Ontem, após um longo intervalo, recebemos novamente a visita de um sagüizinho. Desta vez ele não caminhou pelo muro da varanda: ficou apenas próximo ao tronco da grande amendoeira que espalha seus ramos em frente à varanda do nosso apartamento. A visita, há muito desejada, ocorreu quase na mesma hora da outra – por volta das dezesseis horas, quando a rua estava calma e as famílias pareciam esperar o calor abrandar um pouco para melhor aproveitar, ao ar livre, o final da tarde do feriado de Tiradentes.
Eu lia uma parte do jornal quando, de repente, senti um pequeno baque nos galhos da árvore. Provavelmente uma amêndoa madura se desprendera e batera nos ramos, antes de cair definitivamente. Olhei meio distraída na direção do ruído e, subitamente, vi a ágil criaturinha saltitando na parte central da amendoeira. Acordei suavemente o meu amor para que também pudesse rejubilar-se com o visitante. Se fosse o mesmo sagüizinho que nos visitara, decerto iria apreciar ainda mais a recepção, pois lembrei-me de que tinha bananas maduras na cozinha. Corri a pegar uma fruta e a fatiá-la. Quando voltei, pé ante pé, à varanda, ainda pude ver o macaquinho a escorregar rápido para o galho debaixo e a desaparecer entre a folhagem. Mesmo assim, depositei os pedacinhos de banana na beirada de mármore, na esperança de que retornasse, atraído pelo cheiro ou pela visão da fruta.
Um pouco depois, saímos para a nossa habitual caminhada. Confesso que desejei voltar logo, para verificar se ele tinha percebido a banana no beiral. Quando regressamos, já havia escurecido. Na beirada, os pedacinhos remexidos. Mas, infelizmente, não pelo sagüizinho. Pelos excrementos ali deixados, percebi o rastro de um visitante indesejado: um morcego frugívoro. Talvez o mesmo que, aproveitando-se do nosso esquecimento, penetra furtivo pelas frestas das janelas abertas e insiste em dependurar-se no lustre do quarto dos fundos. Quando nos encontramos quase face a face há sempre um terror mútuo. Como recepcionar bem uma criatura que se parece com um rato e suja o globo de vidro e o edredon? Meu amor por animais não chega a tanto.
Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
sábado, abril 22, 2006
terça-feira, abril 18, 2006
Porque ontem completarias 81 anos
Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal [aqui eu diria Páscoa], quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.
Maria do Rosário Pedreira in A Casa e o Cheiro dos Livros
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal [aqui eu diria Páscoa], quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.
Maria do Rosário Pedreira in A Casa e o Cheiro dos Livros
segunda-feira, abril 17, 2006
Sobre um mundo de plasticina
"Quando olho à volta, e olho para a minha própria vida, essa ideia de procura de amor, que implica dor, é absolutamente recusada e diluída numa espécie de vivência que parece ter sentido mas não tem. Somos ratinhos de laboratório entre centros comerciais, emprego, modas, jornais, artigos de opinião, férias e isso rouba-nos tempo. Já não conseguimos ter tempo. Há alguns anos que anda a ser editado o livro do Proust Em Busca do Tempo Perdido que pede um outro tempo para ser lido; é muito difícil um ser contemporâneo ler aquele livro, vê-se à rasca para ler."
Excerto de um conversa entre o encenador Nuno Cardoso e o actor João Pedro Vaz, publicada no programa da peça Plasticina (Teatro Carlos Alberto/Teatro Nacional São João, Porto, 2006)
Excerto de um conversa entre o encenador Nuno Cardoso e o actor João Pedro Vaz, publicada no programa da peça Plasticina (Teatro Carlos Alberto/Teatro Nacional São João, Porto, 2006)
quinta-feira, abril 13, 2006
Presente de Páscoa
Bem melhor que oferecer ovos e bombons de chocolate como presente de Páscoa, é dar a ler um belo conto. Boas leituras não engordam o corpo e alimentam o espírito. Ofereço a você, meu desejado e raro leitor, uma sugestão de leitura: “Repartição dos pães”, conto de Clarice Lispector (de Laços de família), um verdadeiro achado, por apresentar, em linguagem literária altamente elaborada, uma originalíssima visão do tema pascal. Um texto para ler e repartir, sobretudo nesta época de pouca fraternidade e muito consumismo.
sábado, março 11, 2006
Desenhar com luz
segunda-feira, março 06, 2006
Declaração de amor para uma jovem sábia, uma filha do coração
As teias da vida e do acaso (?) fizeram com que nossos caminhos se cruzassem, apesar de vivermos em países distantes, com o Atlântico no meio. Bendita hora. Desde o início percebi que você era uma pessoa muito especial e que a grande afinidade que senti de imediato ia além da coincidência do seu nome com o de alguém muito querido. Da sua boca escutei as palavras sábias e ponderadas que eu mais precisava ouvir no momento de maior dor. Elas ajudaram-me a atravessar a turbulência e a vislumbrar possibilidades de saída, quando tudo parecia desmoronar. De você veio o gesto que, agindo no tempo e no lugar certos, decidiu o futuro a favor da vida. E o caminho que esse gesto abriu deu origem a novas paisagens florescentes, cuja contemplação extasia.
Não sou poeta, mas um dia encontrarei o poema que quero lhe dar. Um poema que diga de forma plena e bela aquilo que gostaria de lhe dizer. Enquanto ele não chega, receba um buquê com algumas palavras da língua portuguesa, colhidas no instante em que as escrevo, ao sabor do adejar da memória. Escolho-as – algumas por sua sonoridade, outras por suscitarem imagens ligadas ao campo dos afetos e a coisas que tornam a vida mais digna de ser vivida – e entrego-as a você, minha filha especial, gerada no coração:
A - acalanto, afeto (como amor, amizade), alma, amora, andorinha,...
B- bebê, beija-flor (ou colibri),...
C- criança, coração, carrossel, corpo, cálice, cereja,...
D- dádiva, dom, divino, diadema, dança,...
E- estrela,...
F- fada, flor, felicidade, framboesa, ...
G- gerânio, giesta,...
H- hortênsia, ...
I- imaginação, Iansã, Iara, infante,...
J- jardim, jasmim, jangada, joaninha,...
L- lua, luz, libélula, ...
M - mãe, menininha, mar, música, miosótis,...
N- ninar, namorado, nenúfar, navio,...
O- ovelha, orvalho,...
P- pai, passarinho, poesia, pão,...
Q- querida,...
R- realejo, rosa, romã, rosmaninho, ...
S- sabiá, sol, sonho, som, silêncio, saudade,...
T- tamarindo, tecer, tiara, ternura...
U- unicórnio, ...
V- violeta, vida, vibração,...
X- xale, xamã, Xodó, ...
Z – zêlo,...
Ps.: Para melhor compor o ramo, ponha nas reticências as flores-palavras que mais amar.
Não sou poeta, mas um dia encontrarei o poema que quero lhe dar. Um poema que diga de forma plena e bela aquilo que gostaria de lhe dizer. Enquanto ele não chega, receba um buquê com algumas palavras da língua portuguesa, colhidas no instante em que as escrevo, ao sabor do adejar da memória. Escolho-as – algumas por sua sonoridade, outras por suscitarem imagens ligadas ao campo dos afetos e a coisas que tornam a vida mais digna de ser vivida – e entrego-as a você, minha filha especial, gerada no coração:
A - acalanto, afeto (como amor, amizade), alma, amora, andorinha,...
B- bebê, beija-flor (ou colibri),...
C- criança, coração, carrossel, corpo, cálice, cereja,...
D- dádiva, dom, divino, diadema, dança,...
E- estrela,...
F- fada, flor, felicidade, framboesa, ...
G- gerânio, giesta,...
H- hortênsia, ...
I- imaginação, Iansã, Iara, infante,...
J- jardim, jasmim, jangada, joaninha,...
L- lua, luz, libélula, ...
M - mãe, menininha, mar, música, miosótis,...
N- ninar, namorado, nenúfar, navio,...
O- ovelha, orvalho,...
P- pai, passarinho, poesia, pão,...
Q- querida,...
R- realejo, rosa, romã, rosmaninho, ...
S- sabiá, sol, sonho, som, silêncio, saudade,...
T- tamarindo, tecer, tiara, ternura...
U- unicórnio, ...
V- violeta, vida, vibração,...
X- xale, xamã, Xodó, ...
Z – zêlo,...
Ps.: Para melhor compor o ramo, ponha nas reticências as flores-palavras que mais amar.
quinta-feira, março 02, 2006
Sobre a pneumonia
Outro Poema Para o Meu Amor Doente, de Eugénio de Andrade
Outono, pássaro de melancolia
num céu sem cor que não promete nada,
mar de insónia onde o teu corpo paira
ou um aroma de terra molhada
Outono, pássaro de melancolia
num céu sem cor que não promete nada,
mar de insónia onde o teu corpo paira
ou um aroma de terra molhada
Respiração humana
Por que choramos ao ler determinadas passagens de um livro ou ao assistir cenas de alguns filmes? Ou mais especificamente, por que a emoção por vezes vem-nos aos olhos e derrama-se em certos momentos que deixam os demais leitores ou espectadores impassíveis?
Percebo-me a chorar durante a projeção de As chaves de casa, filme sobre Paolo, um jovem com deficiências físicas e psicológicas provocadas por complicações durante o seu parto, a que se seguiu a morte da mãe e a rejeição do pai. Na cena que me provocou lágrimas, a personagem Nadine, cuja filha tem problemas ainda mais sérios do que os do rapaz, diz ao pai de Paolo, atarantado ante as dificuldades de enfim assumir o filho: faltou “respiração humana” junto ao berço do menino recém-nascido.
Esta afirmação punge-me intensamente. Ela toca-me porque nela descubro parte da minha história e que talvez nem com anos de Psicanálise pudesse aflorar. Narrativas familiares contam que minha mãe, numa época e numa região de extrema escassez, a ponto de meu pai precisar emigrar, viu-se sozinha, às voltas com o papel de maternar duas crianças pequenas – a minha irmã, de menos de dois anos de idade, e eu, recém-nascida e gravemente doente –, e acumulando ainda a função de provedora do lar. De manhã cedo até ao anoitecer, trabalhava como jornaleira (mulher-a-dias) no campo, semelhante à bóia-fria do Brasil. E, sem tempo para choro ou lamentações, ia secando as lágrimas e suportando como podia as saudades do marido distante e a dureza da vida.
Para que não percebêssemos a sua longa ausência, ela mantinha o nosso aposento o máximo possível no escuro, assim julgaríamos que era noite e dormiríamos mais. Se acordávamos e chorávamos, não havia ninguém ali para ouvir e acudir. Para nós, e em especial para mim, praticamente só havia a noite e quase nenhum colo. Nesse tempo não havia fraldas de papel, alimentação infantil industrializada nem outros recursos semelhantes. E se houvesse, ela não teria condições de adquirir. A alimentação das filhas pequenas só podia ser dada muito cedo, antes de ela sair para a lavoura, e muito tarde, quando regressava, extremamente exausta e faminta, e ainda tendo que cuidar da nossa higiene e da rotina doméstica.
Na fase do berço, minha irmã, primeira filha do casal, nascida quando nosso pai e nossa mãe iniciavam o casamento e o sonho de uma vida familiar com menos pobreza, conseguiu pegar um pouco do colo e do convívio com os dois. Quando começou a andar, ia com o meu pai para os trabalhos do campo. Admirava-se com o regato de água que irrigava os campos de milho – “ai tanta água!”, aprendeu a dizer ao nosso pai, que achava graça do espanto da menina - e distraía-se tentando pegar maçãs meio apodrecidas que caíam no caminho. Quando eu nasci, a situação de penúria aumentou, e meu pai tomou a difícil decisão de deixar a família e a terra natal, em busca de um futuro melhor para nós.
Só conheci meu pai aos quatro anos de idade, quando a família finalmente se reencontrou. Faltou-me no berço “respiração humana”, não por morte de mãe ou abandono de pai, mas por contingências da vida madrasta, que nos abandonou a todos. Entender isso conforta. Mas a quase total ausência do sopro que acalenta o bebê é uma lacuna que não poderá ser preenchida. Permanece como falta, ainda que sem culpas. E as marcas da longa noite da infância ainda permanecem, em forma de hipersensibilidade a qualquer tipo de luz: só no mais pleno escuro consigo adormecer.
Percebo-me a chorar durante a projeção de As chaves de casa, filme sobre Paolo, um jovem com deficiências físicas e psicológicas provocadas por complicações durante o seu parto, a que se seguiu a morte da mãe e a rejeição do pai. Na cena que me provocou lágrimas, a personagem Nadine, cuja filha tem problemas ainda mais sérios do que os do rapaz, diz ao pai de Paolo, atarantado ante as dificuldades de enfim assumir o filho: faltou “respiração humana” junto ao berço do menino recém-nascido.
Esta afirmação punge-me intensamente. Ela toca-me porque nela descubro parte da minha história e que talvez nem com anos de Psicanálise pudesse aflorar. Narrativas familiares contam que minha mãe, numa época e numa região de extrema escassez, a ponto de meu pai precisar emigrar, viu-se sozinha, às voltas com o papel de maternar duas crianças pequenas – a minha irmã, de menos de dois anos de idade, e eu, recém-nascida e gravemente doente –, e acumulando ainda a função de provedora do lar. De manhã cedo até ao anoitecer, trabalhava como jornaleira (mulher-a-dias) no campo, semelhante à bóia-fria do Brasil. E, sem tempo para choro ou lamentações, ia secando as lágrimas e suportando como podia as saudades do marido distante e a dureza da vida.
Para que não percebêssemos a sua longa ausência, ela mantinha o nosso aposento o máximo possível no escuro, assim julgaríamos que era noite e dormiríamos mais. Se acordávamos e chorávamos, não havia ninguém ali para ouvir e acudir. Para nós, e em especial para mim, praticamente só havia a noite e quase nenhum colo. Nesse tempo não havia fraldas de papel, alimentação infantil industrializada nem outros recursos semelhantes. E se houvesse, ela não teria condições de adquirir. A alimentação das filhas pequenas só podia ser dada muito cedo, antes de ela sair para a lavoura, e muito tarde, quando regressava, extremamente exausta e faminta, e ainda tendo que cuidar da nossa higiene e da rotina doméstica.
Na fase do berço, minha irmã, primeira filha do casal, nascida quando nosso pai e nossa mãe iniciavam o casamento e o sonho de uma vida familiar com menos pobreza, conseguiu pegar um pouco do colo e do convívio com os dois. Quando começou a andar, ia com o meu pai para os trabalhos do campo. Admirava-se com o regato de água que irrigava os campos de milho – “ai tanta água!”, aprendeu a dizer ao nosso pai, que achava graça do espanto da menina - e distraía-se tentando pegar maçãs meio apodrecidas que caíam no caminho. Quando eu nasci, a situação de penúria aumentou, e meu pai tomou a difícil decisão de deixar a família e a terra natal, em busca de um futuro melhor para nós.
Só conheci meu pai aos quatro anos de idade, quando a família finalmente se reencontrou. Faltou-me no berço “respiração humana”, não por morte de mãe ou abandono de pai, mas por contingências da vida madrasta, que nos abandonou a todos. Entender isso conforta. Mas a quase total ausência do sopro que acalenta o bebê é uma lacuna que não poderá ser preenchida. Permanece como falta, ainda que sem culpas. E as marcas da longa noite da infância ainda permanecem, em forma de hipersensibilidade a qualquer tipo de luz: só no mais pleno escuro consigo adormecer.
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Réquiem por um raro tesouro humano
Ele nasceu para amar a família, não a família por ele constituída através do casamento – mulher e filhos -, mas a que lhe coube por laços de sangue. Emigrou ainda jovem da terra de origem. E durante toda a vida o seu amor maior, além do interesse pelo trabalho, do gosto pela boa mesa e do prazer de jogar uma partida de cartas de vez em quando, era ajudar de alguma forma a todos. A cada Natal, a cada viagem de regresso ao seu país, seu pensamento esteve sempre voltado para essa família. Espalhou a sua imensa generosidade com grandeza de alma, sem olhar muito a quem contemplava, sem esperar nenhum reconhecimento. Fez o bem com o suado fruto do seu trabalho, não como penhor do futuro, mas pela pura intenção de fazer o próprio bem. Talvez o fizesse em nome da sua grande saudade dos pais e da casa que o viu nascer. Talvez para alguns parecesse uma criança grande, de quem se pode facilmente tirar um doce. Sua capacidade de doação era tamanha, que muitos julgaram que só podia ser um grande milionário, alguém que em terras estrangeiras tinha encontrado a ambicionada árvore das patacas. E freqüentemente se engalfinhavam para aumentar o seu imerecido quinhão.
Silenciosamente ele adoeceu. Foi-se apagando aos poucos a chama da sua vida. Viver foi perdendo o sentido. Por amar demasiada e desinteressadamente os seus, perdera aquilo a que também chamamos anima. Decerto percebeu as artimanhas e astúcias, algumas escancaradas, para arrancar-lhe mais e mais patacas. Decerto apercebeu-se da crescente desagregação familiar. E foi ficando mudo, vagaroso, quase imóvel, como se o movimento do corpo correspondesse ao da tristeza da alma.
Quando partiu de repente, manifestando ainda, através da dor da perda de um familiar, um gesto de amor, um último gesto de amor à família, alguns – poucos - o choraram muito sentida e discretamente. Choraram ao ver partir, de morte só aparentemente súbita, um ser incomum, mas consolava-os porém entender que assim pararia de sofrer a sua morte em vida. Outros, por trás da fingida comoção, disfarçadamente exultaram ante a possibilidade de enfim receber sua parte dos ovos de ouro. Outros ainda sequer disfarçaram, não se preocupando em esconder seu desamor. Muito poucos perceberam que aquele que partia era o verdadeiro tesouro, um raro tesouro humano neste nosso tempo de indigência ética e amorosa.
Silenciosamente ele adoeceu. Foi-se apagando aos poucos a chama da sua vida. Viver foi perdendo o sentido. Por amar demasiada e desinteressadamente os seus, perdera aquilo a que também chamamos anima. Decerto percebeu as artimanhas e astúcias, algumas escancaradas, para arrancar-lhe mais e mais patacas. Decerto apercebeu-se da crescente desagregação familiar. E foi ficando mudo, vagaroso, quase imóvel, como se o movimento do corpo correspondesse ao da tristeza da alma.
Quando partiu de repente, manifestando ainda, através da dor da perda de um familiar, um gesto de amor, um último gesto de amor à família, alguns – poucos - o choraram muito sentida e discretamente. Choraram ao ver partir, de morte só aparentemente súbita, um ser incomum, mas consolava-os porém entender que assim pararia de sofrer a sua morte em vida. Outros, por trás da fingida comoção, disfarçadamente exultaram ante a possibilidade de enfim receber sua parte dos ovos de ouro. Outros ainda sequer disfarçaram, não se preocupando em esconder seu desamor. Muito poucos perceberam que aquele que partia era o verdadeiro tesouro, um raro tesouro humano neste nosso tempo de indigência ética e amorosa.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Abraço da amendoeira
Quando estava muito debilitada, com o corpo doente, sufocada pelos acessos de tosse, senti necessidade de tomar um pouco de ar na varanda. Percebi que um galho da amendoeira se projetava em minha direção, como alguém que estende os braços, fraternamente, desejando dar alento ao outro. Por impulso, agarrei com as duas mãos o galho que se me ofertava, fechei os olhos, e recebi a energia que a árvore –mãe me enviava. No dia seguinte, já um pouco melhor, segurei novamente o generoso ramo, desta vez para agradecer a mensagem de vida.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Poema para o meu amor doente
Estava debilitada, febril, praticamente de cama, e recebi de alguém muito amado uma mensagem eletrônica com este título - Poema para o meu amor doente - e tendo como conteúdo este poema, de Eugénio de Andrade:
Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
As dores do corpo não desapareceram de imediato, mas uma sensação de conforto afetivo inundou-me o corpo e a alma, formando uma espécie de halo que se irradiou e se estendeu, como braços invisíveis, para me afagar.
Preciso dizer à doadora: colho embevecida as mãos que se me oferecem em buquê.
Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
As dores do corpo não desapareceram de imediato, mas uma sensação de conforto afetivo inundou-me o corpo e a alma, formando uma espécie de halo que se irradiou e se estendeu, como braços invisíveis, para me afagar.
Preciso dizer à doadora: colho embevecida as mãos que se me oferecem em buquê.
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
vestigia lectionis
O Paulo escreve coisas belíssimas, recorda-nos, por exemplo, que quem lê nunca está só. É verdade. Talvez por isso as pinturas ou fotos de pessoas a ler transmitam tanta serenidade. Ou prazer, pela aquisição do conhecimento. Sem perceber, Paulo organizou um pequeno inventário da iconografia da leitura. terça-feira, fevereiro 07, 2006
Já confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu devo seguir
Foto de Andre Kèrtesz
"Aquele ciclo banal de adormecer e acordar no escuro, por baixo da roupa, com outro ser, um mamífero pálido, suave e terno, de faces encostadas num ritual de afecto, sedimentado por breves instantes nas necessidades eternas de ternura, consolo, segurança, de membros entrelaçados para estarem mais próximos - uma simples consolação diária, quase demasiado óbvia, fácil de esquecer com a luz do dia. Será que alguma vez foi descrito por um poeta? Não uma ocasião em particular, mas a sua repetição ao longo dos anos."
Sábado, de Ian McEwan (Gradiva, 2005)
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
A dor da indiferença
Pesquisadores norte-americanos concluíram que perceber o sentimento ou atitude de indiferença por parte de quem amamos (amigo, amado ou outro ente querido) provoca no cérebro uma reação semelhante à provocada no lado que sente a dor física.
A indiferença e o esquecimento pungem, fazem sangrar a alma. Não faz sentido causar dor a alguém, especialmente a quem amamos. Não faz sentido sofrer dor, sobretudo se for causada por um ser amado.
A indiferença e o esquecimento pungem, fazem sangrar a alma. Não faz sentido causar dor a alguém, especialmente a quem amamos. Não faz sentido sofrer dor, sobretudo se for causada por um ser amado.
sábado, fevereiro 04, 2006
Todas as cores do nome de amor
Quem não fica extasiado ao contemplar um arco-íris no céu? A física explica esse fenômeno do arco-íris atmosférico que transforma a luz branca em cores brilhantes. Os Dicionários da Língua Portuguesa o definem e registram vários sinônimos: arco-celeste, arco-da-aliança, arco-da-chuva, arco-de-deus, arco-da-velha. Simbolicamente, esta ponte imensa que liga a Terra ao Céu, por ser efêmera e de difícil visibilidade, representa algo mágico, maravilhoso, mas difícil de ser atingido.
Imagine um lugar em que crianças crescem-em-educação e, junto com as professoras, constróem pontes entre o real e o imaginário, mantendo vivas todas as cores do nome de amor – o amor de ler, o amor de ensinar/aprender (mantháno, como os gregos chamavam o movimento de ensinar e aprender). Ele lugar existe e persiste, impulsionado pelo sonho e pela ação de duas diretoras (Centro de Educação e Crescimento Arco-Íris, Vassouras, Estado do Rio de Janeiro).
Oxalá existam outros arco-íris como este espalhados pelos diferentes lugares do Brasil e do Mundo, e que as crianças possam crescer para a apetência de beleza.
Imagine um lugar em que crianças crescem-em-educação e, junto com as professoras, constróem pontes entre o real e o imaginário, mantendo vivas todas as cores do nome de amor – o amor de ler, o amor de ensinar/aprender (mantháno, como os gregos chamavam o movimento de ensinar e aprender). Ele lugar existe e persiste, impulsionado pelo sonho e pela ação de duas diretoras (Centro de Educação e Crescimento Arco-Íris, Vassouras, Estado do Rio de Janeiro).
Oxalá existam outros arco-íris como este espalhados pelos diferentes lugares do Brasil e do Mundo, e que as crianças possam crescer para a apetência de beleza.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
A leitura dos corpos

Aqui encontra-se imagens belíssimas da leitura, com um olhar semelhantes àquele que mostramos há tempos (On reading, de André Kértesz). As posições que o corpo encontra para se debruçar sobre um livro constituem um kamasutra mais erótico do que se possa imaginar. Quem duvida, deve ler O prazer do texto, de Roland Barthes.
domingo, janeiro 29, 2006
Anjos da América
"O corpo é o jardim da alma."
Mesmo que fosse só para ouvir uma Emma Thompson alada a dizer a frase acima já valeria a pena espreitar esta excelente série da HBO, recentemente lançada em DVD. Numa caixa estão condensados os seis primeiros episódios, o equivale a quase sete horas de puro prazer sobre o sofá. Fundamental para compreender a América dos anos 80, atordoada com Reagan no poder, a Sida e o orgulho desmedido de ser "a" terra da liberdade. Fundamental para compreender como a América é o que é no século XXI.
Mesmo que fosse só para ouvir uma Emma Thompson alada a dizer a frase acima já valeria a pena espreitar esta excelente série da HBO, recentemente lançada em DVD. Numa caixa estão condensados os seis primeiros episódios, o equivale a quase sete horas de puro prazer sobre o sofá. Fundamental para compreender a América dos anos 80, atordoada com Reagan no poder, a Sida e o orgulho desmedido de ser "a" terra da liberdade. Fundamental para compreender como a América é o que é no século XXI.
Para que você saiba 2 – Milhões de anos e alguns raros encontros
Procuro, em Inquérito às Quatro Confidências, de Maria Gabriela Llansol, a melhor forma de dizer o quanto cada vez mais me apercebo da raridade do nosso encontro. Esse Diário é uma despedida, uma longa carta de amor a Vergílio Ferreira, que está para partir (como a obra de Vergílio é, no fundo, uma interminável Carta a Sandra ), escrita porém não à maneira da epistolografia comum, mas à luz da estética do fulgor:
Quando ele partir,
ficarei ainda mais longe das referências da compreensão, da ponderabilidade das coisas, dos segmentos certeiros e eficazes do ler comum. Augusto que me ouve tenta centrar-me, à revelia do que sinto: - São milhões de anos, e alguns encontros. Sempre assim foi, Maria Gabriela. Escusam de gemer. Vocês os dois, tiveram uma oportunidade raríssima.
Quando ele partir,
ficarei ainda mais longe das referências da compreensão, da ponderabilidade das coisas, dos segmentos certeiros e eficazes do ler comum. Augusto que me ouve tenta centrar-me, à revelia do que sinto: - São milhões de anos, e alguns encontros. Sempre assim foi, Maria Gabriela. Escusam de gemer. Vocês os dois, tiveram uma oportunidade raríssima.
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Escondidinho

O novo filme do austríaco Michael Haneke, Caché, consegue ser melhor do que o anterior, A Pianista. As nossas vidinhas comezinhas estão todas lá: a editora de livros (Juliette Binoche) e o apresentador de magazine literário (o já acabadote mas ainda charmoso Daniel Auteuil), membros oficiais da elite cultural, apavoram-se quando percebem que o seu quotidiano está a ser monitorado por alguém.
Fitas de vídeo mostram-nos a entrar e sair de casa. Fitas de vídeo que surgem, como que caídas do céu, à porta da moradia do casal. Não vêm sozinhas, mas sim embaladas em mensagens pictóricas (aliás, tudo no filme é imagem, não estamos nós na sociedade da imagem?): desenhos infantis com manchas escarlate sugerem uma criança ou um galo a deitar sangue.
E como reagem estas pessoas tão letradas diante do desconhecido que vem bater à porta? Um incógnito que não vem com legenda ou resumos de contracapa? Reagem como humanos que são. Sentem medo.
A personagem de Auteuil, mais precisamente, assume comportamentos agressivos. O homem letrado é também um animal acuado pelo passado. Ameaça Majid, um argelino com quem privou na infância e que esteve a um passo de ser adoptado pela sua família. Majid é o seu suspeito, o presumível autor das chantagens imagéticas.
O crítico João Jopes escreveu que "aquilo que Haneke filma é um modo de vida em que as imagens, mais do que um duplo da realidade, passaram a existir como uma nova realidade, fortíssima e incontornável, enredada em todas as componentes da nossa existência". Mas não é só isso. Aquilo que Haneke filma somos nós, cobertos pelo verniz da cultura que supostamente nos torna mais compreensivos e civilizados.
Nós, os cultos que têm medo do Outro - o negro que passa de na bicicleta na rua, os argelinos que gostariam de ser franceses, os filhos dos argelinos que se acham franceses e queimam carros. Nós, os cultos que exortamos o encontro com o Outro e o pluralismo. Nós e a nossa culpa.
Mostra! Mostra!
Descubro hoje (lendo a nova revista do DN, a Sexta) que Jorge Reis-Sá vai lançar o seu primeiro romance pela D. Quixote. Estamos à espera.
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