A menininha adora comer. Todos já sabem que não é preciso insistir com ela. Aprecia - e pede - comidas que já conhece, mas também gosta de experimentar novos sabores.
Independente, quer comer com a própria mão, de preferência sentada à mesa com os adultos. Observadora e esperta como ela só, aproveita a oportunidade para ampliar a variedade do seu cardápio, provando de tudo. E já está manifestando desejo de usar outro tipo de talher, como os demais: o garfo e a faca.
Quando está satisfeita, em geral costuma empurrar ligeiramente o seu pratinho para o lado, ou entregá-lo a algum adulto, dizendo:
- Já está.
Se por acaso sobra algum restinho (sobretudo de iogurte) e ela quer comer tudo até o fim, vira-se para o pai e pede:
- Rapa, papai.
Ou:
- Rapa vovó (ou vovô, ou madrinha...dependendo de quem estiver mais próximo).
Um dia, a menininha acordou meio diferente. Não deu a mínima quando lhe ofereceram a sua fruta irrecusável: banana. A papa da manhã teve que ser "rapada" desde o início... tudo muito estranho....Não queria nem brincar. Só queria ficar recostada no colinho do pai, quietinha, quitinha.
Pouco depois, a família encontrou a explicação para a repentina quietude e perda de apetite . Não, não era miminho: o termômetro acusava quase quarenta graus! Só mesmo estando muito doente a menininha deixaria de gostar de brincar... e de comer.
Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
terça-feira, novembro 13, 2007
quinta-feira, novembro 08, 2007
Coisas de criança 6
Sabendo que em breve ficaria muitos meses sem ver a menininha, a avó decidiu escrever uma das canções que começou a ensinar a ela: a canção do coelhinho, trazida do seu tempo de educadora infantil. Tirou uma folha da agenda e, diante da menininha, foi cantando pausadamente, à medida que escrevia os versos :
- De olhos vermelhos/ de pêlo branquinho/ de pulo bem leve/ eu sou coelhinho...
A menina acompanhou atenta o canto-escrita da avó. No final, a avó desenhou um coelhinho, deu um beijo com marca de batom na folha e disse para a menina:
- Olha, bebê, vou dar este papel para a sua madrinha, assim ela canta com você, quando a vovó for embora.
A meninha pareceu gostar da idéia, sobretudo do carimbo colorido. Pegava a folha e dizia:
- Mais, vovó!
A avó repetiu o beijo...
- Mais, vovó!
Ela repetiu muitas vezes, até o carimbo ficar clarinho, clarinho, quase sem cor...
De tarde, já quase no final do encontro, foram passear no parque. De repente, a menina viu um grafite num banco e disse:
- Coelho.
Naquele momento, ninguém compreendeu bem o que a menina quis dizer. Só muito depois, a avó conseguiu encontrar, emocionada, uma possível explicação: talvez a menina tenha associado aquelas garatujas rabiscadas pelo anônimo grafiteiro com as letras que a avó escrevera enquanto cantava a canção do coelhinho...
O beijo ficara para sempre marcado!
- De olhos vermelhos/ de pêlo branquinho/ de pulo bem leve/ eu sou coelhinho...
A menina acompanhou atenta o canto-escrita da avó. No final, a avó desenhou um coelhinho, deu um beijo com marca de batom na folha e disse para a menina:
- Olha, bebê, vou dar este papel para a sua madrinha, assim ela canta com você, quando a vovó for embora.
A meninha pareceu gostar da idéia, sobretudo do carimbo colorido. Pegava a folha e dizia:
- Mais, vovó!
A avó repetiu o beijo...
- Mais, vovó!
Ela repetiu muitas vezes, até o carimbo ficar clarinho, clarinho, quase sem cor...
De tarde, já quase no final do encontro, foram passear no parque. De repente, a menina viu um grafite num banco e disse:
- Coelho.
Naquele momento, ninguém compreendeu bem o que a menina quis dizer. Só muito depois, a avó conseguiu encontrar, emocionada, uma possível explicação: talvez a menina tenha associado aquelas garatujas rabiscadas pelo anônimo grafiteiro com as letras que a avó escrevera enquanto cantava a canção do coelhinho...
O beijo ficara para sempre marcado!
terça-feira, novembro 06, 2007
Coisas de criança 5
Banana é com certeza a fruta de que a menininha mais gosta. Quando alguém lhe oferece a fruta, seus olhos se acendem, antes mesmo da boca soltar um entusiasmado SIM!
Nas primeiras férias que passou no campo, ela logo descobriu que coelhinhos comem folhagem e que também apreciam frutas, ou mais propriamente, as cascas (talvez gostem também das frutas... mas as pessoas só lhes oferecem as cascas...).
Assim que acabava de comer peras e, sobretudo, bananas , acostumou-se a entregar a casca a avó:
- Toma, vovó. É pro coelho!
A menina retornou à cidade. Meses se passaram. Ela jamais se esqueceu, no entanto, do que aprendera nas férias. Também a avó jamais se esqueceu de levar para a menina a fruta de que ela mais gostava. Assim, quando as duas se reencontravam, a avó, com um sorriso cúmplice, sempre lhe oferecia a fruta preferida. Sentada na cadeirinha do carro, a caminho de casa, a menina entretinha-se com o lanche saudável. Ao acabar, ignorando distâncias e impossibilidades, fazia questão de devolver a casca e o sorriso cúmplice à avó, entoando, com um jeitinho musical, a conhecida expressão:
- Toma, vovó. É pro coelho!
Sem saber bem como fazer chegar a casca até o coelhinho, a avó punha-se a conjecturar a possibilidade de, no convívio com outras pessoas, a menininha também lhes entregar cascas para que alimentassem os coelhinhos. E riu-se, imaginando-lhes a cara de espanto.
Nas primeiras férias que passou no campo, ela logo descobriu que coelhinhos comem folhagem e que também apreciam frutas, ou mais propriamente, as cascas (talvez gostem também das frutas... mas as pessoas só lhes oferecem as cascas...).
Assim que acabava de comer peras e, sobretudo, bananas , acostumou-se a entregar a casca a avó:
- Toma, vovó. É pro coelho!
A menina retornou à cidade. Meses se passaram. Ela jamais se esqueceu, no entanto, do que aprendera nas férias. Também a avó jamais se esqueceu de levar para a menina a fruta de que ela mais gostava. Assim, quando as duas se reencontravam, a avó, com um sorriso cúmplice, sempre lhe oferecia a fruta preferida. Sentada na cadeirinha do carro, a caminho de casa, a menina entretinha-se com o lanche saudável. Ao acabar, ignorando distâncias e impossibilidades, fazia questão de devolver a casca e o sorriso cúmplice à avó, entoando, com um jeitinho musical, a conhecida expressão:
- Toma, vovó. É pro coelho!
Sem saber bem como fazer chegar a casca até o coelhinho, a avó punha-se a conjecturar a possibilidade de, no convívio com outras pessoas, a menininha também lhes entregar cascas para que alimentassem os coelhinhos. E riu-se, imaginando-lhes a cara de espanto.
domingo, novembro 04, 2007
Coisas de criança 4
Foram as primeiras férias da menininha no campo. Nunca tinha convivido com coelhos, galinhas e cabritinhos de verdade. Só conhecia esses bichinhos dos livros.
A princípio, o medo era maior que o fascínio. Estacava diante do galinheiro, agarrada às pernas dos avós. Mas não desistia, e ficava a contemplar galos e galinhas durante muito tempo.
Logo depois, já puxava pela mão quem se dispusesse a ir com ela até lá. A menininha não se cansava nunca.Todos sabiam que isto significava aceitar brincar de estátua. A imobilidade só era interrompida pelos gritinhos extasiados que a menininha soltava, quando ouvia Co-co-ri-cós.
Mais algumas idas (poucas) e já dispensava a mão protetora. Segura de si, ela mesma queria dar folhas de couve às galinhas. Foi preciso encontrar uma maneira de, sem refrear-lhe a crescente autoconfiança, explicar-lhe os cuidados a observar para não levar bicadas -possibilidade que, naturalmente, a menininha ainda desconhecia.
Ao contrário das previsões dos adultos, de início não ligou muito para os coelhos. Parecia até aquela personagem da Clarice Lispector, apaixonada por galinhas. Então a avó resolveu tirar um coelhinho da toca para que ela o apreciasse de perto. Segurou-o delicadamente pelas orelhas, colocou-o no chão e deixou-a conviver com aquele bichinho de pêlo fofo e focinho trêmulo.
A menina gostou da experiência. Fez questão de ela mesma dar ao coelhinho folhas de couve. Segurava o caule firmemente, enquanto o animalzinho ia roendo, roendo... Ainda sem muita intimidade com ele, depressa encontrou um jeito de acariciá-lo: sem soltar a mão da avó, debruçava-se para vê-lo melhor e, com a outra mãozinha, conduzia a mão da avó até o interior da toca, fazendo gestos para que a avó o afagasse. Tocava-o, assim, através do corpo e do afeto de alguém em quem confiava.
A partir de então, a menininha passou a dividir o tempo da contemplação entre os seus dois novos amores.
A princípio, o medo era maior que o fascínio. Estacava diante do galinheiro, agarrada às pernas dos avós. Mas não desistia, e ficava a contemplar galos e galinhas durante muito tempo.
Logo depois, já puxava pela mão quem se dispusesse a ir com ela até lá. A menininha não se cansava nunca.Todos sabiam que isto significava aceitar brincar de estátua. A imobilidade só era interrompida pelos gritinhos extasiados que a menininha soltava, quando ouvia Co-co-ri-cós.
Mais algumas idas (poucas) e já dispensava a mão protetora. Segura de si, ela mesma queria dar folhas de couve às galinhas. Foi preciso encontrar uma maneira de, sem refrear-lhe a crescente autoconfiança, explicar-lhe os cuidados a observar para não levar bicadas -possibilidade que, naturalmente, a menininha ainda desconhecia.
Ao contrário das previsões dos adultos, de início não ligou muito para os coelhos. Parecia até aquela personagem da Clarice Lispector, apaixonada por galinhas. Então a avó resolveu tirar um coelhinho da toca para que ela o apreciasse de perto. Segurou-o delicadamente pelas orelhas, colocou-o no chão e deixou-a conviver com aquele bichinho de pêlo fofo e focinho trêmulo.
A menina gostou da experiência. Fez questão de ela mesma dar ao coelhinho folhas de couve. Segurava o caule firmemente, enquanto o animalzinho ia roendo, roendo... Ainda sem muita intimidade com ele, depressa encontrou um jeito de acariciá-lo: sem soltar a mão da avó, debruçava-se para vê-lo melhor e, com a outra mãozinha, conduzia a mão da avó até o interior da toca, fazendo gestos para que a avó o afagasse. Tocava-o, assim, através do corpo e do afeto de alguém em quem confiava.
A partir de então, a menininha passou a dividir o tempo da contemplação entre os seus dois novos amores.
sábado, novembro 03, 2007
Coisas de criança 3
Aquele dia foi um dia especial, repleto de mil e uma brincadeiras, com intenso convívio familiar, sobretudo na na sala e na cozinha. Cansados, felizes e sonolentos, os avós encaminharam-se para o quarto e começaram a dar boa-noite a todos, um por um, entatizando com estrelinhas nos olhos o BOA-NOITE dado à pequena netinha.
Atenta a tudo, a menininha respondeu:
- Boa-noite, vovô!
- Boa-noite, vovó!
De repente, virou-se de costas, deu uns passinhos em direção ao hall, e também com estrelinhas nos olhos, exclamou para um dos aposentos:
- Boa-noite, cozinha!
(Querida criança, apetece-me dizer-te este pensamento:
-Sim: aos teus olhos, as coisas também tem anima, claro. E quando há amor, os deuses lares mantém acesa a chama das lareiras-fogões, onde se preparam os alimentos que reconfortam o corpo e o espírito. Amanhã nos reuniremos outra vez no calor da cozinha, mesmo que não estejamos fisicamente juntos, pois o fulgor está contigo e conosco, aqui e aí.)
Atenta a tudo, a menininha respondeu:
- Boa-noite, vovô!
- Boa-noite, vovó!
De repente, virou-se de costas, deu uns passinhos em direção ao hall, e também com estrelinhas nos olhos, exclamou para um dos aposentos:
- Boa-noite, cozinha!
(Querida criança, apetece-me dizer-te este pensamento:
-Sim: aos teus olhos, as coisas também tem anima, claro. E quando há amor, os deuses lares mantém acesa a chama das lareiras-fogões, onde se preparam os alimentos que reconfortam o corpo e o espírito. Amanhã nos reuniremos outra vez no calor da cozinha, mesmo que não estejamos fisicamente juntos, pois o fulgor está contigo e conosco, aqui e aí.)
segunda-feira, outubro 29, 2007
O segredo da nobreza
Disseste-me, com rara sabedoria , através de uma leitura em que pensaste em mim, que deveria cultivar mais as emoções positivas, procurando alterar a perspectiva e o modo de construção do relato das experiências de vida.
Tens razão.
Significativamente, aqui deste lado do cais, quem sabe ao mesmo tempo que tu, eu também lia algo que me fazia pensar em ti, e tive também a idéia de te dar a ler essa leitura-pensamento.
A matéria versava sobre a difusão do "segredo" pelo mundo, apontando alguns possíveis praticantes, como Madre Teresa de Calcutá, que jamais apoiaria uma campanha antibélica, mas sim uma a favor da paz.
Então eu digo sim, para a tua sageza, para a nobreza do teu coração. Tentarei mudar de lentes.
Tens razão.
Significativamente, aqui deste lado do cais, quem sabe ao mesmo tempo que tu, eu também lia algo que me fazia pensar em ti, e tive também a idéia de te dar a ler essa leitura-pensamento.
A matéria versava sobre a difusão do "segredo" pelo mundo, apontando alguns possíveis praticantes, como Madre Teresa de Calcutá, que jamais apoiaria uma campanha antibélica, mas sim uma a favor da paz.
Então eu digo sim, para a tua sageza, para a nobreza do teu coração. Tentarei mudar de lentes.
Coisas de criança 2
Extasiada, vendo um avião sobrevoar o céu e desaparecer no horizonte, a menininha volta-se para a avó e comenta:
- Oh, o avião foi embora ...
Em seguida, virando significativamente as duas mãozinhas para fora, explica:
- Ele foi nanar, vovó!
- Oh, o avião foi embora ...
Em seguida, virando significativamente as duas mãozinhas para fora, explica:
- Ele foi nanar, vovó!
domingo, outubro 28, 2007
Por um mundo melhor
Perguntaste-me, de súbito, na noite do emocionado reencontro entre avós e neta, separados geograficamente há quase um ano:
- Qual a a sensação de ser avó?
E respondi-te, igualmente de súbito, com palavras que nasceram-me do coração:
- É acreditar que o mundo pode ser melhor.
- Qual a a sensação de ser avó?
E respondi-te, igualmente de súbito, com palavras que nasceram-me do coração:
- É acreditar que o mundo pode ser melhor.
domingo, setembro 23, 2007
Coisas de criança 1
A menininha senta-se alegre para comer e a vovó lhe diz:
- Queres comer ovo? É de galinha!
- Não é - responde depressa a menininha.
- É sim - insiste a vovó. É ovo de galinha, meu amor.
- Não é da galinha, vovó - explica a menininha. - É da "nina"*.
* Tradução: o ovo é meu, é da menina.
- Queres comer ovo? É de galinha!
- Não é - responde depressa a menininha.
- É sim - insiste a vovó. É ovo de galinha, meu amor.
- Não é da galinha, vovó - explica a menininha. - É da "nina"*.
* Tradução: o ovo é meu, é da menina.
quinta-feira, setembro 13, 2007
O cais é o porto de espera. Ontem estive na estação do lago, hoje vi estátuas no mar. Há qualquer traço que nos liga à terra; há qualquer movimento na água que nos traz a memória. O tempo passa, e as estátuas permanecem e o olhar distante que termina no horizonte não obtém resposta. A espera é infinita, o retorno dos que escolheram o mar fica na fala das gentes, atravessa os continentes e renasce no outro lado. São novos horizontes que irrompem onde o cais acaba e o sonho começa.
terça-feira, julho 24, 2007
quinta-feira, julho 19, 2007
Os mortos, o silêncio
Dizem que a colossal vaia ao Presidente da República do Brasil, na abertura dos Jogos do Pan, foi "orquestrada pela oposição". Mas ninguém poderá dizer que foi orquestrado o silêncio das pessoas que passavam pela habitualmente ruidosa Avenida Washington Luís, local do acidente com o airbus da Tam, assim como o silêncio da equipe de resgate, dos moradores das imediações e da população em geral. Silêncio de consternação e respeito pelas vidas interrompidas (quase duas centenas) desta "tragédia anunciada", conforme ecoam as manchetes dos jornais. Silêncio de solidariedade pela dor dos parentes e amigos. Silêncio de indignação diante das conseqüências do descaso geral. Silêncio compungido mas também acusador, diante do covarde silêncio das autoridades em reconhecer a sua parcela de responsabilidade e conveniente tagarelice em lançar para outras instâncias o ônus da irresponsabilidade e desgoverno que imperam no país.
Comove-me pensar que todos os passageiros, quando o avião pousou, respiraram aliviados (sobretudo os com medo de viagens aéreas), imaginando ter chegado ao destino, e já decerto sonhando com abraços e rencontros, jamais cogitando que morreriam instantes depois. Comove-me a inimaginável angústia do piloto naquele momento, percebendo e tentando desesperadamente evitar a tragédia. Comove-me pensar que funcionários da Tam Express e do posto de gasolina, atentos ao seu trabalho, foram subitamente envolvidos pelas chamas. Comove-me ver imagens, como a do bombeiro, recolhendo dos escombros pertences e malas chamuscados, que certamente traziam lembranças de viagem e prendas para os que ficaram. Comove-me ver os rostos dos mortos desconhecidos estampados nas páginas dos jornais. Comovem-me histórias de famílias destroçadas, de sonhos abortados, como a da aeromoça grávida de quatro meses, a das duas crianças que viajavam desacompanhadas, a do rapaz que deixou órfão um filhinho de três meses, a de outro que deixou dois filhos pequenos, a do funcionário da Tam Express que, desesperado, lançou-se do prédio em chamas...
Respeitosamente, envio o meu pensamento, em forma de silenciosa prece, para os familiares e amigos das vítimas, para os incansáveis bombeiros e demais profissionais que ajudam nos trabalhos.
Indignadamente, envio o meu protesto diante deste evitável acidente causado pela incompetência das "autoridades competentes". Se quiserem, podem chamar de vaia - uma ruidosa vaia, certamente não orquestrada, mas justificada, merecida.
Comove-me pensar que todos os passageiros, quando o avião pousou, respiraram aliviados (sobretudo os com medo de viagens aéreas), imaginando ter chegado ao destino, e já decerto sonhando com abraços e rencontros, jamais cogitando que morreriam instantes depois. Comove-me a inimaginável angústia do piloto naquele momento, percebendo e tentando desesperadamente evitar a tragédia. Comove-me pensar que funcionários da Tam Express e do posto de gasolina, atentos ao seu trabalho, foram subitamente envolvidos pelas chamas. Comove-me ver imagens, como a do bombeiro, recolhendo dos escombros pertences e malas chamuscados, que certamente traziam lembranças de viagem e prendas para os que ficaram. Comove-me ver os rostos dos mortos desconhecidos estampados nas páginas dos jornais. Comovem-me histórias de famílias destroçadas, de sonhos abortados, como a da aeromoça grávida de quatro meses, a das duas crianças que viajavam desacompanhadas, a do rapaz que deixou órfão um filhinho de três meses, a de outro que deixou dois filhos pequenos, a do funcionário da Tam Express que, desesperado, lançou-se do prédio em chamas...
Respeitosamente, envio o meu pensamento, em forma de silenciosa prece, para os familiares e amigos das vítimas, para os incansáveis bombeiros e demais profissionais que ajudam nos trabalhos.
Indignadamente, envio o meu protesto diante deste evitável acidente causado pela incompetência das "autoridades competentes". Se quiserem, podem chamar de vaia - uma ruidosa vaia, certamente não orquestrada, mas justificada, merecida.
quarta-feira, julho 18, 2007
Para onde foram as coisas que desapareceram no Porto?
Gente, desculpa, mas não é todo o dia que as nossas amigas maravilhosas aparecem aqui. Fica então indicado o atalho para conhecer um pouquinho do trabalho que a bailarina Vera Santos tem desenvolvido em Lisboa. E por que é que esta artista nascida e "residente" no Porto (e loucamente apaixonada pelo Porto) passa mais tempo em Lisboa do que no Porto? Boa pergunta.
segunda-feira, julho 16, 2007
sexta-feira, julho 13, 2007
Garton Ash no Rio de Janeiro
O britânico Timothy Garton Ash está no Brasil, mas precisamente no Rio de Janeiro. Já foi à Cidade de Deus, conversou com a antropóloga Alba Zaluar, com o músico MC qualquer coisa (desculpem, tenho péssima memória) e descobriu só agora as várias e criativas formas que os brasileiros têm de definir a sua própria cor (geralmente por ocasião do censos): café com leite, torradinho e marrom bombom são apenas alguns exemplos.
Na sua crónica habitual no The Guardian, publicada ontem, diz o seguinte:
Na sua crónica habitual no The Guardian, publicada ontem, diz o seguinte:
It is precisely this mixing that has helped tomake Brazilians among the most handsome human beings on earth. What is foreshadowed here - but I repeat, only if Basil can correct its dreadful social and economic imbalances, including a heritage of discrimination - is the possibility of a world in which skin colour is nothing more than a physical attribute, like the colour of your eyes or the shape of your nose, to be admired, calmly noted, or joked about. And a world in which the only race that matters is human race.
segunda-feira, julho 09, 2007
Uma varanda para o futuro
Deda, Melgaço, 2006“A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também este bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.”
(Excerto de “Um pouco só de Goya: Carta a minha filha:”, in Imagias, de Ana Luísa Amaral, 2001)
sexta-feira, junho 29, 2007
O fim do "No Mínimo"
Gente, o site brasileiro No Mínimo despede-se hoje. Não por falta de leitores, não por falta de qualidade. Por falta de dinheiro mesmo. Onde é que eu já ouvi esta história?
Aqui fica o epitáfio:
"Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita neste 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web. NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos. Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? Aos leitores, nossas desculpas pela falta de talento empreendedor, o que talvez pudesse transformar o site num bom negócio financeiro. Fica para a próxima. Até breve."
Aqui fica o epitáfio:
"Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita neste 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web. NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos. Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? Aos leitores, nossas desculpas pela falta de talento empreendedor, o que talvez pudesse transformar o site num bom negócio financeiro. Fica para a próxima. Até breve."
quarta-feira, junho 27, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
Partidas e Chegadas
O Notícias do Cais completa hoje quatro anos de vida. Já não são duas mãos solitárias como no início, agora há duas outras que escrevem a partir do Rio de Janeiro. Houve uma ponte entretanto, sinal de que parte do desejo se cumpriu.
quinta-feira, junho 21, 2007
A importância de ter a própria verdade
"Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou se não vivemos com verdade e dignidade. É necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz, o próximo."
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen
Subscrever:
Mensagens (Atom)










