

Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
It is precisely this mixing that has helped tomake Brazilians among the most handsome human beings on earth. What is foreshadowed here - but I repeat, only if Basil can correct its dreadful social and economic imbalances, including a heritage of discrimination - is the possibility of a world in which skin colour is nothing more than a physical attribute, like the colour of your eyes or the shape of your nose, to be admired, calmly noted, or joked about. And a world in which the only race that matters is human race.
Deda, Melgaço, 2006
"Tanto que me lembro, vivi sempre com ele.
Sempre fui entendendo que se tratava de uma intimidade exposta aos olhares dos outros. E, agora, também exposta ao seu olhar. Fui percebendo que existias comigo, e além de mim. Chamei-lhe ser. Ao teu movimento, dei nome. Como o sentia íntimo e distante, fiz saber que não era um instrumento, mas órgão. Que não servias, mas expressavas. O que dissesse, fazia. Nem que demorasses.
Até modelar o corpo humano.
(...)
Fui dizendo que valia a pena.
Fui-lhes dizendo que te via, ser. Que se habituara a mentir, impostor que eras por manha, excepto com a rapariga que temia essa impostura da língua.
Disse-lhes que podias ser, que havia a possibilidade de que fôssemos a outra coisa, a restante vida, uma variedade de causa amante,
que havia caminho entre a sebe e o ser."
LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 2. O ensaio de Música. Lisboa: Rolim, 1994, p. 20.
Luc de Smet
Pai querido,
sento-me no teu lugar privilegiado - a cadeira na varanda, onde costumavas ler. Olho a paisagem que muitas vezes deves ter olhado. E escrevo.
A tua ausência física ainda dói em mim. Na verdade, dói cada vez mais porque cada vez mais cresce a certeza de que não mais te verei, não com olhos humanos. Sei que pouco a pouco a memória do timbre da tua voz, dos detalhes do teu rosto, enfim, da tua presença em movimento, tenderão a desvanecer-se .Temo que a passagem do tempo esmaeça traços de tua personalidade e do teu semblante, ainda tão vivos em mim. Não, não quero uma imagem fixa de ti, não quero te aprisionar num único instante, congelado, como na reprodução fotográfica. Por isso evito olhar os teus retratos. Porque aquela imagem te trai , porque não estás ali. Procuro então apreender-te através do fluir da escrita, na seqüência de instantes-já, como diria Clarice (Água Viva).
Ao escrever a ti, escrevo-te: construo-te num outro tempo-espaço, ergo-te em palavras, traço a traço, letra a letra. E sinto que vens te sentar outra vez à mesa, comigo, em mim.