terça-feira, maio 15, 2007

Os anjos e as nuvens


Foto de Paulo Pimenta / PÚBLICO

“Quando eu era criança gostava muito de olhar as nuvens. Havia umas redondinhas muito luminosas que se amontoavam por vastas áreas do azul do céu que os meus olhos percorriam encantados. Uma vez perguntei: o que é aquilo? São anjinhos, responderam-me. E eu acreditei porque era verdade.”

“Tisana 349”, Ana Hatherly

domingo, maio 13, 2007

Primavera para as mães

Hoje é Dia das Mães no Brasil. Nas ruas e esquinas, uma Primavera fora de época. Ambulantes vendem flores em quiosques e bancas improvisadas na calçada. E nas imediações dos cemitérios, uma infinidade de barracas, talvez em maior número do que na época de Finados, oferecem flores aos visitantes saudosos. Ontem, o vigia do meu prédio saudou-me simpaticamente, parabenizando-me pelo Dia das Mães. E o anônimo trocador do ônibus, também imaginando que sou mãe, respeitosamente homenageou-me, ao entregar o troco. Agradeci a ambos, comovida. Gestos como esses conseguem ir além dos interesses puramente comerciais que criam e exploram certos “Dias”.

Numa época em que quase não há mais valores, “mãe” é um valor que ainda resiste, como mostrou o documentário Falcão: meninos do tráfico, de MV Bill. Num ambiente profundamente corrompido e degradado, em que praticamente inexiste a figura do pai e em que as crianças raramente chegam à vida adulta, “mãe” é palavra que carrega sozinha toda a esperança e poder de transformação.

Li, não sei aonde, que se para quem perde o pai ou a mãe há a palavra órfão, não há nenhuma palavra que possa designar a situação e o sentimento de quem perdeu um filho. Dor inominável. Stabat Mater dolorosa (estava a Mãe dolorosa...), como lembra o sofrimento de Maria, diante da crucificação de seu filho Jesus... Mães pobres e ricas, mães de santos e bandidos, mães alegres e tristes, mães de sangue e do coração, todas se igualam no amor por seus filhos. Nenhuma mãe gera filhos para vê-los mortos nas guerras e batalhas da vida. Nenhuma mãe quer ver o filho morto, ainda mais precocemente, sem nenhuma chance de “chegar lá”, como cantou Chico Buarque em “O meu guri”. Porque todos os filhos são “eternos infantes”, “menino[s] de sua mãe” (Fernando Pessoa).

sábado, maio 05, 2007

Uma lição materna II

Jardim da Infância, Escola Meneses Vieira, Bairro do Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro. Hora do recreio. Abro ansiosa a minha mochilinha de pano branco, e inocente e feliz, mostro à minha irmã um montão de brinquedinhos com que poderíamos brincar juntas em casa. Não me lembro que brinquedos eram. Deveriam ser comuns e baratos, desses que talvez hoje em dia as crianças até desprezam, tal é a abundância. Mas para uma infância quase sem nada, eram a maravilha das maravilhas.
Só me recordo dessa cena e das suas conseqüências. O resto - se consegui brincar em casa com eles ou não - se apagou. Aliás, a cena da reação da minha mãe ainda é mais viva do que a primeira. Penso até que a imagem da hora do recreio só permaneceu na memória, graças à segunda. Lembro-me da minha mãe muito aborrecida, a arrastar-me com uma mão firme (creio que me puxava a orelha) até à escola, levando na outra mão a tal mochilinha. Procurou alguém responsável (não sei se a professora ou a diretora) e disse, cheia daquela nobreza de caráter muito comum em gente humilde e de boa formação: “ó senhora professora, desculpe, eu vim aqui para devolver isto que a minha filha levou para casa. Olhe que nós somos muito pobres, mas somos muito honestos, e não queremos nada que não seja nosso!”.

Nada sei sobre a reação da professora. Penso que deve ter sido de espanto com a atitude tão determinada da minha mãe. Decerto também de profunda compreensão por uma criança tão pequena ter ficado encantada com brinquedinhos e ter desejado prolongar a brincadeira mais tarde. Não me lembro de nenhuma reprimenda por parte dela nem de nenhuma humilhação na escola por causa disso. Na verdade, naquela fase tão tenra da vida, sequer tinha a noção de “meu” e “alheio”. Não houve a mínima intenção de furto, porque sequer havia a consciência dessa noção. Havia apenas, num lugar familiar, brinquedos atraentes e olhos e mãos infantis desejosos de vê-los e tocá-los. Casa e escola mantinham uma espécie de continuidade, inclusive porque ficavam na mesma rua, e decerto pareciam-me espaços comuns, interligados.

Essa lição de honradez, apesar de duríssima, deixou bons frutos. Jamais a esqueci. Até porque minha mãe, ao longo da vida, sempre demonstrou muita coerência entre palavras e atos. Nunca transigiu em contas. Hoje em dia, em que princípios como o da honestidade cederam lugar aos do “vamos levar vantagem sobre os outros, a qualquer preço”, pode parecer até risível que alguém, por exemplo, devolva um simples carretel de linha à própria filha, acompanhado de um veemente e sincero pedido de desculpas pelo atraso: “filha, ficou sem querer na mala, é teu - não te lembras, quando fui te visitar? -, desculpa por não tê-lo devolvido há mais tempo!”
Hoje, abro a minha mochila cheia de amor e admiração e ofereço-a àquela que me deu muito mais do que um desejado montão de brinquedos. Sei bem que ela, em tempos de tanta pobreza, não os poderia oferecer. E desde então cada vez mais entendo que não poderia consentir que ficássemos com eles. Obrigada, minha mãe. Parabéns pelo seu Dia.

sexta-feira, maio 04, 2007

Uma lição materna I

Chamava-se Maria Joaquina, apelido Mariquinhas da Vessada. Era uma mulher de compleição física rija e de forte personalidade, uma típica figura daquelas antigas matriarcas, que dirigiam com mão firme os rumos e as finanças da família. Não por tirania ou autoritarismo, mas porque era preciso. Decerto cumprindo determinadas funções e papéis que, no acordo tácito que costuma haver entre os cônjuges, por exigências do feitio, temperamento ou outra razão, lhe coube desempenhar.

Conheci-a em 1962, quando meu pai decidiu que passaríamos uma longa temporada em Portugal, fazendo com que eu e a minha irmã perdêssemos o ano letivo, para espanto geral dos professores, que não entendiam o porquê dessa interrupção, sobretudo tendo em conta que éramos alunas muito estudiosas. Creio que a justificativa dele era a de que, se tentasse conciliar o período das férias escolares com a viagem, nunca poderia passar na terra natal o seu aniversário nem a Páscoa. Não me lembro qual foi a nossa reação na época, mas deve ter sido a de acatar, sem discussão, as decisões paternas. Era esse o modelo familiar vigente: subserviência da esposa, obediência total dos filhos, sem direito a nenhum “mas”. Só recordo que, no regresso ao Brasil, enfrentamos com desconforto e até com uma certa humilhação a situação de estar um ano atrás dos antigos colegas de turma. Hoje, apesar de reconhecer que foi uma opção questionável em relação ao interesse escolar dos filhos, penso que nosso pai nos proporcionou uma oportunidade maravilhosa (e que se revelaria única) de conhecermos os avós paternos e maternos. Perdemos um ano no colégio, mas ganhamos algo bem mais precioso em termos de convívio humano. Feitas as contas, o saldo foi extremamente positivo.

Chegar à casa da avó Joaquina deve ter sido uma longa aventura. Guardo na memória algumas imagens daquela noite: andamos com malas por caminhos estreitos e sinuosos, acompanhados de vozes e vultos de familiares recém-conhecidos, depois passamos por um regato (onde haveria agrião, mas que só no dia seguinte poderíamos ver), até que enfim subimos umas escadas e encontramos uma casa com a porta da sala aberta, uma mesa posta à nossa espera e um inesquecível cheiro de arroz caseiro, preparado com carinho por nossa avó, decerto entre ais de saudade e o bater forte do coração, com a alegre expectativa pelo reencontro. Para camponeses pobres como eles, que tiravam o principal sustento das batatas e do porco (consumido regradamente, para durar um ano), arroz era um luxo, fina e rara iguaria. Até hoje sinto o cheiro convidativo daquele arroz “lourinho”, tão simples e tão saboroso. Vem-me intensamente à memória quando sinto o aroma de cebola refogada que sai pelas janelas dos apartamentos ou quando leio as descrições gastronômicas das comidas provincianas que seduziram definitivamente Jacinto, em A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.

Minha avó era moleira respeitadíssima. Os fregueses vinham à porta procurá-la ou chamavam-na de longe, com um pregão característico: “Ó senhora Mariiiiiquinhas, venha ao “munho”! E lá ia ela, suspendendo as tarefas domésticas, e seguindo por aquele estranho caminho que nos trouxera de noite, e que agora parecia-nos tão familiar.Às vezes eu a acompanhava, e achava tudo fascinante: a vegetação em torno do moinho, a água caindo e fazendo girar a mó, o processo de transformação do milho, o cheiro da farinha, enfim, adorava aquele lugar pitoresco e romântico (da perspectiva de quem contempla, provavelmente não do ponto de vista de quem dele tira boa parte do sustento), que me fazia lembrar o cenário de certas histórias da infância...

A lição mais importante que dela me ficou, e que minha mãe fazia questão de sublinhar, nas inúmeras vezes em que se dispunha a contar histórias e “causos” de família, foi a sua invulgar honestidade. Seu lema era: antes ficar prejudicada do que prejudicar. Era tão justa, tinha tanto medo de prejudicar alguém e de perder a alma por isso, que pesava o milho dos fregueses antes de moer, para comparar o peso inicial com o do final da moagem. Sem levar em conta as previsíveis perdas durante todo o processo, completava a diferença com a sua própria farinha, até que o peso do saco de farinha do freguês atingisse o peso dos grãos.

Querida avó, penso, com alegria, que com certeza alguns de teus muitos filhos aprenderam a tua bela lição. Teu filho Antônio (meu pai), por exemplo, procurou seguir os teus ensinamentos, mas naturalmente adaptando-os ao seu próprio ideal de justiça. Era um homem profundamente íntegro, e creio firmemente que jamais prejudicou alguém. Ajudava as ex-empregadas a “pôr a telha” (a terminar a construção das suas casas) e emprestava dinheiro a alguns sobrinhos, afilhados e amigos. Mas não gostava de ser prejudicado. Reagia muito mal à injustiça (traço que herdei dele). Quando percebia que as pessoas não estavam agindo conforme o combinado, perdia o sono, aborrecia-se, tinha crises de estômago e alterações de humor. Por vezes via-o cabisbaixo na sua poltrona, com a mão a apertar o abdômen, meio dobrado sobre si mesmo, e pensava que eram problemas digestivos. Em geral não eram: debatia-se com a angústia de perceber que o caráter das pessoas não correspondia à confiança que nelas depositara. Sofria quase silenciosamente, não desabafava, não queria reconhecer que se equivocara, sobretudo em relação às pessoas da família, porque tinha em alto apreço o bom nome e os valores familiares.

Avó Joaquina, tantas vezes mãe, avó e bisavó: lá no "assento etéreo" (Camões) onde certamente te encontras, espero que só te cheguem as boas notícias da tua descendência, aquelas que estão à altura das belas ações que aqui praticaste. Espero que jamais possas saber de certos desvios de caráter, de algumas ações pouco dignificantes da tua linhagem. Apraz-me imaginar que, nesse céu dos justos, já deves ter encontrado meu pai...

Neste Dia das Mães em Portugal, meu pensamento vai também para ti (e para o teu filho, pois sou tua neta, por parte de pai): avozinha, do meu ramo nasceram dois bisnetos e uma trineta. Contarei para eles a tua história, para sempre ligada à nossa história, pois ela é um bem precioso, a mais valiosa herança que lhes quero legar.

quarta-feira, abril 18, 2007

terça-feira, abril 17, 2007

Palavras-fulgor de ti

ao meu morto querido, que vive em mim, com muita saudade

Abril
Páscoa
casa
família
netos
bisnetos
desejo de viver
integridade
confiança nas pessoas
generosidade
Vasco
Benfica
sueca
amigos
construção
vindimas
gatos
pássaros
cerejas
pão
passeio no Douro
Arouca
Portugal

domingo, abril 15, 2007

Dar corda ao mundo


Deda, Noruega, 2006

"Imaginei-me transformado em pássaro de pedra, sulcando o céu de Verão, pousando no ramo de uma árvore enorme, dando corda ao mundo. Se era certo que o pássaro de corda tinha desaparecido, alguém tinha de desempenhar as suas funções. Alguém tinha de dar corda ao mundo por ele. Caso contrário, a corda iria diminuindo e o delicado mecanismo acabaria por parar. E o que acontece é que eu seria o únco ser humano a ter dado pelo seu desaparecimento."

Haruki Murakami in Crónica do Pássaro de Corda (Casa das Letras, 2007, p. 274)

quinta-feira, abril 12, 2007

O tempo transborda

Leio Éluard, Llansol e Guimarães Rosa, e penso em ti, em virtude do muito amor, na proximidade da tua data natalícia:

"Eis o dia

que veio a mais: o tempo transborda"
(Paul Éluard, Últimos Poemas de Amor, tradução de Maria Gabriela Llansol)


"A. Nómada devia fazer hoje sessenta anos. Mas o tempo, contado pela terra, já é inútil para ele. Ele caiu agora onde fica o segredo da contagem"
(Maria Gabriela Llansol, Amigo e amiga. Curso de silêncio de 2004)

"Saudade é ser, depois de ter"
(Guimarães Rosa, citação de memória)

domingo, abril 08, 2007

Domingo de Páscoa

Penso em ti, minha adorada ausente de escrita,
e preparo meu coração para suportar as saudades,
porque sei que em breve trocaremos mensagens,
e manteremos correspondência,
nestas nossas notícias do cais.

Penso também muito naquele que está lá onde o amor
já não pode morrer nem ser quebrado,
e que tanto amava tapetes de flores
e uma mesa de doces iguarias,
para bem-receber o compasso com a cruz...

Enquanto penso, ouço com o meu amado,
que amorosamente prepara o almoço pascal,
belas canções que elevam a alma
(poemas musicados de San Juan de la Cruz, na voz de Amancio Prada)
e músicas cubanas (do Buena Vista Social Clube),
que mitigam e renovam as saudades de ti.

Penso nisso tudo
e, apesar da dor da saudade,
percebo que ouço, vejo, falo, sinto, escrevo,
estou viva,
sou feliz...
E comovo-me,
celebrando pequenas grandes alegrias,
como a desta hora, deste dia, deste domingo.

segunda-feira, abril 02, 2007

O artesanato do Mundo



Folheie as mãos nas plainas enquanto desusa a gramática da madeira, obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.

Herberto Helder

quinta-feira, março 15, 2007

Carta a um jovem especial

aqueles que te amam
- os que estão neste mundo e, com certeza, também os que já partiram -
enviam-te a força que emana do afeto,
a energia capaz de atravessar distâncias e fronteiras,
a rede de sustentação necessária,
para que consigas manter a serenidade e o equilíbrio,
e prosseguires ileso
na alegria de viver, na vocação de ser feliz,
no dom de dar a receber amor,
fim último para o qual nascemos.

Velando a amiga II

querida amiga

encontrarás a serenidade e o bem-estar de que precisas
em meio à natureza do grande jardim

mãos experientes cuidarão de ti
e o olhar afetuoso de teus amigos sempre te acompanhará

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Ah, Marisa Monte

“Enquanto isso, navegando eu vou
Sem paz
Sem ter um porto
Quase morto, sem um cais
E eu nunca vou te esquecer, amor”

Excerto da canção “Veja bem, meu bem”, de Marcelo Camelo

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Para uma menina guerreira


Pequenina Amillia, seja bem-vinda a este mundo insano e maravilhoso. Parabéns pela espantosa capacidade de lutar pela vida. Você é um milagre da ciência dos médicos e do amor de seus pais. Que doravante tudo seja menos difícil para você.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Contextualizando a morte de João Hélio

Os três posts abaixo - acalantos enviados por Tuki a partir do Rio de Janeiro - referem-se a um crime recente que, embora noticiado em Portugal, apareceu sobretudo em textos genéricos sobre criminalidade no Brasil. João Hélio era uma criança de seis anos que morreu ao ser arrastada, ao longo 15 minutos e de sete quilómetros, a reboque de um carro roubado por cinco homens armados (um deles menor de idade) à mãe da vítima.
O assalto decorrido no passado dia 7 de Fevereiro deixou o Brasil mais uma vez chocado com a sua incapacidade de deter o avanço da delinquência juvenil. Propuseram-se mais uma vez alterações legislativas, debateu-se mais uma vez a redução da maioridade penal para os 16 anos, uma vez que, como refere o texto de Nuno Amaral no Público de ontem, "os menos de 18 no Brasil estão sujeitos apenas a sanções educativas até três anos".
"Nas principais cidades, a maioria dos assaltos é cometida por adolescentes pobres ou vítimas das redes de tráfico e consumo de droga."
"Num país imenso onde um terço da população vive abaixo do limiar da pobreza e a maioria da população empregada recebe um ordenado mínimo que não chega aos 130 euros, o número dos que vivem em favelas não pára de aumentar, sobretudo em cidades como São Paulo, Belém e Rio de Janeiro."

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Acalanto para a mãe dos assassinos de João Hélio

Mãe (que preferiu não se identificar) do Carlos Eduardo (que dirigia o carro roubado que arrastou o menino João Hélio pelas ruas do Rio) e do menor Ezequiel (que estava no banco traseiro), imagino o que sentes, duas vezes mater de outra dor, não menos dolorosa, entendo o teu desejo de pedir desculpas aos pais do menino morto pelo crime que não praticaste e também entendo o gesto do teu marido, ao entregar à polícia o próprio filho.
Acredito na sinceridade de tuas palavras, transcritas nos jornais:
"-Minha dor é tanta que seria mais fácil se eu estivesse a enterrar o Ezequiel".
Não conheço muito da tua história de lutas e desesperos ante o caminho trilhado por teus rebentos.
Mas sou tentada a concordar quando não acreditas na recuperação dos infratores através do sistema penal vigente: teu filho mais velho não cumpriu as regras do regime semi-aberto e tornou-se reincidente, arrastando consigo o irmão.
Não sei o que oferecer ao teu coração sobressaltado, despedaçado, desesperançado.
Só posso te dar a minha solidariedade materna e humana, sabendo que nenhuma mãe escolheria um destino assim para seus filhos.

Acalanto para a irmã de João Hélio

Aline, doce menina-moça,
duplamente vítima, alvo e testemunha do horror, como amenizar a dor de teus treze anos para sempre abalados, congelados naquele terrível instante?
Como confortar o teu desespero?
Como dizer-te que não tens que sentir culpa, que não tens que pedir perdão, por não teres conseguido salvar o teu irmãozinho?
Que tua fé e a da tua família te sustente nessa travessia, que o tempo suavize a imagem do sofrimento e avive as das boas lembranças, na certeza de que o amor que vos une continua.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Acalanto para João Hélio

Meu menino, apetece-me embalar-te e adormecer a dor de teus pais, dilacerados pela pavorosa violência da tua partida. Queria poder recuar o tempo, e devolver-te a eles inteiro, vivo. Mas os jornais insistem em estampar a inimaginável realidade.E, indignada, a cidade chora por ti, por tua família, por todos nós.Consola-me imaginar que foste acolhido com festas no céu,como o poeta imaginou a chegada de Mozart, e que agora lá enfeitas com teus desenhos,as paredes e murais diáfanos, e ainda corres e brincas e falas com teu jeito singular.Contudo, aqui na terra, a dor maiúscula ficará, a clamar por justiça, a implorar por um mundo mais humano,em que as crianças possam ser crianças,em que a vida seja o valor maior,em que crianças e jovens e adultos não matem friamente,diferente deste mundo que te levou tão cedo,e gerou a insensibilidade dos teus assassinos.