sábado, novembro 01, 2008

Lendo Llansol - entre 1 e 2 de Novembro

"Herbais, 2 de Novembro de 1982

(...) A noite criativa foi a de 1 para 2 de Novembro - estabeleceu-se assim um elo entre os vivos e os mortos, e os vivos tomaram responsabilidade no reino dos mortos, e os mortos assumiram a sua responsabilidade no reino dos vivos; (...) "

(Fragmento de Um falcão no punho. Diário 1. Lisboa: Rolim, 1985, p. 94 )

sexta-feira, outubro 31, 2008

Lendo Llansol - sobre cartas

"Como eu gostaria de saber em que circunstâncias terminarei
esta carta
se as cartas já não têm o valor de outrora, como cartas,
e ainda não atingiram o valor futuro, que hão-de ter e se,
no momento intermédio da passagem,
são autênticos invisíveis,
que perguntas continuarei eu a enviar-te
como quem espera por um alimento desconhecido,
e tem necessidade de o fazer como quem come?"

(fragmento de "Oferenda a Apollinaire______" in Mais Novembro Do Que Setembro, de Guilhaume Apollinaire. Tradução e Prefácio de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio d'Água, 2001, p. 14)

sexta-feira, outubro 24, 2008

Chegada

Voltei, após quase três meses de ausência. Preparei aos poucos meu corpo e o meu espírito para o regresso. Dói deixar os que amamos. Fui me despedindo aos poucos: primeiro da filha e da neta - as duas de uma só vez, no mesmo dia. Na véspera da viagem, abracei comovidamente minha mãe, e deixei a vila onde nasci. Por fim, já no aeroporto, apertei fortemente o meu filho. Lágrimas inevitáveis. As da separação da netinha, estas foram disfarçadas. Choramos só quando entramos no carro, para que ela não visse que sofríamos.

O corpo ainda não se adaptou ao fuso horário. O espírito estranhou um pouco as ruas, as gentes, a casa e os objetos que deveriam ser familiares.

No primeiro dia após o regresso, logo de manhã, vi que o meu neto do coração cresceu bastante e já fala muitas palavras novas. Não me esqueceu! Assim que percebeu que voltamos, antes de ir para a escola, fez questão de visitar-nos e passar umas horas com a titia.

Muito à vontade, pediu para ver desenhos animados, aninhado na nossa cama. Depois veio brincar com os carrinhos dele, enquanto eu limpava algumas prateleiras do armário da cozinha. De tarde, quando regressou da creche, chamou-me para brincar na fresta da varanda. Expliquei-lhe que estava muito suja e suada e que precisava tomar um banho. Ele entendeu.

Ainda não pude ver o mar que tanto amo. Pretendo vê-lo hoje à tardinha, quando formos dar a habitual caminhada. Depois eu conto como foi esse reencontro.

quarta-feira, outubro 22, 2008

A gramática das crianças

_ Madrinha, o que é isso?
_ É uma borracha. Serve para apagar o que a gente escreve.
_ Posso usar?
_ Claro que sim, pérola da minha vida.

[cerca de cinco minutos depois entra na sala a querida tia-avó]

_ Então, meu amor? O que é que você está fazendo?
_ Estou a "borrachar".

quarta-feira, julho 23, 2008

Desenhando no presente um comovido até breve

Ontem, quando voltou da creche, o menininho veio aqui em casa. A mãe deixou-o ficar um pouco comigo, para eu tentar explicar a nossa futura longa ausência. Mostrei-lhe as malas espalhadas pela casa. Expliquei que a casa ia ficar fechada e que a titia ia ver a menininha da foto (ele já a chama pelo nome), a neta dela. Ele repetia o final das minhas palavas, compenetrado, como costuma fazer. Mas não fiquei convencida de que entenderá quando a titia não atender ao seu chamado ou quando perceber que as janelas estão sempre fechadas... Então, achei melhor viver aquele pequeno tempo presente com ele, e ficamos os dois a desenhar na varanda.

quinta-feira, julho 17, 2008

Em breve, a alegria do reencontro, do outro lado do cais

Aos meus - poucos porém fiéis - leitores

Em breve estarei do outro lado do cais. Por um período de três meses (23-24/07- 22/10) - que oxalá seja só de abraços e prazerosos convívios - talvez não escreva com a costumeira freqüência nesta página. É que quando estamos vivendo intensamente com os que amamos, não precisamos tanto de escrever as saudades. Mas como, com certeza, surgirão saudades dos que deixo do lado de cá, é possível que sinta necessidade de escrevê-las... Prometo que o farei, sempre que tiver oportunidade.

terça-feira, julho 15, 2008

happy birthday para o irmão que eu escolheria para ser o meu irmão se já não fosse meu irmão

Eu amo-te, Toni!

O sublime no cotidiano

Ontem fui levar o meu neto de coração na creche. Fomos numa pequena comitiva: a mãe, a irmãzinha, o avô e eu. O menininho até pensou que íamos passear na pracinha e, de início, se recusou a aceitar prosseguirmos na direção da escola.

Levei uma fotocópia da minha carteira de identidade (B.I.) para, numa eventualidade, caso a mãe precise, eu poder pegá-lo. Foi uma experiência aparentemente corriqueira, mas para mim, por tudo o que tenho vivido nos últimos anos, teve uma dimensão imensa. Senti-me acolhida, amada, integrada a esta família por laços de afeto tecidos com respeito e atenção cotidianos.

Já deixei com a irmã alguns papéis de carta, da coleção do meu tempo de professora. E para o menininho, um bloco com desenhos para colorir. Há carrinho, lua, avião, sinal de trânsito, enfim, coisas que fazem parte de nossas vivências comuns. Assim, quando perguntar pela "titia", poderá lidar melhor com a "saudade". A partida está preparada, mas o meu problema será: como eu vou lidar com a saudade do menininho?

segunda-feira, julho 14, 2008

domingo, junho 29, 2008

Como pode um bebê entender e expressar a saudade?

Hoje de manhã vi pela lavanderia o meu neto do coração. A mãe me disse que ele havia chamado insistentemente da varanda. E que teria dito: saudade da titia.
Fiquei momentaneamente muda, tal o emocionado espanto. Como uma criança de dois anos, ainda com pouca linguagem, conseguiu expressar, com um palavra tão precisa e singular da nossa língua-cultura, um sentimento tão complexo, da ausência, sentida em nós mesmos, do outro/amado?
Sou em grande parte a responsável por ter feito nascer e crescer esse afeto. Não tenho podido alimentá-lo como desejaria: tem feito muito frio na varanda e, por conta da escrita no computador, tenho ficado enclausurada no quartinho dos fundos, onde ele não pode me ver.
Prestes a ausentar-me por um longo período, já sinto a dor de o deixar, dor que procuro equilibrar com a alegria de partir, e poder rever a neta e os filhos do outro lado do cais.

sexta-feira, junho 27, 2008

Adeus a Sylvinha Araújo

Sylvinha e Eduardo Araújo: 39 anos de casamento e mais 2 de namoro. Acostumamo-nos a vê-los juntos, a pensá-los juntos, em linda parceria humana e musical, conseguindo manter dignamente suas carreiras, sem recorrer a apelos sensacionalistas para aparecer na mídia. Depois de 12 anos de luta sem tréguas contra o câncer, fisicamente extenuada mas espiritualmente muito serena, confortada pelo afeto dos que mais amava, ela partiu .
Lembro-me de vê-la pela TV, sorriso largo, linda voz e um imenso barrigão (creio que estavam juntos no palco, ele com seu instrumento musical e provavelmente com o costumeiro chapéu, mas não posso jurar). Subitamente a apresentação foi interrompida: o bebê dera sinais de que ia nascer. Eu já estava grávida do meu primeiro filho e jamais pude esquecer aquele momento comovente, que uniu música e vida, e que se juntou de forma tão especial à minha própria história.

quarta-feira, junho 25, 2008

segunda-feira, junho 16, 2008

Feliz aniversário, tuki!



Acordei cedo e fui ao jardim buscar as flores mais frescas que ali havia. Em tua homenagem.

sexta-feira, junho 13, 2008

Santo Antonio, Fernando Pessoa e a rapariga que temia a impostura da língua

Hoje é dia de Santo Antonio. Em Lisboa (1195?), nasceu um menino, batizado com o nome Fernando. Mais tarde, receberia o nome de Frei Antônio, na ordem dos Franciscanos.
Séculos depois, também em Lisboa, no dia 13 de Junho de 1888, nasceria o menino Fernando, ou melhor, Fernando Antônio, em homenagem ao Santo mais querido de Portugal. Torna-se-ia o grande poeta do século XX português e um dos maiores de todos os tempos.
Ambos, o santo e o poeta, são da minha particular predileção. Com o nome Antônio tenho três pessoas muito amadas: meu pai, meu marido e meu filho. Invoco o santo em horas de grande aflição e ele em geral não me deixa sem resposta. Já Pessoa aprendi a amar praticamente sozinha, após um brevíssimo contato com "Chuva Oblíqua" na Universidade.
Quando penso em Fernando Pessoa - como o poeta é mais conhecido -, sinto que ele vive comigo, através dos versos que recito de cor (de coração). Comove-me a sua figura esguia, escondendo-se atrás dos óculos. E sobretudo a sua profunda solidão, em parte talvez por temperamento, mas também pelo preço que advém de não ter praticamente interlocutores contemporênos para a sua poesia. Apesar de tudo, cumpriu magnificamente a sua missão de artista. Deixou-nos um imenso legado. "Essa coisa [a sua poesia] é que é linda".
Um pouco antes de empreender a grande viagem, teria dito: "eu não sei o que o amanhã trará". Talvez o poeta tivesse gostado do que lhe trouxe "a rapariga que temia a impostura da língua". Desde que ela se lembra, ele viveu sempre consigo, foi seu companheiro de brincar de "Só e maravilha". Depois da escrita de Maria Gabriela Llansol, acrescenta-se-lhe uma nova imagem, cheia de pujança: Pessoa/Aossê é um falcão peregrino, voando ao encontro de outras possibilidades harmônicas. "Passa, ave, passa, e ensina-me a passar".

quinta-feira, junho 12, 2008

Aos namorados de todos os tempos

"Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar"
(Tom & Vinícius)

"penso que as beguinas sabiam que o amor (a amizade, a paixão, o segredo) têm lugar no corpo, mas muito pouco lugar; ele é uma manifestação do espirito, que é tão corpóreo como esta mão que escreve; por isso, quando se diz a alguém 'eu amo-te', é para sempre que fica dito"
(Maria Gabriela Llansol)

a

Tristão e Isolda
Pedro e Inês
Romeu e Julieta
Abelardo e Heloísa
Jorge Amado e Zélia Gattai
Roberto Carlos e Maria Rita
Maria Gabriela e Augusto
Eduardo Lourenço e Annie

e outros "gêmeos astrais"

terça-feira, junho 10, 2008

Post 366*

Se este blog fosse um ano, se este ano fosse bissexto, se o dia tivesse 24 horas, se o se fosse um desejo de sempre, seria um leitor à espera, um blog à espera de mais 365 posts.
*incluí os rascunhos, "ses", possibilidades de escrita

Coisas de criança 23 - o arco-íris da praia

Img023

Ontem foi dia de praia.  O pai e a menina foram de Metro e saíram em Matosinhos Sul.  Acomodaram-se perto do mar, com a praia ainda vazia, e deixaram o vento baloiçar as cores do guarda-sol enquanto faziam castelos de areia.  Algumas nuvens corriam no céu azul, criando sombras rápidas sobre as pequenas dunas mornas.  A menina estava tão contente que não sabia por onde começar e mesmo com os moldes exatos para fazer um polvo violeta, um pato amarelo, um barco verde e uma estrela do mar vermelha, preferiu voltar à calçada, perto do bar, onde já lá estavam outras crianças a brincar numa casa em plástico.  Experimentou todos os brinquedos, comeu bolachas, bebeu água até que chegou a hora de voltar para preparar o almoço.  No caminho de volta quis segurar o guarda-sol com os dois braços, como se abraçasse todas as cores do arco-íris.

domingo, junho 08, 2008

Comentário ao post da fadinha-cozinheira

A avó mal vê a hora de provar essas iguarias feitas por tão linda fada-cozinheira. Já se imagina a entrar nessa cozinha de sonho, a estender as mãos para pegá-las, a levá-las à boca, a fechar os olhos para melhor apreciá-las... (Hummm! Que delícia é viver e inventar!) E depois, ou talvez antes, a estender os braços para envolver essa menina mágica com um abraço ao mesmo tempo muito forte e muito delicado, para não amassar tão fofas asinhas.

A pérola que o meu irmão me deu


Claro que é o melhor doce caseiro do mundo. Há pequeninas fadas-cozinheiras que conseguem transformar tudo em alimentos e estes, uma vez preparados, são trazidos nas mãos em forma de concha. Quem os come fica imediatamente feliz e agradece ao Mundo a possibilidade de ter por perto tão perfeita criatura.

terça-feira, junho 03, 2008

Coisas de criança 22 - a nossa casa

NossaCasa

O que a madrinha lhe havia criado com os individuais de plástico, imaginando um telhado entre as duas, agora a menina redescobria numa outra casa em que até conseguia entrar.  O pai rearrumou todo o quarto, e conseguiu um espaço para montá-la.  Após colher as maçãs, tratou de fazer a sua especialidade, tirando de algum lugar, provavelmente de um armário, uma panela que lhe permitisse cozê-las em lume brando.  O doce era feito à gosto, apurando com o tempo de cozedura.  O pai divertia-se com a alegria contagiante da menina.  Quando ficou pronto, a menina estendeu a mão pela porta e disse:

- Prova, papá.

Aquele era o melhor doce caseiro do mundo.