segunda-feira, janeiro 01, 2007

A hora nova

e de novo um ano da nossa alma começa (Hölderlin)

Bem-vindo, primeiro dia do novo ano, com todas as esperanças que a renovação do tempo traz.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Acordem-me quando 2007 chegar



Como ainda não inventaram uma técnica de coma induzido, que permita adormecer no dia 23 de Dezembro e só acordar no ano seguinte, vou tentar simular a coisa com livros, jornais e uma chávena de chocolate de quente. Até 2007.

Meu coração bate feliz












Esta é a melhor frase-síntese da vida do Braguinha, o João de Barro, compositor de canções que aprendemos a cantar - Carinhoso, Copacabana, Pirata da perna-de-pau, A saudade mata a gente, Laura, Pastorinhas ... -, e incorporamos a belos momentos de nossa vida, sem muitas vezes nos lembrarmos do seu autor.

Quando morre alguém que viveu plenamente uma longa vida (completaria 100 anos em 2007) e criou tantas belezas, lamentamos a perda, é claro. Mas, por outro lado, sabendo que o nosso destino de criaturas viventes é a morte, devemos nos alegrar ao ver a admirável trajetória que desenhou na sua passagem terrena. Poucos viveram assim, experimentando e espalhando a felicidade.

Obrigada, Braguinha. Diante da paisagem deslumbrante da praia de Copacabana, contemplarei a "princesinha do mar" e lançarei um pensamento de beleza para você.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Quando nasce uma criança

ao Menino que hoje faz anos e a todas as crianças

Quando nasce uma criança, com ela também nascem uma mãe, um pai, uma madrinha, um padrinho, dois avôs, duas avós, quatro bisavôs, quatro bisavós...

Quando nasce uma criança, nasce uma relação familiar, que enlaça gerações, abraça o passado, faz sorrir o presente e lança sementes ao futuro.

Quando nasce uma criança, renasce o sonho de que o homem seja capaz de fazer do lugar que lhe coube viver um mundo melhor.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Textos-oferendas de Natal

Recebi de duas pessoas muito especiais dois belos textos em forma de cartão. Um deles é uma Crônica de Natal que cerze memórias afetivas com o fio da ficção e o outro é um conto de António Torrado.

Oferecer a alguém que amamos textos escritos pelo próprio punho ou por algum escritor que apreciemos é a melhor prenda de Natal possível, porque, no gesto de ler e de escrever, e de escolher, com os olhos, a mão e o coração, a quem dedicar, cria-se algo único, que contraria a reprodução em série. É como se susurrassem ao ouvido do amado/amigo, afagando todo o ser: tu és algo irrepetível, reconheço a tua singularidade e celebro contigo, através desta data tão especial para a humanidade, a ressurreição da esperança e a alegria de viver.

No Natal de 1998, talvez o mais difícil da minha vida, recebi de uma amiga preciosa uma singular oferenda, um texto original, para pôr no pinheirinho, ao lado das guirlandas e enfeites. Quando sentia-me esmorecer, olhava e relia o texto-oferenda e aquele estranho e raro fruto reacendia a minha luz. A vibração do pensamento afetivo dessa amiga, para mim a melhor escritora em língua portuguesa, ajudou-me a suportar a angústia de quase perder o meu companheiro de toda uma existência.

Na fulguração de gestos-instantes como esses, sentimos e experimentamos que somos eternos (Maria Gabriela Llansol).

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Velando a Amiga

querida amiga,

aqui, deste lado do Atlântico, envio-te, através dos fios de correio inteligentes, esta carta-mensagem com imagens curativas, para que em breve possas beijar o princípio espiritual da manhã e ver raiar o dia ileso

rezo-te a leitura, colho em teus textos as imagens que te relanço pelos ares, através do anjo que por toda a parte se insinua

neles li que a saúde ia voltar, e que os teus livros e cadernos (vivos, como tu dizes), assim como as figuras do eterno retorno do mútuo (em eterno nascimento através da transformação da matéria), aguardam a vibração do teu olhar, a fazer soar berlindes quando atravessas os corredores da escrita

segunda-feira, novembro 27, 2006

O direito à (e a) liberdade

Quando se depende totalmente dos outros, perde-se o direito à própria intimidade.

Ramón Sampedro, personagem de Mar adentro, 2004 (citação de memória)

quinta-feira, novembro 23, 2006

A Arte de Perder












Brighton, Novembro de 2006

"A arte de perder não é difícil de se dominar,
tantas coisas parecem cheias de intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar."

Eduardo Prado Coelho cita estes versos de Elizabeth Bishop numa das suas crónicas semanais no Mil Folhas, suplemento do Público. E diz assim depois: "o poema continuava, sempre cadenciado por esta ideia fundamental: perder pode parecer-nos uma calamidade, desde perder as chaves a uma pessoa que morre ou a um amor que acabou. Mas não é. A vida é feita de coisas que se perdem. Precisamos de aprender a perder. E isso é uma aprendizagem interminável."

O que me pergunto é se é mesmo possível aprender a perder alguém. Perder uma chave é aborrecido, mas fazem-se cópias. Perder gente para sempre dói demais.

terça-feira, novembro 07, 2006

Carta ao meu morto amado

Li e pensei muito em você, Pai.

A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu. No avô Mariano confirmo: morto amado nunca pára de morrer .

(Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Da tristeza

"O tempo é a coisa mais importante das nossas vidas - até porque se nasce e morre e é nesse intervalo estreito que temos de viver. Mas o tempo quotidiano é algo que impregna os corpos por inteiro e que os programa para agir de um certo modo."

Este é um excerto de uma crónica do Eduardo Prado Coelho no Público. Não me recordo o dia em que foi publicada. Talvez nesse dia estivesse mais preocupada em ser feliz.

domingo, outubro 01, 2006

Mulheres nuas, sós ou saudosas

Edward Hopper, Eleven A. M. (1926)

"Um atributo notável da mulher nua é que, apesar de sua prisão solitária na tela, ela nunca se encontra sozinha, eis que sempre nos olha, nos encara fixamente quando a olhamos. Jamais poderemos ser voyeurs secretos, ela sempre nos observará, nos penetrará agudamente, revelando-nos como funciona o nosso desejo e, portanto, quem somos, e isso valerá tanto para homens quanto para mulheres. Sua presença é muito diversa daquela de nus pintados por pintores oniscientes da solidão, como Edward Hopper, em seus, por exemplo, Eleven A. M. (1926) e Morning in a City (1944), em que mulheres nuas, sozinhas em seus quartos, completamente distraídas de seus corpos, vistos de perfil e já marcados pelo tempo, contemplam pedaços de cidades lá fora, nesgas de edifícios, tão desolados quanto elas, as mulheres nos quadros. E se falamos em onisciência é porque o pintor, em princípio, não poderia estar no espaço delas, nem vê-las. Então é bem como no cinema, quando se oculta a técnica que nos propicia estar ali, no convívio dos personagens. O cinema, que não escapou a Hopper em New York Movie (1939): de um lado, a sala de projeção, com seus escassos espectadores que se perdem no que se passa na tela; do lado de fora, no estreito saguão, a moça de uniforme, a lanterninha, com a mão no rosto, profundamente absorvida nos seus pensamentos - ah, a eterna prisão dos pensamentos -, e quase não resistimos a ler na expressão da moça, sendo ela tão jovem, a tristeza de algum amor desfeito, ou distante: uma saudade. "
Excerto do conto "A Mulher Nua", compilado no livro O Voo da Madrugada, do escritor brasileiro Sérgio Sant´Anna (Companhia das Letras, 2003)
Edward Hopper, New York Movie (1939)

sábado, setembro 30, 2006

O salto impossível

"Mas uns cinquenta metros antes de atingir o embarcadouro, você escuta já o terceiro e o último apito da barca, solene na noite, e, ao chegar ao cais, a embarcação zarpou poucos segundos antes. Você fica tão aturdido que chega a pensar em dar o salto impossível, de uns vinte metros, que o lançaria no interior da barca. Mas, impotente, só lhe resta apoiar-se na amurada de pedra do cais, e olhar."

Excerto do conto "A Barca da Noite", que faz parte do livro O voo da madrugada, do autor brasileiro Sérgio Sant´Anna (Campanhia das Letras, São Paulo, 2003)

Convite à paz em Hyde Park

domingo, setembro 10, 2006

O Caderno dos Dias

Sinto muito a falta de Ditta. Partiu sem deixar bilhete, a não ser esta última imagem, um daguerreótipo das nossas leituras partilhadas. Fez-me ainda chegar um vaso de violetas no dias dos meus anos, a planta está viçosa na minha cozinha, como a amizade que sinto por ela. Uma última mensagem feita de clorofila.

domingo, setembro 03, 2006

poema das coisas aladas


"as coisas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu, o caminho livre do voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são das coisas aladas os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas nossas cabeças como homens enfim pássaros. como se as árvores pudessem ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou ou da chuva. como se nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões ao alto "

in livro de maldições, de valter hugo mãe (objecto cardíaco, 2006)

sábado, agosto 26, 2006

A estupidez não é barata

"E lá vamos nós para o Líbano – depois do Kosovo, do Afeganistão, do Iraque – ajudar a limpar a confusão deixada pelas asneiras grandiosas da corte presidencial americana. Nada sai mais caro do que a estupidez. Nada é mais perigoso do que a estupidez dos poderosos. "

Miguel de Sousa Tavares, hoje, no Expresso

domingo, agosto 06, 2006

A parte sombria de nós

"Escrevemos porque há algo em nós que não compreendemos, que ignoramos, temos um segredo, um incesto sonhado, um assassínio de traição fundamental, um pecado original. Há algo sombrio, escondido, no centro das nossas vidas e é em torno disso que escrevemos."

Olivier Rolin em entrevista ao suplemento Mil Folhas (Publico, 29/4/06)