sábado, março 15, 2008

Outras visitas


Ontem de manhã, quando fiz um intervalo nas atividades de computador, fui à varanda. Os macaquinhos não estavam mais lá. Comeram os pedacinhos de banana e foram embora, deixando saudades...

De tarde, nova visita de bichos. Desta vez, uma imensa mariposa (imensa mesmo) pousou na batente da porta que dá para a varanda. A princípio assustei-me, pensando que era um morcego (na noite anterior entraram alguns, e esvoaçaram freneticamente pela casa, atraídos talvez pelos pedaços de fruta que deixei para os macaquinhos).

Depois, comecei a pensar que, para não assustá-la, teria de dormir sem correr a cortina (não consigo dormir com claridade...). De repente, quando precisei acender a luz, ela levantou vôo e, fascinada pela luminosidade intensa da lâmpada, entrou no globo do lustre. Desliguei o interrutor imediatamente, para não queimá-la. E fiquei aguardando ansiosa que meu marido chegasse, para ajudar-me a libertá-la.

Foi uma operação de salvamento delicada. Mas conseguimos retirar o globo e levá-lo até à varanda, com o bocal tampado com uma revista, para ela não se debater e se machucar ainda mais. Cuidadosamente, destampamos o bocal, virando-o na direção da liberdade. Ao sentir as lufadas de ar, imediatamente a mariposa bateu asas e pousou, livre, na parede da varanda, resguardando-se da chuva.

De manhã, não estava mais lá. Também não estava morta no chão. Talvez tenha encontrado um refúgio, quando a chuva cessou...

sexta-feira, março 14, 2008

Uma visita inesperada 3


Ontem, à tardinha, julguei ouvir um chamado, vindo da copa da amendoeira que derrama seus galhos sobre a varanda.

Apurei os ouvidos e o olhar. Lá estavam eles, dois sagüizinhos,também a me observar, irriquietos. Há muito não recebia tão bem-vindas visitas, com jeito de crianças travessas.

Corri à cozinha. Lamentavelmente, na geladeira só tinha banana madura demais, à espera de virar doce. Mesmo assim, decidi cortar meia banana em pedadinhos. Deixei-os enfileirados sobre o parapeito, sempre observada de longe por dois pares de olhos atentos. Depois, chamei os sagüizinhos carinhosamente e me afastei, para deixá-los comer à vontade.

Primeiro veio um. Comeu três pedacinhos meio desconfiado e retornou logo ao galho. Só um pouco depois veio o outro. Mais tarde, um deles (como saber qual?) retornou e comeu novamente.

Pensei que, satisfeitos, iriam embora. Mas, desta vez, não foi assim. Excursionaram pelos galhos até ao anoitecer e depois aninharam-se na parte mais alta da árvore, sempre a olhar atentamente para a varanda.

Choveu torrencialmente no início da noite. Pensei na aflição dos macaquinhos, mas não consegui enxergá-los, tal era a escuridão. Ainda estariam lá, encolhidos nos ramos? Teriam ido embora?

Assim que acordei corri à varanda. Não os vi de imediato, camuflados no meio da folhagem. De repente, surpresa: consegui distingui-los, quase diante dos meus olhos.

No parapeito, nova fileira de pedaços de fruta, a servir de café da manhã. Logo mais saberei se ainda estão lá...

terça-feira, março 11, 2008

Pensando na Luz de Maria Gabriela Llansol

Rio de Janeiro, 11 de março de 2008

Querida amiga,

ontem, 10 de março (data que equivocadamente consta como do seu nascimento em algumas notas biográficas), estivemos com você numa cerimônia singela e profundamente bela.

Durante a Missa da Luz, na Paróquia da Ressurreição, entoamos preces e cânticos de fé, na convicção de que você estava conosco e no espaço edênico, "à luz da ressurreição" . Nas momentos finais, os amigos e familiares foram convidados a receber, na frente do altar, uma vela acesa e um cartão em homenagem ao ente querido que partira.

Eu e o meu companheiro acendemos a vela de ternura por você, querida amiga.

Na saída, abraçamos o amigo que me apresentou à sua obra, e a quem serei para sempre grata por me ter propiciado este encontro definitivo. Ele estava presente, é claro. Também estavam presentes uma amiga de longa data e sua mãe. E estas presenças deram-me grande conforto.

Andamos um pouco a pé, juntos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No percurso, convocamos vários pensamentos afetivos: pensamos em você, querida Maria Gabriela, com um sorriso largo, acompanhada do seu ambo, na foto de abertura do livro Amigo e Amiga; falamos da sua imensa generosidade, acolhendo os legentes que vinham vê-la, atraídos pelo fulgor dos seus textos; partilhamos, comovidos, a alegria e o privilégio de poder ler seus livros e os textos dos críticos que souberam perceber a importância da sua obra.

Alimentamo-nos dos "pães do imaginário" e dos pãezinhos de gergelim do lanche, sem ruptura entre o corpo e o espírito.

Por fim , abraçamo-nos com um "até logo" nada distraído, fora do hábito de servir os afetos. Com um desejo sincero de nos reencontrarmos em breve, sabendo que sempre estaremos juntos, com você, nos textos do fulgor.

Era isto que gostaria de dizer-lhe, hoje, querida Maria Gabriela.

com imenso afeto da amiga, dos amigos.

Ps.: continuo a pensar em Témia e, sempre e cada vez mais, em Ana ensinando a ler a Myriam - a figura que mais fortemente me atraiu para a paisagem dos seus textos.

domingo, março 09, 2008

Coisas de criança 14

Ontem foi um dia especial: dia do aniversário do vovô.

Como de costume, o pai pôs a menininha no colo, diante da webcam, para ela interagir com os avós distantes.

Só que desta vez cantaram um trecho de "Parabéns pra você" (só um trechinho: ela ainda é muito pequena para conseguir se concentrar numa música inteira...).

No meio da conversa, o pai perguntou:
-Então, já deste parabéns pro vovô?

Prontamente, ela respondeu:
- Eu já di.

Enquanto o pai repetia a forma correta (dei, eu já dei), a avó sorria, lembrando-se da admirável competência lingüística dos pequenos aprendizes da língua, que apreendem as regras das conjugações dos verbos. Simplesmente a menininha, como ocorre com muitos outros falantes, aplicava "corretamente" a terminação do pretérito perfeito!

Ontem, um dia especial

Por vezes lançamos frases-pensamentos que encontram profunda ressonância em outras pessoas.

A escritora Maria Adelaide Amaral, numa entrevista, confidenciou o porquê de considerar muito especial a sua relação com o seu companheiro :

- Ele consegue fazer com que eu revele o melhor de mim. Ele me torna uma pessoa melhor. (cito de memória)

Esta frase, simples e intensa, marcou-me profundamente. Guardei-a porque senti que se aplicava perfeitamente à minha vida. Há muito queria dizê-la ao homem que me acompanha há 37 anos.

Disse-lhe no cartão de aniversário, ontem, no Dia da Mulher.

sábado, março 08, 2008

Imagens curativas 2- Os Anjos Sublimes e Independentes da Guarda

Leio o belo texto da Etelvina, "Melissa, a guardiã". Penso imediatamente na guardiã Chiquinha, a fiel gata branca que arranhava a porta do quarto do meu pai, com um miado longo de cortar o coração, logo após a partida de seu dono. Abri-lhe a porta, deixei-a subir na cama e entoar felinamente o seu rito de despedida. Vi-a farejar como um cão, "Anjo da Guarda Sublime", percorrendo, um a um, os lugares dele. Depois retirou-se mansamente, lançando-me um olhar cúmplice, que jamais esquecerei.

Tomo nas mãos dois dos livros de Maria Gabriela Llansol pousados junto à minha mesa de trabalho. E leio:

"Disse-me que os animais são Anjos protectores, e eu sabia que já vivia sob a sua guarda. Para mim, o Anjo mais sublime é o do Cão, o anjo mais independente é o Anjo do Gato (...).

Fazem-me falta aqui o meu Anjo Sublime da Guarda, e os meus Anjos Independentes da Guarda; há entre nós um laço, um suspiro de fidelidade, noites e noites em que eles, no jardim, iluminam de liberdade a casa" (Amar um cão,[p. 19])

"Comunidades havia que tinham apenas o que sentiam, sem saber o que experimentavam. Tal acontecia, sobretudo, com as comunidades em que predominavam plantas ou animais ou estrelas. Tomavam por livro o seu mapa envolvente, sem que soubéssemos se nalgum deles estaríamos incluídos" (O Senhor de Herbais, p. 322)

quinta-feira, março 06, 2008

Imagens curativas 1 - transfigurando a dor em beleza


A avó anda meio triste, sentindo dor pela perda da Amiga. Quando recebeu a notícia de que ela partira, uma sensação extremamente dolorosa, física, apertou-lhe o coração.

Lembrou-se, então, das imagens curativas a que a Amiga recorrera, quando perdera o seu Amigo (Amigo e Amiga. O curso do silêncio de 2004). Com ela e como ela, recorrendo às imagens desse livro, poderia aprender a transfigurar a dor em beleza. Se apurasse os ouvidos, talvez pudesse ouvir um som semelhante a "Tsi-z'li" ("Tsi-z'li", "espécie de melodia de felosa-verde-listada, muito raro na Europa"), em forma de chamamento da Amiga, a lhe dizer, serenamente: "_____estou bem".

Principiou a ouvir uma outra melodia, de sonoridade semelhante: titi, titi. Não, não era canto de ave rara. Era chamado de criança-em-educação, ainda quase pré-linguagem, a crescer como o piano de O começo de um livro é precioso e O Jogo da liberdade da alma.

Sentiu então o impulso de transfigurar o negro do luto numa farândola de cores e movimentos, como a da criança do texto (fragmento inédito) que a Amiga lhe oferecera.

Em resposta ao chamamento, a avó pediu à mãe do netinho do coração para brincar um pouco com o menininho, não mais através da fresta da rede protetora, mas diretamente, no chão da varanda da casa dele. A mãe concordou prontamente, mesmo sem entender a razão de tão súbito pedido.

Surpreendido e feliz, o menino acolheu a Titi quando ela bateu à porta da sua casa. Ambos brincaram como nunca, espalhando brinquedos na varanda. Quando a Titi se despediu, à tardinha, em lugar da dor afilada sentiu uma doce leveza. Respirou amplamente, e repetiu o canto que desejava ouvir:

- " 'Tsi-z'li' ______ estou bem"

A avó, a neta e os cataventos


Nas férias passadas, a menininha encantou-se com os cataventos. Não conseguia falar a palavra, pois mal acabara de completar dois anos. Com as mãozinhas viradas pra fora e muito brilho nos olhos, solicitava a todo o momento a avó, para que ela confirmasse a beleza da novidade e do nome:

- Oh! É o cacavento, vovó!

A avó então repetia pausadamente as sílabas da palavra, sublinhando a sílaba correta:

- É, meu amor, é o ca-TA-ven-to.

A menininha olhava atentamente a avó, como quem quer aprender a fazer leitura labial. E logo conseguiu dizer a palavra corretamente.

Todos os dias, após o jantar, a avó, a netinha e o avô sentavam-se na beirada do muro, a apreciar juntinhos os cataventos, a girar no alto da serra que fica diante da casa da aldeia.

Então a avó lembrou-se do refrão de uma música brasileira e pensou que ele tinha tudo a ver com aquele momento. E cantou-o para a menininha, fazendo com as mãos os movimentos do catavento:

- Que maravilha, a girar! ... Que maravilha, a girar!

Pouco tempo depois, ambas já cantavam e rodavam juntas as mãos, como se fossem dois cataventos também a girar, só que do lado de cá, como quem conversa com o vizinho do lado de lá.

Que maravilha! Sim, que maravilha é viver e brincar!

quarta-feira, março 05, 2008

Coisas de pais e filhos 4

Há mães que esperam cartas, telefonemas ou outras manifestações de carinho dos filhos, e recebem. Outras há que esperam em vão. Bom mesmo é quando elas recebem, sem esperar, lindas mensagens afetivas.

Ontem à tardinha, quando viu o carteiro passar e entregar uma volumosa correspondência, a mãe teve um pressentimento. Esperava a chegada de um livro, vindo de Portugal. E, de fato, ele veio. Mas não esperava encontrar, entre as demais cartas, um cartão de Feliz Dia das Mães, enviado pela filha querida, atualmente a estudar na Inglaterra.

A mãe leu-o emocionada e depois guardou-o junto de outras cartas preciosas. Em seguida, pôs o retrato que vinha junto do cartão na face lateral da caixa de retratos da menininha e da família. Assim, sempre que a saudade bater forte, pode ver os seus amores.

Enquanto cuida das tarefas diárias, a mamãe sorri, pensando que agora terá três Dias das Mães para comemorar: o do Brasil, o de Portugal e o da Inglaterra. Sorri mais ainda por saber que entre pais e filhos há reciprocidade amorosa todos os dias.

terça-feira, março 04, 2008

"Tsi-z'li", à luz da ressurreição


"Entre as coisas vivas, o que mais aprecio é a ressuscitação das coisas
mortas,
dar-lhes o lugar no eterno retorno do mútuo que elas merecem.

'tsi-z'li'

_________ estou bem"

Maria Gabriela Llansol. Amigo e Amiga. O curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 141-143

segunda-feira, março 03, 2008

Velando a amiga III

A Amiga partiu. Foi ser luz, ao encontro do seu ambo.
Deixou-nos o texto do fulgor, singularidade irrepetível.

sábado, março 01, 2008

Parabéns pra você, cidade do Rio de Janeiro


1º de Março. A cidade do Rio de Janeiro completa 443 anos de fundação. Parabéns, cidade menina-e-moça, abençoada por Deus, bonita por natureza. Linda demais, mesmo quando amanhece com chuva, como ocorreu hoje, dia da sua data natalícia. Maravilhosa, apesar de tão pouco cuidada por quem de direito.

Minha alma carioca canta, saudando a cidade em que escolhi viver.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Coisas de criança 13

A avó da menininha escreveu um livro sobre Literatura Infantil, dedicando-o em especial à pequena netinha.

Logo que recebeu as provas finais, feliz com a bela capa e por ver o trabalho pronto, resolveu enviá-lo aos filhos e à neta, que residem do outro lado do cais.

Entusiasmada, a filha, tia-madrinha da menininha, pôs no colo a destinatária privilegiada do livro, apreciando com ela os detalhes da capa ( - Vamos ver que bichinhos estão desenhados?) e lendo-lhe a dedicatória que a avó escreveu:

- Dedicado em especial à pequena * (e a quem mais chegar....)

A menininha olhava e ouvia tudo atentamente. enquanto, com o seu jeitinho característico, torcia com as duas mãozinhas as pontas da camiseta.

De repente, comentou:

- Eu não sou pequena!

Ao saber dessa história através da filha, a avó pensou:

- Claro, tem razão, meu amor... você não é pequena, se comparada com os bebês da turma dos pequenos da sua creche (com certeza você ouviu as professoras referindo-se assim a eles e, por isso, fez essa comparação), mas é pequenina para os seus avós que tanto te amam, e era ainda menor, um bebezinho, quando a vovó começou a redigir os primeiros textos do livro que dedicou a você...

Um novo cais


O nosso Toni agora tem mais cais. Vale a pena visitar. Chama-se Sede de Rede.

Há uma parte que diz assim: "E é no cais que encontro lugares que nunca vi, pessoas que julgava não ter a oportunidade de conhecer. O cais é o porto de encontro, mas é só o início, só o início."

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A avó e os netos do coração



Todos os dias, quando chega da creche, o bebê corre à fresta que separa a sua varanda da do apartamento vizinho, e chama:

- Titi! Titi!

Titi, para ele, é o nome da vizinha. E ela prontamente responde:

- Uh!
- Uh! - repete o menininho.
- A titia está aqui, meu amor!

Ambos trocam pequenos objetos pelos buracos da rede protetora. De vez em quando, a titi precisa se ausentar, mas antes explica para o menininho:

- A titia vai tomar banho e depois vai caminhar com o titio, está bem? Tchau, até logo, meu amor!

Quando retorna, espanta-se com a série de carros e bonequinhos que o bebê conseguiu passar para a sua varanda. Sempre atento, ele logo percebe quando há alguém do outro lado. E começa tudo outra vez:

- Titi!
-Uh! Estou aqui!

A titia não sabe direito como esse caso de amor começou. Lembra-se que a irmã do menininho, quando era bebê, também gostava de interagir com ela através da varanda, mas de modo diferente, admirando-se de vê-la no reflexo do vidro espelhado. O fato é que, não importa a maneira, os pequeninos conseguem perceber o quanto ela gosta de crianças. E ela ama muito esse neto do coração, assim como ama a netinha que vive longe (a menininha das histórias deste blog). E, com certeza, será imenso o afeto que sentirá (já sente) pelo outro neto do coração, que em breve vai nascer, também longe, filho de uma amiga muito querida.

Para ela, todos eles estão juntos, muito perto, envolvidos pelo mesmo anel de fulgor.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Coisas de criança 12

A menininha começou muito cedo a falar, espantando a todos com o seu domínio da linguagem. Um dia, não se sabe exatamente como nem quando, viu imagens de pingüins e ficou encantada com aqueles bichinhos. Como ainda não conhecia aqueles seres nem a palavra que os designava, exclamou:

- Kamimis! Kamimis! (ou camimes... como saber a grafia correta?)

A tia-madrinha achou muita graça e logo avisou à avó distante:

- Mãe, quando você vier, vai se encantar ao ouvir a palavra que a sua neta inventou para pingüins: kamimis!

A avó admirou-se, é claro. De onde saíra aquele inesperado neologismo? Quando enfim puderam conviver pessoalmente com a netinha, os avós confirmaram o quanto crescera o seu vocabulário. No entanto, percebendo a repercussão de sua criação lingüística, a menininha não mais repetiu kamimis. Apesar de aprender palavras difíceis (como helicóptero), tampouco fala pingüins, embora saiba perfeitamente de que se trata. Faz-se de rogada, com sorriso nos olhos, demonstrando entender que todos querem mesmo é ouvi-la.

Não importa. O fato é que kamimis já faz parte da memória afetiva familiar. Está presente inclusive nos ícones dos emocions trocados entre a avó, a madrinha, o pai da menininha e os amigos mais próximos.

Outra vez a viver deste lado do cais, longe da menininha, a avó espantou-se com a profusão de pingüins na passarela do Sambódromo do Rio de Janeiro. Neste ano, duas Grandes Escolas Samba do Grupo A, a Viradouro e a Unidos da Tijuca, apresentaram fantasias e carros alegóricos sobre o tema.

Não é difícil imaginar o pensamento da avó, enquanto assistia ao desfile pela TV:

- Oh! Kamimis! Certamente a menininha teria amado ver tantos kamimis a sambar na avenida!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Fantasias da neta e da avó

Copacabana, Rio de Janeiro, Sábado de Carnaval no Calçadão da Avenida Atlântica. No chão e no ar, só confete e serpentina. Felizmente as ruas (e os transeuntes) estão livres daquele spray de espuma grudenta. Proibição ecologicamente correta.

Enquanto fazem a costumeira caminhada, a avó e o avô aproveitam para ver os blocos e foliões ao longo da avenida. A avó encanta-se com as fantasias das crianças pequenas: há odaliscas, fadas, bailarinas... Subitamente, não resiste e interrompe a caminhada, ao ver uma bebê que mal sabia andar, fantasiada de baianinha: saia curta com camadas de babados, colares leves e turbante. Muito fofa, brasileiríssima!

Pensando na netinha distante, a avó mentalmente começa a experimentar todos aqueles figurinos carnavalescos na sua menininha. De todos, o que lhe ficou melhor, sem dúvida, foi o último, o de baianinha. Imaginou-a maravilhada, correndo ao espelho para se ver, como na brincadeira em que enfia camisetas na cabeça, fingindo que são chapéus.

Foram tantas as fantasias que, quando a avó se deu conta, já completara a caminhada!

domingo, fevereiro 03, 2008

Amor de Carnaval desaparece na fumaça...

Diz uma conhecida canção popular ("Máscara Negra" ) que amor de Carnaval dura pouco. É como fogo de artifício: brilha e desaparece na fumaça. Há, é claro, muitas histórias de amor que começaram no Carnaval e se mantêm até hoje. Mas há também muitas outras que acabaram na Quarta-feira de Cinzas, ou sequer chegaram lá...

Na minha mocidade, tive um amor de Carnaval, efêmero como o da canção de Zé Kéti. Talvez só tenha ficado na memória por ter sido o meu primeiro amor, experiência considerada significativa, numa época profundamente romântica (que desconhecia o atual ficar). Ou quem porque, quase imediatamente depois, eu encontraria o amor-de-toda-a-vida.

Conheci-o num baile carnavalesco de um clube altamente familiar (juro, havia esse tipo de associação). Estava com amigos numa mesa próxima. Trocamos olhares. Eu e as moças do grupo dele logo fizemos amizade e dançamos juntas. Estranhamente, ele não dançou com ninguém. Só mais tarde, através da mediação das amigas (eu estava sob vigilância familiar...), convidou-me para dançar. Encontramos-nos no meio do salão. Fluímos em par, a mão dele no meu ombro, a minha mão na cintura dele, empurrados pela multidão, no ritmo de marchinhas e sambas: Quanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão!; Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é , será que ele é!... O batuque era ensurdecedor e mal ouvíamos o que o outro dizia. Lembro-me de ele ter explicado que trabalhara de noite e por isso estava exausto. Nenhum de nós, por diferentes razões, poderia ficar até a banda tocar Cidade maravilhosa, sinal inequívoco de fim de baile. Pediu o número do meu telefone: eu não tinha (hoje, na era da popularização do celular, algo inconcebível...). Tentou obter uma Bic emprestada para escrever o dele, mas não conseguiu. Então rascunhou-o com palito de fósforo usado, creio que nas costas da própria caixa.

Não contarei as cenas dos próximos capítulos porque não valem a pena. O fato é que esse amor não manteve acesa a chama, nem reacendeu, como o fósforo apagado que servou de caneta. Já o amor pós-Carnaval, esse revelou-se Amor com A maiúsculo. Fulgurou e não morreu. A cada dia apura o sabor, como um bom vinho.

A memória e as crianças

Adoro ler as memórias de infância da minha mãe. Fico exultante com esta preciosidade que é a junção da memória e da narrativa, uma espécie de máquina do tempo que me permite aceder a eventos que decorreram pelo menos duas décadas antes do meu nascimento.
Há dias uma amiga disse-me que andava encantada com o rápido crescimento dos filhos. Porque eles são crianças, dizia ela, muito pequeninas, e nós achamos que somos nós que registamos as suas recordações. E, depois, com três ou cinco aninhos, já nos deparamos com os meninos a dizer: "Mãe, lembra quando a gente comeu aquele doce? E daquela viagem que fizemos até àquele lugar?" Sim, já construíram o se próprio álbum de memórias.
Eu achei uma observação fantástica. Nunca tinha pensado nisso.

sábado, fevereiro 02, 2008

Uma antiga história de Carnaval

A lembrança mais antiga que tenho do Carnaval ocorreu na minha meninice, no Alto da Boa Vista. Foi uma experiência de muito medo.

Algumas imagens fortemente impressas na memória aderem a relatos familiares, dando consistência e significado ao vivido. Na mais intensa delas, encontro-me escondida debaixo da cama, firmemente agarrada a um de seus pés. Nenhuma força humana conseguiria me tirar dali. Debalde tentaram me convencer que o motivo do pavor havia desaparecido: anda, não tenhas medo, podes sair daí, o mascarado já foi embora!

O mascarado a que se referiam era um homem fantasiado de gorila. Fantasiado não: para o eu-criança, ERA um gorila de verdade, com cabeça, mãos, pés, enfim, em tudo exatamente igual a um imenso, peludo e assustador gorila.

Não me lembro da cena em que o vi, só do efeito da visão. Soube que era costume na época os mascarados baterem às portas das casas, pedindo dinheiro. Quem sabe foi assim que me deparei de repente com ele. Tampouco sei a origem de tal medo. Talvez alguém, consciente ou inconscientemente, tivesse dito algo que me deixou predisposta a temê-lo. Curiosamente, lembro-me de ver passar, sem medo algum, carnavalescos com fantasias como a da caveira, hoje com certeza bem mais aterradora para a adulta que me tornei...

Lembro-me ainda que, passado algum tempo (não sei quanto, mas não deve ter sido pouco...), alguém me apontou (de longe, é claro...), já sem a máscara no rosto e sem as luvas-patas, o tal homem-gorila a lanchar na loja onde trabalhava o meu pai. Os meus olhos diziam que sim, que de fato pareciam humanos aquela boca a mastigar os alimentos e aquelas mãos que os levavam à boca. Contudo, havia TODO o resto da fantasia a lembrar-me que o monstro ainda estava ali. E então os olhos logo traíram a antiga e tênue certeza, fazendo o coração bater acelerado. Sobretudo quando avistaram, pousadas sobre o balcão, aquelas medonhas patas simiescas, cheias de garras.