Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
sábado, novembro 03, 2007
Coisas de criança 3
Atenta a tudo, a menininha respondeu:
- Boa-noite, vovô!
- Boa-noite, vovó!
De repente, virou-se de costas, deu uns passinhos em direção ao hall, e também com estrelinhas nos olhos, exclamou para um dos aposentos:
- Boa-noite, cozinha!
(Querida criança, apetece-me dizer-te este pensamento:
-Sim: aos teus olhos, as coisas também tem anima, claro. E quando há amor, os deuses lares mantém acesa a chama das lareiras-fogões, onde se preparam os alimentos que reconfortam o corpo e o espírito. Amanhã nos reuniremos outra vez no calor da cozinha, mesmo que não estejamos fisicamente juntos, pois o fulgor está contigo e conosco, aqui e aí.)
segunda-feira, outubro 29, 2007
O segredo da nobreza
Tens razão.
Significativamente, aqui deste lado do cais, quem sabe ao mesmo tempo que tu, eu também lia algo que me fazia pensar em ti, e tive também a idéia de te dar a ler essa leitura-pensamento.
A matéria versava sobre a difusão do "segredo" pelo mundo, apontando alguns possíveis praticantes, como Madre Teresa de Calcutá, que jamais apoiaria uma campanha antibélica, mas sim uma a favor da paz.
Então eu digo sim, para a tua sageza, para a nobreza do teu coração. Tentarei mudar de lentes.
Coisas de criança 2
- Oh, o avião foi embora ...
Em seguida, virando significativamente as duas mãozinhas para fora, explica:
- Ele foi nanar, vovó!
domingo, outubro 28, 2007
Por um mundo melhor
- Qual a a sensação de ser avó?
E respondi-te, igualmente de súbito, com palavras que nasceram-me do coração:
- É acreditar que o mundo pode ser melhor.
domingo, setembro 23, 2007
Coisas de criança 1
- Queres comer ovo? É de galinha!
- Não é - responde depressa a menininha.
- É sim - insiste a vovó. É ovo de galinha, meu amor.
- Não é da galinha, vovó - explica a menininha. - É da "nina"*.
* Tradução: o ovo é meu, é da menina.
quinta-feira, setembro 13, 2007
O cais é o porto de espera. Ontem estive na estação do lago, hoje vi estátuas no mar. Há qualquer traço que nos liga à terra; há qualquer movimento na água que nos traz a memória. O tempo passa, e as estátuas permanecem e o olhar distante que termina no horizonte não obtém resposta. A espera é infinita, o retorno dos que escolheram o mar fica na fala das gentes, atravessa os continentes e renasce no outro lado. São novos horizontes que irrompem onde o cais acaba e o sonho começa.
terça-feira, julho 24, 2007
quinta-feira, julho 19, 2007
Os mortos, o silêncio
Comove-me pensar que todos os passageiros, quando o avião pousou, respiraram aliviados (sobretudo os com medo de viagens aéreas), imaginando ter chegado ao destino, e já decerto sonhando com abraços e rencontros, jamais cogitando que morreriam instantes depois. Comove-me a inimaginável angústia do piloto naquele momento, percebendo e tentando desesperadamente evitar a tragédia. Comove-me pensar que funcionários da Tam Express e do posto de gasolina, atentos ao seu trabalho, foram subitamente envolvidos pelas chamas. Comove-me ver imagens, como a do bombeiro, recolhendo dos escombros pertences e malas chamuscados, que certamente traziam lembranças de viagem e prendas para os que ficaram. Comove-me ver os rostos dos mortos desconhecidos estampados nas páginas dos jornais. Comovem-me histórias de famílias destroçadas, de sonhos abortados, como a da aeromoça grávida de quatro meses, a das duas crianças que viajavam desacompanhadas, a do rapaz que deixou órfão um filhinho de três meses, a de outro que deixou dois filhos pequenos, a do funcionário da Tam Express que, desesperado, lançou-se do prédio em chamas...
Respeitosamente, envio o meu pensamento, em forma de silenciosa prece, para os familiares e amigos das vítimas, para os incansáveis bombeiros e demais profissionais que ajudam nos trabalhos.
Indignadamente, envio o meu protesto diante deste evitável acidente causado pela incompetência das "autoridades competentes". Se quiserem, podem chamar de vaia - uma ruidosa vaia, certamente não orquestrada, mas justificada, merecida.
quarta-feira, julho 18, 2007
Para onde foram as coisas que desapareceram no Porto?
segunda-feira, julho 16, 2007
sexta-feira, julho 13, 2007
Garton Ash no Rio de Janeiro
Na sua crónica habitual no The Guardian, publicada ontem, diz o seguinte:
It is precisely this mixing that has helped tomake Brazilians among the most handsome human beings on earth. What is foreshadowed here - but I repeat, only if Basil can correct its dreadful social and economic imbalances, including a heritage of discrimination - is the possibility of a world in which skin colour is nothing more than a physical attribute, like the colour of your eyes or the shape of your nose, to be admired, calmly noted, or joked about. And a world in which the only race that matters is human race.
segunda-feira, julho 09, 2007
Uma varanda para o futuro
Deda, Melgaço, 2006“A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também este bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.”
(Excerto de “Um pouco só de Goya: Carta a minha filha:”, in Imagias, de Ana Luísa Amaral, 2001)
sexta-feira, junho 29, 2007
O fim do "No Mínimo"
Aqui fica o epitáfio:
"Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita neste 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web. NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos. Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? Aos leitores, nossas desculpas pela falta de talento empreendedor, o que talvez pudesse transformar o site num bom negócio financeiro. Fica para a próxima. Até breve."
quarta-feira, junho 27, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
Partidas e Chegadas
quinta-feira, junho 21, 2007
A importância de ter a própria verdade
Sophia de Mello Breyner Andresen
sábado, junho 16, 2007
quarta-feira, junho 13, 2007
Na data natalícia do poeta Fernando (Antonio Nogueira) Pessoa
"Tanto que me lembro, vivi sempre com ele.
Sempre fui entendendo que se tratava de uma intimidade exposta aos olhares dos outros. E, agora, também exposta ao seu olhar. Fui percebendo que existias comigo, e além de mim. Chamei-lhe ser. Ao teu movimento, dei nome. Como o sentia íntimo e distante, fiz saber que não era um instrumento, mas órgão. Que não servias, mas expressavas. O que dissesse, fazia. Nem que demorasses.
Até modelar o corpo humano.
(...)
Fui dizendo que valia a pena.
Fui-lhes dizendo que te via, ser. Que se habituara a mentir, impostor que eras por manha, excepto com a rapariga que temia essa impostura da língua.
Disse-lhes que podias ser, que havia a possibilidade de que fôssemos a outra coisa, a restante vida, uma variedade de causa amante,
que havia caminho entre a sebe e o ser."
LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 2. O ensaio de Música. Lisboa: Rolim, 1994, p. 20.
terça-feira, junho 12, 2007
Sobreimpressões de retratos & sorrisos
Luc de SmetUm sorriso aberto alarga-se por todo o teu rosto, ilumina-te os olhos, irradia-se como uma aura que transcende o tempo. No registro deste instante fulgurante do teu ser reencontro potencialmente aberto o futuro.
Desloco o olhar para outro retrato em que uma criança sorri. Reencontro-te na semelhança do sorriso. Na luz que emana deste sorriso reencontro também Clara Serena, a filha do pintor Rubens, "figura de companhia" no estudo sobre a obra de Maria Gabriela Llansol.
Sorrio diante da potência destas imagens sobreimpressas. Talvez essas figuras não estejam no passado nem no presente. Talvez venham do futuro e já estejam entre nós, batendo à porta dos afetos, à espera de serem acolhidas. Nelas leio /ouço o apelo à construção de um outro modo de conceber o tempo.
Pela mão da escrita de Llansol, abro a porta, que já estava aberta. E saúdo-vos, imagens queridas, com o convite: " - [Vinde] contruir um amor comigo" (O senhor de Herbais, p. 311).















