Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
quarta-feira, julho 18, 2007
Para onde foram as coisas que desapareceram no Porto?
segunda-feira, julho 16, 2007
sexta-feira, julho 13, 2007
Garton Ash no Rio de Janeiro
Na sua crónica habitual no The Guardian, publicada ontem, diz o seguinte:
It is precisely this mixing that has helped tomake Brazilians among the most handsome human beings on earth. What is foreshadowed here - but I repeat, only if Basil can correct its dreadful social and economic imbalances, including a heritage of discrimination - is the possibility of a world in which skin colour is nothing more than a physical attribute, like the colour of your eyes or the shape of your nose, to be admired, calmly noted, or joked about. And a world in which the only race that matters is human race.
segunda-feira, julho 09, 2007
Uma varanda para o futuro
Deda, Melgaço, 2006“A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também este bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.”
(Excerto de “Um pouco só de Goya: Carta a minha filha:”, in Imagias, de Ana Luísa Amaral, 2001)
sexta-feira, junho 29, 2007
O fim do "No Mínimo"
Aqui fica o epitáfio:
"Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita neste 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web. NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos. Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? Aos leitores, nossas desculpas pela falta de talento empreendedor, o que talvez pudesse transformar o site num bom negócio financeiro. Fica para a próxima. Até breve."
quarta-feira, junho 27, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
Partidas e Chegadas
quinta-feira, junho 21, 2007
A importância de ter a própria verdade
Sophia de Mello Breyner Andresen
sábado, junho 16, 2007
quarta-feira, junho 13, 2007
Na data natalícia do poeta Fernando (Antonio Nogueira) Pessoa
"Tanto que me lembro, vivi sempre com ele.
Sempre fui entendendo que se tratava de uma intimidade exposta aos olhares dos outros. E, agora, também exposta ao seu olhar. Fui percebendo que existias comigo, e além de mim. Chamei-lhe ser. Ao teu movimento, dei nome. Como o sentia íntimo e distante, fiz saber que não era um instrumento, mas órgão. Que não servias, mas expressavas. O que dissesse, fazia. Nem que demorasses.
Até modelar o corpo humano.
(...)
Fui dizendo que valia a pena.
Fui-lhes dizendo que te via, ser. Que se habituara a mentir, impostor que eras por manha, excepto com a rapariga que temia essa impostura da língua.
Disse-lhes que podias ser, que havia a possibilidade de que fôssemos a outra coisa, a restante vida, uma variedade de causa amante,
que havia caminho entre a sebe e o ser."
LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 2. O ensaio de Música. Lisboa: Rolim, 1994, p. 20.
terça-feira, junho 12, 2007
Sobreimpressões de retratos & sorrisos
Luc de SmetUm sorriso aberto alarga-se por todo o teu rosto, ilumina-te os olhos, irradia-se como uma aura que transcende o tempo. No registro deste instante fulgurante do teu ser reencontro potencialmente aberto o futuro.
Desloco o olhar para outro retrato em que uma criança sorri. Reencontro-te na semelhança do sorriso. Na luz que emana deste sorriso reencontro também Clara Serena, a filha do pintor Rubens, "figura de companhia" no estudo sobre a obra de Maria Gabriela Llansol.
Sorrio diante da potência destas imagens sobreimpressas. Talvez essas figuras não estejam no passado nem no presente. Talvez venham do futuro e já estejam entre nós, batendo à porta dos afetos, à espera de serem acolhidas. Nelas leio /ouço o apelo à construção de um outro modo de conceber o tempo.
Pela mão da escrita de Llansol, abro a porta, que já estava aberta. E saúdo-vos, imagens queridas, com o convite: " - [Vinde] contruir um amor comigo" (O senhor de Herbais, p. 311).
sábado, junho 09, 2007
Porto Youth Center
sexta-feira, junho 08, 2007
Nascimentos que nascem
Tenho , contudo, outras datas e lugares de nascimento, a julgar pelas palavras de Marguerite Yourcenar: "o verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros".
Nasci em outros lugares e tempos: nos encontros com o corpo do companheiro, na alegria indescritível da maternidade, na paixão de ensinar, no prazer da interlocução com os alunos, nas delícias de ser avó, na cumplicidade com os verdadeiros amigos, nas lágrimas diante da beleza de um quadro, uma música, um filme, um livro...
Morri um pouco cada vez que duvidei da potência desse olhar inteligente sobre mim mesma. Morri mais ainda quando esqueci da claridade desses nascimentos. Felizmente renasço cada vez que me entrego à minha queda humana. Sei que por vezes esmoreço. Mas logo levanto-me e ando. Estou viva. Sempre ávida por nascer.
Sei que um dia morrerei. Não sei quando nem onde. Mas talvez morrer seja apenas ter outro lugar de nascimento. Que seja inteligente, com claridade serena.
domingo, junho 03, 2007
"elle s´appelle... Tristesse"

O repórter belga Luc de Smet escreve sobre ciência, mas não só. Tira fotos lindas. Esteve recentemente no Porto com a mulher, a magnífica Ann, e recolheu imagens de uma cidade que eu desconhecia (que é a mesma cidade onde trabalho, cidade que escolhi para viver e ser feliz). Esta é uma imagem abstracta de Luc, faz-lhe pensar no fado e na saudade. Por isso, recebeu o seguinte nome: "elle s'appelle... Tristesse"
sexta-feira, junho 01, 2007
Pai escrito I
Fragmento que encontrei no interior de um livro:
Portugal, 8 de novembro de 2004
Pai querido,
sento-me no teu lugar privilegiado - a cadeira na varanda, onde costumavas ler. Olho a paisagem que muitas vezes deves ter olhado. E escrevo.
A tua ausência física ainda dói em mim. Na verdade, dói cada vez mais porque cada vez mais cresce a certeza de que não mais te verei, não com olhos humanos. Sei que pouco a pouco a memória do timbre da tua voz, dos detalhes do teu rosto, enfim, da tua presença em movimento, tenderão a desvanecer-se .Temo que a passagem do tempo esmaeça traços de tua personalidade e do teu semblante, ainda tão vivos em mim. Não, não quero uma imagem fixa de ti, não quero te aprisionar num único instante, congelado, como na reprodução fotográfica. Por isso evito olhar os teus retratos. Porque aquela imagem te trai , porque não estás ali. Procuro então apreender-te através do fluir da escrita, na seqüência de instantes-já, como diria Clarice (Água Viva).
Ao escrever a ti, escrevo-te: construo-te num outro tempo-espaço, ergo-te em palavras, traço a traço, letra a letra. E sinto que vens te sentar outra vez à mesa, comigo, em mim.
quinta-feira, maio 24, 2007
Pântanos
"Morvan Tree talk", de Luc de Smet, França, 2007
"No Verão de 1863, Apollo Korzeniowski escreve a um primo que Vologda é um buraco pantanoso em que ruas e caminhos são feioz com troncos de árvores caídos. As casas, e também os palácios da fidalguia provincial são feitos de madeira pintada com cores, assenta em estacas enterradas no pântano. Tudo em redor se alaga, aprodrece e s corrompe. Só há duas estações do ano, o Inverno verde e o Inverno branco. Durante nove meses, desce um ar gelado do Mar do Norte. O termómetro desce a temperaturas tão baixas que nem se imaginam. Tudo em redor são revas sem fim. Durante o Inverno verde chove ininterruptamente. A lama entra por baixo das portas. A rigidez cadavérica transforma-se num marasmo atroz. No Inverno branco tudo está morto, no Inverno verde tudo está a morrer."
Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald (p.105)
segunda-feira, maio 21, 2007
Envelhecer juntos, por muito amor
Penso, comovida, na dádiva do tempo que eu e o meu companheiro recebemos. Foi-nos concedido o tempo de uma longa e intensa convivência, quase sempre com grande cumplicidade.
Os filhos vieram, cresceram e já partiram, tão depressa que quase não nos apercebemos (pareceu-nos que num "piscar de olhos", como é costume suceder a todos os pais).
Perdemos alguns dentes, ganhamos rugas e cabelos brancos.
Alguns projetos se desfizeram, outros novos surgiram.
Mudamos de casa algumas vezes.
A maior parte das prendas de casamento já não existem, quebradas, dadas ou desgastadas pelo uso e o passar dos anos.
Não temos mais as alianças originais: há muito foram roubadas e perdidas. Acordamos tacitamente que não vale a pena adquirir outras novas para expô-las à cobiça dos ladrões.
Mas a nossa relação persiste. Apesar de alguns baixos e graças a muitos altos. Ou, lembrando Clarice Lispector, talvez muitas vezes tenha sido o "apesar de", tanto ou mais que o "graças a", que nos impulsionou. Sons e silêncios, ruídos e melodias, graves a agudos são igualmente necessários ao grande concerto da vida.
Permanecemos. Não por inércia ou acomodação. Mas pela qualidade das mudanças. Por uma espécie de sabedoria do amor, capaz de conciliar mudança e permanência. Por um saber-sentimento que intui e acolhe a necessidade das mudanças - a própria e a do ser amado -, sem contudo desvirtuar a qualidade do afeto.
Rara e bela é a arte de amar, ao mesmo tempo fácil e difícil. Arte-saber que não pré-existe à relação, constituindo-se no seu exercício, codidianamente. Amar na afirmação do amor do mútuo (Maria Gabriela Llansol), por respeito mútuo. Respeito, no seu sentido fundamental, conforme lição da saudosa Francisca Nóbrega: ação de voltar (re) o olhar (spect) para.
Amar assim talvez seja uma das mais belas afirmações do princípio "ama ao próximo como a ti mesmo", por vezes tão mal compreeendido. Um amar que pressupõe amar-se e amar o outro, tanto quanto. Verbo-ação com pré-requisitos e bitransitividade. Amar-te-me.
terça-feira, maio 15, 2007
Os anjos e as nuvens

Foto de Paulo Pimenta / PÚBLICO
“Quando eu era criança gostava muito de olhar as nuvens. Havia umas redondinhas muito luminosas que se amontoavam por vastas áreas do azul do céu que os meus olhos percorriam encantados. Uma vez perguntei: o que é aquilo? São anjinhos, responderam-me. E eu acreditei porque era verdade.”
“Tisana 349”, Ana Hatherly
domingo, maio 13, 2007
Primavera para as mães
Numa época em que quase não há mais valores, “mãe” é um valor que ainda resiste, como mostrou o documentário Falcão: meninos do tráfico, de MV Bill. Num ambiente profundamente corrompido e degradado, em que praticamente inexiste a figura do pai e em que as crianças raramente chegam à vida adulta, “mãe” é palavra que carrega sozinha toda a esperança e poder de transformação.
Li, não sei aonde, que se para quem perde o pai ou a mãe há a palavra órfão, não há nenhuma palavra que possa designar a situação e o sentimento de quem perdeu um filho. Dor inominável. Stabat Mater dolorosa (estava a Mãe dolorosa...), como lembra o sofrimento de Maria, diante da crucificação de seu filho Jesus... Mães pobres e ricas, mães de santos e bandidos, mães alegres e tristes, mães de sangue e do coração, todas se igualam no amor por seus filhos. Nenhuma mãe gera filhos para vê-los mortos nas guerras e batalhas da vida. Nenhuma mãe quer ver o filho morto, ainda mais precocemente, sem nenhuma chance de “chegar lá”, como cantou Chico Buarque em “O meu guri”. Porque todos os filhos são “eternos infantes”, “menino[s] de sua mãe” (Fernando Pessoa).












