quarta-feira, outubro 22, 2008

A gramática das crianças

_ Madrinha, o que é isso?
_ É uma borracha. Serve para apagar o que a gente escreve.
_ Posso usar?
_ Claro que sim, pérola da minha vida.

[cerca de cinco minutos depois entra na sala a querida tia-avó]

_ Então, meu amor? O que é que você está fazendo?
_ Estou a "borrachar".

quarta-feira, julho 23, 2008

Desenhando no presente um comovido até breve

Ontem, quando voltou da creche, o menininho veio aqui em casa. A mãe deixou-o ficar um pouco comigo, para eu tentar explicar a nossa futura longa ausência. Mostrei-lhe as malas espalhadas pela casa. Expliquei que a casa ia ficar fechada e que a titia ia ver a menininha da foto (ele já a chama pelo nome), a neta dela. Ele repetia o final das minhas palavas, compenetrado, como costuma fazer. Mas não fiquei convencida de que entenderá quando a titia não atender ao seu chamado ou quando perceber que as janelas estão sempre fechadas... Então, achei melhor viver aquele pequeno tempo presente com ele, e ficamos os dois a desenhar na varanda.

quinta-feira, julho 17, 2008

Em breve, a alegria do reencontro, do outro lado do cais

Aos meus - poucos porém fiéis - leitores

Em breve estarei do outro lado do cais. Por um período de três meses (23-24/07- 22/10) - que oxalá seja só de abraços e prazerosos convívios - talvez não escreva com a costumeira freqüência nesta página. É que quando estamos vivendo intensamente com os que amamos, não precisamos tanto de escrever as saudades. Mas como, com certeza, surgirão saudades dos que deixo do lado de cá, é possível que sinta necessidade de escrevê-las... Prometo que o farei, sempre que tiver oportunidade.

terça-feira, julho 15, 2008

happy birthday para o irmão que eu escolheria para ser o meu irmão se já não fosse meu irmão

Eu amo-te, Toni!

O sublime no cotidiano

Ontem fui levar o meu neto de coração na creche. Fomos numa pequena comitiva: a mãe, a irmãzinha, o avô e eu. O menininho até pensou que íamos passear na pracinha e, de início, se recusou a aceitar prosseguirmos na direção da escola.

Levei uma fotocópia da minha carteira de identidade (B.I.) para, numa eventualidade, caso a mãe precise, eu poder pegá-lo. Foi uma experiência aparentemente corriqueira, mas para mim, por tudo o que tenho vivido nos últimos anos, teve uma dimensão imensa. Senti-me acolhida, amada, integrada a esta família por laços de afeto tecidos com respeito e atenção cotidianos.

Já deixei com a irmã alguns papéis de carta, da coleção do meu tempo de professora. E para o menininho, um bloco com desenhos para colorir. Há carrinho, lua, avião, sinal de trânsito, enfim, coisas que fazem parte de nossas vivências comuns. Assim, quando perguntar pela "titia", poderá lidar melhor com a "saudade". A partida está preparada, mas o meu problema será: como eu vou lidar com a saudade do menininho?

segunda-feira, julho 14, 2008

domingo, junho 29, 2008

Como pode um bebê entender e expressar a saudade?

Hoje de manhã vi pela lavanderia o meu neto do coração. A mãe me disse que ele havia chamado insistentemente da varanda. E que teria dito: saudade da titia.
Fiquei momentaneamente muda, tal o emocionado espanto. Como uma criança de dois anos, ainda com pouca linguagem, conseguiu expressar, com um palavra tão precisa e singular da nossa língua-cultura, um sentimento tão complexo, da ausência, sentida em nós mesmos, do outro/amado?
Sou em grande parte a responsável por ter feito nascer e crescer esse afeto. Não tenho podido alimentá-lo como desejaria: tem feito muito frio na varanda e, por conta da escrita no computador, tenho ficado enclausurada no quartinho dos fundos, onde ele não pode me ver.
Prestes a ausentar-me por um longo período, já sinto a dor de o deixar, dor que procuro equilibrar com a alegria de partir, e poder rever a neta e os filhos do outro lado do cais.

sexta-feira, junho 27, 2008

Adeus a Sylvinha Araújo

Sylvinha e Eduardo Araújo: 39 anos de casamento e mais 2 de namoro. Acostumamo-nos a vê-los juntos, a pensá-los juntos, em linda parceria humana e musical, conseguindo manter dignamente suas carreiras, sem recorrer a apelos sensacionalistas para aparecer na mídia. Depois de 12 anos de luta sem tréguas contra o câncer, fisicamente extenuada mas espiritualmente muito serena, confortada pelo afeto dos que mais amava, ela partiu .
Lembro-me de vê-la pela TV, sorriso largo, linda voz e um imenso barrigão (creio que estavam juntos no palco, ele com seu instrumento musical e provavelmente com o costumeiro chapéu, mas não posso jurar). Subitamente a apresentação foi interrompida: o bebê dera sinais de que ia nascer. Eu já estava grávida do meu primeiro filho e jamais pude esquecer aquele momento comovente, que uniu música e vida, e que se juntou de forma tão especial à minha própria história.

quarta-feira, junho 25, 2008

segunda-feira, junho 16, 2008

Feliz aniversário, tuki!



Acordei cedo e fui ao jardim buscar as flores mais frescas que ali havia. Em tua homenagem.

sexta-feira, junho 13, 2008

Santo Antonio, Fernando Pessoa e a rapariga que temia a impostura da língua

Hoje é dia de Santo Antonio. Em Lisboa (1195?), nasceu um menino, batizado com o nome Fernando. Mais tarde, receberia o nome de Frei Antônio, na ordem dos Franciscanos.
Séculos depois, também em Lisboa, no dia 13 de Junho de 1888, nasceria o menino Fernando, ou melhor, Fernando Antônio, em homenagem ao Santo mais querido de Portugal. Torna-se-ia o grande poeta do século XX português e um dos maiores de todos os tempos.
Ambos, o santo e o poeta, são da minha particular predileção. Com o nome Antônio tenho três pessoas muito amadas: meu pai, meu marido e meu filho. Invoco o santo em horas de grande aflição e ele em geral não me deixa sem resposta. Já Pessoa aprendi a amar praticamente sozinha, após um brevíssimo contato com "Chuva Oblíqua" na Universidade.
Quando penso em Fernando Pessoa - como o poeta é mais conhecido -, sinto que ele vive comigo, através dos versos que recito de cor (de coração). Comove-me a sua figura esguia, escondendo-se atrás dos óculos. E sobretudo a sua profunda solidão, em parte talvez por temperamento, mas também pelo preço que advém de não ter praticamente interlocutores contemporênos para a sua poesia. Apesar de tudo, cumpriu magnificamente a sua missão de artista. Deixou-nos um imenso legado. "Essa coisa [a sua poesia] é que é linda".
Um pouco antes de empreender a grande viagem, teria dito: "eu não sei o que o amanhã trará". Talvez o poeta tivesse gostado do que lhe trouxe "a rapariga que temia a impostura da língua". Desde que ela se lembra, ele viveu sempre consigo, foi seu companheiro de brincar de "Só e maravilha". Depois da escrita de Maria Gabriela Llansol, acrescenta-se-lhe uma nova imagem, cheia de pujança: Pessoa/Aossê é um falcão peregrino, voando ao encontro de outras possibilidades harmônicas. "Passa, ave, passa, e ensina-me a passar".

quinta-feira, junho 12, 2008

Aos namorados de todos os tempos

"Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar"
(Tom & Vinícius)

"penso que as beguinas sabiam que o amor (a amizade, a paixão, o segredo) têm lugar no corpo, mas muito pouco lugar; ele é uma manifestação do espirito, que é tão corpóreo como esta mão que escreve; por isso, quando se diz a alguém 'eu amo-te', é para sempre que fica dito"
(Maria Gabriela Llansol)

a

Tristão e Isolda
Pedro e Inês
Romeu e Julieta
Abelardo e Heloísa
Jorge Amado e Zélia Gattai
Roberto Carlos e Maria Rita
Maria Gabriela e Augusto
Eduardo Lourenço e Annie

e outros "gêmeos astrais"

terça-feira, junho 10, 2008

Post 366*

Se este blog fosse um ano, se este ano fosse bissexto, se o dia tivesse 24 horas, se o se fosse um desejo de sempre, seria um leitor à espera, um blog à espera de mais 365 posts.
*incluí os rascunhos, "ses", possibilidades de escrita

Coisas de criança 23 - o arco-íris da praia

Img023

Ontem foi dia de praia.  O pai e a menina foram de Metro e saíram em Matosinhos Sul.  Acomodaram-se perto do mar, com a praia ainda vazia, e deixaram o vento baloiçar as cores do guarda-sol enquanto faziam castelos de areia.  Algumas nuvens corriam no céu azul, criando sombras rápidas sobre as pequenas dunas mornas.  A menina estava tão contente que não sabia por onde começar e mesmo com os moldes exatos para fazer um polvo violeta, um pato amarelo, um barco verde e uma estrela do mar vermelha, preferiu voltar à calçada, perto do bar, onde já lá estavam outras crianças a brincar numa casa em plástico.  Experimentou todos os brinquedos, comeu bolachas, bebeu água até que chegou a hora de voltar para preparar o almoço.  No caminho de volta quis segurar o guarda-sol com os dois braços, como se abraçasse todas as cores do arco-íris.

domingo, junho 08, 2008

Comentário ao post da fadinha-cozinheira

A avó mal vê a hora de provar essas iguarias feitas por tão linda fada-cozinheira. Já se imagina a entrar nessa cozinha de sonho, a estender as mãos para pegá-las, a levá-las à boca, a fechar os olhos para melhor apreciá-las... (Hummm! Que delícia é viver e inventar!) E depois, ou talvez antes, a estender os braços para envolver essa menina mágica com um abraço ao mesmo tempo muito forte e muito delicado, para não amassar tão fofas asinhas.

A pérola que o meu irmão me deu


Claro que é o melhor doce caseiro do mundo. Há pequeninas fadas-cozinheiras que conseguem transformar tudo em alimentos e estes, uma vez preparados, são trazidos nas mãos em forma de concha. Quem os come fica imediatamente feliz e agradece ao Mundo a possibilidade de ter por perto tão perfeita criatura.

terça-feira, junho 03, 2008

Coisas de criança 22 - a nossa casa

NossaCasa

O que a madrinha lhe havia criado com os individuais de plástico, imaginando um telhado entre as duas, agora a menina redescobria numa outra casa em que até conseguia entrar.  O pai rearrumou todo o quarto, e conseguiu um espaço para montá-la.  Após colher as maçãs, tratou de fazer a sua especialidade, tirando de algum lugar, provavelmente de um armário, uma panela que lhe permitisse cozê-las em lume brando.  O doce era feito à gosto, apurando com o tempo de cozedura.  O pai divertia-se com a alegria contagiante da menina.  Quando ficou pronto, a menina estendeu a mão pela porta e disse:

- Prova, papá.

Aquele era o melhor doce caseiro do mundo.

domingo, junho 01, 2008

Comentário a uma foto de família


Comove-me esta foto. Nela, a família ainda é pura potencialidade de crescer em harmonia. É difícil precisar quando ou porque começou a desintegração. Mas o "menininho descalço sobre a cadeira" conseguiu prosseguir, incólume. E formou uma família que vem cumprindo a promessa de felicidade que ficara interrompida. Hoje, os seus descendentes, sensíveis e unidos, tecem redes e nós de afeto, bordados e ancorados neste e em outros cais.

sexta-feira, maio 30, 2008

Hoje é dia de alegria

Hoje será um dia festivo.
O rosto do teu pai se iluminará
ao rever a azulíssima cor do teu olhar,
o rosto amado a desabrochar em sorrisos
e o balançar dos teus caracóis,
ao desceres célere os degraus da escada
e correres ansiosa ao encontro de seus braços.

quarta-feira, maio 28, 2008

Coisas de criança 21- da necessidade do convívio para a construção do afeto

Segunda visita do menininho ao apartamento da titia: desta vez, veio para ficar só com ela, sem a babá. Agora já reconhece a porta do apartamento onde a titia mora: é só virar para o outro do lado do corredor. Já pega o regador azul e ajuda a molhar as plantinhas. Já pára diante de alguns objetos e lembra dos comentários da titia, com palavras-síntese-de-histórias-ouvidas:

- kebou! (sobre o vaso de barro com tampa quebrada)

- sujo! (sobre a cadeira de repouso, que a titia correu a limpar quando o menino quis sentar)

- carro vermelho! (sobre a miniatura de carro que pertenceu ao filho da titia, hoje um homem, e que vai e vem, a cada encontro, como uma espécie de objeto transicional para chegadas e partidas)

- menino! (foto do filho da titia, primeiro dono do carrinho vermelho)

- Bia! (foto da menininha, filha do dono do carrinho, que não é a Beatriz, amiguinha da creche, mas deve se parecer muito com ela)

E assim ambos brincaram quase duas horas. Quando o titio chegou, amou a surpresa de encontrar aquela cena. Feliz, o menininho correu para os braços dele. Já sabia que ia ganhar balancinho. E deixou-se balançar, sem medo.