Canção amiga
Carlos Drumond de Andrade
Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos
Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos
Eu distribuo segredos
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois caminhos se procuram
Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças
Um blogue escrito por três pares de mãos separados por águas atlânticas. Uma viagem com escalas no Rio de Janeiro, em Londres e Senhora da Hora.
terça-feira, maio 05, 2009
sábado, abril 25, 2009
quarta-feira, abril 22, 2009
Escrita, morte, heterodoxia e culpabilidade
"Heterodoxia I foi bem menos a espécie de desafio que a mim mesmo me lançava imaginando desafiar os outros, do que uma ruptura dolorosa e de certo modo, uma fuga (...). mais decisivo para mim, foi descobrir, há pouco, que esse primeiro livro de ruptura com toda uma tradição e uma sensibilidade familiares era já, como o serão todos os outros, um livro póstumo (....) sem que então tivesse plena consciência disso, a minha escrita aparece à nascença marcad[a] por um imenso sentimento de culpabilidade e remorso." (Eduardo Lourenço, "Escrita e Morte", prefácio de Heterodoxia I e II, 1987)
"quando descobrimos que já não vivemos de uma maneira uníssona com as pessoas que mais amamos e respeitamos isso gera um sentimento de culpa, algo que me acompanhou sempre, até porque meus pais morreram cedo" (Eduardo Lourenço in 25 Portugueses, 1999)
"quando descobrimos que já não vivemos de uma maneira uníssona com as pessoas que mais amamos e respeitamos isso gera um sentimento de culpa, algo que me acompanhou sempre, até porque meus pais morreram cedo" (Eduardo Lourenço in 25 Portugueses, 1999)
sábado, abril 18, 2009
As mãos e os frutos
Nasci de ti, um dia, 50 %, por um acaso de gens.
Nasci de ti novamente, 100 %, quando te afirmei no meu coração.
Continuo a nascer de ti, através dos meus filhos.
Através deles, nasces outra vez.
Meus frutos são teus frutos.
100% teus. E não só 25%, por um acaso de gens.
Escrevem-te. Escrevem-se. Escrevem-me.
Entre mãos dadas e recebidas.
Bem-aventurado aquele que tanto e tão bem soube fazer-se amar.
(a meu pai, que hoje faria 84 anos)
Nasci de ti novamente, 100 %, quando te afirmei no meu coração.
Continuo a nascer de ti, através dos meus filhos.
Através deles, nasces outra vez.
Meus frutos são teus frutos.
100% teus. E não só 25%, por um acaso de gens.
Escrevem-te. Escrevem-se. Escrevem-me.
Entre mãos dadas e recebidas.
Bem-aventurado aquele que tanto e tão bem soube fazer-se amar.
(a meu pai, que hoje faria 84 anos)
sexta-feira, abril 17, 2009
As mãos do meu avô (que faria hoje 84 anos)
"As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah. Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida
que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma."
"As mãos do meu pai", de Mario Quintana
sobre um fundo de manchas já cor de terra
como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah. Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida
que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma."
"As mãos do meu pai", de Mario Quintana
quinta-feira, março 19, 2009
Aos pais no Dia dos Pais em Portugal
Hoje é dia de São José e dia dos Pais em Portugal.
(No Brasil, não sei por que, comemora-se em Agosto.)
Parece-me acertada a data portuguesa: São José foi mesmo um modelo de pai.
Aqui deixo a minha homenagem, in memoriam, a dois bons pais:
ao meu pai Antonio - um homem generoso, ativo, de personalidade forte, que amava a vida, adoeceu de um mal estranho e partiu meio atônito - e ao meu sogro José - um homem doce, manso, humilde, que suportou muito sofrimento físico e sobretudo psicológico antes de partir.
Estendo a homenagem também ao meu marido - um pai extremoso, aquele que sonhamos dar aos filhos - e ao meu filho - que na paternidade responsável está encontrando o maior sentido da sua vida e está se saindo maravilhosamente bem nesta arte de amar que não se aprende na escola.
(No Brasil, não sei por que, comemora-se em Agosto.)
Parece-me acertada a data portuguesa: São José foi mesmo um modelo de pai.
Aqui deixo a minha homenagem, in memoriam, a dois bons pais:
ao meu pai Antonio - um homem generoso, ativo, de personalidade forte, que amava a vida, adoeceu de um mal estranho e partiu meio atônito - e ao meu sogro José - um homem doce, manso, humilde, que suportou muito sofrimento físico e sobretudo psicológico antes de partir.
Estendo a homenagem também ao meu marido - um pai extremoso, aquele que sonhamos dar aos filhos - e ao meu filho - que na paternidade responsável está encontrando o maior sentido da sua vida e está se saindo maravilhosamente bem nesta arte de amar que não se aprende na escola.
domingo, março 15, 2009
Finalmente conheceram-se
Ontem de manhã eu vi e falei com minha netinha que vive em Portugal pela webcan.
Meu neto do coração, assim que ouviu minha voz, logo me chamou.
Perguntei à empregada se ele podia vir à minha casa.
Ele veio correndo e sentou-se no meu colo.
A minha netinha e o meu neto do coração mostraram coisas pela tela.
E conviveram como se já se conhecessem há muito.
De fato se conheciam: sempre falei de um para o o outro.
Agora já trocaram mutuamente de imagem.
E sabem que ambas as imagens estão longe e, no entanto, muito perto, no afeto que trago no coração.
sexta-feira, março 13, 2009
Um susto
Ontem à noite meu neto do coração levou e deu-nos um grande susto.
Quando brincava com a irmã, bateu a porta com força e ficou preso dentro do próprio quarto.
Foi um momento de tensão, pois ele chorava aflito para sair.
Com muito jeito, a maravilhosa empregada explicou-lhe com calma para ele tentar girar a chave.
De repente, o menininho conseguiu.
Ufa!
terça-feira, março 03, 2009
Maria Gabriela Llansol - um ano de ausência
Querida amiga,
tenho nas mãos o conforto dos teus livros e no coração uma imensa saudade. Amanhã postarei um trecho de um deles. Hoje é tempo de ler e pensar.
Ontem mandamos rezar a Missa da Luz por um ano de tua partida. Coincidiu com a Missa de Mês pelo bondoso Senhor José, pai e sogro querido.
tenho nas mãos o conforto dos teus livros e no coração uma imensa saudade. Amanhã postarei um trecho de um deles. Hoje é tempo de ler e pensar.
Ontem mandamos rezar a Missa da Luz por um ano de tua partida. Coincidiu com a Missa de Mês pelo bondoso Senhor José, pai e sogro querido.
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
Um voo antes do tempo
Hoje um filhotinho de passarinho chocou-se contra a vidraça do nosso quarto. Caiu atônito na varanda, quase desfalecido. Fiquei paralisada de impotência e cheia compaixão. Como ajudá-lo? Tentar pegá-lo e pô-lo perto de um galho? E se caísse ao pousá-lo (desta vez do terceiro andar!)?
Encoberta pela cortina para não assustá-lo ainda mais, esperei ansiosamente que se reanimasse . Arrastou-se com esforço até um vaso de plantas, eriçou a penugem, mas não conseguiu alçar nem um pequeno voo.
Um outro pássaro, suponho que a mãe, piava aflito (assim interpretei) na amendoeira. Do lado de cá, de vez em quando o pequenino ferido respondia.
Quando chegou a hora da nossa caminhada, meu marido e eu decidimos deixá-lo tentar sozinho mais um pouco, sem a nossa intervenção, para que não se ferisse ainda mais. Não fomos sequer pegar nossos tênis na varanda: fui de sandálias e fiz uma bolha no pé. Ao regressarmos, se ainda estivesse na varanda, encontraríamos uma solução.
Na volta, quando viu-me a olhar para o alto da árvore, o porteiro disse que havia caído um filhote do ninho. Outro, pensei? Não, não era outro, era o "nosso" que havia conseguido voar até o parapeito, mas não conseguiu sustentar o voo. Vendo a minha aflição, o porteiro tentou consolar-me, dizendo: ele vai ficar bem, eu o peguei e soltei no jardim aqui do lado.
A mãe ainda continuou piando até escurecer. Oxalá o pequenino consiga sobreviver, mesmo tão prematuro e sem ninho.
Encoberta pela cortina para não assustá-lo ainda mais, esperei ansiosamente que se reanimasse . Arrastou-se com esforço até um vaso de plantas, eriçou a penugem, mas não conseguiu alçar nem um pequeno voo.
Um outro pássaro, suponho que a mãe, piava aflito (assim interpretei) na amendoeira. Do lado de cá, de vez em quando o pequenino ferido respondia.
Quando chegou a hora da nossa caminhada, meu marido e eu decidimos deixá-lo tentar sozinho mais um pouco, sem a nossa intervenção, para que não se ferisse ainda mais. Não fomos sequer pegar nossos tênis na varanda: fui de sandálias e fiz uma bolha no pé. Ao regressarmos, se ainda estivesse na varanda, encontraríamos uma solução.
Na volta, quando viu-me a olhar para o alto da árvore, o porteiro disse que havia caído um filhote do ninho. Outro, pensei? Não, não era outro, era o "nosso" que havia conseguido voar até o parapeito, mas não conseguiu sustentar o voo. Vendo a minha aflição, o porteiro tentou consolar-me, dizendo: ele vai ficar bem, eu o peguei e soltei no jardim aqui do lado.
A mãe ainda continuou piando até escurecer. Oxalá o pequenino consiga sobreviver, mesmo tão prematuro e sem ninho.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
A menina que ama os livros
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Missa da Luz pelo querido senhor José
Na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, comemorou-se o dia da Apresentação de Jesus ao Templo (quarenta dias após o Natal). A paróquia da Ressurreição, no Posto Seis, estava repleta. Na entrada, os fiéis recebiam uma vela. Um pouco antes do início da Missa, todas foram acesas. Enquanto a voz de Maria Betânia (gravação) cantava "Ave Maria", o Padre José Roberto percorria um a um os bancos, aspergindo água benta.
Na homilia, o Padre Roberto destacou o papel de Maria e José, ao cumprirem rigorosamente a lei do seu tempo. Pensei com carinho e reconhecimento no querido senhor José, em como ele foi um excelente pai durante toda a sua existência, cumprindo de forma irretocável a sua missão de amar os filhos.
No momento da comunhão, soou pelo templo a belíssima composição de Bach e Gonoud (embora seja mais conhecida apenas como de Gonoud) - a que mais me toca o coração e eleva o meu espírito.
As velas, apagadas durante o ofício, foram novamente acesas quase no final. Na saída, muitos amigos - muitos mesmo, bem mais do que poderíamos esperar, sobretudo considerando que era um dia de semana - vieram nos abraçar e nos confortar.
Foi a mais comovente Missa da Luz a que assisti. O Senhor José merecia, por ter sido um pai e um ser humano maravilhoso. Não deve ter sido simples coincidência que a sua Missa de sétimo dia tenha sido rezada justamente numa data tão significativa.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
O Senhor José no céu
Ele era manso, bondoso, humilde, gentil. Até demais. Por isso foi cognominado o "santo" pelos que viviam próximos. Mas no nosso mundo não há muito lugar para os excessivamente mansos e bondosos. Não, não era ele o inadequado: este nosso mundo é que não foi /é capaz de acolher seres assim. Por isso também alguns dos que deveriam amá-lo tornaram-lhe terrivelmente amargos os últimos anos. A ponto de fazê-lo revoltar-se e protestar em voz alta.
O Senhor José partiu ontem. Os que muito o amavam choram pelas oportunidades de felicidade desperdiçadas, pelo que poderia ter sido e não foi, pelo amor que ele distribuiu e tão pouco colheu.
Lembro do poema de Manuel Bandeira e imagino o Senhor José entrando no céu. Chega respeitoso, chapéu nas mãos, cabeça baixa, corpo ligeiramente curvado. Murmura com voz tímida, quase imperceptível, como quem não quer incomodar ou pensa que não é digno de ali entrar :
- Licença, meu Santo.
E São Pedro, bonachão, abre a porta de par em par e estende os braços para recebê-lo:
-Entra, José! Você não precisa pedir licença.
O Senhor José partiu ontem. Os que muito o amavam choram pelas oportunidades de felicidade desperdiçadas, pelo que poderia ter sido e não foi, pelo amor que ele distribuiu e tão pouco colheu.
Lembro do poema de Manuel Bandeira e imagino o Senhor José entrando no céu. Chega respeitoso, chapéu nas mãos, cabeça baixa, corpo ligeiramente curvado. Murmura com voz tímida, quase imperceptível, como quem não quer incomodar ou pensa que não é digno de ali entrar :
- Licença, meu Santo.
E São Pedro, bonachão, abre a porta de par em par e estende os braços para recebê-lo:
-Entra, José! Você não precisa pedir licença.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
O Rio de Janeiro em dia de chuva forte ou o caos urbano
Ruas alagadas. Águas cobrindo as calçadas. Vias de comunicação entre a Zona Norte e a Zona Zul interrompidas durante horas. Carros enguiçados. Pedestres ensopados tentando ir a pé para casa. Alguns arregaçando inutilmente as calças e arriscando-se nas poças e lagoas. Outros, mais ágeis, avançando como símios, agarrados às grades e muros. Passageiros presos nos ônibus e carros, procurando manter a calma. Pequenas multidões aguardando em vão nos pontos a chegada dos coletivos.
Durante mais de cinco horas - o tempo que levamos entre Madureira (Zona Norte) e Copacabana (Zona Sul) - não vimos nenhuma ação concreta das autoridades, no sentido de atenuar minimamente o caos urbano e auxiliar os milhares de "ilhados" , penando com fome, sede, cansaço, urgência de ir ao banheiro ... e ainda por cima com muito medo de serem alvo fácil dos "arrastões" (assaltos em série)...
(Pergunta: se, como é do conhecimento geral, são mais do que previstas as chuvas de verão, por que nós - os administradores e a população desta Cidade - não agimos preventivamente, cuidando do bom funcionamento dos bueiros? Por que continuamos inconseqüentemente a atirar lixo - inclusive os terríveis plásticos, que via de regra impedem o escoamento das águas, como pude constatar ao longo do penoso trajeto? )
Durante mais de cinco horas - o tempo que levamos entre Madureira (Zona Norte) e Copacabana (Zona Sul) - não vimos nenhuma ação concreta das autoridades, no sentido de atenuar minimamente o caos urbano e auxiliar os milhares de "ilhados" , penando com fome, sede, cansaço, urgência de ir ao banheiro ... e ainda por cima com muito medo de serem alvo fácil dos "arrastões" (assaltos em série)...
(Pergunta: se, como é do conhecimento geral, são mais do que previstas as chuvas de verão, por que nós - os administradores e a população desta Cidade - não agimos preventivamente, cuidando do bom funcionamento dos bueiros? Por que continuamos inconseqüentemente a atirar lixo - inclusive os terríveis plásticos, que via de regra impedem o escoamento das águas, como pude constatar ao longo do penoso trajeto? )
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Paixão Segundo São Mateus, de J. S. Bach
Ouço a Paixão Segundo São Mateus, de J. S. Bach*. Um exemplo perfeito de perfeição a que pode chegar a arte musical.
(*http://www.youtube.com/watch?v=475pqwwbZ1w)
(*http://www.youtube.com/watch?v=475pqwwbZ1w)
segunda-feira, janeiro 12, 2009
O que devo dizer ao menininho?
O menininho está na fase dos "porquês". Agora que finalmente conheceu a minha filha (só deu tempo de estar com ela uma vez , mas pareciam velhos amigos!), não entende por que ela partiu. Até porque ele não a viu partir - a família dele passou fora as festas de fim-de-ano.
Quando me vê, de vez em quando se lembra e pergunta:
- Titia, por que a A* foi embora?
- Por que ela foi para a casa dela. Ela precisa voltar a estudar - respondo.
- Por que?
- Porque ela mora muito muito longe (lembrei-me do reino de Shrek), num lugar tão longe, que até precisa ir de avião.
- Por que?
Penso que as minhas respostas não são muito convincentes ou esclarecedoras: no dia seguinte, o diálogo se repete.
Hoje, enquanto a mamãe lavava o bumbum dele no tanque, ele perguntou-me novamente:
- Por que a A* foi embora?
Na hora só me ocorreu dizer:
- Porque ela morava com a titia em pequena, mas agora já cresceu... e quando as pessoas crescem vão morar nas suas próprias casinhas. Mas ela vai voltar no próximo Papai Noel (é assim que ele entende o Natal), quando você tiver 4 anos.
Ele envolveu o pescoço da mãe e disse-lhe:
- Eu não quero ir para outra casa!
Quando me vê, de vez em quando se lembra e pergunta:
- Titia, por que a A* foi embora?
- Por que ela foi para a casa dela. Ela precisa voltar a estudar - respondo.
- Por que?
- Porque ela mora muito muito longe (lembrei-me do reino de Shrek), num lugar tão longe, que até precisa ir de avião.
- Por que?
Penso que as minhas respostas não são muito convincentes ou esclarecedoras: no dia seguinte, o diálogo se repete.
Hoje, enquanto a mamãe lavava o bumbum dele no tanque, ele perguntou-me novamente:
- Por que a A* foi embora?
Na hora só me ocorreu dizer:
- Porque ela morava com a titia em pequena, mas agora já cresceu... e quando as pessoas crescem vão morar nas suas próprias casinhas. Mas ela vai voltar no próximo Papai Noel (é assim que ele entende o Natal), quando você tiver 4 anos.
Ele envolveu o pescoço da mãe e disse-lhe:
- Eu não quero ir para outra casa!
quinta-feira, janeiro 08, 2009
O despropósito da morte
O meu amigo Luc escreveu-me anteontem. Eu já sabia, antes mesmo de abrir a mensagem, que não havia ali boas notícias. O seu pai foi enterrado anteontem. Senti-me triste e inútil diante do sofrimento de Luc e Ann. Guardarei deste senhor (que nunca conheci pessoalmente) as imagens com histórias dentro que Luc me enviou ao longo dos últimos anos.
A imagem acima foi captada num quarto de hospital, quando a doença ainda não se imaginava fatal, talvez há dois anos, ou até menos. Acredito que sejam bolhas de oxigénio comprimidas um aparelho terapêutico qualquer. Gosto de pensar que o pai de Luc, tal como nós - eu e a pessoa que me lê agora, todos nós -, permanecerá no carrossel da vida assim mesmo: como bolhas de oxigénio, moléculas cheias de carbono ou átomos dispersos no húmus.
A imagem acima foi captada num quarto de hospital, quando a doença ainda não se imaginava fatal, talvez há dois anos, ou até menos. Acredito que sejam bolhas de oxigénio comprimidas um aparelho terapêutico qualquer. Gosto de pensar que o pai de Luc, tal como nós - eu e a pessoa que me lê agora, todos nós -, permanecerá no carrossel da vida assim mesmo: como bolhas de oxigénio, moléculas cheias de carbono ou átomos dispersos no húmus.
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Entre o Rio e Niterói, o olhar do arquiteto e do cinegrafista
Irritada com a sujeira que o meu visitante indesejado espalha pela casa, pensei escrever hoje sobre morcegos urbanos.
Felizmente antes abri a mensagem de uma amiga, com um belo vídeo em que um disco voador sobrevoa as belezas do Rio de Janeiro e pousa em Niterói. (Esse era precisamente um dos lugares que eu e minha filha planejamos visitar juntas - desejo que não pudemos realizar, por várias razões.)
Acolho esse presente. E ofereço-o a minha filha e a quem mais apreciar as belezas do Rio e das formas de Niemeyer, magnificamente homenageado neste vídeo simples e genial.
terça-feira, janeiro 06, 2009
Uma passagem de ano em forma de beijo dado mais tarde
Choro, choro convulsivamente, numa mistura indestrinçável de sentimentos, por assistir agora ao espetáculo dos fogos que sonhamos ver juntos, mas confortada e feliz por saber que os olhos de minha filha e do seu amado viram que não pude/pudemos ver; por estar/estarmos num quarto de Hospital nessa mesma linda Copacabana, tão perto deles e ao mesmo tempo tão longe; por agora poder asssistir a estas imagens postadas no Bordado Inglês* e pensar que aqui estou a vê-las, no lugar quente do espetáculo, pensando afetuosa e saudosamente em ambos, agora já de regresso ao país tão frio.
Recebo estas imagens e enxugo estas lágrimas como batismo de alegria. Em forma de beijo dado mais tarde, mas a tempo...
Hoje vesti roupa branca logo de manhã. Em breve prepararei bacalhau e assarei castanhas no forno. Eu e meu amor abriremos uma garrafa pequena de champagne, com autorização médica. Enfim festejaremos a Passagem de Ano, agradecendo a recuperação da saúde. E se a chuva abrandar, iremos molhar os pés nas águas do mar, como habitualmente fazemos no primeiro dia do Ano. Será um autêntico Dia de Reis.
(*http://bordadoingles.blogspot.com/2009/01/feliz-ano-novo.html)
Recebo estas imagens e enxugo estas lágrimas como batismo de alegria. Em forma de beijo dado mais tarde, mas a tempo...
Hoje vesti roupa branca logo de manhã. Em breve prepararei bacalhau e assarei castanhas no forno. Eu e meu amor abriremos uma garrafa pequena de champagne, com autorização médica. Enfim festejaremos a Passagem de Ano, agradecendo a recuperação da saúde. E se a chuva abrandar, iremos molhar os pés nas águas do mar, como habitualmente fazemos no primeiro dia do Ano. Será um autêntico Dia de Reis.
(*http://bordadoingles.blogspot.com/2009/01/feliz-ano-novo.html)
domingo, janeiro 04, 2009
Um Ano Novo atípico


Fazemos muitos planos, sobretudo na passagem de Ano. Mas por vezes a vida se encarrega de mudá-los. Cabe a nós transformar os imprevistos em novas possibilidades de alegria. Como a que nos foi dada a experienciar, num quarto de Hospital Copa d'Or, cercados de cuidados médicos* e do apoio dos filhos e amigos.
Esta a imagem de uma ceia frugal, diet, preparada com extrema delicadeza pela equipe responsável pela nutrição* e servida ao nosso paciente amado com muito afeto.
No Dia de Reis compensaremos, com vinho e bacalhau. Mas esta será sem dúvida uma passagem de Ano inesquecível, pelo dádiva de amor que de todos recebemos...
(* A toda equipe do Copa d'Or, o nosso agradecimento)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
