais além do que o fim do mundo."

Béliers. Le dialogue ininterrompu :
entre deux infinis, le poème (2003), p. 23



quinta-feira, outubro 14, 2004

Fim da picada

Há um deputado brasileiro (e evangélico) que acredita que o Estado deve investir... na "cura" dos homossexuais! A criatura chama-se Edino Fonseca e, ao que parece, deve sofrer de autismo. Como é que um país como o Brasil, cujo sistema público de saúde está a estourar pelas costuras, pode se dar ao luxo de "tratar" algo que, de resto, não é uma doença? Edino Fonseca deveria, isso sim, ser deportado directamente para a Quinta das Celebridades.

Cartas de Mariana Blanc

A brasileira Mariana Blanc criou um blog com textos antigos, uma espécie de gaveta virtual dos seus apontamentos e contos. É muito curioso, sobretudo para quem conhece a verve desta menina que, sem sombra de dúvida, herdou a poesia do velho Aldir Blanc.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Fernando Sabino virou menino

O mundo das palavras sofreu ontem mais uma perda. Fernando Sabino, escritor brasileiro, pede para que escrevam na sua lápide: "nasci homem, morri menino". Recebo a notícia através de uma amiga, que me envia o seguinte texto:

"Hoje Fernando Sabino reinaugura os céus. Assim mesmo - no plural - porque será preciso mais de um para dar conta de sua alegria macunaímica. Leva corpo e alma de menino, como queria, alastrando a inevitável juventude.

Quando os ventos uivarem um canto mais claro, quando a lua alumbrar sem piedade, quando uma estrela driblar o brilho do dia, a certeza: coisa de Fernando em festejo de presença. A partir de hoje, a graça dos céus será dele."


sábado, outubro 09, 2004

Jacques Derrida despede-se aos 74 anos



"Atrás de um romance, ou de um poema, atrás daquilo que é com efeito a riqueza de um sentido a interpretar, não há que procurar um sentido secreto. O segredo de uma personagem, por exemplo, não existe, ela não tem qualquer espessura fora do fenómeno literário. Tudo é secreto na literatura e não existe qualquer segredo escondido atrás dela"

Entrevista do filósofo francês a Antoine Stire, em 2000, publicada na obra "Papier Machine" (2001). Excerto escolhido e traduzido pelo escritor Pedro Eiras (com a sua habitual sensibilidade).

quinta-feira, outubro 07, 2004

EU AMO

Eu amo o teu gravador de chamadas.
Ele não me abandona
e repete vezes sem conta
a tua voz.

Pedro Mexia in "Avalanche (Quasi, 2001)

Deslumbramento de Outono



Já há folhas caídas no Little Black Spot.

Os acordes do lixo

Tinha que ser no Brasil. A criatividade própria das favelas deu origem, mais uma vez, a uma orquestra feita inteiramente de lixo. O projecto chama-se "Reciclagem, Misancene e Música" e tem sido desenvolvido na comunidade Mangueiral, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Canos de PVC, caricas, caixinhas de doces, cascas de árvores e até campainhas de telefones velhos dão origem a instrumentos musicais. Dessa forma, os jovens aprendem a fazer música e a produzir as suas próprias ferramentas de trabalho. Leia mais sobre a iniciativa aqui.



terça-feira, outubro 05, 2004

O perfume e a curiosidade

Há mais de 200 anos, o físico alemão Christof Lichtenberg escreveu no seu diário:

"To invent an infallible remedy against toothache, which would take it away in a moment, might be as valuable and more than to discover a new planet... but I do not know how to start the diary of this year with a more important topic than the news of the new planet".

O cientista queria dizer que a descoberta do planeta Urano, em 1781, era algo importantíssimo para o conhecimento do mundo, independentemente de ter ou não uma utilidade prática. Curiosidade, em síntese.

Foi divulgada, ontem, a atribuição do Prémio Nobel da Medicina 2004 aos investigadores Richard Axel e Linda Buck, ambos norte-americanos. A dupla estudou milhares de genes envolvidos no olfato. Estavam movidos pela curiosidade, embora admitam agora que os seus estudos, publicados em 1991, possam vir a ser úteis no tratamento de pessoas sem olfato. Descobriu-se assim que podemos armazenas numa base de dados cerca de dez mil cheiros, sendo certo que muitos deles nos fazem lembrar o homem amado ou uma fatia da infância.

Só mesmo no Brasil

O jornalista Marcelo Camacho teve a ideia de reunir em livro 1001 razões para gostar do Brasil. A editora brasileira sextante publicou esta lista afectiva num volume de bolso. A leitura é deliciosa. Seguem alguns exemplos.

1) Tratar garçons de um restaurante pelo nome

2) João Gilberto cantando "Chega de Saudade"

3) Tratar todo mundo por "você" e "senhor", mesmo que seja o presidente da República

4) O bico do tucano

5) Rapadura

6) Ouvir dizer que Deus é brasileiro

7) Os romances policiais de Rubem Fonseca

terça-feira, julho 27, 2004

Esperar por Borges



"Lembro-me de ter encontrado, há já muitos anos, Jorge Luís Borges. Na porta da sua casa, na rua Maipú, uma pequena placa e cobre: "Borges". La mucama, a governanta que, tenho quase a certeza, se chamava Fanny, como a avó inglesa, abriu-me a porta e conduziu-me ao salão. Ele estava ao fundo, sentado num sofá, com as mãos apoiadas na bengala, a conversar com um indivíduo. Ao longo a parede, sentados em cadeiras, outros esperavam a sua vez: um pretendia o seu patronato para um centro cultural de bairro, outro uma dedicatória, e por aí fora. Qualquer pessoa tinha acesso à casa dele, e mais tarde até me contaram que turistas americanos chegaram ao ponto de se fotografarem ao lado dele. Dir-se-ia a sala de espera de um dentista, embora no dentista não se assista aos tormentos do cliente que nos precede. Fiquei horrorizado. Não tinha qualquer pergunta para lhe fazer."

Este é um excerto do livrinho "Paisagens Originais", de Olivier Rolin (o mesmo de "Porto Sudão"; "A Invenção do Mundo", "O Meu Chapéu Cinzento" e o recente "Tigre de Papel") , editado entre nós pela Asa. Faz parte daquela colecção "Pequenos Prazeres", que, neste momento, está a ser vendida por preços entre os 1, 5 e os 3,5 euros em hipermercados. Nesta obra deliciosa, que se lê em apenas uma ou duas horas, Rolin traça breves perfis de cinco homens memoráveis: Hemingway e Nabokov, por exemplo. Há ainda reproduções de fotos destes autores quando crianças. Vale a pena. Vale muito a pena.

domingo, junho 13, 2004

walk in my shoes

saladas

Acho que as pessoas que colocam muitas especiarias em saladas, como eu, correm o risco de não detectarem atempadamente insectos furtivos nas dobras das alfaces. Hoje deparei-me com um estranho pedacinho de orégano e indaguei-me se, de facto, tratava-se de um ser do reino animal ou vegetal.

sábado, maio 22, 2004

Manhã improvável

Está sol. Mas uma densa massa branca tolda a paisagem, não se vê além dos nossos tímidos horizontes domésticos, algo a que chamamos janela. Alguém acabou de sair, fechou a porta com pouco cuidado. Escuto Vanessa da Mata cantar "não me deixe só, tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz".

terça-feira, maio 04, 2004

Marrocos

Tenho um amigo que diz sempre que moro em Marrocos, ou seja, Vila Nova de Gaia. Eu nunca compreendi bem estes bairrismos do Norte, até porque nunca soube explicar de forma exacta por que é que eu moro em Gaia e não no Porto ou em Matosinhos. Mas isso não importa. O que interessa é que eu até consigo gostar de Marrocos, aprecio sobretudo a indecisão de um concelho meio agrário, meio urbano, meio balnear. Na janela em frente da qual escrevo há, por exemplo, um quadro anacrónico: vejo duas habitações com hortas contíguas - sim, couves, batatas, salsa, alfaces e árvores frutíferas cultivados por dois casais de idosos - e, ao fundo, o inacreditavelmente brega GaiaShopping, contruído num estilo neo-caravelesco.

Gosto disso. É engraçado.

Hoje, quando voltava a pé dos correios, vi mais um exemplo dessa identidade híbrida. Para espantar os pássaros das suas plantas, um camponês gaiense construiu um artefacto futurista recorrendo a CDs usados e barbante. É uma experiência estética inigualável. Recomendo.

quinta-feira, abril 15, 2004

Da solidão

"No século XXI, há uma doença que não ousa dizer o seu nome: a solidão. Hoje, solidão é sinónimo de revés amoroso, que por sua vez se tornou um estigma do insucesso actualmente fracassar no amor é como estar desempregado."

"O Suicida Feliz", de Paulo Nogueira (Publicações D. Quixote, 2004)

segunda-feira, abril 05, 2004

Uma abelha na chuva

Finisterra



"O jardim familiar (primeira fase de abandono): montões informes de silvedo, buxo descabelado, urtigas, flores selvagens. As palmeiras de pouco porte incharam tanto que fazem pensar em anões velhos, doentes, com as suas cabeleiras, as suas folhoas emaranhadas, caindo em arco até ao chão".

Carlos de Oliveira