sexta-feira, dezembro 15, 2006

Velando a Amiga

querida amiga,

aqui, deste lado do Atlântico, envio-te, através dos fios de correio inteligentes, esta carta-mensagem com imagens curativas, para que em breve possas beijar o princípio espiritual da manhã e ver raiar o dia ileso

rezo-te a leitura, colho em teus textos as imagens que te relanço pelos ares, através do anjo que por toda a parte se insinua

neles li que a saúde ia voltar, e que os teus livros e cadernos (vivos, como tu dizes), assim como as figuras do eterno retorno do mútuo (em eterno nascimento através da transformação da matéria), aguardam a vibração do teu olhar, a fazer soar berlindes quando atravessas os corredores da escrita

segunda-feira, novembro 27, 2006

O direito à (e a) liberdade

Quando se depende totalmente dos outros, perde-se o direito à própria intimidade.

Ramón Sampedro, personagem de Mar adentro, 2004 (citação de memória)

quinta-feira, novembro 23, 2006

A Arte de Perder












Brighton, Novembro de 2006

"A arte de perder não é difícil de se dominar,
tantas coisas parecem cheias de intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar."

Eduardo Prado Coelho cita estes versos de Elizabeth Bishop numa das suas crónicas semanais no Mil Folhas, suplemento do Público. E diz assim depois: "o poema continuava, sempre cadenciado por esta ideia fundamental: perder pode parecer-nos uma calamidade, desde perder as chaves a uma pessoa que morre ou a um amor que acabou. Mas não é. A vida é feita de coisas que se perdem. Precisamos de aprender a perder. E isso é uma aprendizagem interminável."

O que me pergunto é se é mesmo possível aprender a perder alguém. Perder uma chave é aborrecido, mas fazem-se cópias. Perder gente para sempre dói demais.

terça-feira, novembro 07, 2006

Carta ao meu morto amado

Li e pensei muito em você, Pai.

A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu. No avô Mariano confirmo: morto amado nunca pára de morrer .

(Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Da tristeza

"O tempo é a coisa mais importante das nossas vidas - até porque se nasce e morre e é nesse intervalo estreito que temos de viver. Mas o tempo quotidiano é algo que impregna os corpos por inteiro e que os programa para agir de um certo modo."

Este é um excerto de uma crónica do Eduardo Prado Coelho no Público. Não me recordo o dia em que foi publicada. Talvez nesse dia estivesse mais preocupada em ser feliz.

domingo, outubro 01, 2006

Mulheres nuas, sós ou saudosas

Edward Hopper, Eleven A. M. (1926)

"Um atributo notável da mulher nua é que, apesar de sua prisão solitária na tela, ela nunca se encontra sozinha, eis que sempre nos olha, nos encara fixamente quando a olhamos. Jamais poderemos ser voyeurs secretos, ela sempre nos observará, nos penetrará agudamente, revelando-nos como funciona o nosso desejo e, portanto, quem somos, e isso valerá tanto para homens quanto para mulheres. Sua presença é muito diversa daquela de nus pintados por pintores oniscientes da solidão, como Edward Hopper, em seus, por exemplo, Eleven A. M. (1926) e Morning in a City (1944), em que mulheres nuas, sozinhas em seus quartos, completamente distraídas de seus corpos, vistos de perfil e já marcados pelo tempo, contemplam pedaços de cidades lá fora, nesgas de edifícios, tão desolados quanto elas, as mulheres nos quadros. E se falamos em onisciência é porque o pintor, em princípio, não poderia estar no espaço delas, nem vê-las. Então é bem como no cinema, quando se oculta a técnica que nos propicia estar ali, no convívio dos personagens. O cinema, que não escapou a Hopper em New York Movie (1939): de um lado, a sala de projeção, com seus escassos espectadores que se perdem no que se passa na tela; do lado de fora, no estreito saguão, a moça de uniforme, a lanterninha, com a mão no rosto, profundamente absorvida nos seus pensamentos - ah, a eterna prisão dos pensamentos -, e quase não resistimos a ler na expressão da moça, sendo ela tão jovem, a tristeza de algum amor desfeito, ou distante: uma saudade. "
Excerto do conto "A Mulher Nua", compilado no livro O Voo da Madrugada, do escritor brasileiro Sérgio Sant´Anna (Companhia das Letras, 2003)
Edward Hopper, New York Movie (1939)

sábado, setembro 30, 2006

O salto impossível

"Mas uns cinquenta metros antes de atingir o embarcadouro, você escuta já o terceiro e o último apito da barca, solene na noite, e, ao chegar ao cais, a embarcação zarpou poucos segundos antes. Você fica tão aturdido que chega a pensar em dar o salto impossível, de uns vinte metros, que o lançaria no interior da barca. Mas, impotente, só lhe resta apoiar-se na amurada de pedra do cais, e olhar."

Excerto do conto "A Barca da Noite", que faz parte do livro O voo da madrugada, do autor brasileiro Sérgio Sant´Anna (Campanhia das Letras, São Paulo, 2003)

Convite à paz em Hyde Park

domingo, setembro 10, 2006

O Caderno dos Dias

Sinto muito a falta de Ditta. Partiu sem deixar bilhete, a não ser esta última imagem, um daguerreótipo das nossas leituras partilhadas. Fez-me ainda chegar um vaso de violetas no dias dos meus anos, a planta está viçosa na minha cozinha, como a amizade que sinto por ela. Uma última mensagem feita de clorofila.

domingo, setembro 03, 2006

poema das coisas aladas


"as coisas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu, o caminho livre do voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são das coisas aladas os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas nossas cabeças como homens enfim pássaros. como se as árvores pudessem ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou ou da chuva. como se nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões ao alto "

in livro de maldições, de valter hugo mãe (objecto cardíaco, 2006)

sábado, agosto 26, 2006

A estupidez não é barata

"E lá vamos nós para o Líbano – depois do Kosovo, do Afeganistão, do Iraque – ajudar a limpar a confusão deixada pelas asneiras grandiosas da corte presidencial americana. Nada sai mais caro do que a estupidez. Nada é mais perigoso do que a estupidez dos poderosos. "

Miguel de Sousa Tavares, hoje, no Expresso

domingo, agosto 06, 2006

A parte sombria de nós

"Escrevemos porque há algo em nós que não compreendemos, que ignoramos, temos um segredo, um incesto sonhado, um assassínio de traição fundamental, um pecado original. Há algo sombrio, escondido, no centro das nossas vidas e é em torno disso que escrevemos."

Olivier Rolin em entrevista ao suplemento Mil Folhas (Publico, 29/4/06)

quinta-feira, junho 29, 2006

A América partida

"Este é o grande problema da América de hoje: o país está dividido em dois e nenhuma das metades consegue falar com a outra. Antes das últimas eleições estive envolvido com todo o tipo de eventos para a angariação de fundos para a campanha [do candidato democrata à Presidência, John] Kerry. Fizemos leituras, workshops... Foi maravilhoso e com resultados fantásticos, mas tudo se passou em Nova Iorque, onde ninguém votou no Bush. É como pregar aos convertidos - é isso que é tão frustrante. Mas é necessário. Além disso, se agora ficássemos calados, seria um crime, um verdadeiro crime."

Paul Auster em entrevista ao Mil Folhas (Público, Junho de 2006)

sexta-feira, abril 28, 2006

Como os nossos pais

Estou ali, quem sabe eu seja apenas
a foto de um garoto que morreu.
No espaço entre o sorriso e o sapato
há um corpo que bem pode ser o meu.

Ou talvez seja eu o seu espelho,
e olhar reflete em mim algum passado:
o cheiro das goiabas na fruteira,
o murmúrio das águas no telhado.

No retrato outra imagem se condensa:
percebo que apesar de quase gêmeos
nós dois somos somente a chama inútil

contra a sombra da noite que nos trai.
Das mãos dele recolho o que me resta.
Eu o chamo filho - e é meu pai.

in Todos os Ventos - Antologia Poética (Quasi, 2005), de Antonio Carlos Secchin

quinta-feira, abril 27, 2006

Via profana

deste-me o beijo de Judas
e continuo a carregar meu fardo humano
morrerei
e não ressuscitarei
para cumprir nenhum destino divino

meu Lázaro tampouco ressuscitou
e falta demasiado na minha mesa
como jamais faltarei a alguém

nenhum lenço de Verônica
limpou-me lágrimas e suor
povo algum assistiu às minhas quedas
nem apareceu na via um compadecente Simão
para tornar mais leve a minha cruz

sequer talvez uma mater dolorosa
pranteará o meu fim

Das negativas

não mais lançarei redes sobre o mar da indiferença
sei de antemão que sequer perceberás o meu silêncio
que castiga apenas e mais mais a mim

não embalarás os meus cabelos brancos
ou talvez me visites como quem cumpre um dever
apenas por compaixão ou temor da lei do retorno

não pertenço a tua lista de prioridades
não faço parte do teu show
não sou futurível
significante
in