segunda-feira, maio 19, 2008

Coisas de criança 20 - Arco-íris

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O pai e a menina foram à festa de Matosinhos.  A menina adorou os carros, sempre dando gritos de alegria a cada passagem pelo pai.  Ao final da festa, estava tão cansada e feliz que pediu ao pai para ir às cavalitas, e lá foi até ao Metro a contar o que tinha feito e o que ainda queria fazer.  Quando chegaram em casa, como era de se prever, a menina dormiu logo, mas teve um sono agitado... tão agitado, que até rolou e o fez tantas vezes que até parou no chão.  Coitada, a menina chorou, o pai acordou preocupado, mas quando a deitou de volta à cama, já o choro havia parado, e a menina dormia novamente, continuando às voltas nos carros do sonho...

No dia seguinte, era tempo da menina voltar para a mãe.  O pai, triste, ainda preocupado com a queda da menina, olhou para o céu nublado e, no meio do sol e da chuva, viu um arco-íris, e sorriu.  As cores lembravam-lhe a menina nos carros da festa a andar às voltas.  A menina trouxera o arco-íris para o final de mais um fim-de-semana especial e o pai dormiu mais descansado.

sábado, maio 17, 2008

Uma visita especial

Ontem a avó e o avô receberam pela primeira vez em sua casa o menininho que mora ao lado. Este encontro, há muito desejado, foi preparado aos poucos, com cuidado e delicadeza. Afeto e confiança precisam de tempo para se fortalecerem. E enfim a hora chegou. Por isso foi algo especial, significativo.

O menininho veio com mochilinha da creche e chamou animado pela titia, antes mesmo de a porta se abrir. Com seu jeitinho curioso e ativo, percorreu com familiaridade todos os aposentos, como se sempre tivesse vivido ali. Depois, deteve-se diante da fresta da varanda, percebendo-se do lado de cá, a espiar para a sua casa, do lado de lá.

Desenharam, fizeram barcos de papel, tiraram fotos e viram a lua.

Quando o menininho retornou à casa, correu para chamar a titia. Agora, do lado de cá e do lado de lá, a fresta tem um novo sentido. Doce, como fruta madura.

sexta-feira, maio 16, 2008

A avó e os netos do coração 2

A avó tem um coração cheio de recantos, talvez "mais vasto que o mundo" (Drummond). Em cada um desses recantos mora uma criança especial, muito amada. Há as crianças que já cresceram e que hoje até já são pais de outras crianças, mas, para a dona do tal coração, ainda são (sempre serão) "eternos infantes", como diria Pessoa.

Nessas muitas moradas afetivas, há o infante João, recém-nascido, o neto do coração de Portugal, a quem ela dedicou um acalanto, embalando-o docemente em pensamento. Há o menininho que mora no Brasil, no apartamento ao lado, e que tem quase a mesma idade da menininha, "a neta primeira a chegar", em Portugal.

A avó sente não poder conviver com eles ao mesmo tempo. Sabe que quando está com o neto de cá não pode estar com os do outro lado do cais. E vice-versa. Mas sabe também que amar um é amar os outros, pois este é o milagre da multiplicação do amor. Quanto mais se ama, mais se acrescenta.

quinta-feira, maio 15, 2008

A fresta, a festa ou Doces convívios com o neto do coração

A cada dia aprofunda-se mais e mais a relação afetiva da avó com o netinho do coração (o menininho que mora no apartamento vizinho).

Ambos já têm um conjunto de vivências em comum que permitem pequenos diálogos e brincadeiras. E a avó maravilha-se por poder acompanhar de perto o crescimento em linguagem e em beleza deste pequenino ser.

Quando o menininho chega da creche, corre à varanda, sôfrego, já com saudade dos brinquedos que deixou. Primero, distrai-se a brincar com eles. Depois, chama a titia (a avó do coração) e pede-lhe para sentar na soleira, próximo à fresta da varanda. Mesmo que não estejam a trocar brinquedinhos, gosta de saber que ela está ali a vê-lo brincar, através do reflexo do vidro espelhado.

À noite, após o jantar, reencontram-se novamente. Imitam vozes de animais, falam da lua que aparece (e desaparece) no céu, dos novos brinquedos, dos amigos preferidos, etc.

Aos poucos o espaço de interação alarga-se e cresce junto com o menininho. Já ganhou o corredor do edifício (de vez em quando a avó consegue se despedir do menininho de manhã, quando ele vai para a creche) e houve até um breve encontro na pracinha, em meio a escorregas, trepa-trepas e balanços, com direito a braços estendidos do menininho para acolher os avós do coração.

Amanhã, decerto, haverá mais histórias para contar. Que alegria é viver e, sobre todas as coisas, amar!

quarta-feira, maio 14, 2008

Ontem, dia 13 de Maio

Ontem, no dia 13 de Maio, comemorou-se no Brasil o Dia da Libertação dos Escravos. Estima-se que mais de 4 milhões de negros africanos foram trazidos à força para trabalhar nas plantações e servir aos seus senhores ociosos.

Não há o que comemorar. Não podemos apagar esta aviltante página da nossa história passada. Mas convém lembrar, sempre, para não esquecer. Convém lembrar para não esquecer que ainda há trabalho escravo aviltando as páginas que se escrevem na nossa história presente.

"Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?" (Castro Alves, Vozes d'África). Onde estão, hoje, as vozes levantadas? Onde estão os gritos pelos direitos humanos? Convém denunciar e clamar e agir.

segunda-feira, maio 12, 2008

Na mesinha, um vaso de begônias...

Ontem recebi do meu amor um grande abraço, daqueles tão significativos, que dispensam palavras. Mas elas vieram, sinceras, intensas, acompanhando um vaso de begônias:

- Obrigado por seres a mãe dos meus filhos.

Não, não repeti o lugar-comum:

- Não precisava...

Precisava sim. Cada vez mais precisamos manifestar e aceitar afetos, bem-quereres. Acolhi o abraço, as palavras e as flores.

Olho o vaso de begônias, abro as cortinas, há sol lá fora. Respiro fundo, penso afetuosamente nos meus amores, começo com novo alento um novo dia.

domingo, maio 11, 2008

No Dia das Mães

(Para todas as mães, em especial para aquelas cujos filhos já partiram)

“Quando eu morrer, filhinho,
seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
e leva-me para dentro da tua casa.
Despe-me o ser cansado e humano
e deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.”

fragmento do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimmo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, maio 08, 2008

Carta-acalanto para a mãe de Isabella

Querida Ana Carolina de Oliveira,

Você não me conhece pessoalmente. Sou mãe, avó, educadora, cidadã (e, atualmente, alguém que se esforça para tornar-se um ser humano melhor e sonha construir um mundo em que o amor seja cada vez mais possível). E, como tal, queria manifestar - a você, a seus pais e a toda a sua família - a minha imensa solidariedade. Imagino que devem estar recebendo o apoio e o afeto de milhares de pessoas do Brasil e do mundo. Mas carinho nunca é demais.

Procuro mas não encontro as palavras certas para confortá-la. Não há na língua portuguesa nenhuma palavra para nomear a dor inimaginável de quem perdeu um filho, especialmente uma criança.

Queria dizer-lhe apenas, nesta carta-acalanto, que ao solidarizar-me com você, procuro também serenizar um pouco o meu coração e apaziguar a dor deste luto. Que sempre a acompanhe a certeza de que soube amar e cuidar bem da sua pequena, a certeza de que soube dar a ela muito amor e foi por ela plenamente correspondida. Guarde esta linda imagem de amor materno e filial. Certamente ela a ajudará a atravessar melhor este momento e os que ainda virão. Acolha também a convicção, forjada no ideal de justiça, de que, no que depender de profissionais sérios e competentes e da sociedade em geral, "Isabella não será esquecida".

quarta-feira, maio 07, 2008

Coisas de criança 19 - Amizade

Há uma nova música no Canal Panda que o pai e a menina adoram.  Fala sobre a amizade e o refrão é como se segue:

 

Quando estamos tristes

Quem nos ouve, quem lá está

Melhor que ter amigos não há

Quando temos festa

Quem alegra, quem lá está

Melhor que ter amigos não há

 

A letra, melodia e colorido da imagem cativaram-lhes ao ponto de cantarem juntos.

- Canta de novo papá!

terça-feira, maio 06, 2008

Coisas de criança 18 - A menininha, o tempo e a distância

Como uma criança ainda muito pequena consegue entender noções tão abstratas para ela, como a imensa distância entre os países, onde residem seus familiares paternos mais próximos (os avós, a tia-madrinha), ou a extensão do tempo que falta para que ela, que vive num país de clima frio, possa desfrutar novamente as delícias do Verão?

Maravilho-me com algo aparentemente comum a todas as crianças. Mas o fato é que a menininha, com apenas dois anos de existência, não esquece que nas férias passadas (entenderá lá o que são férias?) tomou banho de piscininha na casa da bivó paterna. Assim, neste último fim-de-semana com o pai, foi à gaveta pegar o biquini e pediu a ele que a levasse lá.

E quando interagia pela webcam com os avós paternos ("os avós do avião", como ela a eles se refere, em conversa com a tia-madrinha), de repente pediu para falar com a madrinha. O pai tentou fazê-la entender que a madrinha estava sem computador em casa e por isso não poderia vê-la.

Deve ter entendido, pois logo voltou a gargalhar gostosamente com alguns ícones animados, especialmente o do sapo que fisga com a língua uma mosca e logo solta um arroto (não é socialmente bem-educado, sabemos bem disso, mas é inegável que as crianças apreciam com naturalidade coisas escatológicas, como arrotar e soltar "pum").

- Mais! O do sapinho.

sábado, maio 03, 2008

Quem ama

não espera ser amado, apenas ama

espera o tempo que for preciso, mesmo que não tenha tempo

vai até onde for preciso, mesmo que não haja caminho

porque quem ama cria o tempo e o caminho

quem ama simplesmete ama

sem condições, sem marcações, sem lista de desejos,

sem variações, sem divisões, sem paixões de uma só noite

quem ama simplesmente

segue seu caminho e o seu tempo,

o caminho que cruza com o do que é amado,

no mesmo tempo do que é amado,

mesmo que o que é não seja um ser,

talvez uma planta, ou um gato, ou um livro, ou um lápis

quem ama por vezes nem sabe que ama

apenas ama

ama apenas

e o que sente não passa, fica, permanece,

ontem amamos, hoje amamos, amanhã também

com intensidade, mas sem sufocar

com ardência, mas sem picada

com calor, mas com ar, água e terra,

com alimento

Alguns versos e pensamentos I

"Não cuidarei dos rosais
que ele deixou, nem dos pombos,
que eles sequem, como eu seco,
que eles morram, como eu morro"

Rosalía de Castro

Espécie de cantiga de amigo do nosso tempo. Canto da ausência do ser amado. Cansada de esperar em vão, seca de afetos, a mulher rebela-se e decide não mais cuidar das coisas que ele deixou e que a fazem lembrar dele.
Obs.: Inicio nova série de postagens, com fragmentos de versos e pensamentos que, por diversas razões, me tocam.

terça-feira, abril 29, 2008

Uma vida e a vida enquanto uma criança

Na caixa perdida da arrecadação onde guardei a inocência que julgava poder usar um dia, encontrei uma pequena semente. Resolvi dar a semente para a menina, aproveitando para ensiná-la porque a terra, a água, o sol e o ar eram tão importantes para o crescimento daquela possibilidade que cabia na pequena mão que então a segurava. A menina sorriu ao olhar para mim, e nos lábios viam-se a inocência perspicaz que havia outrora guadado na caixa. Naquele momento percebi que a vida estava ali transmitida, não a vida que se opõe à morte, meramente física, mas a vida que não se ensina, que não se ganha, que não se perde, a vida que apenas se vive, como pode, de acordo com quatro elementos que nos sustentam. Queria sorrir assim, mas apenas saiu-me um sorriso de concordância. De qualquer forma, ela parecia satisfeita, como também o ficaria se lhe tivesse dado a própria caixa, ou laço que a atava, ou o pequeno grão de areia que estava no fundo. A vida enquanto uma criança não precisa de motivos, calendários, tempo ou espaço para simplesmente viver. É do que julgava guardado e esquecido que recuperei apenas a semente que transmito. Mas será uma possibilidade tão infinita um apenas? Não. Aquilo que deixa de viver lança a semente prévia e renasce, mesmo que no coração de uma vida enquanto criança, mesmo que na vida de um coração que se quer sempre criança.

A morte de Isabella e a eficiência da Polícia

Como mãe, como avó, como cidadã, como ser humano, sinto-me na obrigação de cumprimentar a Polícia Civil de São Paulo pela eficiência na investigação do crime contra a menina Isabella.

Foi um exemplo de profissionalismo, de dever bem cumprido. Devíamos nos orgulhar de termos profissionais tão competentes, ao invés de criticá-los. Outro exemplo de seriedade e competência vem-nos do promotor que acompanha o caso, o que nos deixa mais confiantes na possibilidade de ser feita justiça (a justiça possível, tendo em conta a pouca severidade de nossas leis).

Não, não foi "um espetáculo de pirotecnia". Mas, ainda que fosse, não é isto que deveria causar preocupação. Preocupante é o triste espetáculo diariamente oferecido por muitos dos nossos políticos. Preocupante é haver assassinatos, especialmente de crianças. Preocupante é a possibilidade de o(s) assassino(s) não ser(em) preso(s) e julgado(s). Preocupante é a brecha de se considerar a "primariedade" do(s) acusado(s) num crime contra a criança (no caso em questão, contra a própria filha). Preocupante é a leveza da pena, desproporcional ao peso do delito.

Sim, o fato vem ocupando um grande espaço na mídia - um espaço correspondente à comoção popular diante da brutalidade do crime. Sinal de que a sociedade ainda não perdeu a capacidade de se indignar diante de crimes hediondos, como este, e de clamar por justiça. Sinal de que se solidariza com a dor sem nome e sem sentido dos que efetivamente amavam a menina. Sinal de que repudia a frieza de quem matou barbaramente uma criança e não compatua com o silêncio de quem, em nome de certos valores e direitos, protege assassinos, calando o valor e direito maior, o da vida.

segunda-feira, abril 28, 2008

Isabella - a via crucis

A via crucis de Isabella (sem esquecer que infelizmente, no Brasil e no mundo, há muitos outros algozes de muitas outras Isabellas, atrasando a evolução espiritual da humanidade). Quando começou o primeiro passo do seu calvário? Tudo indica que ainda no carro, a caminho de casa. O ferimento na testa (a coroa de espinhos, a primeira queda...) deixou marcas de sangue em três lugares do veículo (Indícios que alguém, quase com sucesso, tentou apagar...Por que?)

Uma fralda e uma toalha serviram para estancar o sangue do rosto da menina (o lenço de Verônica, mas sem a sua piedade...), enquanto era levada até ao apartamento. (Alguém quase conseguiu eliminar os vestígios dos tecidos, lavando-os com alvejante. E também limpou o rastro de sangue do chão... Por que?)

A menina, inerte, totalmente indefesa, foi posta sentada no chão (a segunda queda...). Sua sentença de morte (qual a acusação?) já estava assinada: sufocá-la com pesadas mãos de adulto, tirar-lhe o ar por infinitos minutos, matá-la por asfixia (o suplício, a quase morte, antes da definitiva queda...). Só faltava agora o(s) seu(s) assassino(s) pensar(em) num modo de se livrar(em) do corpo sem que recaísse sobre ele(s) a culpa.

Defenestrá-la, através do rasgo aberto na rede de proteção, foi a decisão fria do(s) seu(s) algoz(es). Imagem de uma cueldade inimaginável, de tamanho horror, que ultrapassa qualquer ficção. Dependurada pelos pulsos, braços para o alto, corpo pendente no vazio (a terceira queda, a crucificação...), a menina balançou no ar e depois despencou no abismo.

Impossível sobreviver a tantos tormentos. Mesmo assim, seu coraçãozinho continuou a bater, quase imperceptivelmente, mas por pouco tempo. O breve tempo talvez de poder ver o rosto materno ou de sentir sua presença (a descida da cruz, "stabat mater"...).

Só que Isabella não veio ao mundo para morrer na cruz. (Ninguém vem para sofrer, mas para ser muito amado e amar, para ser feliz). Menos ainda para ser sacrificada (em nome de que, Deus meu?) em plena infância. Era simplesmente uma criança, um ser humano lindo, de sorriso florescente.

Humanamente, mesmo que, perante a lei dos homens, seu(s) assassino(s) seja(m) condenado(s) e cumpra(m) pena, é impossível perdoá-lo(s). Porque não pede(m) perdão. Porque sabia(m) o que fazia(m). Resta - a nós e ao(s) assassino(s) - esperar o juízo divino. Talvez só Ele possa absolvê-lo(s).

sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril - "foi bonita a festa, pá"

Sim, foi bonita a festa, como cantou Chico Buarque. E nós aqui, do outro lado do cais, ficamos carentes das sementes de cravos no nosso jardim.

Contudo, passada a euforia, veio o desencanto. E ficou um gosto amargo, um certo travo do que poderia ter sido e não foi.

Toda revolução deve ser permanente. Do contrário, corre o risco de cair na cristalização e tornar-se estátua de si mesma.

Isto é válido também para as pessoas. Quantas vezes não nos convertemos em pousos de pombos, prisioneiros de um determinado fato, congelados numa imagem, fixados no tempo.

segunda-feira, abril 21, 2008

Coisas de criança 17

Ontem foi mais um dia especial para os avós: dia de ver e falar com a netinha através da webcam. Desta vez, um prazer triplicado, com a presença dos dois filhos. Três amores, enchendo de alegria e luz as suas vidas.

A princípio, a menininha cobria o rosto com um livro aberto, e gargalhava gostosamente, brincando de se esconder da câmera. O livro, prenda da madrinha, traz um coração na capa e conta a história de uma fada que tem justamente o nome da menininha. Aos poucos ela foi deixando ver a boquinha, um canto da face, os olhos, e por fim o rosto todo...

Em seguida, a brincadeira mudou para uma espécie de karaoquê com a música do "Balão Mágico". Essa canção marcou a infância do pai e da madrinha da menininha. A avó se lembrava perfeitamente do começo ("Super fantástico amigo/que bom estar contigo/ no nosso balão), mas a memória falhou na segunda estrofe. O jeito foi apelar para o lá-lá-lá... e prosseguir cantando.

Mas com certeza, até o próximo encontro, a avó já conseguiu reaprender toda a canção. E então ela poderá cantá-la inteirinha, fazendo coro com a menininha.

domingo, abril 20, 2008

Isabella - o reverso de um parto

A imagem do buraco na rede por onde a pequena Isabella foi arremessada acutila-me. Esse rasgo (aberto com a ajuda de dois instrumentos cortantes, segundo a perícia) contraria todos os princípios do acolhimento humano.

Pomos redes protetoras nas janelas para proteger as crianças de possíveis quedas. É preciso uma frieza e uma crueldade inimagináveis para praticar um ato hediondo como esse.

Simbolicamente, é o reverso de um parto. Quando uma criança está para nascer, mãos humanas aparam-na cuidadosamente, acolhem-na, trazem-na para a vida. Assim Isabella com certeza chegou ao mundo: amada, desejada, cuidada, protegida.

Mas as mãos que seguraram Isabella pelo vão e lançaram-na indefesa para o abismo, fizeram-na desnascer abruptamente, violentamente, longe da rede de proteção de todos os que verdadeiramente a amavam.

Quis o acaso (se é que existe acaso) que a mãe conseguisse estar ao lado da menina nos instantes de trânsito entre a vida e a morte. Preciso acreditar que a simples presença materna, sua voz doce, seu toque macio, chegaram de alguma forma até a menina, serenizando a sua angústia e estupefação, confortando-a, acolhendo-a na passagem para outra forma de vida, para um lugar onde não se arremessem crianças indefesas para o abismo.

quinta-feira, abril 17, 2008

No dia dos teus anos

Aqui na Terra, o tempo parou para ti. Não fazes mais anos. Para nós, que aqui ficamos, não. Continuamos a contar os minutos, os dias, os anos.

Querido pai, hoje, aqueles que mais te amaram, amanheceram pensando, com afeto e uma pontada de dor: hoje é dia dos teus anos.

E, como não puderam expressar-te esse pensamento afetivo, trocaram mensagens entre si, procurando escrever a dor imensa da tua ausência.

Há aqueles que a cada ano que passa são cada vez mais esquecidos. A sua imagem se desvanece pouco a pouco, acabando por desaparecer. Contigo dá-se justamente o inverso: ela cresce, reverbera, revelando cada vez mais a projeção maiúscula de um ser humano invulgar, raro, lindo.

Tenho muito orgulho de ter tido o privilégio de ser tua filha. Fui abençoada por receber de herança o teu nome honrado, irretocável. Era isto o que gostaria de te dizer hoje, no dia em que completarias 83 anos.

quarta-feira, abril 16, 2008

Llansol e Bach

Foi descoberta por musicólogos uma composição para órgão, de J. S. Bach, ainda desconhecida.

Leio esta notícia, enviada por meu filho. Sei que pensou em mim e na Maria Gabriela. Acolho, comovida, esse pensamento sobre a Amiga, que recentemente partiu.

Ela não mais poderá ouvir essa cantata de Bach aqui na Terra, enquanto descasca ervilhas. Mas lá, na cena do encontro fulgurante da música e do texto, lá onde pode haver a jubilosa ressurreição, ambos experimentam novas possiblidades harmônicas. Tocam, trocam saberes e fulgores. E saboreiam, juntos, a sopa que Maria Gabriela preparou.