sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Um novo cais


O nosso Toni agora tem mais cais. Vale a pena visitar. Chama-se Sede de Rede.

Há uma parte que diz assim: "E é no cais que encontro lugares que nunca vi, pessoas que julgava não ter a oportunidade de conhecer. O cais é o porto de encontro, mas é só o início, só o início."

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A avó e os netos do coração



Todos os dias, quando chega da creche, o bebê corre à fresta que separa a sua varanda da do apartamento vizinho, e chama:

- Titi! Titi!

Titi, para ele, é o nome da vizinha. E ela prontamente responde:

- Uh!
- Uh! - repete o menininho.
- A titia está aqui, meu amor!

Ambos trocam pequenos objetos pelos buracos da rede protetora. De vez em quando, a titi precisa se ausentar, mas antes explica para o menininho:

- A titia vai tomar banho e depois vai caminhar com o titio, está bem? Tchau, até logo, meu amor!

Quando retorna, espanta-se com a série de carros e bonequinhos que o bebê conseguiu passar para a sua varanda. Sempre atento, ele logo percebe quando há alguém do outro lado. E começa tudo outra vez:

- Titi!
-Uh! Estou aqui!

A titia não sabe direito como esse caso de amor começou. Lembra-se que a irmã do menininho, quando era bebê, também gostava de interagir com ela através da varanda, mas de modo diferente, admirando-se de vê-la no reflexo do vidro espelhado. O fato é que, não importa a maneira, os pequeninos conseguem perceber o quanto ela gosta de crianças. E ela ama muito esse neto do coração, assim como ama a netinha que vive longe (a menininha das histórias deste blog). E, com certeza, será imenso o afeto que sentirá (já sente) pelo outro neto do coração, que em breve vai nascer, também longe, filho de uma amiga muito querida.

Para ela, todos eles estão juntos, muito perto, envolvidos pelo mesmo anel de fulgor.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Coisas de criança 12

A menininha começou muito cedo a falar, espantando a todos com o seu domínio da linguagem. Um dia, não se sabe exatamente como nem quando, viu imagens de pingüins e ficou encantada com aqueles bichinhos. Como ainda não conhecia aqueles seres nem a palavra que os designava, exclamou:

- Kamimis! Kamimis! (ou camimes... como saber a grafia correta?)

A tia-madrinha achou muita graça e logo avisou à avó distante:

- Mãe, quando você vier, vai se encantar ao ouvir a palavra que a sua neta inventou para pingüins: kamimis!

A avó admirou-se, é claro. De onde saíra aquele inesperado neologismo? Quando enfim puderam conviver pessoalmente com a netinha, os avós confirmaram o quanto crescera o seu vocabulário. No entanto, percebendo a repercussão de sua criação lingüística, a menininha não mais repetiu kamimis. Apesar de aprender palavras difíceis (como helicóptero), tampouco fala pingüins, embora saiba perfeitamente de que se trata. Faz-se de rogada, com sorriso nos olhos, demonstrando entender que todos querem mesmo é ouvi-la.

Não importa. O fato é que kamimis já faz parte da memória afetiva familiar. Está presente inclusive nos ícones dos emocions trocados entre a avó, a madrinha, o pai da menininha e os amigos mais próximos.

Outra vez a viver deste lado do cais, longe da menininha, a avó espantou-se com a profusão de pingüins na passarela do Sambódromo do Rio de Janeiro. Neste ano, duas Grandes Escolas Samba do Grupo A, a Viradouro e a Unidos da Tijuca, apresentaram fantasias e carros alegóricos sobre o tema.

Não é difícil imaginar o pensamento da avó, enquanto assistia ao desfile pela TV:

- Oh! Kamimis! Certamente a menininha teria amado ver tantos kamimis a sambar na avenida!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Fantasias da neta e da avó

Copacabana, Rio de Janeiro, Sábado de Carnaval no Calçadão da Avenida Atlântica. No chão e no ar, só confete e serpentina. Felizmente as ruas (e os transeuntes) estão livres daquele spray de espuma grudenta. Proibição ecologicamente correta.

Enquanto fazem a costumeira caminhada, a avó e o avô aproveitam para ver os blocos e foliões ao longo da avenida. A avó encanta-se com as fantasias das crianças pequenas: há odaliscas, fadas, bailarinas... Subitamente, não resiste e interrompe a caminhada, ao ver uma bebê que mal sabia andar, fantasiada de baianinha: saia curta com camadas de babados, colares leves e turbante. Muito fofa, brasileiríssima!

Pensando na netinha distante, a avó mentalmente começa a experimentar todos aqueles figurinos carnavalescos na sua menininha. De todos, o que lhe ficou melhor, sem dúvida, foi o último, o de baianinha. Imaginou-a maravilhada, correndo ao espelho para se ver, como na brincadeira em que enfia camisetas na cabeça, fingindo que são chapéus.

Foram tantas as fantasias que, quando a avó se deu conta, já completara a caminhada!

domingo, fevereiro 03, 2008

Amor de Carnaval desaparece na fumaça...

Diz uma conhecida canção popular ("Máscara Negra" ) que amor de Carnaval dura pouco. É como fogo de artifício: brilha e desaparece na fumaça. Há, é claro, muitas histórias de amor que começaram no Carnaval e se mantêm até hoje. Mas há também muitas outras que acabaram na Quarta-feira de Cinzas, ou sequer chegaram lá...

Na minha mocidade, tive um amor de Carnaval, efêmero como o da canção de Zé Kéti. Talvez só tenha ficado na memória por ter sido o meu primeiro amor, experiência considerada significativa, numa época profundamente romântica (que desconhecia o atual ficar). Ou quem porque, quase imediatamente depois, eu encontraria o amor-de-toda-a-vida.

Conheci-o num baile carnavalesco de um clube altamente familiar (juro, havia esse tipo de associação). Estava com amigos numa mesa próxima. Trocamos olhares. Eu e as moças do grupo dele logo fizemos amizade e dançamos juntas. Estranhamente, ele não dançou com ninguém. Só mais tarde, através da mediação das amigas (eu estava sob vigilância familiar...), convidou-me para dançar. Encontramos-nos no meio do salão. Fluímos em par, a mão dele no meu ombro, a minha mão na cintura dele, empurrados pela multidão, no ritmo de marchinhas e sambas: Quanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão!; Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é , será que ele é!... O batuque era ensurdecedor e mal ouvíamos o que o outro dizia. Lembro-me de ele ter explicado que trabalhara de noite e por isso estava exausto. Nenhum de nós, por diferentes razões, poderia ficar até a banda tocar Cidade maravilhosa, sinal inequívoco de fim de baile. Pediu o número do meu telefone: eu não tinha (hoje, na era da popularização do celular, algo inconcebível...). Tentou obter uma Bic emprestada para escrever o dele, mas não conseguiu. Então rascunhou-o com palito de fósforo usado, creio que nas costas da própria caixa.

Não contarei as cenas dos próximos capítulos porque não valem a pena. O fato é que esse amor não manteve acesa a chama, nem reacendeu, como o fósforo apagado que servou de caneta. Já o amor pós-Carnaval, esse revelou-se Amor com A maiúsculo. Fulgurou e não morreu. A cada dia apura o sabor, como um bom vinho.

A memória e as crianças

Adoro ler as memórias de infância da minha mãe. Fico exultante com esta preciosidade que é a junção da memória e da narrativa, uma espécie de máquina do tempo que me permite aceder a eventos que decorreram pelo menos duas décadas antes do meu nascimento.
Há dias uma amiga disse-me que andava encantada com o rápido crescimento dos filhos. Porque eles são crianças, dizia ela, muito pequeninas, e nós achamos que somos nós que registamos as suas recordações. E, depois, com três ou cinco aninhos, já nos deparamos com os meninos a dizer: "Mãe, lembra quando a gente comeu aquele doce? E daquela viagem que fizemos até àquele lugar?" Sim, já construíram o se próprio álbum de memórias.
Eu achei uma observação fantástica. Nunca tinha pensado nisso.

sábado, fevereiro 02, 2008

Uma antiga história de Carnaval

A lembrança mais antiga que tenho do Carnaval ocorreu na minha meninice, no Alto da Boa Vista. Foi uma experiência de muito medo.

Algumas imagens fortemente impressas na memória aderem a relatos familiares, dando consistência e significado ao vivido. Na mais intensa delas, encontro-me escondida debaixo da cama, firmemente agarrada a um de seus pés. Nenhuma força humana conseguiria me tirar dali. Debalde tentaram me convencer que o motivo do pavor havia desaparecido: anda, não tenhas medo, podes sair daí, o mascarado já foi embora!

O mascarado a que se referiam era um homem fantasiado de gorila. Fantasiado não: para o eu-criança, ERA um gorila de verdade, com cabeça, mãos, pés, enfim, em tudo exatamente igual a um imenso, peludo e assustador gorila.

Não me lembro da cena em que o vi, só do efeito da visão. Soube que era costume na época os mascarados baterem às portas das casas, pedindo dinheiro. Quem sabe foi assim que me deparei de repente com ele. Tampouco sei a origem de tal medo. Talvez alguém, consciente ou inconscientemente, tivesse dito algo que me deixou predisposta a temê-lo. Curiosamente, lembro-me de ver passar, sem medo algum, carnavalescos com fantasias como a da caveira, hoje com certeza bem mais aterradora para a adulta que me tornei...

Lembro-me ainda que, passado algum tempo (não sei quanto, mas não deve ter sido pouco...), alguém me apontou (de longe, é claro...), já sem a máscara no rosto e sem as luvas-patas, o tal homem-gorila a lanchar na loja onde trabalhava o meu pai. Os meus olhos diziam que sim, que de fato pareciam humanos aquela boca a mastigar os alimentos e aquelas mãos que os levavam à boca. Contudo, havia TODO o resto da fantasia a lembrar-me que o monstro ainda estava ali. E então os olhos logo traíram a antiga e tênue certeza, fazendo o coração bater acelerado. Sobretudo quando avistaram, pousadas sobre o balcão, aquelas medonhas patas simiescas, cheias de garras.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Dupla data natalícia

Hoje a avó e o avô têm pelo menos duas razões para celebrar a vida.

Primeira: a netinha que vive em Portugal completa dois anos e meio. Por isso, ontem, quando a avó e o avô conversaram com a menininha através da webcan, a avó fez questão de não deixar sem registro essa data. Bastou apenas entoar a expressão "parabéns pra você" e, mesmo sem entender bem o porquê da canção, a netinha abriu logo um largo sorriso. Não havia ali naquele momento nenhuma máquina fotográfica para gravá-lo, mas não faz mal: a linda imagem ficou poderosamente impressa na memória afetiva dos avós.

Segunda: há exatamente nove anos atrás, no INCOR de São Paulo, o vovô recebia uma prótese no coração. De certo modo, se consideramos essa nova vida, o avô ainda é uma criança, por vontade divina (a mão de Deus) e perícia humana (o diagnóstico preciso do cardiologista, Dr. Flávio, e a mão experiente do cirurgião, Dr. Pablo). Assim, nesse novo tempo que lhe foi concedido, o avô teve muitas alegrias (e algumas tristezas também, pois fazem parte da vida, contudo não vale a pena delas falar), mas, sem dúvida, a maior de todas foi a de poder conhecer a menininha de sorriso luminoso.

Hoje a avó e o vovô comemorarão com uma bacalhoada especial essa dupla data natalícia. Dessalgar o bacalhau é sempre tarefa do avô. Prepará-lo e arrumar a mesa, em geral cabe à avó. Enquanto não chega a hora da refeição, a avó escreve este post e sorri, lembrando-se das palavras que escreveu no cartão de agradecimento à equipe médica do hospital (fica aqui novamente registrada a sua imensa gratidão): "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce" (Fernando Pessoa). E, apesar da saudade dos filhos e da netinha que vivem do outro lado do cais, enche o seu coração a certeza desta alegria: saber que, logo mais, ela e seu amor brindarão à felicidade de estarem juntos, vivos.

Por tudo isso, nunca é demais repetir, recorrendo às palavras de outro poeta, a vida "é bonita, é bonita e é bonita" (Gonzaguinha).

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Coisas de criança 11

Esta história ocorreu quando a menininha passou férias pela primeira vez com os avós, com quem pouco convivia, pois eles moravam em outro país.

Quando os avós vieram a Portugal, a menininha pôde enfim ficar uns dias com eles, na casa da bisavó, situada numa vila, fora das grandes cidades. Foi nessa época que exultou com os cataventos, deliciou-se com as frutas da época, conheceu vários bichos, tomou banho de piscininha no quintal, enfim, divertiu-se a valer.

Na primeira noite, após brincar animadamente na sala, chegou a hora de ir para a cama. Para convencê-la, a avó precisou recorrer a um refrão, desfiando os nomes de pessoas e bichos que já tinham ido dormir:

- As galinhas foram nanar. O tio * subiu para o quarto dele, foi nanar. A tia * foi nanar. O vovô * já foi nanar. Todo mundo foi nanar. A vovó * está com soninho e quer nanar. Você também vai nanar...

A menininha entendeu perfeitamente e, sem estranhar, aceitou deitar-se na nova caminha, aos pés da cama dos avós. Tão à vontade, que parecia sempre ter dormido ali.

A avó cobriu a neta com a manta, pôs em redor dela alguns bonecos (os preferidos daquele momento), acariciou-lhe suavemente os caracóis e deu-lhe muitos beijos de boa-noite. Depois, deitou-se e apagou a luz.

Logo a menininha falou :
- Vovó!
A avó prontamente respondeu:
- Hãn?
- A luz!

Pensando que a menininha só queria comentar que a luz se apagara (e talvez prolongar um pouco mais a possibilidade de ficar acordada...), a avó respondeu:

-Sim, meu amor, vovó apagou a luz.

Este diálogo repetiu-se várias vezes até que as duas finalmente adormeceram.

Só depois a avó ficou a saber que a menininha costumava adormecer com uma luzinha acesa. Costumava, porque, a partir de então, nunca mais comentou quando a avó apagava a luz...

domingo, janeiro 20, 2008

A avó e o abraço de Emmanuel e sua mãe

A avó anda meio (para não dizer muito) desalentada. Preocupa-se demais com a visível perda de valores fundamentais, em diversos setores da sociedade, sobretudo na esfera familiar. Ocorre-lhe um exemplo, bastante próximo, do terrível poder das forças desagregadoras: um bom homem levou mais de vinte anos pacientemente a tentar reaproximar os membros desavindos da família. Quando cuidava que enfim havia conseguido, eis que, por gosto de cobiça, a maldição de Caim fez-se presente, e a força centrífuga da desarmonia e do desamor contaminou a todos, de forma bem mais devastadora, trazendo ao velho pai um misto de impotência, vergonha e profunda tristeza nos últimos anos da sua vida.

Em outras famílias (infelizmente em quase todas há sempre um caso: um primo, um sobrinho, um filho...), as conseqüências das drogas são igualmente ou ainda mais devastadoras. Todos - pais, irmãos, avós... - são atingidos pelos efeitos e sofrem de alguma maneira com a situação. Lares são destruídos. Potencialidades desperdiçadas. Projetos de vida abortados ou sequer concebidos. Milhares de vidas perdidas, envolvendo em dor e lágrimas quem estiver próximo. E apesar de toda informação que circula, das campanhas na mídia, dos esclarecimentos de educadores e especialistas, dos cuidados dos familiares, o problema cresce exponencialmente, de forma assustadora.

Mais terrível ainda é quando os próprios pais, inteiramente inconseqüentes em relação ao ambiente em que os filhos vivem, entregam-se ao vício, expondo a integridade física e psicológica das crianças. Como não sentir desalento e preocupação, quando se tem notícia de que aqueles que a princípio deveriam zelar pela educação dos filhos, transmitindo-lhe os valores fundamentais que já andam tão escassos, são justamente os que, em suas ações e atitudes cotidianas, revelam-se incapazes de transmiti-los? Que futuro terão as crianças que convivem num ambiente familiar com adultos drogados? O que esses pais poderão oferecer-lhes em termos de formação de caráter?

Para não sucumbir diante da crescente tendência à desagregação de valores básicos, a avó apega-se à comovente imagem que andou circulando na imprensa mundial: a foto do abraço do pequeno Emmanuel e sua mãe, Clara Rojas. Para potencializar essa imagem, acrescenta-lhe a da tenaz mãe de Clara, de quem se sente muito cúmplice, imaginando-lhe a dupla alegria de enfim reencontrar a filha e o neto. Talvez essa imagem de afeto familiar seja um bom antídoto para o pessimismo geral. Talvez esse triplo abraço lhe traga um pouco de alento, enfim, um fio luminoso de esperança de que, apesar de tudo, pelo menos algumas (embora raras) vezes, a força agregadora do amor pode vencer.

sábado, janeiro 19, 2008

New haven


Quando este espaço virtual foi por mim criado, há quase cinco anos, não imaginava que o seu nome cumprisse tão bem o fim a que se destina: um ponto de encontro entre três pessoas separadas pelo oceano. Amanhã faz quinze dias que cheguei à Inglaterra. Tuki continua no Brasil (apesar de ser portuguesa). E Toni em Portugal (apesar de ser brasileiro). É bom saber que tenho este cais, dá-me segurança, imensa. Quando assim é, não custa tanto a partida e a ousadia (será ousado quem parte em segurança?). Nem sequer precisamos olhar para trás. Sabemos que estão ali, estarão sempre ali.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Coisas de criança 10

Tão pequenina a menina e já compreende perfeitamente a possibilidade de se comunicar com pessoas ausentes através dos modernos recursos! A madrinha, inclusive, um dia já a surpreendeu num delicioso faz-de-conta ao telefone, mantendo uma conversa imaginária com a vovó...

De quinze em quinze dias, através da webcan, a menininha interage com os avós que moram longe. Sente-se tão à vontade com a "presença" internética deles, que continua a brincar e a desenhar naturalmente, como se eles estivessem ali com ela, no mesmo aposento. De vez em quando, a pedido dos avós, levanta o papel ou o brinquedo e os mostra a eles, voltando-os para a tela....

Só uma única vez, quando começou a aprender a interagir eletronicamente, enganou-se e encostou o desenho ao ascultador do telefone, mas , orientada pela explicação do pai, rapidamente corrigiu a posição... Assim, sempre que têm oportunidade, os avós e a neta conversam e mostram objetos distantes...

Na mais recente comunicação entre avós e netinha, procurando reavivar brincadeiras de quando estavam juntos, a vovó disse à menina, enquanto estendia os braços em direção à câmera, fingindo brincar de pega-pega:

"- Eu vou te pegar! Eu e o vovô vamos te pegar!!!!!!!"

Esperta como ela só, a menininha logo respondeu, olhando a imagem dos avós enquadrada na tela do computador:

" - Não vão nada! Vocês estão presos!"

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Coisas de pais e filhos 3

Enquanto faz a sua costumeira caminhada à beira-mar, a mãe observa os grupos de pessoas a festejarem a alegria do convívio. O calçadão da Avenida Atlântica é pura festa em épocas tradicionalmente de grande euforia, como as da passagens de Ano. Sente-se a vibração no ar, como que em uníssono.

"Devem ser familiares..., alguns decerto vieram de longe..." - pensa a mãe. "Como seria bom se em Festas especiais, como aniversários, Natal e Ano Novo, pais e filhos sempre pudessem comemorar juntos..."

Apetece-lhe imaginar que, num futuro não muito distante, com a força do pensamento, num simples fechar de olhos, poderíamos nos transportar quase instantaneamente através do espaço.

Aperta os olhos e vê-se, como que por sonho ou magia, a adentrar subitamente na festa onde estão reunidos, em outro continente, quatro seres muito amados.

Sente muita saudades deles. Gostaria tanto de lá estar! Suspira... mas depois percebe que, mesmo sem tele-transporte, de certo modo, lá está. Sim, está com eles, através do afeto que os une, um laço muito forte, cada vez mais intenso.

Então, ultrapassando a diferença de fuso horário, ergue uma taça imaginária em seu coração, celebrando aqui, com eles, a festa de lá.

Depois estende o brinde a todo o universo, pensando o quanto é magnífico haver este dia especial, em que a população do mundo celebra a renovação das esperanças. Consegue visualizar a força da gigantesca onda de energia a unir a todos, como uma imensa "ola" humana a rodar por todo o planeta, do Oriente ao Ocidente, do Norte ao Sul , progagando-se à medida que mudam os fusos horários.

É esta a imagem-pensamento que gostaria de oferecer, junto com o brinde, àqueles que mais ama.

domingo, dezembro 23, 2007

A avó, a neta e o espírito de Natal

A avó, sempre que dezembro chegava, esforçava-se ao máximo para deixar-se contagiar pelo espírito de Natal. No entanto, nessa época vinha-lhe uma certa tristeza, talvez nostalgia, não dos antigos Natais vividos e inesquecíveis, mas do que poderia ter sido e não foi. Havia sempre uma defasagem entre a expectativa, o Natal sonhado, e o efetivamente realizado. Ficava um certo travo, um sabor um tanto amargo. Incomodavam-na profundamente a febre consumista, a agitação daquele mundo de gente-que-deixa-tudo-pra-última hora; a hiper-presença de Papai Noel como garoto propaganda de shoppings e lojas (e, em contrapartida, o quase total esquecimento do aniversariante - Jesus); as interesseiras "caixinhas", por vezes acompanhadas de falsas gentilezas pré-natalinas, em geral inexistentes durante o ano; o aumento inexplicável de muitos produtos, sob o pretexto de - como não aceitava e entendia isso? - "é Natal "! ; etc.

Além disso, ou sobretudo, Natal lembrava-lhe a família distante - os filhos, a querida netinha... Difícil Dezembro. E este havia sido, justamente, o mês da perda de um dos familiares mais amados... Tudo isso conflitava com uma certa obrigatoriedade de ter-que-ser-feliz nessa data... Por isso, o Natal doía-lhe demais...

Neste ano, como nos outros anos, decidiu não tentar remar contra a maré. Mais uma vez enfeitou a árvore, armou o presépio, enviou prendas e mensagens aos seres amados, respondeu aos cartões recebidos... Desta vez, porém, mesmo sozinha, e sem temer a chuva, foi assistir à Parada Iluminada na Avenida Atlântica, na noite de 22 de dezembro.

Choveu bastante. Mas na hora do desfile, chovia levemente. Havia muitas famílias com crianças ao longo da avenida, à espera do cortejo. A garotada vibrava a cada ala que passava, em pura empolgação. E os adultos, contagiados, aplaudiam e tiravam fotos.

A avó desejou muito que a pequena neta também estivesse ali, assistindo àquela festa de luzes e cores. Imaginou-lhe os olhos extasiados, os gritinhos de alegria. Sentiu-a no colo, os braços a envolver-lhe o pescoço, a cabeça esticada para ver melhor... E mentalmente, baixinho, como quem sopra ao ouvido de alguém, foi comentando com ela as fantasias, as alegorias, as músicas, os atores...

De repente, quase sem perceber como, notou que não estava mais só. Afinal, o espírito de Natal batera à sua porta, fora de casa, no meio da multidão. Voltou para casa sorrindo. Ganhara um (in)esperado presente, uma bela imagem do Natal, no presente. Um dia, num Natal futuro, poderia contar à menina o encontro que tiveram. E dizer-lhe o que veio dizendo a si mesma, enquanto andava: valeu a pena ter aberto a porta e dar uma chance à alegria...

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Coisas de neta e amiga

Hoje vi um grande amigo sofrer - e dói muito ver quem a gente gosta sofrer. Talvez porque precisamente hoje faz cinco anos que partiste, senti uma enorme vontade de dizer-lhe: "Eu sei a revolta que estás a sentir." Eu não cheguei a dizer isso, não cheguei a dizer nada. Apenas estivemos abraçados muito tempo.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Coisas de pais e filhos 2

A cada ano que passa, a filha vai percebendo, emocionada, pequenas declarações de amor que o pai lhe enviara, quase sempre de forma enviezada, através de conversas com outras pessoas.

A educação austera e o temperamento contido, um tanto tímido em matéria de exteriorização de afetos, impediam-no de manifestar claramente o seu amor. Fazia-o, porém, através de gestos de acolhimento e generosidade.

A filha gostaria de poder dizer-lhe que enfim recebeu, uma a uma, as mensagens que ele, obliquamente, lhe enviou. Colhe-as, como quem colhe um buquê de flores da memória.

Sobrevivente, resta-lhe, agora e sempre, honrar o pai, não por mandamento imposto, mas por muito orgulho de ter tido o privilégio de tê-lo como ascendente. Decerto o mais querido, inesquecível.

Então, apesar da imensa saudade, debaixo da cortina de lágrimas, a filha sorri, consolada por ter tido aquele pai; por ele ter sido a pessoa que foi - um homem justo, honesto, imensamente amoroso (apesar de desajeitado); pela alegria da própria maternidade, que lhe permitiu prolongar-lhe a descendência, e ter a graça de ser, como ele, um elo na cadeia familiar.

E, comovida, agradece ao pai , enviando-lhe estas palavras em lugar dos beijos e abraços que não puderem ser dados a tempo. Quem sabe possam encontrar a desejada sincronia... quem sabe possam ultrapassar a difícil comunicabilidade entre gerações e transformar a defasagem de ritmos em simultâneas palavras de amor.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Luc de Smet na China

O repórter belga Luc de Smet esteve na China e enviou-nos estas imagens.





Coisas de criança 9

A menininha estava aprendendo a controlar o xixi e o cocô, por isso começou a sair do infantário (creche) sem a fralda, só de cuecas (calcinha).

Assim, quando enfim chegou a vez de o papai pegá-la na escolinha, a menina chegou em casa já muito apertada, como previra a avó. A viagem até a casa demorou algum tempo: havia muito trânsito... Sem falar na hipótese de a menina já estar com um pouco de vontade de fazer xixi (fazer pipi) enquanto esperava... Por isso, assim que chegaram, a avó correu com ela até ao bacio (urinol, peniquinho), em forma de pato amarelo (a menininha adorou quando o pai o trouxe! Parecia um brinquedo de montar, como o seu cavalinho de madeira!). Ufa, foi por pouco... umas gotinhas já teimavam em sair, começando a humedecer (umedecer) a calcinha...

A menininha fez um xixizão que não acabava mais... encheu quase meio pote! Levantou-se feliz para olhá-lo e em seguida, toda senhora de si , recebeu os parabéns de todos. Mas logo voltou a sentar-se.

- Ué - pensaram todos -, será que ainda não acabou? Impossível haver mais, em alguém tão pequenino!...

De súbito, animadíssima, a menina levantou-se e exclamou, como quem merece - e solicita -ainda mais efusivos parabéns diante de sua obra completa:

- Olha o meu cocô, o meu cocô!

sexta-feira, novembro 23, 2007

Coisas de criança 8

A cada vez que vem passar uns dias com o pai, a menininha manifesta grande alegria ao reencontrar as suas coisinhas. Lá estão sempre à espera dela, cuidadosamente arrumados, os seus brinquedos, roupinhas, livros de histórias...

Mal chega, com um visível prazer, a menininha lança-se à redescoberta, correndo pelos aposentos. Avidamente, vai pegando e largando os brinquedos e outros trecos, como quem quer provar de tudo ao mesmo tempo. Logo logo a casa toda tem marcas da sua passagem. À noite, tudo volta ao lugar, para de manhã novamente ser posto em movimento...

De vez em quando, a pequenina lembra-se de pegar "as suas histórias". Traz todos os livros num braçado, derrama-os no chão, e distrai-se sentada a passar as páginas, de preferência bem perto dos adultos.

Um dia, a menininha encontrou na estante da sala uma caixa com álbuns de fotografias do pai. Um a um, começou a desfolhá-los, enquanto a família ia explicando quem estava nos retratos:

- Este é o seu papai quando era menino, com uniforme do colégio... Agora, é o vovô e a vovó na casa deles.... Aqui é a madrinha olhando emocionada para você, no dia em que você nasceu... Esta era a casa do papai quando vivia longe daqui...

Dali a pouco, a menininha volta a se interessar pelos brinquedos momentaneamente esquecidos. Novo intervalo, e novamente chega a vez da retomada dos livros. Desta vez, porém, a menininha incorporou à costumeira pilha alguns álbuns de retratos e começou a desfolhá-los. De repente, quem sabe devido ao formato dos álbuns ou graças talvez àquela sabedoria própria das crianças, foi dizendo, com jeito de quem sabe bem o que diz:

- Minhas histórias!

(Apetece dizer-lhe:

- Sim, pequenina! Estas "folhas" contam um pouco da história dos que te amam. Contam sobre a tua pré-história, quando ainda eras um sonho azulado... Contam também a tua história, desde o dia mágico em que abriste os olhos para o mundo e fizeste derramar lágrimas de alegria ... Sim, meu amor, estás certa, são mesmo as tuas histórias!)

quinta-feira, novembro 15, 2007

Coisas de pais e filhos 1

A filha desenvolveu maneiras muito especiais de lidar com a longa distância (geográfica) da mãe.

Uma delas foi criar este blog para juntas, em colaboração, enviarem e receberem "Notícias do cais". Ambas vão escrevendo, assim, uma espécie de "Diário de bordo", um diálogo tecido na presença-ausência, com notas de leituras, sentimentos, pensamentos...

A outra consiste em dar à mãe a sua pulseira de ouro branco a cada vez que se despedem "no cais", e dela recebê-la de volta, a cada vez que se reencontram. Ao dar início a esse rito de afeto, a filha disse:

- Leva contigo, mãe. Quando regressares, quero-a outra vez, carregada com a tua energia.