domingo, novembro 09, 2008

papagaio de papel

extasiada
estendo o braço
à lua lá no céu
movo o olhar
cubro a distância
e assim faço
vogar no ar
meu singular
papagaio de papel

(poema - ? - escrito nesta manhã, após mostrar à minha netinha, através da web can, um livro sobre pipas)

Será arte?

deter o tempo
no átimo
de pleno viço
que precede
a degeneração

(poema - haicai? - que me surgiu ontem no ponto do ônibus, após assistir a um documentário sobre o poeta Waly Salomão)

sábado, novembro 08, 2008

Livro sobre pipas ou papagaios de papel

Já escrevi sobre Fadas & Bruxas; Saci; Boto, Iara e Iemanjá. E também sobre Pão (a publicar) e Acalantos (recentemente enviado para apreciação da editora, em Portugal).

No momento, escrevo dois livros (em forma de B.I.): sobre o Boitatá e a Boiuna e sobre Pipas ou Papagaios de papel.

Todas as contribuições serão bem-vindas.

sexta-feira, novembro 07, 2008

O amor de uma criança

O menininho sentiu a minha longa ausência. A princípio ele não fez muita festa ao nos ver e não respondia aos meus acenos, quando a empregada ou a mãe o traziam de manhã na área de serviço para trocar a fralda da noite (ele já não usa de dia).
Dei tempo ao tempo, sem pressa. Foi vindo aos poucos. Na segunda semana, veio duas vezes de manhã, antes da creche. Mas ao retornar de tarde não mais me chamada para brincar pela fresta da varanda. Nesta semana, ao voltar da escolinha, já pediu seguidamente para vir brincar na casa da titia. Ontem, trouxe boa parte da sua frota de carrinhos. Contei-lhe uma história - de um menino, seus amigos e sua pipa -, naturalmente a partir das imagens de um livro*.
Amor precisa de alimento cotidiano, com o pão do afeto e do imaginário. Sobretudo quando é amor de criança.
*MUTH, Jon J. (Texto e ilustrações). As três perguntas. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (baseado numa história de Leon Tolstoi).

quarta-feira, novembro 05, 2008

O novo rosto da América

Após a imensa decepção com o Sr. L. no Brasil, pensei não mais me empolgar com eleições, fossem onde fossem. Apesar de atualmente sentir um desencanto geral, não me surpreendi por ver-me torcendo por Obama, por tudo que a sua vitória nas urnas significa. O agora presidente eleito dos EUA já me havia conquistado há muito, quando assisti a uma entrevista dele num célebre programa americano. Mas uma coisa é simpatizar com um possível candidato e outra é almejar a sua vitória. Lembro-me, contudo, de ter apreciado a sua postura e de perceber nele a chama de um líder nato, um vencedor, mas através de muito empenho e esforço pessoal.

Nada entendo de crise econômica nem de política internacional. Não sei que tipo de repercussão a sua plataforma política terá para a economia do Brasil. Só sei que me apraz profundamente a resposta da população e a assunção deste novo rosto compósito pela América.

Foi bonita a festa.

terça-feira, novembro 04, 2008

Um manuscrito interrompido

Arrumando gavetas e estantes, encontrei um fragmento de texto manuscrito numa folha de papel quadriculado. Reconheço a letra - é de alguém muito amado, quando ainda era um jovem, e já revelava afinidades poéticas. Pode ser cópia de algum texto que o jovem leitor apreciou ou - penso que esta hipótese é mais provável - sua própria criação. O texto interrompe-se de repente, na inicial de uma palavra:

"Vi outras vidas movendo-se. Sonhei os sonhos que estas vidas sonharam. Senti o que elas sentiram. Mas não são vidas, são criações. Me tocam e fazem-se p"

segunda-feira, novembro 03, 2008

Um pouco de sol e mar

Ontem, domingo, foi dia de andar na avenida Atlântica, fechada ao tráfego, transformada em imensa área de lazer.

Amo este lugar. Para mim, talvez o mais carioca de todos. É perfeita a combinação de sol, mar, tarde de domingo, pessoas e famílias se divertindo... Enquanto ando, de mãos dadas com o meu amor, neste Novembro que mais parece Setembro, sinto o sol aquecendo suavemente o rosto. Respiro fundo. Sorrio. Vejo homens-estátua (penso na minha filha e nos personagens de Lídia Jorge) e outros artistas populares lutando pelo seu ganha-pão, crianças pedalando carrinhos alugados, sob o olhar atento dos pais (penso no meu filho e na minha neta, imaginando que bem poderiam estar ali), ciclistas, banhistas, a estátua do poeta Drummond, o Posto Seis, a orla maravilhosa de Copacabana.

Volto revigorada. É muito bom viver.

domingo, novembro 02, 2008

Lendo Llansol - para o dia de hoje

para Maria Gabriela Llansol, Amiga,
e Antonio Almeida Azevedo, Pai
- os meus mortos mais queridos
(só fisicamente ausentes - vivos, no jardim que o afeto permite)

" (2 de Novembro)

Os cultivo, fiel aos meus, no jardim abismático que aqui
Me trouxe - Ana e Myriam, Parménides, Prunus Triloba,
Maya, Potropato, Suso, Eckhart, Müntzer, O Pobre, Alice,
Alisubbo, João da Cruz, Ana de Penãlosa, Margarida, Isabôl,
Copérnico, Comuns, Spinoza, Coração do Urso, Bach,
Hölderlin, Nietzsche, Teresa Martin, Kierkgaard, Rilke, Pai,
Maria Adélia, Avó Maria, Jorge Anés, Mãe, Jade, Vergílio
Ferreira _______ até à luz da ressurreição."

(estância 306 de O começo de um livro é precioso. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003)

sábado, novembro 01, 2008

Lendo Llansol - entre 1 e 2 de Novembro

"Herbais, 2 de Novembro de 1982

(...) A noite criativa foi a de 1 para 2 de Novembro - estabeleceu-se assim um elo entre os vivos e os mortos, e os vivos tomaram responsabilidade no reino dos mortos, e os mortos assumiram a sua responsabilidade no reino dos vivos; (...) "

(Fragmento de Um falcão no punho. Diário 1. Lisboa: Rolim, 1985, p. 94 )

sexta-feira, outubro 31, 2008

Lendo Llansol - sobre cartas

"Como eu gostaria de saber em que circunstâncias terminarei
esta carta
se as cartas já não têm o valor de outrora, como cartas,
e ainda não atingiram o valor futuro, que hão-de ter e se,
no momento intermédio da passagem,
são autênticos invisíveis,
que perguntas continuarei eu a enviar-te
como quem espera por um alimento desconhecido,
e tem necessidade de o fazer como quem come?"

(fragmento de "Oferenda a Apollinaire______" in Mais Novembro Do Que Setembro, de Guilhaume Apollinaire. Tradução e Prefácio de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio d'Água, 2001, p. 14)

sexta-feira, outubro 24, 2008

Chegada

Voltei, após quase três meses de ausência. Preparei aos poucos meu corpo e o meu espírito para o regresso. Dói deixar os que amamos. Fui me despedindo aos poucos: primeiro da filha e da neta - as duas de uma só vez, no mesmo dia. Na véspera da viagem, abracei comovidamente minha mãe, e deixei a vila onde nasci. Por fim, já no aeroporto, apertei fortemente o meu filho. Lágrimas inevitáveis. As da separação da netinha, estas foram disfarçadas. Choramos só quando entramos no carro, para que ela não visse que sofríamos.

O corpo ainda não se adaptou ao fuso horário. O espírito estranhou um pouco as ruas, as gentes, a casa e os objetos que deveriam ser familiares.

No primeiro dia após o regresso, logo de manhã, vi que o meu neto do coração cresceu bastante e já fala muitas palavras novas. Não me esqueceu! Assim que percebeu que voltamos, antes de ir para a escola, fez questão de visitar-nos e passar umas horas com a titia.

Muito à vontade, pediu para ver desenhos animados, aninhado na nossa cama. Depois veio brincar com os carrinhos dele, enquanto eu limpava algumas prateleiras do armário da cozinha. De tarde, quando regressou da creche, chamou-me para brincar na fresta da varanda. Expliquei-lhe que estava muito suja e suada e que precisava tomar um banho. Ele entendeu.

Ainda não pude ver o mar que tanto amo. Pretendo vê-lo hoje à tardinha, quando formos dar a habitual caminhada. Depois eu conto como foi esse reencontro.

quarta-feira, outubro 22, 2008

A gramática das crianças

_ Madrinha, o que é isso?
_ É uma borracha. Serve para apagar o que a gente escreve.
_ Posso usar?
_ Claro que sim, pérola da minha vida.

[cerca de cinco minutos depois entra na sala a querida tia-avó]

_ Então, meu amor? O que é que você está fazendo?
_ Estou a "borrachar".

quarta-feira, julho 23, 2008

Desenhando no presente um comovido até breve

Ontem, quando voltou da creche, o menininho veio aqui em casa. A mãe deixou-o ficar um pouco comigo, para eu tentar explicar a nossa futura longa ausência. Mostrei-lhe as malas espalhadas pela casa. Expliquei que a casa ia ficar fechada e que a titia ia ver a menininha da foto (ele já a chama pelo nome), a neta dela. Ele repetia o final das minhas palavas, compenetrado, como costuma fazer. Mas não fiquei convencida de que entenderá quando a titia não atender ao seu chamado ou quando perceber que as janelas estão sempre fechadas... Então, achei melhor viver aquele pequeno tempo presente com ele, e ficamos os dois a desenhar na varanda.

quinta-feira, julho 17, 2008

Em breve, a alegria do reencontro, do outro lado do cais

Aos meus - poucos porém fiéis - leitores

Em breve estarei do outro lado do cais. Por um período de três meses (23-24/07- 22/10) - que oxalá seja só de abraços e prazerosos convívios - talvez não escreva com a costumeira freqüência nesta página. É que quando estamos vivendo intensamente com os que amamos, não precisamos tanto de escrever as saudades. Mas como, com certeza, surgirão saudades dos que deixo do lado de cá, é possível que sinta necessidade de escrevê-las... Prometo que o farei, sempre que tiver oportunidade.

terça-feira, julho 15, 2008

happy birthday para o irmão que eu escolheria para ser o meu irmão se já não fosse meu irmão

Eu amo-te, Toni!

O sublime no cotidiano

Ontem fui levar o meu neto de coração na creche. Fomos numa pequena comitiva: a mãe, a irmãzinha, o avô e eu. O menininho até pensou que íamos passear na pracinha e, de início, se recusou a aceitar prosseguirmos na direção da escola.

Levei uma fotocópia da minha carteira de identidade (B.I.) para, numa eventualidade, caso a mãe precise, eu poder pegá-lo. Foi uma experiência aparentemente corriqueira, mas para mim, por tudo o que tenho vivido nos últimos anos, teve uma dimensão imensa. Senti-me acolhida, amada, integrada a esta família por laços de afeto tecidos com respeito e atenção cotidianos.

Já deixei com a irmã alguns papéis de carta, da coleção do meu tempo de professora. E para o menininho, um bloco com desenhos para colorir. Há carrinho, lua, avião, sinal de trânsito, enfim, coisas que fazem parte de nossas vivências comuns. Assim, quando perguntar pela "titia", poderá lidar melhor com a "saudade". A partida está preparada, mas o meu problema será: como eu vou lidar com a saudade do menininho?

segunda-feira, julho 14, 2008

domingo, junho 29, 2008

Como pode um bebê entender e expressar a saudade?

Hoje de manhã vi pela lavanderia o meu neto do coração. A mãe me disse que ele havia chamado insistentemente da varanda. E que teria dito: saudade da titia.
Fiquei momentaneamente muda, tal o emocionado espanto. Como uma criança de dois anos, ainda com pouca linguagem, conseguiu expressar, com um palavra tão precisa e singular da nossa língua-cultura, um sentimento tão complexo, da ausência, sentida em nós mesmos, do outro/amado?
Sou em grande parte a responsável por ter feito nascer e crescer esse afeto. Não tenho podido alimentá-lo como desejaria: tem feito muito frio na varanda e, por conta da escrita no computador, tenho ficado enclausurada no quartinho dos fundos, onde ele não pode me ver.
Prestes a ausentar-me por um longo período, já sinto a dor de o deixar, dor que procuro equilibrar com a alegria de partir, e poder rever a neta e os filhos do outro lado do cais.

sexta-feira, junho 27, 2008

Adeus a Sylvinha Araújo

Sylvinha e Eduardo Araújo: 39 anos de casamento e mais 2 de namoro. Acostumamo-nos a vê-los juntos, a pensá-los juntos, em linda parceria humana e musical, conseguindo manter dignamente suas carreiras, sem recorrer a apelos sensacionalistas para aparecer na mídia. Depois de 12 anos de luta sem tréguas contra o câncer, fisicamente extenuada mas espiritualmente muito serena, confortada pelo afeto dos que mais amava, ela partiu .
Lembro-me de vê-la pela TV, sorriso largo, linda voz e um imenso barrigão (creio que estavam juntos no palco, ele com seu instrumento musical e provavelmente com o costumeiro chapéu, mas não posso jurar). Subitamente a apresentação foi interrompida: o bebê dera sinais de que ia nascer. Eu já estava grávida do meu primeiro filho e jamais pude esquecer aquele momento comovente, que uniu música e vida, e que se juntou de forma tão especial à minha própria história.

quarta-feira, junho 25, 2008