sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril - "foi bonita a festa, pá"

Sim, foi bonita a festa, como cantou Chico Buarque. E nós aqui, do outro lado do cais, ficamos carentes das sementes de cravos no nosso jardim.

Contudo, passada a euforia, veio o desencanto. E ficou um gosto amargo, um certo travo do que poderia ter sido e não foi.

Toda revolução deve ser permanente. Do contrário, corre o risco de cair na cristalização e tornar-se estátua de si mesma.

Isto é válido também para as pessoas. Quantas vezes não nos convertemos em pousos de pombos, prisioneiros de um determinado fato, congelados numa imagem, fixados no tempo.

segunda-feira, abril 21, 2008

Coisas de criança 17

Ontem foi mais um dia especial para os avós: dia de ver e falar com a netinha através da webcam. Desta vez, um prazer triplicado, com a presença dos dois filhos. Três amores, enchendo de alegria e luz as suas vidas.

A princípio, a menininha cobria o rosto com um livro aberto, e gargalhava gostosamente, brincando de se esconder da câmera. O livro, prenda da madrinha, traz um coração na capa e conta a história de uma fada que tem justamente o nome da menininha. Aos poucos ela foi deixando ver a boquinha, um canto da face, os olhos, e por fim o rosto todo...

Em seguida, a brincadeira mudou para uma espécie de karaoquê com a música do "Balão Mágico". Essa canção marcou a infância do pai e da madrinha da menininha. A avó se lembrava perfeitamente do começo ("Super fantástico amigo/que bom estar contigo/ no nosso balão), mas a memória falhou na segunda estrofe. O jeito foi apelar para o lá-lá-lá... e prosseguir cantando.

Mas com certeza, até o próximo encontro, a avó já conseguiu reaprender toda a canção. E então ela poderá cantá-la inteirinha, fazendo coro com a menininha.

domingo, abril 20, 2008

Isabella - o reverso de um parto

A imagem do buraco na rede por onde a pequena Isabella foi arremessada acutila-me. Esse rasgo (aberto com a ajuda de dois instrumentos cortantes, segundo a perícia) contraria todos os princípios do acolhimento humano.

Pomos redes protetoras nas janelas para proteger as crianças de possíveis quedas. É preciso uma frieza e uma crueldade inimagináveis para praticar um ato hediondo como esse.

Simbolicamente, é o reverso de um parto. Quando uma criança está para nascer, mãos humanas aparam-na cuidadosamente, acolhem-na, trazem-na para a vida. Assim Isabella com certeza chegou ao mundo: amada, desejada, cuidada, protegida.

Mas as mãos que seguraram Isabella pelo vão e lançaram-na indefesa para o abismo, fizeram-na desnascer abruptamente, violentamente, longe da rede de proteção de todos os que verdadeiramente a amavam.

Quis o acaso (se é que existe acaso) que a mãe conseguisse estar ao lado da menina nos instantes de trânsito entre a vida e a morte. Preciso acreditar que a simples presença materna, sua voz doce, seu toque macio, chegaram de alguma forma até a menina, serenizando a sua angústia e estupefação, confortando-a, acolhendo-a na passagem para outra forma de vida, para um lugar onde não se arremessem crianças indefesas para o abismo.

quinta-feira, abril 17, 2008

No dia dos teus anos

Aqui na Terra, o tempo parou para ti. Não fazes mais anos. Para nós, que aqui ficamos, não. Continuamos a contar os minutos, os dias, os anos.

Querido pai, hoje, aqueles que mais te amaram, amanheceram pensando, com afeto e uma pontada de dor: hoje é dia dos teus anos.

E, como não puderam expressar-te esse pensamento afetivo, trocaram mensagens entre si, procurando escrever a dor imensa da tua ausência.

Há aqueles que a cada ano que passa são cada vez mais esquecidos. A sua imagem se desvanece pouco a pouco, acabando por desaparecer. Contigo dá-se justamente o inverso: ela cresce, reverbera, revelando cada vez mais a projeção maiúscula de um ser humano invulgar, raro, lindo.

Tenho muito orgulho de ter tido o privilégio de ser tua filha. Fui abençoada por receber de herança o teu nome honrado, irretocável. Era isto o que gostaria de te dizer hoje, no dia em que completarias 83 anos.

quarta-feira, abril 16, 2008

Llansol e Bach

Foi descoberta por musicólogos uma composição para órgão, de J. S. Bach, ainda desconhecida.

Leio esta notícia, enviada por meu filho. Sei que pensou em mim e na Maria Gabriela. Acolho, comovida, esse pensamento sobre a Amiga, que recentemente partiu.

Ela não mais poderá ouvir essa cantata de Bach aqui na Terra, enquanto descasca ervilhas. Mas lá, na cena do encontro fulgurante da música e do texto, lá onde pode haver a jubilosa ressurreição, ambos experimentam novas possiblidades harmônicas. Tocam, trocam saberes e fulgores. E saboreiam, juntos, a sopa que Maria Gabriela preparou.

quarta-feira, abril 09, 2008

Acalanto para o neto do coração

(de autoria da avó)*

Meu menino nana, nana,
Que já vem o João Pestana
No macuru, macuru**.

Vem o sono, vem o sonho,
Muito lindo, muito lindo,
E o menino sossegado,
Vai adormecer sorrindo...

Meu menino nana, nana,
Que já vem o João Pestana
No macuru, macuru.

* do Livro de Acalantos, em preparação
** macuru: berço indígena. Amazônia: balanço de segurança, formado por talas, em que as crianças podem balançar sem perigo.

terça-feira, abril 08, 2008

Coisas de criança 16 ou A primavera em rede

Neste princípio de primavera, o pai levou a pequena menina à praia. Ela brincou na areia, fazendo os grãos de areia escoar entre seus pequenos dedos, sorrindo feliz. Acho que primavera é como ver uma criança a sorrir.

Este post nasceu num comentário meu para um outro blog, e renasceu por sede de rede e continua aqui.

quinta-feira, abril 03, 2008

Isabella - mais uma infância interrompida

Isabella tinha apenas cinco anos. Não mais brincará, não mais sorrirá, não mais crescerá.

Sua breve vida foi interrompida de uma forma inimaginável, provavelmente por aqueles que a deveriam proteger.

Como isso foi/é possível? A dor diante dessa morte violenta provoca-me um sentimento sem nome: indignação, revolta, descrença no ser humano...

Quando filhos assassinam os próprios pais, o crime choca-nos pela dupla transgressão: serem capazes de matar; e serem capazes de praticar esse ato justamente contra aqueles que lhes deram a vida. Mas quando pais ou responsáveis matam uma criança indefesa, o crime é ainda mais hediondo, por contrariar todos os princípios humanos.

Infelizmente, sabemos que a perversidade existe, que há pessoas muito perturbadas, com sérios desvios de caráter. Não sou loucos, têm consciência de que infringem leis e, cientes disso, procuram ocultar seus atos. Disfarçam, mentem, jamais os assumem.

Contudo, por mais "normais" que os prováveis assassinos pudessem parecer, certamente eram perceptíveis no seu perfil alguns sinais de perversão. Por que as pessoas de bem que viviam próximas à criança não deram um grito de alerta, evitando, assim, essa tragédia (como aquele senhor de Goiânia, que teve a coragem de denunciar a suspeita de maus-tratos contra uma menina de doze anos, salvando-a das torturas a que era submetida, e que poderiam ter resultado na sua morte)?

Como disse um psicólogo, comentando este assassinato terrível, causa espanto o silêncio das "boas pessoas". Quando nos calamos diante de uma possível situação de violência contra inocentes, podemos estar alimentando o "ovo da serpente" que nos devorará mais tarde.

quarta-feira, abril 02, 2008

Dia Mundial do Livro Infantil

Hoje comemora-se mundialmente o Dia do Livro Infantil em homenagem a Hans Christian Andersen, o autor de A Sereiazinha e O Patinho Feio, entre outras histórias inesquecíveis.

Penso nos livros que vivem no meu imaginário, contribuindo para uma Infância com arte*. O começo feliz foi o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Depois vieram muitos outros. Felizmente a estante está cheia, viva, receptiva a novos leitores. Mas sempre haverá espaço para os livros que continuam a chegar.

*(Título do livro de literatura infantil que escrevi recentemente)

terça-feira, abril 01, 2008

Coisas de criança 15




A avó comoveu-se com algumas fotografias da menininha que a filha lhe enviou. Numa delas, vê-se a menininha de costas, com as mãozinhas apertadas atrás (um gesto-jeito muito dela) e um par de asas diáfanas, como uma fadinha (a madrinha gosta de brincar com ela de soltar as "asas da imaginação" e ela A-DO-RA).

Na outra foto, vê-se apenas os pequenos pés duplamente calçados: a menininha, também de costas, calça os sapatos da madrinha, como as meninas costumam fazer.

A avó sorri, lembrando-se de que a filha, quando pequena, também costumava arrastar sandálias enormes pela casa. Elegeu esta foto para fundo de tela do seu computador. Na próxima semana, colocará a das asinhas. Assim, vai mantendo os que ama perto dos olhos e do coração.

segunda-feira, março 31, 2008

Impressões da paisagem





O repórter freelancer belga Luc de Smet, especializado em jornalismo científico, enviou-nos mais imagens que costuma captar pelo mundo fora. Gosto muito das texturas e da cores, mas sobretudo da capacidade que este jornalista tem de encontrar beleza no canto remoto, na dobradura extemporânea, na superfície descascada e na pele tatuada das cidades.

quarta-feira, março 26, 2008

O enigma do humano e a ficção científica


O que há em comum entre filmes de Ficção Científica, como Blade Runner (Scott, 1982) e Imaginação artificial (Spielberg e Kubrick , 2001)?

Ambos provocam instigantes inquietações em torno da antiga pergunta-enigma, cada vez mais atual - o que é o homem?

terça-feira, março 25, 2008

Bem-vindo, querido neto do coração!

Hoje é um dia memórável: o seu dia, o dia em que você enfim chegou. Todos o aguardávamos, ansiosos.

A sua avó do coração ainda não teve a ventura de contemplar o seu rostinho. Mas já o sonhou à distância. E consegue imaginar você envolto num halo de afeto e felicidade, docemente acolhido por seu pai e sua mamãe.

Bem-vindo a este mundo!

quarta-feira, março 19, 2008

A neta, a avó, o bisavô e a tradição da Páscoa

A Páscoa se aproxima. É uma data que traz uma memória viva do meu pai. Ele deixou-nos a tradição de receber o compasso Pascal com tapete de flores à entrada da casa. E sobre a mesa finamente guarnecida com a melhor toalha, variadas iguarias e doces conventuais.

Ele partiu, mas a tradição continua, celebrada sobretudo em nome dele, como se ainda estivesse presente na festa (e sentimos que está).

Também gostaria de deixar uma memória de convívio afetivo que se tornasse uma tradição para a minha netinha (e para quem mais chegar...). Que fosse celebrada espontaneamente, como os meus filhos fazem pelo avô.

Ainda não tive a ventura de passar com a minha netinha uma festa importante, como a Páscoa, o Natal e o Ano Novo. Se eu pudesse estar com ela nesta Páscoa, iniciaria uma tradição bem lúdica: procurar ovinhos (poucos e pequenos, para não fazer mal) e prendinhas escondidas pela casa (se fosse na cada do bisavô, poderia ser entre as plantas do jardim).

Fica a sugestão. Quem sabe alguém (penso no filho, ou na filha, ou em ambos...) que tenha o privilégio de conviver com a menininha amada proponha a ela a brincadeira, em nome da avó distante?

terça-feira, março 18, 2008

Descobrindo a América, ainda que tardiamente

Apesar de longo convívio com os livros, confesso que desconhecia o Popol vuh, livro sagrado dos maias que conseguiu sobreviver, com algumas transformações ao ser transmitido pela tradição, à destruição sistemática empreendida pelos colonizadores espanhóis.

Mea culpa. Deveria conhecer esse e outros livros fundamentais da cultura latino-americana. Mas antes tarde do que nunca. E mais gostaria de conhecer, se não fosse, para tantos conhecimento a adquirir, tão curta a vida.

segunda-feira, março 17, 2008

Adoecer, sem batatas na testa


Dor no corpo. Febre. Gripe. Cama.

Na infância, quando eu ou minha irmã ficávamos febris, minha mãe costumava pôr rodelas de batata crua na testa, firmando-as com uma faixa.

Não sei se há alguma verdade científica nisso, mas o fato é que parecíamos melhorar à medida que as rodelas iam ficando escuras.

Como nós não tínhamos mimos nenhuns, eu achava doce adoecer só para poder ter uns minutos de atenção da minha mãe.

sábado, março 15, 2008

Mais um tributo à Amiga

Maria Gabriela Llansol é o perfil desta semana no sítio electrónico Edit on Web. O texto é de autoria de Maria de Lourdes Azevedo Soares.

Outras visitas


Ontem de manhã, quando fiz um intervalo nas atividades de computador, fui à varanda. Os macaquinhos não estavam mais lá. Comeram os pedacinhos de banana e foram embora, deixando saudades...

De tarde, nova visita de bichos. Desta vez, uma imensa mariposa (imensa mesmo) pousou na batente da porta que dá para a varanda. A princípio assustei-me, pensando que era um morcego (na noite anterior entraram alguns, e esvoaçaram freneticamente pela casa, atraídos talvez pelos pedaços de fruta que deixei para os macaquinhos).

Depois, comecei a pensar que, para não assustá-la, teria de dormir sem correr a cortina (não consigo dormir com claridade...). De repente, quando precisei acender a luz, ela levantou vôo e, fascinada pela luminosidade intensa da lâmpada, entrou no globo do lustre. Desliguei o interrutor imediatamente, para não queimá-la. E fiquei aguardando ansiosa que meu marido chegasse, para ajudar-me a libertá-la.

Foi uma operação de salvamento delicada. Mas conseguimos retirar o globo e levá-lo até à varanda, com o bocal tampado com uma revista, para ela não se debater e se machucar ainda mais. Cuidadosamente, destampamos o bocal, virando-o na direção da liberdade. Ao sentir as lufadas de ar, imediatamente a mariposa bateu asas e pousou, livre, na parede da varanda, resguardando-se da chuva.

De manhã, não estava mais lá. Também não estava morta no chão. Talvez tenha encontrado um refúgio, quando a chuva cessou...

sexta-feira, março 14, 2008

Uma visita inesperada 3


Ontem, à tardinha, julguei ouvir um chamado, vindo da copa da amendoeira que derrama seus galhos sobre a varanda.

Apurei os ouvidos e o olhar. Lá estavam eles, dois sagüizinhos,também a me observar, irriquietos. Há muito não recebia tão bem-vindas visitas, com jeito de crianças travessas.

Corri à cozinha. Lamentavelmente, na geladeira só tinha banana madura demais, à espera de virar doce. Mesmo assim, decidi cortar meia banana em pedadinhos. Deixei-os enfileirados sobre o parapeito, sempre observada de longe por dois pares de olhos atentos. Depois, chamei os sagüizinhos carinhosamente e me afastei, para deixá-los comer à vontade.

Primeiro veio um. Comeu três pedacinhos meio desconfiado e retornou logo ao galho. Só um pouco depois veio o outro. Mais tarde, um deles (como saber qual?) retornou e comeu novamente.

Pensei que, satisfeitos, iriam embora. Mas, desta vez, não foi assim. Excursionaram pelos galhos até ao anoitecer e depois aninharam-se na parte mais alta da árvore, sempre a olhar atentamente para a varanda.

Choveu torrencialmente no início da noite. Pensei na aflição dos macaquinhos, mas não consegui enxergá-los, tal era a escuridão. Ainda estariam lá, encolhidos nos ramos? Teriam ido embora?

Assim que acordei corri à varanda. Não os vi de imediato, camuflados no meio da folhagem. De repente, surpresa: consegui distingui-los, quase diante dos meus olhos.

No parapeito, nova fileira de pedaços de fruta, a servir de café da manhã. Logo mais saberei se ainda estão lá...

terça-feira, março 11, 2008

Pensando na Luz de Maria Gabriela Llansol

Rio de Janeiro, 11 de março de 2008

Querida amiga,

ontem, 10 de março (data que equivocadamente consta como do seu nascimento em algumas notas biográficas), estivemos com você numa cerimônia singela e profundamente bela.

Durante a Missa da Luz, na Paróquia da Ressurreição, entoamos preces e cânticos de fé, na convicção de que você estava conosco e no espaço edênico, "à luz da ressurreição" . Nas momentos finais, os amigos e familiares foram convidados a receber, na frente do altar, uma vela acesa e um cartão em homenagem ao ente querido que partira.

Eu e o meu companheiro acendemos a vela de ternura por você, querida amiga.

Na saída, abraçamos o amigo que me apresentou à sua obra, e a quem serei para sempre grata por me ter propiciado este encontro definitivo. Ele estava presente, é claro. Também estavam presentes uma amiga de longa data e sua mãe. E estas presenças deram-me grande conforto.

Andamos um pouco a pé, juntos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No percurso, convocamos vários pensamentos afetivos: pensamos em você, querida Maria Gabriela, com um sorriso largo, acompanhada do seu ambo, na foto de abertura do livro Amigo e Amiga; falamos da sua imensa generosidade, acolhendo os legentes que vinham vê-la, atraídos pelo fulgor dos seus textos; partilhamos, comovidos, a alegria e o privilégio de poder ler seus livros e os textos dos críticos que souberam perceber a importância da sua obra.

Alimentamo-nos dos "pães do imaginário" e dos pãezinhos de gergelim do lanche, sem ruptura entre o corpo e o espírito.

Por fim , abraçamo-nos com um "até logo" nada distraído, fora do hábito de servir os afetos. Com um desejo sincero de nos reencontrarmos em breve, sabendo que sempre estaremos juntos, com você, nos textos do fulgor.

Era isto que gostaria de dizer-lhe, hoje, querida Maria Gabriela.

com imenso afeto da amiga, dos amigos.

Ps.: continuo a pensar em Témia e, sempre e cada vez mais, em Ana ensinando a ler a Myriam - a figura que mais fortemente me atraiu para a paisagem dos seus textos.