Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
domingo, maio 25, 2008
homesick
sábado, maio 24, 2008
quinta-feira, maio 22, 2008
Feriado na Pracinha
Fiz de conta que hoje é meu aniversário e dei-me um presente: passei a manhã com meus netos do coração na pracinha do Bairro Peixoto.
Emociona-me profundamente saber que a mãe deles confia em mim e permite esta troca, este convívio afetivo, como se eu fosse de fato a avó (e, de certa maneira, sinto que sou).
A neta mais velha já fez oito anos. É tímida, alva, esguia, ruiva e com cabelos encaracolados. Lindíssima! Parece uma princesa das ilustrações dos livros de contos de fadas.
O caçulinha tem dois anos e meio. É um menino de cabelos castanhos e lisos, olhos vivos, levado, desinibido.
Contei à neta do coração que há 3o e tal anos atrás passeei ali com meus filhos. Vi aquelas árvores, hoje frondosas, quando ainda eram pequenos arbustos. Eu e a menina ruiva sentamos à sombra de uma delas e lemos juntas um livro de imagens (A menina e as borboletas, de Roberto Caldas). Brinquei com ela de jogo de letras, de adivinha-em-que-mão-está, etc. Ela desenhou na areia com gravetos. O menininho brincou com os carrinhos dele e com brinquedos de outras crianças. Depois ambos brincaram de descer juntos no escorrega.
Quando ele se distraiu um pouco a brincar no balanço com a babá (extremamente cuidadosa), despedi-me da neta mais velha e saí discretamente, para o menininho não chorar. Há muitas tarefas à minha espera em casa. Mas não faz mal se o trabalho no computador e outras atividades atrasarem umas horas: há uma outra qualidade do tempo que não quero adiar.
quarta-feira, maio 21, 2008
Guarda compartilhada
terça-feira, maio 20, 2008
Marcas de amor
ouço o que recomendas,
penso em ti a toda a hora,
sobretudo em certos momentos
(quando lavo rúculas selvagens,
ou surpreendo no rosto do teu pai
traços que são teus).
Leio o que escreves,
ouço o que recomendas,
penso em ti a toda a hora,
sobretudo em certos momentos
(quando ouço Madredeus, Vitorino, Dulce,
ou surpreendo no jeito da tua filha
traços que são teus).
segunda-feira, maio 19, 2008
Coisas de criança 20 - Arco-íris
O pai e a menina foram à festa de Matosinhos. A menina adorou os carros, sempre dando gritos de alegria a cada passagem pelo pai. Ao final da festa, estava tão cansada e feliz que pediu ao pai para ir às cavalitas, e lá foi até ao Metro a contar o que tinha feito e o que ainda queria fazer. Quando chegaram em casa, como era de se prever, a menina dormiu logo, mas teve um sono agitado... tão agitado, que até rolou e o fez tantas vezes que até parou no chão. Coitada, a menina chorou, o pai acordou preocupado, mas quando a deitou de volta à cama, já o choro havia parado, e a menina dormia novamente, continuando às voltas nos carros do sonho...
No dia seguinte, era tempo da menina voltar para a mãe. O pai, triste, ainda preocupado com a queda da menina, olhou para o céu nublado e, no meio do sol e da chuva, viu um arco-íris, e sorriu. As cores lembravam-lhe a menina nos carros da festa a andar às voltas. A menina trouxera o arco-íris para o final de mais um fim-de-semana especial e o pai dormiu mais descansado.
sábado, maio 17, 2008
Uma visita especial
O menininho veio com mochilinha da creche e chamou animado pela titia, antes mesmo de a porta se abrir. Com seu jeitinho curioso e ativo, percorreu com familiaridade todos os aposentos, como se sempre tivesse vivido ali. Depois, deteve-se diante da fresta da varanda, percebendo-se do lado de cá, a espiar para a sua casa, do lado de lá.
Desenharam, fizeram barcos de papel, tiraram fotos e viram a lua.
Quando o menininho retornou à casa, correu para chamar a titia. Agora, do lado de cá e do lado de lá, a fresta tem um novo sentido. Doce, como fruta madura.
sexta-feira, maio 16, 2008
A avó e os netos do coração 2
Nessas muitas moradas afetivas, há o infante João, recém-nascido, o neto do coração de Portugal, a quem ela dedicou um acalanto, embalando-o docemente em pensamento. Há o menininho que mora no Brasil, no apartamento ao lado, e que tem quase a mesma idade da menininha, "a neta primeira a chegar", em Portugal.
A avó sente não poder conviver com eles ao mesmo tempo. Sabe que quando está com o neto de cá não pode estar com os do outro lado do cais. E vice-versa. Mas sabe também que amar um é amar os outros, pois este é o milagre da multiplicação do amor. Quanto mais se ama, mais se acrescenta.
quinta-feira, maio 15, 2008
A fresta, a festa ou Doces convívios com o neto do coração
Ambos já têm um conjunto de vivências em comum que permitem pequenos diálogos e brincadeiras. E a avó maravilha-se por poder acompanhar de perto o crescimento em linguagem e em beleza deste pequenino ser.
Quando o menininho chega da creche, corre à varanda, sôfrego, já com saudade dos brinquedos que deixou. Primero, distrai-se a brincar com eles. Depois, chama a titia (a avó do coração) e pede-lhe para sentar na soleira, próximo à fresta da varanda. Mesmo que não estejam a trocar brinquedinhos, gosta de saber que ela está ali a vê-lo brincar, através do reflexo do vidro espelhado.
À noite, após o jantar, reencontram-se novamente. Imitam vozes de animais, falam da lua que aparece (e desaparece) no céu, dos novos brinquedos, dos amigos preferidos, etc.
Aos poucos o espaço de interação alarga-se e cresce junto com o menininho. Já ganhou o corredor do edifício (de vez em quando a avó consegue se despedir do menininho de manhã, quando ele vai para a creche) e houve até um breve encontro na pracinha, em meio a escorregas, trepa-trepas e balanços, com direito a braços estendidos do menininho para acolher os avós do coração.
Amanhã, decerto, haverá mais histórias para contar. Que alegria é viver e, sobre todas as coisas, amar!
quarta-feira, maio 14, 2008
Ontem, dia 13 de Maio
Não há o que comemorar. Não podemos apagar esta aviltante página da nossa história passada. Mas convém lembrar, sempre, para não esquecer. Convém lembrar para não esquecer que ainda há trabalho escravo aviltando as páginas que se escrevem na nossa história presente.
"Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?" (Castro Alves, Vozes d'África). Onde estão, hoje, as vozes levantadas? Onde estão os gritos pelos direitos humanos? Convém denunciar e clamar e agir.
segunda-feira, maio 12, 2008
Na mesinha, um vaso de begônias...
- Obrigado por seres a mãe dos meus filhos.
Não, não repeti o lugar-comum:
- Não precisava...
Precisava sim. Cada vez mais precisamos manifestar e aceitar afetos, bem-quereres. Acolhi o abraço, as palavras e as flores.
Olho o vaso de begônias, abro as cortinas, há sol lá fora. Respiro fundo, penso afetuosamente nos meus amores, começo com novo alento um novo dia.
domingo, maio 11, 2008
No Dia das Mães
“Quando eu morrer, filhinho,
seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
e leva-me para dentro da tua casa.
Despe-me o ser cansado e humano
e deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.”
fragmento do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimmo de Fernando Pessoa)
quinta-feira, maio 08, 2008
Carta-acalanto para a mãe de Isabella
Você não me conhece pessoalmente. Sou mãe, avó, educadora, cidadã (e, atualmente, alguém que se esforça para tornar-se um ser humano melhor e sonha construir um mundo em que o amor seja cada vez mais possível). E, como tal, queria manifestar - a você, a seus pais e a toda a sua família - a minha imensa solidariedade. Imagino que devem estar recebendo o apoio e o afeto de milhares de pessoas do Brasil e do mundo. Mas carinho nunca é demais.
Procuro mas não encontro as palavras certas para confortá-la. Não há na língua portuguesa nenhuma palavra para nomear a dor inimaginável de quem perdeu um filho, especialmente uma criança.
Queria dizer-lhe apenas, nesta carta-acalanto, que ao solidarizar-me com você, procuro também serenizar um pouco o meu coração e apaziguar a dor deste luto. Que sempre a acompanhe a certeza de que soube amar e cuidar bem da sua pequena, a certeza de que soube dar a ela muito amor e foi por ela plenamente correspondida. Guarde esta linda imagem de amor materno e filial. Certamente ela a ajudará a atravessar melhor este momento e os que ainda virão. Acolha também a convicção, forjada no ideal de justiça, de que, no que depender de profissionais sérios e competentes e da sociedade em geral, "Isabella não será esquecida".
quarta-feira, maio 07, 2008
Coisas de criança 19 - Amizade
Há uma nova música no Canal Panda que o pai e a menina adoram. Fala sobre a amizade e o refrão é como se segue:
Quando estamos tristes
Quem nos ouve, quem lá está
Melhor que ter amigos não há
Quando temos festa
Quem alegra, quem lá está
Melhor que ter amigos não há
A letra, melodia e colorido da imagem cativaram-lhes ao ponto de cantarem juntos.
- Canta de novo papá!
terça-feira, maio 06, 2008
Coisas de criança 18 - A menininha, o tempo e a distância
Maravilho-me com algo aparentemente comum a todas as crianças. Mas o fato é que a menininha, com apenas dois anos de existência, não esquece que nas férias passadas (entenderá lá o que são férias?) tomou banho de piscininha na casa da bivó paterna. Assim, neste último fim-de-semana com o pai, foi à gaveta pegar o biquini e pediu a ele que a levasse lá.
E quando interagia pela webcam com os avós paternos ("os avós do avião", como ela a eles se refere, em conversa com a tia-madrinha), de repente pediu para falar com a madrinha. O pai tentou fazê-la entender que a madrinha estava sem computador em casa e por isso não poderia vê-la.
Deve ter entendido, pois logo voltou a gargalhar gostosamente com alguns ícones animados, especialmente o do sapo que fisga com a língua uma mosca e logo solta um arroto (não é socialmente bem-educado, sabemos bem disso, mas é inegável que as crianças apreciam com naturalidade coisas escatológicas, como arrotar e soltar "pum").
- Mais! O do sapinho.
sábado, maio 03, 2008
Quem ama
não espera ser amado, apenas ama
espera o tempo que for preciso, mesmo que não tenha tempo
vai até onde for preciso, mesmo que não haja caminho
porque quem ama cria o tempo e o caminho
quem ama simplesmete ama
sem condições, sem marcações, sem lista de desejos,
sem variações, sem divisões, sem paixões de uma só noite
quem ama simplesmente
segue seu caminho e o seu tempo,
o caminho que cruza com o do que é amado,
no mesmo tempo do que é amado,
mesmo que o que é não seja um ser,
talvez uma planta, ou um gato, ou um livro, ou um lápis
quem ama por vezes nem sabe que ama
apenas ama
ama apenas
e o que sente não passa, fica, permanece,
ontem amamos, hoje amamos, amanhã também
com intensidade, mas sem sufocar
com ardência, mas sem picada
com calor, mas com ar, água e terra,
com alimento
Alguns versos e pensamentos I
que ele deixou, nem dos pombos,
que eles sequem, como eu seco,
que eles morram, como eu morro"
Rosalía de Castro
Espécie de cantiga de amigo do nosso tempo. Canto da ausência do ser amado. Cansada de esperar em vão, seca de afetos, a mulher rebela-se e decide não mais cuidar das coisas que ele deixou e que a fazem lembrar dele.
terça-feira, abril 29, 2008
Uma vida e a vida enquanto uma criança
A morte de Isabella e a eficiência da Polícia
Foi um exemplo de profissionalismo, de dever bem cumprido. Devíamos nos orgulhar de termos profissionais tão competentes, ao invés de criticá-los. Outro exemplo de seriedade e competência vem-nos do promotor que acompanha o caso, o que nos deixa mais confiantes na possibilidade de ser feita justiça (a justiça possível, tendo em conta a pouca severidade de nossas leis).
Não, não foi "um espetáculo de pirotecnia". Mas, ainda que fosse, não é isto que deveria causar preocupação. Preocupante é o triste espetáculo diariamente oferecido por muitos dos nossos políticos. Preocupante é haver assassinatos, especialmente de crianças. Preocupante é a possibilidade de o(s) assassino(s) não ser(em) preso(s) e julgado(s). Preocupante é a brecha de se considerar a "primariedade" do(s) acusado(s) num crime contra a criança (no caso em questão, contra a própria filha). Preocupante é a leveza da pena, desproporcional ao peso do delito.
Sim, o fato vem ocupando um grande espaço na mídia - um espaço correspondente à comoção popular diante da brutalidade do crime. Sinal de que a sociedade ainda não perdeu a capacidade de se indignar diante de crimes hediondos, como este, e de clamar por justiça. Sinal de que se solidariza com a dor sem nome e sem sentido dos que efetivamente amavam a menina. Sinal de que repudia a frieza de quem matou barbaramente uma criança e não compatua com o silêncio de quem, em nome de certos valores e direitos, protege assassinos, calando o valor e direito maior, o da vida.
segunda-feira, abril 28, 2008
Isabella - a via crucis
Uma fralda e uma toalha serviram para estancar o sangue do rosto da menina (o lenço de Verônica, mas sem a sua piedade...), enquanto era levada até ao apartamento. (Alguém quase conseguiu eliminar os vestígios dos tecidos, lavando-os com alvejante. E também limpou o rastro de sangue do chão... Por que?)
A menina, inerte, totalmente indefesa, foi posta sentada no chão (a segunda queda...). Sua sentença de morte (qual a acusação?) já estava assinada: sufocá-la com pesadas mãos de adulto, tirar-lhe o ar por infinitos minutos, matá-la por asfixia (o suplício, a quase morte, antes da definitiva queda...). Só faltava agora o(s) seu(s) assassino(s) pensar(em) num modo de se livrar(em) do corpo sem que recaísse sobre ele(s) a culpa.
Defenestrá-la, através do rasgo aberto na rede de proteção, foi a decisão fria do(s) seu(s) algoz(es). Imagem de uma cueldade inimaginável, de tamanho horror, que ultrapassa qualquer ficção. Dependurada pelos pulsos, braços para o alto, corpo pendente no vazio (a terceira queda, a crucificação...), a menina balançou no ar e depois despencou no abismo.
Impossível sobreviver a tantos tormentos. Mesmo assim, seu coraçãozinho continuou a bater, quase imperceptivelmente, mas por pouco tempo. O breve tempo talvez de poder ver o rosto materno ou de sentir sua presença (a descida da cruz, "stabat mater"...).
Só que Isabella não veio ao mundo para morrer na cruz. (Ninguém vem para sofrer, mas para ser muito amado e amar, para ser feliz). Menos ainda para ser sacrificada (em nome de que, Deus meu?) em plena infância. Era simplesmente uma criança, um ser humano lindo, de sorriso florescente.
Humanamente, mesmo que, perante a lei dos homens, seu(s) assassino(s) seja(m) condenado(s) e cumpra(m) pena, é impossível perdoá-lo(s). Porque não pede(m) perdão. Porque sabia(m) o que fazia(m). Resta - a nós e ao(s) assassino(s) - esperar o juízo divino. Talvez só Ele possa absolvê-lo(s).