terça-feira, janeiro 06, 2009

Uma passagem de ano em forma de beijo dado mais tarde

Choro, choro convulsivamente, numa mistura indestrinçável de sentimentos, por assistir agora ao espetáculo dos fogos que sonhamos ver juntos, mas confortada e feliz por saber que os olhos de minha filha e do seu amado viram que não pude/pudemos ver; por estar/estarmos num quarto de Hospital nessa mesma linda Copacabana, tão perto deles e ao mesmo tempo tão longe; por agora poder asssistir a estas imagens postadas no Bordado Inglês* e pensar que aqui estou a vê-las, no lugar quente do espetáculo, pensando afetuosa e saudosamente em ambos, agora já de regresso ao país tão frio.

Recebo estas imagens e enxugo estas lágrimas como batismo de alegria. Em forma de beijo dado mais tarde, mas a tempo...

Hoje vesti roupa branca logo de manhã. Em breve prepararei bacalhau e assarei castanhas no forno. Eu e meu amor abriremos uma garrafa pequena de champagne, com autorização médica. Enfim festejaremos a Passagem de Ano, agradecendo a recuperação da saúde. E se a chuva abrandar, iremos molhar os pés nas águas do mar, como habitualmente fazemos no primeiro dia do Ano. Será um autêntico Dia de Reis.

(*http://bordadoingles.blogspot.com/2009/01/feliz-ano-novo.html)

domingo, janeiro 04, 2009

Um Ano Novo atípico




Fazemos muitos planos, sobretudo na passagem de Ano. Mas por vezes a vida se encarrega de mudá-los. Cabe a nós transformar os imprevistos em novas possibilidades de alegria. Como a que nos foi dada a experienciar, num quarto de Hospital Copa d'Or, cercados de cuidados médicos* e do apoio dos filhos e amigos.


Esta a imagem de uma ceia frugal, diet, preparada com extrema delicadeza pela equipe responsável pela nutrição* e servida ao nosso paciente amado com muito afeto.


No Dia de Reis compensaremos, com vinho e bacalhau. Mas esta será sem dúvida uma passagem de Ano inesquecível, pelo dádiva de amor que de todos recebemos...
(* A toda equipe do Copa d'Or, o nosso agradecimento)

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Um Natal de alegria


Este foi e está sendo um Natal de muita alegria. E é este sentimento que eu gostaria de oferecer para quem dele precisar.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Parada Iluminada

Foi deceptivo assistir à Parada Iluminada dia 20 de Dezembro, na Avenida Atlântica. Não basta uma sucessão de carros alegóricos para fazer um bom desfile. Os componentes se esforçaram, mas faltava organicidade, coerência e, sobretudo, criatividade.

O patrocinador (uma poderosa empresa de refrigerantes) bem poderia investir em boas idéias. Têm muitos recursos para isso. E há muitos talentos à espera de oportunidade.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Como descrever a ausência?



LUC DE SMET

Um amigo meu, de nacionalidade belga, está prestes a perder o pai. Escreve-me com regularidade e conta em imagens a floresta escura que está a atravessar. Ele esforça-se para ver com tranquilidade esta travessia. A imagem acima, por exemplo, é o resultado no reflexo do sol nas paredes do quarto hospitalar. Eu gosto desta imagem - é a imagem mental que tenho deste senhor que nunca vi, construída a partir de uma foto que a magnífica Ann (a mulher do meu amigo) me mostrou quando estivemos todos juntos na Casa da Música no Porto. Na fotografia, o pai estava deitado na relva, com os olhos (já cegos) cerrados, a sorrir para o sol.

LUC DE SMET

Na semana passada, o pai já não comia. Dependia do soro e aceitava de bom grado raros prazeres - como um gole de coca-cola.
Pede sempre para que os filhos comemorem a sua partida. É sinal de que ele passou por aqui. E de que foi amado. E de que viu paisagens bonitas - o pai de Luc adorava pintar, e só deixou de fazê-lo quando perdeu acuidade visual.

LUC DE SMET

Continuou a amar as imagens mentais. Pintar com o cérebro.

LUC DE SMET

Talvez haja agora, na sua mente, um lago com plantas flutuantes como as de Monet em Giverny.

Seis anos sem ti

Pai, partiste há seis anos. Fazes-me falta, muita falta.

******


LUC DE SMET
Hoje faz seis anos que o meu avô partiu.
(Como descrever a ausência?)
( Uma imagem descreverá melhor o não-estar de alguém no sítio a que sempre pertenceu?)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Os dias deram em chuvosos...

Chove no Rio de Janeiro. Temperatura máxima: 23º. Não parece Dezembro. Nao parece que falta pouco para o Verão começar oficialmente.Bom para quem, como eu, gosta de temperaturas amenas. Seria maravilhoso se a temperatura ficasse assim, mas que o Sol desse o ar de sua graça. Há visitantes chegando com grande ânsia de aproveitar a praia...

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Em breve, muitos abraços

Do lado de cá e do lado de lá do cais estamos em contagem regressiva. Faltam apenas 7 dias para o reencontro. O cais enfim unirá as duas margens. Grande é alegria da espera. Mas bem maior será a do momento dos abraços. Xiiiiiiiiiiiiiii-coração!

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Com histórias e com afeto

Guardo num canto especial do meu coração uma cena de rara beleza a que asssiti neste último fim-de-semana. Foi tão intensa e serena, com a simplicidade das coisas belas e justas, que precisei de uns dias para escrever sobre ela:

Deste lado do cais, contemplávamos com olhar embevecido, transbordante de ternura, nosso filho a ler histórias para a filha adormecer. Ela, apesar de já meio sonolenta, com a cabeça recostada no sofá e os pezinhos apoiados no colo do pai, acompanhava atentamente a leitura. Ele lia-lhe compenetrado o texto, seguindo fielmente a palavra escrita.

Provavelmente o sentido de muitas palavras escapavam à menina, mas ela seguia o fio do afeto que lhe oferecia a doçura da voz paterna. De vez em quando, ela o interrompia com algum comentário ou para ver a ilustração. Ele prontamente a atendia. E logo retomavam a leitura.

Ficamos algum tempo a observá-los, aguardando o final da história (O Gato de Botas, que acabáramos de enviar por um portador). Deitamo-nos com essa linda imagem do amor de ler.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Sementes de rosmaninho 5

A pós a seqüência de dias chuvosos, afinal veio o sol.
No vaso, crescem dois pés de rosmaninhos e dois de ervas daninhas.
Agora não é difícil distingui-los: os das ervas daninhas crescem mais depressa e com mais vigor.
Decidi não arrancá-los.
É o meu tributo ao jardim do pensamento de Maria Gabriela.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Hoje é dia de alegria

Hoje à tardinha vou pegar meu neto do coração na creche! Passarei todo o dia em contagem regressiva. Sei que quando chegar essa hora, virá tranqüilamente comigo. Que entrará em minha casa como se estivesse na dele. Que pedirá chazinho e pão, e que eu, com muita pena, terei que adiar esse pedido, para não atrapalhar o apetite dele para o jantar. Que desejará ver desenhos na TV, mas logo mudará de atividade. Que percorrerá os lugares conhecidos da casa, a conferir se tudo está como da úlltima vez. E que perguntará "o que é isso?", a cada coisa nova que encontrar.

sábado, dezembro 06, 2008

Edificando a cura

O diagnóstico confirmou o que, no fundo, há muito já sabia. Decidida a edificar a cura, ou pelo menos a controlar a doença, juntamente com a medicação para o quadro depressivo, agarro-me ao que me traz alegria no cotidiano:

- ser chamada e visitada pelo meu netinho do coração (sempre tenho e terei tempo para ele);
-olhar diariamente se as sementes de rosmaninho conseguiram sobreviver às bicadas dos pássaros (algumas resistem...);
-pôr água nas plantinhas da varanda;
- caminhar à tardinha com o meu amor na orla de Copacabana ;
- dedicar as manhãs escrever um pouco no computador;
- verificar, antes de dedicar-me à produção de textos, se há mails enviados pelos filhos;
- ver de 15 em 15 dias a minha netinha (e o meu filho) na web cam;
- assistir (quase) todos os sábados aos filmes da Sessão do porfessor;
- de vez em quando escrever neste blogue;
-tecer o cachecol para a minha filha;
- etc.

Sinto que já seguro os bordos. E que o poço não é tão fundo...

sexta-feira, novembro 28, 2008

Sementes de rosmaninho 4

Os passarinhos fizeram a festa no meu herbário: bicaram e despedaçaram as mudinhas-bebês. Fiquei triste, mas depois pensei que o herbário estava ali, convidativo a bicos e olhares, e desfiz-me do sentimento de posse.
Não entendo muito de sementeiras, mas talvez seja um indicativo de que as sementes que germinaram eram mesmo de rosmaninho...
Há dois ou três dias surgiram novos tênues filamentos verdes. Hesito se devo recorrer à engenhosidade dos espantalhos, para que possam crescer sob meus olhos, ou deixá-los disponíveis a bicos desejosos...

quarta-feira, novembro 26, 2008

"Manhã-Llansol"

Teve a serenidade da vibração, como diria Maria Gabriela Llansol, a sessão "Onde vais, drama-poesia?" , realizada ontem, no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (Diálogos sobre Poesia Portugesa , 3º Encontro de Pesquisadores).
Foi uma "manhã-Llansol"* tão intensa, que precisei de algum tempo para me recompor. Transbordava de plenitude. Decidi não almoçar com os participantes, mas levei comigo a sensação de estar com eles e com ela à mesma mesa.
(* a expressão é de Jorge Fernandes da Silveira, e compõe a bela dedicatória do livro que ele me ofereceu nessa manhã - Uma hora por dia, de Maria Helena Azevedo, 7 Letras, 2008).

segunda-feira, novembro 24, 2008

Outra data natalícia

Ontem meu neto do coração completou 3 anos. Não pude dar-lhe muitos beijinhos de parabéns, pois a família chegou tarde.
Hoje, para minha alegria, veio visitar-me, antes de ir para a escolinha.
Dei-lhe um beijinho doce na testa e combinamos amanhã um encontro: enfeitaremos, juntos, a árvore de Natal.
Já tirei do armário as caixas com enfeites. Tudo está preparado, à espera desse convívio.

"Um sopro de júbilo" - pensando em Maria Gabriela Llansol

Hoje Maria Gabriela completaria 77 anos. Desde o dia 3 de março de 2008 o “tempo transborda”, como num dos poemas de Éluard, que ela traduziu. Copio para a Amiga as palavras que escreveu para o Amigo: “Mas o tempo, contado pela terra, é inútil para el[a]. El[a] caiu agora onde fica o segredo da contagem”. Com Augusto, o seu ambo, Gabriela sente e experimenta a eternidade.

Canto-lhe a leitura quase todos os dias, silenciosamente, como no nosso último encontro em Sintra, em 2007, um pouco antes de ela penetrar a face do invisível: na quase penumbra do quarto, sentada num banquinho, diante da cadeira onde ela costumava sentar, li em absoluto silêncio as primeiras páginas de um exemplar de Os cantores de leitura, ainda não lançado. Ela interrompeu o curso de silêncio ao perceber um breve movimento na minha face.

- Estás a gostar?
Seguro-lhe as mãos, acaricio-lhe a fronte, e sussurro-lhe ao pé do ouvido, em ponto de beijo.

- Sim, Maria Gabriela, sorrio para a palavra que anuncia o texto prosseguindo – nostalgria, a transformação da tristeza em “sopro de júbilo”.

domingo, novembro 23, 2008

Sementes de rosmaninho 3

Creio que me enganei, por desconhecer os tempo da germinação das sementes de rosmaninho. Desde ontem percebi que despontam na terra três pequenos filamentos verdes. Serão enfim os futuros rosmaninhos ou apenas ervas daninhas? Torço para que a primeira hipótese se confirme.

terça-feira, novembro 18, 2008

Sementes de rosmaninho 2

Como eu previa, as sementes de rosmaninho não germinaram. Deixo aqui outras sementes, colhidas no herbário de livros de Maria Gabriela Llansol:

"Dispus-me, pois, a contar em breves palavras essa experiência do vazio, vendo o sol ao fundo, e tando comigo, sobre os joelhos e na mesa ao lado, o livro de Ibn'Arabi.

A terra em vida.
Herdar a terra.
O rosmaninho e a sálvia.

Sentia-me atraída pelo medo na sua selva de espaço, lê-lo levava-me a perder-me e a esperar. A sálvia, o rosmaninho, este livro, são meus companheiros."


(Finita. Diário 2. Lisboa: Rolim, 1987, p. 159)

domingo, novembro 16, 2008

O som do coração e Orquestra dos meninos

Assisti recentemente a dois filmes que associam infância e música.
O som do coração (titulo brasileiro do filme August Rush, dirigido por Kirsten Sheridan, EUA, 2007) conta a história de um menino, criado num orfanato, que recorre ao seu prodigioso dom musical para encontrar seus pais, também músicos (ele, um cantor de banda de rock e ela, musicista de orquestra).
Por sua vez, Orquestra dos meninos (Brasil, 2007, direção de Paulo Thiago) inspira-se na vida do maestro Mozart Vieira, cujo dom musical, herança de seu avô (regente de uma banda e responsável pela escolha do nome do menino), evidencia-se também na infância, tal como ocorre com August.
Em ambos, vi manifesto o dom da lira de Orfeu. Enquanto o menino August apreende e harmoniza sons da cidade, o menino Mozart capta e cria a partir dos sons da natureza, no agreste pernambucano.
O filme brasileiro toca-me particularmente. A história acompanha a luta de Mozart, já adulto, para dar corpo a um sonho, capaz de amplificar o dom de menino: ensinar música às crianças pobres do sertão, ajudando-as a encontrar o seu próprio dom.
Comove-me a imensa fé do jovem músico-professor no poder da educação para o ser estético. Comove-me ver aquelas infâncias quase perdidas encontrarem um sentido e mudarem o seu destino de fome e miséria, inscrito nos pés descalços, nas mãos cheias bolhas, no corpo anêmico e franzino.
Comove-me o fato de o companheiro do menino Mozart, que lia tão concentrado As caçadas de Pedrinho (de Monteiro Lobato), não ter conseguido prosseguir a leitura e fazer dela um dom: adulto, sucumbe à depressão, não suportando o peso de viver. Mas comove-me também saber que esta nota desafinada faz parte da pauta humana e que não estava ao alcance de Mozart, por mais amigo e artista que fosse, fazer dela um acorde perfeito.

sábado, novembro 15, 2008

Sementes de rosmaninho

Ontem semeei sementes de rosmaninho. Minha filha ganhou-as num Shopping português e deu-mas. Não sei se germinarão: as sementes devem estar velhas e agora não bate muito sol na varanda devido à sombra da ramagem da amendoeira.
Há muito pensava pô-las na terra, mas o tempo foi passando, o envelope escondeu-se dos meus olhos e acabei por não mais me lembrar...
Encontrei o pequeno envelope na mesa-escrivaninha do meu quarto, entre folhas, livros e agendas. Enquanto lia as instruções e mexia na terra, pensei com afeto na minha filha e na Maria Gabriela Llansol: ali havia um biblioteca de ervas ou um herbário de livros.