Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
quarta-feira, maio 14, 2008
Ontem, dia 13 de Maio
Não há o que comemorar. Não podemos apagar esta aviltante página da nossa história passada. Mas convém lembrar, sempre, para não esquecer. Convém lembrar para não esquecer que ainda há trabalho escravo aviltando as páginas que se escrevem na nossa história presente.
"Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?" (Castro Alves, Vozes d'África). Onde estão, hoje, as vozes levantadas? Onde estão os gritos pelos direitos humanos? Convém denunciar e clamar e agir.
segunda-feira, maio 12, 2008
Na mesinha, um vaso de begônias...
- Obrigado por seres a mãe dos meus filhos.
Não, não repeti o lugar-comum:
- Não precisava...
Precisava sim. Cada vez mais precisamos manifestar e aceitar afetos, bem-quereres. Acolhi o abraço, as palavras e as flores.
Olho o vaso de begônias, abro as cortinas, há sol lá fora. Respiro fundo, penso afetuosamente nos meus amores, começo com novo alento um novo dia.
domingo, maio 11, 2008
No Dia das Mães
“Quando eu morrer, filhinho,
seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
e leva-me para dentro da tua casa.
Despe-me o ser cansado e humano
e deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.”
fragmento do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimmo de Fernando Pessoa)
quinta-feira, maio 08, 2008
Carta-acalanto para a mãe de Isabella
Você não me conhece pessoalmente. Sou mãe, avó, educadora, cidadã (e, atualmente, alguém que se esforça para tornar-se um ser humano melhor e sonha construir um mundo em que o amor seja cada vez mais possível). E, como tal, queria manifestar - a você, a seus pais e a toda a sua família - a minha imensa solidariedade. Imagino que devem estar recebendo o apoio e o afeto de milhares de pessoas do Brasil e do mundo. Mas carinho nunca é demais.
Procuro mas não encontro as palavras certas para confortá-la. Não há na língua portuguesa nenhuma palavra para nomear a dor inimaginável de quem perdeu um filho, especialmente uma criança.
Queria dizer-lhe apenas, nesta carta-acalanto, que ao solidarizar-me com você, procuro também serenizar um pouco o meu coração e apaziguar a dor deste luto. Que sempre a acompanhe a certeza de que soube amar e cuidar bem da sua pequena, a certeza de que soube dar a ela muito amor e foi por ela plenamente correspondida. Guarde esta linda imagem de amor materno e filial. Certamente ela a ajudará a atravessar melhor este momento e os que ainda virão. Acolha também a convicção, forjada no ideal de justiça, de que, no que depender de profissionais sérios e competentes e da sociedade em geral, "Isabella não será esquecida".
quarta-feira, maio 07, 2008
Coisas de criança 19 - Amizade
Há uma nova música no Canal Panda que o pai e a menina adoram. Fala sobre a amizade e o refrão é como se segue:
Quando estamos tristes
Quem nos ouve, quem lá está
Melhor que ter amigos não há
Quando temos festa
Quem alegra, quem lá está
Melhor que ter amigos não há
A letra, melodia e colorido da imagem cativaram-lhes ao ponto de cantarem juntos.
- Canta de novo papá!
terça-feira, maio 06, 2008
Coisas de criança 18 - A menininha, o tempo e a distância
Maravilho-me com algo aparentemente comum a todas as crianças. Mas o fato é que a menininha, com apenas dois anos de existência, não esquece que nas férias passadas (entenderá lá o que são férias?) tomou banho de piscininha na casa da bivó paterna. Assim, neste último fim-de-semana com o pai, foi à gaveta pegar o biquini e pediu a ele que a levasse lá.
E quando interagia pela webcam com os avós paternos ("os avós do avião", como ela a eles se refere, em conversa com a tia-madrinha), de repente pediu para falar com a madrinha. O pai tentou fazê-la entender que a madrinha estava sem computador em casa e por isso não poderia vê-la.
Deve ter entendido, pois logo voltou a gargalhar gostosamente com alguns ícones animados, especialmente o do sapo que fisga com a língua uma mosca e logo solta um arroto (não é socialmente bem-educado, sabemos bem disso, mas é inegável que as crianças apreciam com naturalidade coisas escatológicas, como arrotar e soltar "pum").
- Mais! O do sapinho.
sábado, maio 03, 2008
Quem ama
não espera ser amado, apenas ama
espera o tempo que for preciso, mesmo que não tenha tempo
vai até onde for preciso, mesmo que não haja caminho
porque quem ama cria o tempo e o caminho
quem ama simplesmete ama
sem condições, sem marcações, sem lista de desejos,
sem variações, sem divisões, sem paixões de uma só noite
quem ama simplesmente
segue seu caminho e o seu tempo,
o caminho que cruza com o do que é amado,
no mesmo tempo do que é amado,
mesmo que o que é não seja um ser,
talvez uma planta, ou um gato, ou um livro, ou um lápis
quem ama por vezes nem sabe que ama
apenas ama
ama apenas
e o que sente não passa, fica, permanece,
ontem amamos, hoje amamos, amanhã também
com intensidade, mas sem sufocar
com ardência, mas sem picada
com calor, mas com ar, água e terra,
com alimento
Alguns versos e pensamentos I
que ele deixou, nem dos pombos,
que eles sequem, como eu seco,
que eles morram, como eu morro"
Rosalía de Castro
Espécie de cantiga de amigo do nosso tempo. Canto da ausência do ser amado. Cansada de esperar em vão, seca de afetos, a mulher rebela-se e decide não mais cuidar das coisas que ele deixou e que a fazem lembrar dele.
terça-feira, abril 29, 2008
Uma vida e a vida enquanto uma criança
A morte de Isabella e a eficiência da Polícia
Foi um exemplo de profissionalismo, de dever bem cumprido. Devíamos nos orgulhar de termos profissionais tão competentes, ao invés de criticá-los. Outro exemplo de seriedade e competência vem-nos do promotor que acompanha o caso, o que nos deixa mais confiantes na possibilidade de ser feita justiça (a justiça possível, tendo em conta a pouca severidade de nossas leis).
Não, não foi "um espetáculo de pirotecnia". Mas, ainda que fosse, não é isto que deveria causar preocupação. Preocupante é o triste espetáculo diariamente oferecido por muitos dos nossos políticos. Preocupante é haver assassinatos, especialmente de crianças. Preocupante é a possibilidade de o(s) assassino(s) não ser(em) preso(s) e julgado(s). Preocupante é a brecha de se considerar a "primariedade" do(s) acusado(s) num crime contra a criança (no caso em questão, contra a própria filha). Preocupante é a leveza da pena, desproporcional ao peso do delito.
Sim, o fato vem ocupando um grande espaço na mídia - um espaço correspondente à comoção popular diante da brutalidade do crime. Sinal de que a sociedade ainda não perdeu a capacidade de se indignar diante de crimes hediondos, como este, e de clamar por justiça. Sinal de que se solidariza com a dor sem nome e sem sentido dos que efetivamente amavam a menina. Sinal de que repudia a frieza de quem matou barbaramente uma criança e não compatua com o silêncio de quem, em nome de certos valores e direitos, protege assassinos, calando o valor e direito maior, o da vida.
segunda-feira, abril 28, 2008
Isabella - a via crucis
Uma fralda e uma toalha serviram para estancar o sangue do rosto da menina (o lenço de Verônica, mas sem a sua piedade...), enquanto era levada até ao apartamento. (Alguém quase conseguiu eliminar os vestígios dos tecidos, lavando-os com alvejante. E também limpou o rastro de sangue do chão... Por que?)
A menina, inerte, totalmente indefesa, foi posta sentada no chão (a segunda queda...). Sua sentença de morte (qual a acusação?) já estava assinada: sufocá-la com pesadas mãos de adulto, tirar-lhe o ar por infinitos minutos, matá-la por asfixia (o suplício, a quase morte, antes da definitiva queda...). Só faltava agora o(s) seu(s) assassino(s) pensar(em) num modo de se livrar(em) do corpo sem que recaísse sobre ele(s) a culpa.
Defenestrá-la, através do rasgo aberto na rede de proteção, foi a decisão fria do(s) seu(s) algoz(es). Imagem de uma cueldade inimaginável, de tamanho horror, que ultrapassa qualquer ficção. Dependurada pelos pulsos, braços para o alto, corpo pendente no vazio (a terceira queda, a crucificação...), a menina balançou no ar e depois despencou no abismo.
Impossível sobreviver a tantos tormentos. Mesmo assim, seu coraçãozinho continuou a bater, quase imperceptivelmente, mas por pouco tempo. O breve tempo talvez de poder ver o rosto materno ou de sentir sua presença (a descida da cruz, "stabat mater"...).
Só que Isabella não veio ao mundo para morrer na cruz. (Ninguém vem para sofrer, mas para ser muito amado e amar, para ser feliz). Menos ainda para ser sacrificada (em nome de que, Deus meu?) em plena infância. Era simplesmente uma criança, um ser humano lindo, de sorriso florescente.
Humanamente, mesmo que, perante a lei dos homens, seu(s) assassino(s) seja(m) condenado(s) e cumpra(m) pena, é impossível perdoá-lo(s). Porque não pede(m) perdão. Porque sabia(m) o que fazia(m). Resta - a nós e ao(s) assassino(s) - esperar o juízo divino. Talvez só Ele possa absolvê-lo(s).
sexta-feira, abril 25, 2008
25 de Abril - "foi bonita a festa, pá"
Contudo, passada a euforia, veio o desencanto. E ficou um gosto amargo, um certo travo do que poderia ter sido e não foi.
Toda revolução deve ser permanente. Do contrário, corre o risco de cair na cristalização e tornar-se estátua de si mesma.
Isto é válido também para as pessoas. Quantas vezes não nos convertemos em pousos de pombos, prisioneiros de um determinado fato, congelados numa imagem, fixados no tempo.
segunda-feira, abril 21, 2008
Coisas de criança 17
A princípio, a menininha cobria o rosto com um livro aberto, e gargalhava gostosamente, brincando de se esconder da câmera. O livro, prenda da madrinha, traz um coração na capa e conta a história de uma fada que tem justamente o nome da menininha. Aos poucos ela foi deixando ver a boquinha, um canto da face, os olhos, e por fim o rosto todo...
Em seguida, a brincadeira mudou para uma espécie de karaoquê com a música do "Balão Mágico". Essa canção marcou a infância do pai e da madrinha da menininha. A avó se lembrava perfeitamente do começo ("Super fantástico amigo/que bom estar contigo/ no nosso balão), mas a memória falhou na segunda estrofe. O jeito foi apelar para o lá-lá-lá... e prosseguir cantando.
Mas com certeza, até o próximo encontro, a avó já conseguiu reaprender toda a canção. E então ela poderá cantá-la inteirinha, fazendo coro com a menininha.
domingo, abril 20, 2008
Isabella - o reverso de um parto
Pomos redes protetoras nas janelas para proteger as crianças de possíveis quedas. É preciso uma frieza e uma crueldade inimagináveis para praticar um ato hediondo como esse.
Simbolicamente, é o reverso de um parto. Quando uma criança está para nascer, mãos humanas aparam-na cuidadosamente, acolhem-na, trazem-na para a vida. Assim Isabella com certeza chegou ao mundo: amada, desejada, cuidada, protegida.
Mas as mãos que seguraram Isabella pelo vão e lançaram-na indefesa para o abismo, fizeram-na desnascer abruptamente, violentamente, longe da rede de proteção de todos os que verdadeiramente a amavam.
Quis o acaso (se é que existe acaso) que a mãe conseguisse estar ao lado da menina nos instantes de trânsito entre a vida e a morte. Preciso acreditar que a simples presença materna, sua voz doce, seu toque macio, chegaram de alguma forma até a menina, serenizando a sua angústia e estupefação, confortando-a, acolhendo-a na passagem para outra forma de vida, para um lugar onde não se arremessem crianças indefesas para o abismo.
quinta-feira, abril 17, 2008
No dia dos teus anos
Querido pai, hoje, aqueles que mais te amaram, amanheceram pensando, com afeto e uma pontada de dor: hoje é dia dos teus anos.
E, como não puderam expressar-te esse pensamento afetivo, trocaram mensagens entre si, procurando escrever a dor imensa da tua ausência.
Há aqueles que a cada ano que passa são cada vez mais esquecidos. A sua imagem se desvanece pouco a pouco, acabando por desaparecer. Contigo dá-se justamente o inverso: ela cresce, reverbera, revelando cada vez mais a projeção maiúscula de um ser humano invulgar, raro, lindo.
Tenho muito orgulho de ter tido o privilégio de ser tua filha. Fui abençoada por receber de herança o teu nome honrado, irretocável. Era isto o que gostaria de te dizer hoje, no dia em que completarias 83 anos.
quarta-feira, abril 16, 2008
Llansol e Bach
Leio esta notícia, enviada por meu filho. Sei que pensou em mim e na Maria Gabriela. Acolho, comovida, esse pensamento sobre a Amiga, que recentemente partiu.
Ela não mais poderá ouvir essa cantata de Bach aqui na Terra, enquanto descasca ervilhas. Mas lá, na cena do encontro fulgurante da música e do texto, lá onde pode haver a jubilosa ressurreição, ambos experimentam novas possiblidades harmônicas. Tocam, trocam saberes e fulgores. E saboreiam, juntos, a sopa que Maria Gabriela preparou.
quarta-feira, abril 09, 2008
Acalanto para o neto do coração
Meu menino nana, nana,
Que já vem o João Pestana
No macuru, macuru**.
Vem o sono, vem o sonho,
Muito lindo, muito lindo,
E o menino sossegado,
Vai adormecer sorrindo...
Meu menino nana, nana,
Que já vem o João Pestana
No macuru, macuru.
* do Livro de Acalantos, em preparação
terça-feira, abril 08, 2008
Coisas de criança 16 ou A primavera em rede
Este post nasceu num comentário meu para um outro blog, e renasceu por sede de rede e continua aqui.
quinta-feira, abril 03, 2008
Isabella - mais uma infância interrompida
Sua breve vida foi interrompida de uma forma inimaginável, provavelmente por aqueles que a deveriam proteger.
Como isso foi/é possível? A dor diante dessa morte violenta provoca-me um sentimento sem nome: indignação, revolta, descrença no ser humano...
Quando filhos assassinam os próprios pais, o crime choca-nos pela dupla transgressão: serem capazes de matar; e serem capazes de praticar esse ato justamente contra aqueles que lhes deram a vida. Mas quando pais ou responsáveis matam uma criança indefesa, o crime é ainda mais hediondo, por contrariar todos os princípios humanos.
Infelizmente, sabemos que a perversidade existe, que há pessoas muito perturbadas, com sérios desvios de caráter. Não sou loucos, têm consciência de que infringem leis e, cientes disso, procuram ocultar seus atos. Disfarçam, mentem, jamais os assumem.
Contudo, por mais "normais" que os prováveis assassinos pudessem parecer, certamente eram perceptíveis no seu perfil alguns sinais de perversão. Por que as pessoas de bem que viviam próximas à criança não deram um grito de alerta, evitando, assim, essa tragédia (como aquele senhor de Goiânia, que teve a coragem de denunciar a suspeita de maus-tratos contra uma menina de doze anos, salvando-a das torturas a que era submetida, e que poderiam ter resultado na sua morte)?
Como disse um psicólogo, comentando este assassinato terrível, causa espanto o silêncio das "boas pessoas". Quando nos calamos diante de uma possível situação de violência contra inocentes, podemos estar alimentando o "ovo da serpente" que nos devorará mais tarde.
quarta-feira, abril 02, 2008
Dia Mundial do Livro Infantil
Penso nos livros que vivem no meu imaginário, contribuindo para uma Infância com arte*. O começo feliz foi o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Depois vieram muitos outros. Felizmente a estante está cheia, viva, receptiva a novos leitores. Mas sempre haverá espaço para os livros que continuam a chegar.
*(Título do livro de literatura infantil que escrevi recentemente)