segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A dor da indiferença

Pesquisadores norte-americanos concluíram que perceber o sentimento ou atitude de indiferença por parte de quem amamos (amigo, amado ou outro ente querido) provoca no cérebro uma reação semelhante à provocada no lado que sente a dor física.

A indiferença e o esquecimento pungem, fazem sangrar a alma. Não faz sentido causar dor a alguém, especialmente a quem amamos. Não faz sentido sofrer dor, sobretudo se for causada por um ser amado.

sábado, fevereiro 04, 2006

Todas as cores do nome de amor

Quem não fica extasiado ao contemplar um arco-íris no céu? A física explica esse fenômeno do arco-íris atmosférico que transforma a luz branca em cores brilhantes. Os Dicionários da Língua Portuguesa o definem e registram vários sinônimos: arco-celeste, arco-da-aliança, arco-da-chuva, arco-de-deus, arco-da-velha. Simbolicamente, esta ponte imensa que liga a Terra ao Céu, por ser efêmera e de difícil visibilidade, representa algo mágico, maravilhoso, mas difícil de ser atingido.

Imagine um lugar em que crianças crescem-em-educação e, junto com as professoras, constróem pontes entre o real e o imaginário, mantendo vivas todas as cores do nome de amor – o amor de ler, o amor de ensinar/aprender (mantháno, como os gregos chamavam o movimento de ensinar e aprender). Ele lugar existe e persiste, impulsionado pelo sonho e pela ação de duas diretoras (Centro de Educação e Crescimento Arco-Íris, Vassouras, Estado do Rio de Janeiro).

Oxalá existam outros arco-íris como este espalhados pelos diferentes lugares do Brasil e do Mundo, e que as crianças possam crescer para a apetência de beleza.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A leitura dos corpos


Aqui encontra-se imagens belíssimas da leitura, com um olhar semelhantes àquele que mostramos há tempos (On reading, de André Kértesz). As posições que o corpo encontra para se debruçar sobre um livro constituem um kamasutra mais erótico do que se possa imaginar. Quem duvida, deve ler O prazer do texto, de Roland Barthes.

domingo, janeiro 29, 2006

Anjos da América

"O corpo é o jardim da alma."

Mesmo que fosse só para ouvir uma Emma Thompson alada a dizer a frase acima já valeria a pena espreitar esta excelente série da HBO, recentemente lançada em DVD. Numa caixa estão condensados os seis primeiros episódios, o equivale a quase sete horas de puro prazer sobre o sofá. Fundamental para compreender a América dos anos 80, atordoada com Reagan no poder, a Sida e o orgulho desmedido de ser "a" terra da liberdade. Fundamental para compreender como a América é o que é no século XXI.

Para que você saiba 2 – Milhões de anos e alguns raros encontros

Procuro, em Inquérito às Quatro Confidências, de Maria Gabriela Llansol, a melhor forma de dizer o quanto cada vez mais me apercebo da raridade do nosso encontro. Esse Diário é uma despedida, uma longa carta de amor a Vergílio Ferreira, que está para partir (como a obra de Vergílio é, no fundo, uma interminável Carta a Sandra ), escrita porém não à maneira da epistolografia comum, mas à luz da estética do fulgor:

Quando ele partir,
ficarei ainda mais longe das referências da compreensão, da ponderabilidade das coisas, dos segmentos certeiros e eficazes do ler comum. Augusto que me ouve tenta centrar-me, à revelia do que sinto: - São milhões de anos, e alguns encontros. Sempre assim foi, Maria Gabriela. Escusam de gemer. Vocês os dois, tiveram uma oportunidade raríssima.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Escondidinho


O novo filme do austríaco Michael Haneke, Caché, consegue ser melhor do que o anterior, A Pianista. As nossas vidinhas comezinhas estão todas lá: a editora de livros (Juliette Binoche) e o apresentador de magazine literário (o já acabadote mas ainda charmoso Daniel Auteuil), membros oficiais da elite cultural, apavoram-se quando percebem que o seu quotidiano está a ser monitorado por alguém.

Fitas de vídeo mostram-nos a entrar e sair de casa. Fitas de vídeo que surgem, como que caídas do céu, à porta da moradia do casal. Não vêm sozinhas, mas sim embaladas em mensagens pictóricas (aliás, tudo no filme é imagem, não estamos nós na sociedade da imagem?): desenhos infantis com manchas escarlate sugerem uma criança ou um galo a deitar sangue.

E como reagem estas pessoas tão letradas diante do desconhecido que vem bater à porta? Um incógnito que não vem com legenda ou resumos de contracapa? Reagem como humanos que são. Sentem medo.

A personagem de Auteuil, mais precisamente, assume comportamentos agressivos. O homem letrado é também um animal acuado pelo passado. Ameaça Majid, um argelino com quem privou na infância e que esteve a um passo de ser adoptado pela sua família. Majid é o seu suspeito, o presumível autor das chantagens imagéticas.

O crítico João Jopes escreveu que "aquilo que Haneke filma é um modo de vida em que as imagens, mais do que um duplo da realidade, passaram a existir como uma nova realidade, fortíssima e incontornável, enredada em todas as componentes da nossa existência". Mas não é só isso. Aquilo que Haneke filma somos nós, cobertos pelo verniz da cultura que supostamente nos torna mais compreensivos e civilizados.

Nós, os cultos que têm medo do Outro - o negro que passa de na bicicleta na rua, os argelinos que gostariam de ser franceses, os filhos dos argelinos que se acham franceses e queimam carros. Nós, os cultos que exortamos o encontro com o Outro e o pluralismo. Nós e a nossa culpa.

Mostra! Mostra!

Descubro hoje (lendo a nova revista do DN, a Sexta) que Jorge Reis-Sá vai lançar o seu primeiro romance pela D. Quixote. Estamos à espera.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Entre Calais e Dover

Recebo no início do ano, quando chego de viagem, um livro azul - a capa parece um vidro fumado, distorcendo a silhueta de uma mulher saída do século XIX. As pinturas são de Luís Noronha da Costa e os poemas de Jorge Reis-Sá. Encontro ali as palavras que ficaram por dizer no dia em que partiste, não são minhas, mas sim do poeta. Mas eu não sou poeta e apetece-me dizê-las do mesmo jeito ao teu ouvido:

A vida inteira esperei por
alguém como tu

Mesmo sabendo que não sei como és

E mesmo que
ainda não se tenha passado a vida inteira.

in Quase e outros poemas De Querença (Quasi, 2000, 1ª edição; 2005, 2ª edição)

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Para que você saiba 1 – Meu pé de laranja lima

Zezé, protagonista de Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, a certa altura, quando chora a perda do “Portuga”, descobre que o seu pé de laranja lima era, na verdade, o amigo morto.

Penso o quanto sou imensamente feliz por nós duas estarmos vivas e eu saber claramente, sem precisar perdê-la, que você é o meu pé de laranja lima. Não, quando eu partir, você não entoará um canto em forma de requiém, como a filha de Walter, em O Vale da Paixão, de Lídia Jorge. Porque nosso afeto encontrou o tempo certo, a palavra justa. Ultrapassamos os clariceanos laços de família e podemos viver esse sentimento pleno e raro: a amizade. Ela vence a distância física, os comuns defasamentos de ritmos entre os seres e se adensa cada vez mais. Por vezes beiramos a quase total coincidência e nos assustamos com esses profundos encontros de alma. E é a graça desta comunhão, por exemplo, que me permite afirmar: Deus existe.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A catedral verde


Sempre que ando a pé com o meu amor pela nossa rua, contemplo as arcadas verdes das árvores, onde irrequietos passarinhos de várias espécies soltam os seus trinados, como quem celebra a alegria de viver. Alguns ignoram os limites das moradias e, em sinal de familiaridade, inspecionam as plantas das varandas, buscando alimento ou fiapos para tecerem seus ninhos. Às vezes espécies raras de aves pousam nos galhos mais altos da amendoeira em frente ao nosso apartamento e deixam-se admirar serenamente, numa convivência harmoniosa. Até um pequeno sagüi já fez-nos uma visita inesperada.

Na calçada do edifício ao lado, dois pés de acerola florescem. As frutinhas nem chegam a ganhar o seu alaranjado característicao e logo são colhidas pelos passantes.

Mais uns edifícios adiante, e eis-nos já na pracinha, onde as crianças a brincar fazem lembrar o canto alegre dos pássaros.

Não, não é um paraíso utópico. Para deleite dos privilegiados moradores, este oásis existe em plena Copacabana, no Bairro Peixoto.

Todos os dias louvo a beleza desta catedral verde onde há quase trinta anos escolhi viver.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Havana bela e sórdida


"Quando o fim-de-semana chegou estava cansada das caminhadas e do calor que ainda persistia; e talvez a minha exaustão aprofundasse um desespero crescente – o de caminhar outra vez pelas ruas de uma Havana bela e sórdida, que oferecia todas as variações floridas da decadência, todas as versões da destruição, tal como um paciente com uma doença impressionante ao qual não conseguimos virar as costas."
Por Amor a Che, de Ana Menéndez (Civilização, 2005, tradução (cuidada) deHelena Serrano)

Este é o primeiro (e belo) romance da escritora norte-americana, filha de cubanos exilados. Ana Menéndez trabalhou seis anos como jornalista no Miami Herald e iniciou a actividade literária com o livro de contos In Cuba I Was a German Shepherd. A sua nova obra apresenta-nos uma narradora em busca da sua própria história: criada pelo avô em Miami, nunca conheceu os pais.

Uma intensa forma de amar


Ser avó/avô é uma das formas de amar mais intensas que podemos experimentar. O amor de avó/avô, despojado da preocupação de educar - árdua tarefa que, a princípio, cabe aos pais e que é nitidamente orientada para o futuro -, pode realizar-se numa espécie de presente amplo. Como se o coração enfim rompesse os limites físicos e se unisse à alma, numa experiência à beira do inefável, próxima talvez à da plenitude da experiência mística.

domingo, janeiro 08, 2006

O céu de Cuba



Quando há água por todos os lados e não se tem forças para remar contra a maré, resta olhar para o céu. Do chão até ao fim da atmosfera - este é o atalho imaginário para a liberdade, só a viagem vertical permite esquecer que o mundo ao alcance das mãos é só um atlas de papel.

sábado, janeiro 07, 2006

A Indiferença

V. escreveu-me hoje. Agradecia-me por algumas palavras (eu é que lhe devo um obrigada, eu, que já falhei tantos convites seus para tertúlias literárias). E disse-me que não está tudo de pernas para o ar.

"Está pior: está indiferente. A indiferença está a corroer a cidade. Em termos lineares, claro (e ainda bem que há excepções), os novos que pensavam que sabiam tudo e estão atarantados e amedrontados porque chegaram à conclusão de que sabem muito pouco. Os velhos estão atormentados e etilizados: o uísque corroi-lhes a coragem e serena-lhes a impotência. Com tudo isto, raramente as pessoas páram para saborear os pequenos momentos. Por exemplo, já reparaste que raramente vês um pai (quem diz pai diz mãe) a passear com um filho, na cidade, a um dia da semana? Como pode uma cidade respirar saúde se não não há pais a passear, sorridentes, com os filhos nas suas ruas? E como podem os filhos mais crescidos achar piada a uma cidade do Porto cada vez mais velha e suja?"

quinta-feira, janeiro 05, 2006

De pernas para o ar

Regresso ao Porto e tenho a sensação de que anda tudo de pernas para o ar. Uns desligam o telemóvel ad eternum, outros dizem que desistiram de desistir. Ninguém num estado verdadeiramente deplorável, todos tentando manter a linha, agir em conformidade, mas com um giganstesco aviso de SOS colado às costas. O que se passa? Por que é que os amigos não procuram o regaço dos amigos?

sábado, dezembro 24, 2005

Um Natal cubano



Cuba é o país que nos ensina a conservar aquilo que temos. Um sabonete que derrete na curva da banheira. Um carro que, apesar da idade, cumpre as suas funções sem dar grandes razões de queixa. Ou, pelo menos, um território cujo povo nos leva a valorizar a abundância em que vivemos. O amplo espaço de respiração de que gozam os jornalistas europeus. Os incontáveis livros que temos nas estantes de livrarias e bibliotecas. Todos ao alcance das mãos. Sem restrições.

Vejo as árvores de Natal que se proliferam pelo Rio de Janeiro e não consigo deixar de imaginar como será a consoada cubana. Nem sai da minha memória a alegria de um povo que, com quase nada, e um esparadrapo invisível sobre os lábios, deseja "buena suerte" aos estrangeiros que cruzam o seu caminho.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

A força da gravidade é... fraca!

Leio uma entrevista da físca norte-americana Lisa Randall à Folha de São Paulo e fico espantada diante da seguinte afirmação: "Baseado no poder das outras forças, como a electromagnética ou as forças atómicas, era de se esperar que a gravidade fosse mais forte." Parece estranho, mas faz todo o sentido. Com um pequeno imã, conseguimos atrair um gancho de cabelo, um movimento que contraria a força gravitacional de um planeta inteiro. "É um grande mistério porque as diferentes forças têm intensidades tão diferentes!", comenta Randall, uma cientista que se parece com Jodie Foster e acaba de lançar o livro "Warped Passages" (ainda sem tradução prevista para Portugal ou Brasil).

domingo, dezembro 04, 2005

O poder dos livros

"Esta capacidade que um livro possui de estabelecer as suas próprias relações, de conquistar pessoas de idades improváveis e de fazer a escolha do seu próprio caminho, é para mim uma coisa fascinante. Como ser vivo, ele nasce, cresce e parte. Como podia eu servir-me dele para fazer passar uma mensagem, ainda que fosse pedagógica? Não, um livro não é pombo-correio, não tem de levar nada na anilha. Não há, aliás, que pôr qualquer anilha. A sua natureza de nobre não admite que se lhe adscrevam missões. Não nutro a intenção de ensinar nada, a não ser que se chame ensinar a dar a mão e a fazer perder o medo para o voo."

Hélia Correia em entrevista a Maria João Cantinho, publicada na revista on line Storm

segunda-feira, novembro 28, 2005

A vida íntima das gavetas

Arrumo velhos papéis esquecidos em pastas e gavetas.
Lixo ou armário? Por vezes hesito.
Formo duas pilhas, que deveriam ser três:

a dos papéis que vale a pena guardar (bem maior... tenho dificuldade de me desfazer das coisas);
a dos que definitivamente não prestam;
a dos que ainda – quem sabe? – podem servir um dia...
Há anotações, nomes, telefones, fragmentos de idéias de que já não lembrava.
Algumas detêm o tempo e a tarefa, desviando-me para uma viagem da
memória. Outrora agora.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Sempre aos domingos

Todas as manhãs ensolaradas de domingo lá está ele, na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Siqueira Campos. Deve chegar cedo (de onde virá?) para armar a sua barraquinha musical. Sem grande alarde, de pé ou sentado num banquinho, põe para tocar antigos sucessos. Um pequeno cartaz com uma reprodução do seu rosto ainda jovem, provavelmente a mesma que serviu de capa a um LP, anuncia que é ele o dono da voz.
No cruzamento, a cada sinal que abre e fecha, uma pequena multidão passa indiferente pelo simpático cantor e segue na direção da praia. Muitos deles são caminhantes do calçadão ou fregueses da feira da Praça Serzedelo Correia. De vez em quando alguns transeuntes param. São em geral casais de meia-idade ou já idosos, atraídos talvez pela canção que foi trilha sonora de um momento especial de suas vidas. E entre o cantor e seus fãs logo se inicia uma conversa animada. De pares que se reencontram e gostam de relembrar "aquele" tempo. Um tempo que desconhecia DVDs, mega shows e celebridades espontâneas.
A falta de sucesso midiático e a ausência da mão esquerda, só perceptível quando se afasta um pouco da sua banquinha, não conseguiram tirar-lhe o sorriso. Seu semblante e seus gestos são evidências de que possui em alta dose aquele dom ou talento que dizem que o brasileiro tem de insistir, persistir, resistir.
O hoje quase anônimo cantor de outrora não será matéria de pauta de nenhum noticiário ou suplemento de jornal. Nem de fantásticos programas televisivos. Mas no próximo domingo decerto estará na mesma esquina, espalhando a todos os passantes, atentos ou distraídos, o seu pequeno brilho não fugaz.
Conforta esta rara certeza em época de tantas incertezas. Apetece-me dizer-lhe timidamente que ele faz parte do meu show. Sempre aos domingos. Sempre que houver bom tempo. Oxalá que aos domingos nunca chova.