segunda-feira, maio 21, 2007

Envelhecer juntos, por muito amor

Há versos e frases que, muito depois de fechado o livro, ficam repercutindo em nós. "Não envelheceremos juntos", transbordamento de dor de Paul Éluard, diante da perda repentina da sua amada, é um desses versos que me pungem.

Penso, comovida, na dádiva do tempo que eu e o meu companheiro recebemos. Foi-nos concedido o tempo de uma longa e intensa convivência, quase sempre com grande cumplicidade.

Os filhos vieram, cresceram e já partiram, tão depressa que quase não nos apercebemos (pareceu-nos que num "piscar de olhos", como é costume suceder a todos os pais).

Perdemos alguns dentes, ganhamos rugas e cabelos brancos.

Alguns projetos se desfizeram, outros novos surgiram.

Mudamos de casa algumas vezes.

A maior parte das prendas de casamento já não existem, quebradas, dadas ou desgastadas pelo uso e o passar dos anos.

Não temos mais as alianças originais: há muito foram roubadas e perdidas. Acordamos tacitamente que não vale a pena adquirir outras novas para expô-las à cobiça dos ladrões.

Mas a nossa relação persiste. Apesar de alguns baixos e graças a muitos altos. Ou, lembrando Clarice Lispector, talvez muitas vezes tenha sido o "apesar de", tanto ou mais que o "graças a", que nos impulsionou. Sons e silêncios, ruídos e melodias, graves a agudos são igualmente necessários ao grande concerto da vida.

Permanecemos. Não por inércia ou acomodação. Mas pela qualidade das mudanças. Por uma espécie de sabedoria do amor, capaz de conciliar mudança e permanência. Por um saber-sentimento que intui e acolhe a necessidade das mudanças - a própria e a do ser amado -, sem contudo desvirtuar a qualidade do afeto.

Rara e bela é a arte de amar, ao mesmo tempo fácil e difícil. Arte-saber que não pré-existe à relação, constituindo-se no seu exercício, codidianamente. Amar na afirmação do amor do mútuo (Maria Gabriela Llansol), por respeito mútuo. Respeito, no seu sentido fundamental, conforme lição da saudosa Francisca Nóbrega: ação de voltar (re) o olhar (spect) para.

Amar assim talvez seja uma das mais belas afirmações do princípio "ama ao próximo como a ti mesmo", por vezes tão mal compreeendido. Um amar que pressupõe amar-se e amar o outro, tanto quanto. Verbo-ação com pré-requisitos e bitransitividade. Amar-te-me.

3 comentários:

Misao disse...

Lindo o seu texto. Espero também ter um amor assim, para a vida toda. Beijos,
Ângela.

catia disse...

num momento introspectivo de minha vida,procurei sites que pudessem entrar em sintonia com o que estava sentindo nesse momento.li uma estória linda de um casalsinho que estavam casados a 70 anos e após aqui.percebi então a importancia que tem a minha vida.sou casada a 21 anos,5 filhas e duas netas e com 41 anos de idade quero viver intensamente e pra toda vida com meu amado marido.eu também quero ter uma vida inteira juntos.tavez não tenham entendido a importancia disso pra minha vida,mas tenham meu eterno agradecimento.muita paz.

Anónimo disse...

Adorei seu texto e usarei parte dele para celebrar os 50 anos de casados dos meus pais