sexta-feira, dezembro 26, 2008

Um Natal de alegria


Este foi e está sendo um Natal de muita alegria. E é este sentimento que eu gostaria de oferecer para quem dele precisar.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Parada Iluminada

Foi deceptivo assistir à Parada Iluminada dia 20 de Dezembro, na Avenida Atlântica. Não basta uma sucessão de carros alegóricos para fazer um bom desfile. Os componentes se esforçaram, mas faltava organicidade, coerência e, sobretudo, criatividade.

O patrocinador (uma poderosa empresa de refrigerantes) bem poderia investir em boas idéias. Têm muitos recursos para isso. E há muitos talentos à espera de oportunidade.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Como descrever a ausência?



LUC DE SMET

Um amigo meu, de nacionalidade belga, está prestes a perder o pai. Escreve-me com regularidade e conta em imagens a floresta escura que está a atravessar. Ele esforça-se para ver com tranquilidade esta travessia. A imagem acima, por exemplo, é o resultado no reflexo do sol nas paredes do quarto hospitalar. Eu gosto desta imagem - é a imagem mental que tenho deste senhor que nunca vi, construída a partir de uma foto que a magnífica Ann (a mulher do meu amigo) me mostrou quando estivemos todos juntos na Casa da Música no Porto. Na fotografia, o pai estava deitado na relva, com os olhos (já cegos) cerrados, a sorrir para o sol.

LUC DE SMET

Na semana passada, o pai já não comia. Dependia do soro e aceitava de bom grado raros prazeres - como um gole de coca-cola.
Pede sempre para que os filhos comemorem a sua partida. É sinal de que ele passou por aqui. E de que foi amado. E de que viu paisagens bonitas - o pai de Luc adorava pintar, e só deixou de fazê-lo quando perdeu acuidade visual.

LUC DE SMET

Continuou a amar as imagens mentais. Pintar com o cérebro.

LUC DE SMET

Talvez haja agora, na sua mente, um lago com plantas flutuantes como as de Monet em Giverny.

Seis anos sem ti

Pai, partiste há seis anos. Fazes-me falta, muita falta.

******


LUC DE SMET
Hoje faz seis anos que o meu avô partiu.
(Como descrever a ausência?)
( Uma imagem descreverá melhor o não-estar de alguém no sítio a que sempre pertenceu?)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Os dias deram em chuvosos...

Chove no Rio de Janeiro. Temperatura máxima: 23º. Não parece Dezembro. Nao parece que falta pouco para o Verão começar oficialmente.Bom para quem, como eu, gosta de temperaturas amenas. Seria maravilhoso se a temperatura ficasse assim, mas que o Sol desse o ar de sua graça. Há visitantes chegando com grande ânsia de aproveitar a praia...

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Em breve, muitos abraços

Do lado de cá e do lado de lá do cais estamos em contagem regressiva. Faltam apenas 7 dias para o reencontro. O cais enfim unirá as duas margens. Grande é alegria da espera. Mas bem maior será a do momento dos abraços. Xiiiiiiiiiiiiiii-coração!

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Com histórias e com afeto

Guardo num canto especial do meu coração uma cena de rara beleza a que asssiti neste último fim-de-semana. Foi tão intensa e serena, com a simplicidade das coisas belas e justas, que precisei de uns dias para escrever sobre ela:

Deste lado do cais, contemplávamos com olhar embevecido, transbordante de ternura, nosso filho a ler histórias para a filha adormecer. Ela, apesar de já meio sonolenta, com a cabeça recostada no sofá e os pezinhos apoiados no colo do pai, acompanhava atentamente a leitura. Ele lia-lhe compenetrado o texto, seguindo fielmente a palavra escrita.

Provavelmente o sentido de muitas palavras escapavam à menina, mas ela seguia o fio do afeto que lhe oferecia a doçura da voz paterna. De vez em quando, ela o interrompia com algum comentário ou para ver a ilustração. Ele prontamente a atendia. E logo retomavam a leitura.

Ficamos algum tempo a observá-los, aguardando o final da história (O Gato de Botas, que acabáramos de enviar por um portador). Deitamo-nos com essa linda imagem do amor de ler.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Sementes de rosmaninho 5

A pós a seqüência de dias chuvosos, afinal veio o sol.
No vaso, crescem dois pés de rosmaninhos e dois de ervas daninhas.
Agora não é difícil distingui-los: os das ervas daninhas crescem mais depressa e com mais vigor.
Decidi não arrancá-los.
É o meu tributo ao jardim do pensamento de Maria Gabriela.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Hoje é dia de alegria

Hoje à tardinha vou pegar meu neto do coração na creche! Passarei todo o dia em contagem regressiva. Sei que quando chegar essa hora, virá tranqüilamente comigo. Que entrará em minha casa como se estivesse na dele. Que pedirá chazinho e pão, e que eu, com muita pena, terei que adiar esse pedido, para não atrapalhar o apetite dele para o jantar. Que desejará ver desenhos na TV, mas logo mudará de atividade. Que percorrerá os lugares conhecidos da casa, a conferir se tudo está como da úlltima vez. E que perguntará "o que é isso?", a cada coisa nova que encontrar.

sábado, dezembro 06, 2008

Edificando a cura

O diagnóstico confirmou o que, no fundo, há muito já sabia. Decidida a edificar a cura, ou pelo menos a controlar a doença, juntamente com a medicação para o quadro depressivo, agarro-me ao que me traz alegria no cotidiano:

- ser chamada e visitada pelo meu netinho do coração (sempre tenho e terei tempo para ele);
-olhar diariamente se as sementes de rosmaninho conseguiram sobreviver às bicadas dos pássaros (algumas resistem...);
-pôr água nas plantinhas da varanda;
- caminhar à tardinha com o meu amor na orla de Copacabana ;
- dedicar as manhãs escrever um pouco no computador;
- verificar, antes de dedicar-me à produção de textos, se há mails enviados pelos filhos;
- ver de 15 em 15 dias a minha netinha (e o meu filho) na web cam;
- assistir (quase) todos os sábados aos filmes da Sessão do porfessor;
- de vez em quando escrever neste blogue;
-tecer o cachecol para a minha filha;
- etc.

Sinto que já seguro os bordos. E que o poço não é tão fundo...

sexta-feira, novembro 28, 2008

Sementes de rosmaninho 4

Os passarinhos fizeram a festa no meu herbário: bicaram e despedaçaram as mudinhas-bebês. Fiquei triste, mas depois pensei que o herbário estava ali, convidativo a bicos e olhares, e desfiz-me do sentimento de posse.
Não entendo muito de sementeiras, mas talvez seja um indicativo de que as sementes que germinaram eram mesmo de rosmaninho...
Há dois ou três dias surgiram novos tênues filamentos verdes. Hesito se devo recorrer à engenhosidade dos espantalhos, para que possam crescer sob meus olhos, ou deixá-los disponíveis a bicos desejosos...

quarta-feira, novembro 26, 2008

"Manhã-Llansol"

Teve a serenidade da vibração, como diria Maria Gabriela Llansol, a sessão "Onde vais, drama-poesia?" , realizada ontem, no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (Diálogos sobre Poesia Portugesa , 3º Encontro de Pesquisadores).
Foi uma "manhã-Llansol"* tão intensa, que precisei de algum tempo para me recompor. Transbordava de plenitude. Decidi não almoçar com os participantes, mas levei comigo a sensação de estar com eles e com ela à mesma mesa.
(* a expressão é de Jorge Fernandes da Silveira, e compõe a bela dedicatória do livro que ele me ofereceu nessa manhã - Uma hora por dia, de Maria Helena Azevedo, 7 Letras, 2008).

segunda-feira, novembro 24, 2008

Outra data natalícia

Ontem meu neto do coração completou 3 anos. Não pude dar-lhe muitos beijinhos de parabéns, pois a família chegou tarde.
Hoje, para minha alegria, veio visitar-me, antes de ir para a escolinha.
Dei-lhe um beijinho doce na testa e combinamos amanhã um encontro: enfeitaremos, juntos, a árvore de Natal.
Já tirei do armário as caixas com enfeites. Tudo está preparado, à espera desse convívio.

"Um sopro de júbilo" - pensando em Maria Gabriela Llansol

Hoje Maria Gabriela completaria 77 anos. Desde o dia 3 de março de 2008 o “tempo transborda”, como num dos poemas de Éluard, que ela traduziu. Copio para a Amiga as palavras que escreveu para o Amigo: “Mas o tempo, contado pela terra, é inútil para el[a]. El[a] caiu agora onde fica o segredo da contagem”. Com Augusto, o seu ambo, Gabriela sente e experimenta a eternidade.

Canto-lhe a leitura quase todos os dias, silenciosamente, como no nosso último encontro em Sintra, em 2007, um pouco antes de ela penetrar a face do invisível: na quase penumbra do quarto, sentada num banquinho, diante da cadeira onde ela costumava sentar, li em absoluto silêncio as primeiras páginas de um exemplar de Os cantores de leitura, ainda não lançado. Ela interrompeu o curso de silêncio ao perceber um breve movimento na minha face.

- Estás a gostar?
Seguro-lhe as mãos, acaricio-lhe a fronte, e sussurro-lhe ao pé do ouvido, em ponto de beijo.

- Sim, Maria Gabriela, sorrio para a palavra que anuncia o texto prosseguindo – nostalgria, a transformação da tristeza em “sopro de júbilo”.

domingo, novembro 23, 2008

Sementes de rosmaninho 3

Creio que me enganei, por desconhecer os tempo da germinação das sementes de rosmaninho. Desde ontem percebi que despontam na terra três pequenos filamentos verdes. Serão enfim os futuros rosmaninhos ou apenas ervas daninhas? Torço para que a primeira hipótese se confirme.

terça-feira, novembro 18, 2008

Sementes de rosmaninho 2

Como eu previa, as sementes de rosmaninho não germinaram. Deixo aqui outras sementes, colhidas no herbário de livros de Maria Gabriela Llansol:

"Dispus-me, pois, a contar em breves palavras essa experiência do vazio, vendo o sol ao fundo, e tando comigo, sobre os joelhos e na mesa ao lado, o livro de Ibn'Arabi.

A terra em vida.
Herdar a terra.
O rosmaninho e a sálvia.

Sentia-me atraída pelo medo na sua selva de espaço, lê-lo levava-me a perder-me e a esperar. A sálvia, o rosmaninho, este livro, são meus companheiros."


(Finita. Diário 2. Lisboa: Rolim, 1987, p. 159)

domingo, novembro 16, 2008

O som do coração e Orquestra dos meninos

Assisti recentemente a dois filmes que associam infância e música.
O som do coração (titulo brasileiro do filme August Rush, dirigido por Kirsten Sheridan, EUA, 2007) conta a história de um menino, criado num orfanato, que recorre ao seu prodigioso dom musical para encontrar seus pais, também músicos (ele, um cantor de banda de rock e ela, musicista de orquestra).
Por sua vez, Orquestra dos meninos (Brasil, 2007, direção de Paulo Thiago) inspira-se na vida do maestro Mozart Vieira, cujo dom musical, herança de seu avô (regente de uma banda e responsável pela escolha do nome do menino), evidencia-se também na infância, tal como ocorre com August.
Em ambos, vi manifesto o dom da lira de Orfeu. Enquanto o menino August apreende e harmoniza sons da cidade, o menino Mozart capta e cria a partir dos sons da natureza, no agreste pernambucano.
O filme brasileiro toca-me particularmente. A história acompanha a luta de Mozart, já adulto, para dar corpo a um sonho, capaz de amplificar o dom de menino: ensinar música às crianças pobres do sertão, ajudando-as a encontrar o seu próprio dom.
Comove-me a imensa fé do jovem músico-professor no poder da educação para o ser estético. Comove-me ver aquelas infâncias quase perdidas encontrarem um sentido e mudarem o seu destino de fome e miséria, inscrito nos pés descalços, nas mãos cheias bolhas, no corpo anêmico e franzino.
Comove-me o fato de o companheiro do menino Mozart, que lia tão concentrado As caçadas de Pedrinho (de Monteiro Lobato), não ter conseguido prosseguir a leitura e fazer dela um dom: adulto, sucumbe à depressão, não suportando o peso de viver. Mas comove-me também saber que esta nota desafinada faz parte da pauta humana e que não estava ao alcance de Mozart, por mais amigo e artista que fosse, fazer dela um acorde perfeito.

sábado, novembro 15, 2008

Sementes de rosmaninho

Ontem semeei sementes de rosmaninho. Minha filha ganhou-as num Shopping português e deu-mas. Não sei se germinarão: as sementes devem estar velhas e agora não bate muito sol na varanda devido à sombra da ramagem da amendoeira.
Há muito pensava pô-las na terra, mas o tempo foi passando, o envelope escondeu-se dos meus olhos e acabei por não mais me lembrar...
Encontrei o pequeno envelope na mesa-escrivaninha do meu quarto, entre folhas, livros e agendas. Enquanto lia as instruções e mexia na terra, pensei com afeto na minha filha e na Maria Gabriela Llansol: ali havia um biblioteca de ervas ou um herbário de livros.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Pessoa em mim - 1

Eu nunca guardei rebanhos,
mas ________
trago sempre comigo
o pensamento vivo
de Pessoa em mim


(Pessoa em mim é o titulo de um dos muitos livros que pretendo publicar – e que provavelmente nunca publicarei)

As mãos, as mães e a blogosfera

As mãos tecem
a agulha move-se
o fio corre entre os dedos
o tecido cresce
engolindo o tempo
encurtando a distância
tramando regressos
como quem canta o amor


(escrito ao ler o post de hoje in bordadoingles.blogspot.com)

segunda-feira, novembro 10, 2008

O calor está chegando...

Para alegria de muitos, os termômetros cariocas indicam que a temperatura está subindo, anunciando um Verão que em breve chegará.

Amo a paisagem da orla de Copacabana, mas com temperatura amena. Uma espécie de verão-outono, com muita luz e pouco calor, mais Setembro que Dezembro...

domingo, novembro 09, 2008

papagaio de papel

extasiada
estendo o braço
à lua lá no céu
movo o olhar
cubro a distância
e assim faço
vogar no ar
meu singular
papagaio de papel

(poema - ? - escrito nesta manhã, após mostrar à minha netinha, através da web can, um livro sobre pipas)

Será arte?

deter o tempo
no átimo
de pleno viço
que precede
a degeneração

(poema - haicai? - que me surgiu ontem no ponto do ônibus, após assistir a um documentário sobre o poeta Waly Salomão)

sábado, novembro 08, 2008

Livro sobre pipas ou papagaios de papel

Já escrevi sobre Fadas & Bruxas; Saci; Boto, Iara e Iemanjá. E também sobre Pão (a publicar) e Acalantos (recentemente enviado para apreciação da editora, em Portugal).

No momento, escrevo dois livros (em forma de B.I.): sobre o Boitatá e a Boiuna e sobre Pipas ou Papagaios de papel.

Todas as contribuições serão bem-vindas.

sexta-feira, novembro 07, 2008

O amor de uma criança

O menininho sentiu a minha longa ausência. A princípio ele não fez muita festa ao nos ver e não respondia aos meus acenos, quando a empregada ou a mãe o traziam de manhã na área de serviço para trocar a fralda da noite (ele já não usa de dia).
Dei tempo ao tempo, sem pressa. Foi vindo aos poucos. Na segunda semana, veio duas vezes de manhã, antes da creche. Mas ao retornar de tarde não mais me chamada para brincar pela fresta da varanda. Nesta semana, ao voltar da escolinha, já pediu seguidamente para vir brincar na casa da titia. Ontem, trouxe boa parte da sua frota de carrinhos. Contei-lhe uma história - de um menino, seus amigos e sua pipa -, naturalmente a partir das imagens de um livro*.
Amor precisa de alimento cotidiano, com o pão do afeto e do imaginário. Sobretudo quando é amor de criança.
*MUTH, Jon J. (Texto e ilustrações). As três perguntas. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (baseado numa história de Leon Tolstoi).

quarta-feira, novembro 05, 2008

O novo rosto da América

Após a imensa decepção com o Sr. L. no Brasil, pensei não mais me empolgar com eleições, fossem onde fossem. Apesar de atualmente sentir um desencanto geral, não me surpreendi por ver-me torcendo por Obama, por tudo que a sua vitória nas urnas significa. O agora presidente eleito dos EUA já me havia conquistado há muito, quando assisti a uma entrevista dele num célebre programa americano. Mas uma coisa é simpatizar com um possível candidato e outra é almejar a sua vitória. Lembro-me, contudo, de ter apreciado a sua postura e de perceber nele a chama de um líder nato, um vencedor, mas através de muito empenho e esforço pessoal.

Nada entendo de crise econômica nem de política internacional. Não sei que tipo de repercussão a sua plataforma política terá para a economia do Brasil. Só sei que me apraz profundamente a resposta da população e a assunção deste novo rosto compósito pela América.

Foi bonita a festa.

terça-feira, novembro 04, 2008

Um manuscrito interrompido

Arrumando gavetas e estantes, encontrei um fragmento de texto manuscrito numa folha de papel quadriculado. Reconheço a letra - é de alguém muito amado, quando ainda era um jovem, e já revelava afinidades poéticas. Pode ser cópia de algum texto que o jovem leitor apreciou ou - penso que esta hipótese é mais provável - sua própria criação. O texto interrompe-se de repente, na inicial de uma palavra:

"Vi outras vidas movendo-se. Sonhei os sonhos que estas vidas sonharam. Senti o que elas sentiram. Mas não são vidas, são criações. Me tocam e fazem-se p"

segunda-feira, novembro 03, 2008

Um pouco de sol e mar

Ontem, domingo, foi dia de andar na avenida Atlântica, fechada ao tráfego, transformada em imensa área de lazer.

Amo este lugar. Para mim, talvez o mais carioca de todos. É perfeita a combinação de sol, mar, tarde de domingo, pessoas e famílias se divertindo... Enquanto ando, de mãos dadas com o meu amor, neste Novembro que mais parece Setembro, sinto o sol aquecendo suavemente o rosto. Respiro fundo. Sorrio. Vejo homens-estátua (penso na minha filha e nos personagens de Lídia Jorge) e outros artistas populares lutando pelo seu ganha-pão, crianças pedalando carrinhos alugados, sob o olhar atento dos pais (penso no meu filho e na minha neta, imaginando que bem poderiam estar ali), ciclistas, banhistas, a estátua do poeta Drummond, o Posto Seis, a orla maravilhosa de Copacabana.

Volto revigorada. É muito bom viver.

domingo, novembro 02, 2008

Lendo Llansol - para o dia de hoje

para Maria Gabriela Llansol, Amiga,
e Antonio Almeida Azevedo, Pai
- os meus mortos mais queridos
(só fisicamente ausentes - vivos, no jardim que o afeto permite)

" (2 de Novembro)

Os cultivo, fiel aos meus, no jardim abismático que aqui
Me trouxe - Ana e Myriam, Parménides, Prunus Triloba,
Maya, Potropato, Suso, Eckhart, Müntzer, O Pobre, Alice,
Alisubbo, João da Cruz, Ana de Penãlosa, Margarida, Isabôl,
Copérnico, Comuns, Spinoza, Coração do Urso, Bach,
Hölderlin, Nietzsche, Teresa Martin, Kierkgaard, Rilke, Pai,
Maria Adélia, Avó Maria, Jorge Anés, Mãe, Jade, Vergílio
Ferreira _______ até à luz da ressurreição."

(estância 306 de O começo de um livro é precioso. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003)

sábado, novembro 01, 2008

Lendo Llansol - entre 1 e 2 de Novembro

"Herbais, 2 de Novembro de 1982

(...) A noite criativa foi a de 1 para 2 de Novembro - estabeleceu-se assim um elo entre os vivos e os mortos, e os vivos tomaram responsabilidade no reino dos mortos, e os mortos assumiram a sua responsabilidade no reino dos vivos; (...) "

(Fragmento de Um falcão no punho. Diário 1. Lisboa: Rolim, 1985, p. 94 )

sexta-feira, outubro 31, 2008

Lendo Llansol - sobre cartas

"Como eu gostaria de saber em que circunstâncias terminarei
esta carta
se as cartas já não têm o valor de outrora, como cartas,
e ainda não atingiram o valor futuro, que hão-de ter e se,
no momento intermédio da passagem,
são autênticos invisíveis,
que perguntas continuarei eu a enviar-te
como quem espera por um alimento desconhecido,
e tem necessidade de o fazer como quem come?"

(fragmento de "Oferenda a Apollinaire______" in Mais Novembro Do Que Setembro, de Guilhaume Apollinaire. Tradução e Prefácio de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio d'Água, 2001, p. 14)

sexta-feira, outubro 24, 2008

Chegada

Voltei, após quase três meses de ausência. Preparei aos poucos meu corpo e o meu espírito para o regresso. Dói deixar os que amamos. Fui me despedindo aos poucos: primeiro da filha e da neta - as duas de uma só vez, no mesmo dia. Na véspera da viagem, abracei comovidamente minha mãe, e deixei a vila onde nasci. Por fim, já no aeroporto, apertei fortemente o meu filho. Lágrimas inevitáveis. As da separação da netinha, estas foram disfarçadas. Choramos só quando entramos no carro, para que ela não visse que sofríamos.

O corpo ainda não se adaptou ao fuso horário. O espírito estranhou um pouco as ruas, as gentes, a casa e os objetos que deveriam ser familiares.

No primeiro dia após o regresso, logo de manhã, vi que o meu neto do coração cresceu bastante e já fala muitas palavras novas. Não me esqueceu! Assim que percebeu que voltamos, antes de ir para a escola, fez questão de visitar-nos e passar umas horas com a titia.

Muito à vontade, pediu para ver desenhos animados, aninhado na nossa cama. Depois veio brincar com os carrinhos dele, enquanto eu limpava algumas prateleiras do armário da cozinha. De tarde, quando regressou da creche, chamou-me para brincar na fresta da varanda. Expliquei-lhe que estava muito suja e suada e que precisava tomar um banho. Ele entendeu.

Ainda não pude ver o mar que tanto amo. Pretendo vê-lo hoje à tardinha, quando formos dar a habitual caminhada. Depois eu conto como foi esse reencontro.

quarta-feira, outubro 22, 2008

A gramática das crianças

_ Madrinha, o que é isso?
_ É uma borracha. Serve para apagar o que a gente escreve.
_ Posso usar?
_ Claro que sim, pérola da minha vida.

[cerca de cinco minutos depois entra na sala a querida tia-avó]

_ Então, meu amor? O que é que você está fazendo?
_ Estou a "borrachar".

quarta-feira, julho 23, 2008

Desenhando no presente um comovido até breve

Ontem, quando voltou da creche, o menininho veio aqui em casa. A mãe deixou-o ficar um pouco comigo, para eu tentar explicar a nossa futura longa ausência. Mostrei-lhe as malas espalhadas pela casa. Expliquei que a casa ia ficar fechada e que a titia ia ver a menininha da foto (ele já a chama pelo nome), a neta dela. Ele repetia o final das minhas palavas, compenetrado, como costuma fazer. Mas não fiquei convencida de que entenderá quando a titia não atender ao seu chamado ou quando perceber que as janelas estão sempre fechadas... Então, achei melhor viver aquele pequeno tempo presente com ele, e ficamos os dois a desenhar na varanda.

quinta-feira, julho 17, 2008

Em breve, a alegria do reencontro, do outro lado do cais

Aos meus - poucos porém fiéis - leitores

Em breve estarei do outro lado do cais. Por um período de três meses (23-24/07- 22/10) - que oxalá seja só de abraços e prazerosos convívios - talvez não escreva com a costumeira freqüência nesta página. É que quando estamos vivendo intensamente com os que amamos, não precisamos tanto de escrever as saudades. Mas como, com certeza, surgirão saudades dos que deixo do lado de cá, é possível que sinta necessidade de escrevê-las... Prometo que o farei, sempre que tiver oportunidade.

terça-feira, julho 15, 2008

happy birthday para o irmão que eu escolheria para ser o meu irmão se já não fosse meu irmão

Eu amo-te, Toni!

O sublime no cotidiano

Ontem fui levar o meu neto de coração na creche. Fomos numa pequena comitiva: a mãe, a irmãzinha, o avô e eu. O menininho até pensou que íamos passear na pracinha e, de início, se recusou a aceitar prosseguirmos na direção da escola.

Levei uma fotocópia da minha carteira de identidade (B.I.) para, numa eventualidade, caso a mãe precise, eu poder pegá-lo. Foi uma experiência aparentemente corriqueira, mas para mim, por tudo o que tenho vivido nos últimos anos, teve uma dimensão imensa. Senti-me acolhida, amada, integrada a esta família por laços de afeto tecidos com respeito e atenção cotidianos.

Já deixei com a irmã alguns papéis de carta, da coleção do meu tempo de professora. E para o menininho, um bloco com desenhos para colorir. Há carrinho, lua, avião, sinal de trânsito, enfim, coisas que fazem parte de nossas vivências comuns. Assim, quando perguntar pela "titia", poderá lidar melhor com a "saudade". A partida está preparada, mas o meu problema será: como eu vou lidar com a saudade do menininho?

segunda-feira, julho 14, 2008

domingo, junho 29, 2008

Como pode um bebê entender e expressar a saudade?

Hoje de manhã vi pela lavanderia o meu neto do coração. A mãe me disse que ele havia chamado insistentemente da varanda. E que teria dito: saudade da titia.
Fiquei momentaneamente muda, tal o emocionado espanto. Como uma criança de dois anos, ainda com pouca linguagem, conseguiu expressar, com um palavra tão precisa e singular da nossa língua-cultura, um sentimento tão complexo, da ausência, sentida em nós mesmos, do outro/amado?
Sou em grande parte a responsável por ter feito nascer e crescer esse afeto. Não tenho podido alimentá-lo como desejaria: tem feito muito frio na varanda e, por conta da escrita no computador, tenho ficado enclausurada no quartinho dos fundos, onde ele não pode me ver.
Prestes a ausentar-me por um longo período, já sinto a dor de o deixar, dor que procuro equilibrar com a alegria de partir, e poder rever a neta e os filhos do outro lado do cais.

sexta-feira, junho 27, 2008

Adeus a Sylvinha Araújo

Sylvinha e Eduardo Araújo: 39 anos de casamento e mais 2 de namoro. Acostumamo-nos a vê-los juntos, a pensá-los juntos, em linda parceria humana e musical, conseguindo manter dignamente suas carreiras, sem recorrer a apelos sensacionalistas para aparecer na mídia. Depois de 12 anos de luta sem tréguas contra o câncer, fisicamente extenuada mas espiritualmente muito serena, confortada pelo afeto dos que mais amava, ela partiu .
Lembro-me de vê-la pela TV, sorriso largo, linda voz e um imenso barrigão (creio que estavam juntos no palco, ele com seu instrumento musical e provavelmente com o costumeiro chapéu, mas não posso jurar). Subitamente a apresentação foi interrompida: o bebê dera sinais de que ia nascer. Eu já estava grávida do meu primeiro filho e jamais pude esquecer aquele momento comovente, que uniu música e vida, e que se juntou de forma tão especial à minha própria história.

segunda-feira, junho 16, 2008

Feliz aniversário, tuki!



Acordei cedo e fui ao jardim buscar as flores mais frescas que ali havia. Em tua homenagem.

sexta-feira, junho 13, 2008

Santo Antonio, Fernando Pessoa e a rapariga que temia a impostura da língua

Hoje é dia de Santo Antonio. Em Lisboa (1195?), nasceu um menino, batizado com o nome Fernando. Mais tarde, receberia o nome de Frei Antônio, na ordem dos Franciscanos.
Séculos depois, também em Lisboa, no dia 13 de Junho de 1888, nasceria o menino Fernando, ou melhor, Fernando Antônio, em homenagem ao Santo mais querido de Portugal. Torna-se-ia o grande poeta do século XX português e um dos maiores de todos os tempos.
Ambos, o santo e o poeta, são da minha particular predileção. Com o nome Antônio tenho três pessoas muito amadas: meu pai, meu marido e meu filho. Invoco o santo em horas de grande aflição e ele em geral não me deixa sem resposta. Já Pessoa aprendi a amar praticamente sozinha, após um brevíssimo contato com "Chuva Oblíqua" na Universidade.
Quando penso em Fernando Pessoa - como o poeta é mais conhecido -, sinto que ele vive comigo, através dos versos que recito de cor (de coração). Comove-me a sua figura esguia, escondendo-se atrás dos óculos. E sobretudo a sua profunda solidão, em parte talvez por temperamento, mas também pelo preço que advém de não ter praticamente interlocutores contemporênos para a sua poesia. Apesar de tudo, cumpriu magnificamente a sua missão de artista. Deixou-nos um imenso legado. "Essa coisa [a sua poesia] é que é linda".
Um pouco antes de empreender a grande viagem, teria dito: "eu não sei o que o amanhã trará". Talvez o poeta tivesse gostado do que lhe trouxe "a rapariga que temia a impostura da língua". Desde que ela se lembra, ele viveu sempre consigo, foi seu companheiro de brincar de "Só e maravilha". Depois da escrita de Maria Gabriela Llansol, acrescenta-se-lhe uma nova imagem, cheia de pujança: Pessoa/Aossê é um falcão peregrino, voando ao encontro de outras possibilidades harmônicas. "Passa, ave, passa, e ensina-me a passar".

quinta-feira, junho 12, 2008

Aos namorados de todos os tempos

"Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar"
(Tom & Vinícius)

"penso que as beguinas sabiam que o amor (a amizade, a paixão, o segredo) têm lugar no corpo, mas muito pouco lugar; ele é uma manifestação do espirito, que é tão corpóreo como esta mão que escreve; por isso, quando se diz a alguém 'eu amo-te', é para sempre que fica dito"
(Maria Gabriela Llansol)

a

Tristão e Isolda
Pedro e Inês
Romeu e Julieta
Abelardo e Heloísa
Jorge Amado e Zélia Gattai
Roberto Carlos e Maria Rita
Maria Gabriela e Augusto
Eduardo Lourenço e Annie

e outros "gêmeos astrais"

terça-feira, junho 10, 2008

Post 366*

Se este blog fosse um ano, se este ano fosse bissexto, se o dia tivesse 24 horas, se o se fosse um desejo de sempre, seria um leitor à espera, um blog à espera de mais 365 posts.
*incluí os rascunhos, "ses", possibilidades de escrita

Coisas de criança 23 - o arco-íris da praia

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Ontem foi dia de praia.  O pai e a menina foram de Metro e saíram em Matosinhos Sul.  Acomodaram-se perto do mar, com a praia ainda vazia, e deixaram o vento baloiçar as cores do guarda-sol enquanto faziam castelos de areia.  Algumas nuvens corriam no céu azul, criando sombras rápidas sobre as pequenas dunas mornas.  A menina estava tão contente que não sabia por onde começar e mesmo com os moldes exatos para fazer um polvo violeta, um pato amarelo, um barco verde e uma estrela do mar vermelha, preferiu voltar à calçada, perto do bar, onde já lá estavam outras crianças a brincar numa casa em plástico.  Experimentou todos os brinquedos, comeu bolachas, bebeu água até que chegou a hora de voltar para preparar o almoço.  No caminho de volta quis segurar o guarda-sol com os dois braços, como se abraçasse todas as cores do arco-íris.

domingo, junho 08, 2008

Comentário ao post da fadinha-cozinheira

A avó mal vê a hora de provar essas iguarias feitas por tão linda fada-cozinheira. Já se imagina a entrar nessa cozinha de sonho, a estender as mãos para pegá-las, a levá-las à boca, a fechar os olhos para melhor apreciá-las... (Hummm! Que delícia é viver e inventar!) E depois, ou talvez antes, a estender os braços para envolver essa menina mágica com um abraço ao mesmo tempo muito forte e muito delicado, para não amassar tão fofas asinhas.

A pérola que o meu irmão me deu


Claro que é o melhor doce caseiro do mundo. Há pequeninas fadas-cozinheiras que conseguem transformar tudo em alimentos e estes, uma vez preparados, são trazidos nas mãos em forma de concha. Quem os come fica imediatamente feliz e agradece ao Mundo a possibilidade de ter por perto tão perfeita criatura.

terça-feira, junho 03, 2008

Coisas de criança 22 - a nossa casa

NossaCasa

O que a madrinha lhe havia criado com os individuais de plástico, imaginando um telhado entre as duas, agora a menina redescobria numa outra casa em que até conseguia entrar.  O pai rearrumou todo o quarto, e conseguiu um espaço para montá-la.  Após colher as maçãs, tratou de fazer a sua especialidade, tirando de algum lugar, provavelmente de um armário, uma panela que lhe permitisse cozê-las em lume brando.  O doce era feito à gosto, apurando com o tempo de cozedura.  O pai divertia-se com a alegria contagiante da menina.  Quando ficou pronto, a menina estendeu a mão pela porta e disse:

- Prova, papá.

Aquele era o melhor doce caseiro do mundo.

domingo, junho 01, 2008

Comentário a uma foto de família


Comove-me esta foto. Nela, a família ainda é pura potencialidade de crescer em harmonia. É difícil precisar quando ou porque começou a desintegração. Mas o "menininho descalço sobre a cadeira" conseguiu prosseguir, incólume. E formou uma família que vem cumprindo a promessa de felicidade que ficara interrompida. Hoje, os seus descendentes, sensíveis e unidos, tecem redes e nós de afeto, bordados e ancorados neste e em outros cais.

sexta-feira, maio 30, 2008

Hoje é dia de alegria

Hoje será um dia festivo.
O rosto do teu pai se iluminará
ao rever a azulíssima cor do teu olhar,
o rosto amado a desabrochar em sorrisos
e o balançar dos teus caracóis,
ao desceres célere os degraus da escada
e correres ansiosa ao encontro de seus braços.

quarta-feira, maio 28, 2008

Coisas de criança 21- da necessidade do convívio para a construção do afeto

Segunda visita do menininho ao apartamento da titia: desta vez, veio para ficar só com ela, sem a babá. Agora já reconhece a porta do apartamento onde a titia mora: é só virar para o outro do lado do corredor. Já pega o regador azul e ajuda a molhar as plantinhas. Já pára diante de alguns objetos e lembra dos comentários da titia, com palavras-síntese-de-histórias-ouvidas:

- kebou! (sobre o vaso de barro com tampa quebrada)

- sujo! (sobre a cadeira de repouso, que a titia correu a limpar quando o menino quis sentar)

- carro vermelho! (sobre a miniatura de carro que pertenceu ao filho da titia, hoje um homem, e que vai e vem, a cada encontro, como uma espécie de objeto transicional para chegadas e partidas)

- menino! (foto do filho da titia, primeiro dono do carrinho vermelho)

- Bia! (foto da menininha, filha do dono do carrinho, que não é a Beatriz, amiguinha da creche, mas deve se parecer muito com ela)

E assim ambos brincaram quase duas horas. Quando o titio chegou, amou a surpresa de encontrar aquela cena. Feliz, o menininho correu para os braços dele. Já sabia que ia ganhar balancinho. E deixou-se balançar, sem medo.

domingo, maio 25, 2008

Nota do Livro de Acalantos

Meu filho costumava adormecer ouvindo os sons de uma caixinha de música (a corda ia acabando, a música ficava cada vez mais lenta e os olhos dele iam fechando...). Essa caixinha de música ainda existe. Apesar de ter o vidro quebrado, ainda toca. Ele também gostava de cantar uma musiquinha só dele, uma espécie de hãn-hãn-hãn monocórdico, enquanto enrolava a fralda junto ao rosto, para adormecer a si mesmo. Quando começava a cantar e e enrolar o paninho, era sinal de que estava prestes a entregar-se ao soninho.
Para embalar a minha filha, lembro-me de que costumava cantar um trecho da canção “Menina”, de Paulinho Nogueira (música-tema dos personagens Índia Potira e Jerônimo, na novela Irmãos Coragem, de Janete Clair): “te carreguei no colo/ menina/cantei pra ti dormir/ te carreguei no colo/ menina/cantei pra ti dormir”. Para mim soava como cantiga de ninar, embora o resto da canção desmentisse isso, como mais tarde a minha filha percebeu, ao observar mais atentamente a letra.

homesick

Lembro-me da minha mãe a cantar "te carreguei no colo menina" e fico com homesick. Quem disse que saudade é uma palavra que só existe em português?

quinta-feira, maio 22, 2008

Feriado na Pracinha

Nasci num dia de Corpus Christi, em meados de junho, há muitos, muitos anos atrás ( não sei exatamente a que horas... creio que a minha mãe já me disse, mas, não sei porque, logo volto a esquecer...). Como é um feriado móvel, neste ano antecipou-se sensivelmente e caiu em maio.

Fiz de conta que hoje é meu aniversário e dei-me um presente: passei a manhã com meus netos do coração na pracinha do Bairro Peixoto.

Emociona-me profundamente saber que a mãe deles confia em mim e permite esta troca, este convívio afetivo, como se eu fosse de fato a avó (e, de certa maneira, sinto que sou).

A neta mais velha já fez oito anos. É tímida, alva, esguia, ruiva e com cabelos encaracolados. Lindíssima! Parece uma princesa das ilustrações dos livros de contos de fadas.

O caçulinha tem dois anos e meio. É um menino de cabelos castanhos e lisos, olhos vivos, levado, desinibido.

Contei à neta do coração que há 3o e tal anos atrás passeei ali com meus filhos. Vi aquelas árvores, hoje frondosas, quando ainda eram pequenos arbustos. Eu e a menina ruiva sentamos à sombra de uma delas e lemos juntas um livro de imagens (A menina e as borboletas, de Roberto Caldas). Brinquei com ela de jogo de letras, de adivinha-em-que-mão-está, etc. Ela desenhou na areia com gravetos. O menininho brincou com os carrinhos dele e com brinquedos de outras crianças. Depois ambos brincaram de descer juntos no escorrega.

Quando ele se distraiu um pouco a brincar no balanço com a babá (extremamente cuidadosa), despedi-me da neta mais velha e saí discretamente, para o menininho não chorar. Há muitas tarefas à minha espera em casa. Mas não faz mal se o trabalho no computador e outras atividades atrasarem umas horas: há uma outra qualidade do tempo que não quero adiar.

quarta-feira, maio 21, 2008

Guarda compartilhada

No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que inclui no Código Civil a opção de guarda compartilhada de filhos de pais separados. Embora na prática esta opção já existisse, o Código estabelecia apenas a guarda unilateral, na qual, em caso de separação, o filho ficaria com a mãe ou com o pai.
A proposta aprovada afirma que a guarda compartilhada poderá ser requerida, por consenso, pelo pai e pela mãe, por qualquer um deles, ou ser decretada pelo juiz. Claro que cada caso é um caso e, se não houver consenso, deve ser encaminhado para análise criteriosa, sempre pensando no que é melhor para o(s) filho(s). Neste último caso, por exemplo, caberá ao magistrado definir as atribuições específicas do pai e da mãe e os períodos de convivência do(s) filho(s) com cada um deles. A guarda compartilhada poderá ser modificada a qualquer momento, de modo a atender os interesses da criança.
Ao prever democraticamente várias possibilidades, esta inclusão procura acompanhar as atuais mudanças e reivindicações sociais, atentando, inclusive, para o redimensionamento da importância do papel paterno na educação dos filhos, posto em relação de equivalência com o papel materno.
Além de permitir aos filhos a oportunidade de conviver em igual período de tempo com o pai e com a mãe (e, por extensão, com as respectivas famílias, paterna e materna), dividindo igualitariamente direitos e responsabilidades, a guarda compartilhada, a princípio, poderá evitar que a(s) criança(s) seja(m) usada(s) como instrumento de poder e de barganha, com o intuito de atingir o ex-cônjuge, em prejuízo dos reais interesses do(s) filho(s), como por vezes sucede no caso da guarda unilateral.

terça-feira, maio 20, 2008

Marcas de amor

Leio o que escreves,
ouço o que recomendas,
penso em ti a toda a hora,
sobretudo em certos momentos
(quando lavo rúculas selvagens,
ou surpreendo no rosto do teu pai
traços que são teus).

Leio o que escreves,
ouço o que recomendas,
penso em ti a toda a hora,
sobretudo em certos momentos
(quando ouço Madredeus, Vitorino, Dulce,
ou surpreendo no jeito da tua filha
traços que são teus).

segunda-feira, maio 19, 2008

Coisas de criança 20 - Arco-íris

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O pai e a menina foram à festa de Matosinhos.  A menina adorou os carros, sempre dando gritos de alegria a cada passagem pelo pai.  Ao final da festa, estava tão cansada e feliz que pediu ao pai para ir às cavalitas, e lá foi até ao Metro a contar o que tinha feito e o que ainda queria fazer.  Quando chegaram em casa, como era de se prever, a menina dormiu logo, mas teve um sono agitado... tão agitado, que até rolou e o fez tantas vezes que até parou no chão.  Coitada, a menina chorou, o pai acordou preocupado, mas quando a deitou de volta à cama, já o choro havia parado, e a menina dormia novamente, continuando às voltas nos carros do sonho...

No dia seguinte, era tempo da menina voltar para a mãe.  O pai, triste, ainda preocupado com a queda da menina, olhou para o céu nublado e, no meio do sol e da chuva, viu um arco-íris, e sorriu.  As cores lembravam-lhe a menina nos carros da festa a andar às voltas.  A menina trouxera o arco-íris para o final de mais um fim-de-semana especial e o pai dormiu mais descansado.

sábado, maio 17, 2008

Uma visita especial

Ontem a avó e o avô receberam pela primeira vez em sua casa o menininho que mora ao lado. Este encontro, há muito desejado, foi preparado aos poucos, com cuidado e delicadeza. Afeto e confiança precisam de tempo para se fortalecerem. E enfim a hora chegou. Por isso foi algo especial, significativo.

O menininho veio com mochilinha da creche e chamou animado pela titia, antes mesmo de a porta se abrir. Com seu jeitinho curioso e ativo, percorreu com familiaridade todos os aposentos, como se sempre tivesse vivido ali. Depois, deteve-se diante da fresta da varanda, percebendo-se do lado de cá, a espiar para a sua casa, do lado de lá.

Desenharam, fizeram barcos de papel, tiraram fotos e viram a lua.

Quando o menininho retornou à casa, correu para chamar a titia. Agora, do lado de cá e do lado de lá, a fresta tem um novo sentido. Doce, como fruta madura.

sexta-feira, maio 16, 2008

A avó e os netos do coração 2

A avó tem um coração cheio de recantos, talvez "mais vasto que o mundo" (Drummond). Em cada um desses recantos mora uma criança especial, muito amada. Há as crianças que já cresceram e que hoje até já são pais de outras crianças, mas, para a dona do tal coração, ainda são (sempre serão) "eternos infantes", como diria Pessoa.

Nessas muitas moradas afetivas, há o infante João, recém-nascido, o neto do coração de Portugal, a quem ela dedicou um acalanto, embalando-o docemente em pensamento. Há o menininho que mora no Brasil, no apartamento ao lado, e que tem quase a mesma idade da menininha, "a neta primeira a chegar", em Portugal.

A avó sente não poder conviver com eles ao mesmo tempo. Sabe que quando está com o neto de cá não pode estar com os do outro lado do cais. E vice-versa. Mas sabe também que amar um é amar os outros, pois este é o milagre da multiplicação do amor. Quanto mais se ama, mais se acrescenta.

quinta-feira, maio 15, 2008

A fresta, a festa ou Doces convívios com o neto do coração

A cada dia aprofunda-se mais e mais a relação afetiva da avó com o netinho do coração (o menininho que mora no apartamento vizinho).

Ambos já têm um conjunto de vivências em comum que permitem pequenos diálogos e brincadeiras. E a avó maravilha-se por poder acompanhar de perto o crescimento em linguagem e em beleza deste pequenino ser.

Quando o menininho chega da creche, corre à varanda, sôfrego, já com saudade dos brinquedos que deixou. Primero, distrai-se a brincar com eles. Depois, chama a titia (a avó do coração) e pede-lhe para sentar na soleira, próximo à fresta da varanda. Mesmo que não estejam a trocar brinquedinhos, gosta de saber que ela está ali a vê-lo brincar, através do reflexo do vidro espelhado.

À noite, após o jantar, reencontram-se novamente. Imitam vozes de animais, falam da lua que aparece (e desaparece) no céu, dos novos brinquedos, dos amigos preferidos, etc.

Aos poucos o espaço de interação alarga-se e cresce junto com o menininho. Já ganhou o corredor do edifício (de vez em quando a avó consegue se despedir do menininho de manhã, quando ele vai para a creche) e houve até um breve encontro na pracinha, em meio a escorregas, trepa-trepas e balanços, com direito a braços estendidos do menininho para acolher os avós do coração.

Amanhã, decerto, haverá mais histórias para contar. Que alegria é viver e, sobre todas as coisas, amar!

quarta-feira, maio 14, 2008

Ontem, dia 13 de Maio

Ontem, no dia 13 de Maio, comemorou-se no Brasil o Dia da Libertação dos Escravos. Estima-se que mais de 4 milhões de negros africanos foram trazidos à força para trabalhar nas plantações e servir aos seus senhores ociosos.

Não há o que comemorar. Não podemos apagar esta aviltante página da nossa história passada. Mas convém lembrar, sempre, para não esquecer. Convém lembrar para não esquecer que ainda há trabalho escravo aviltando as páginas que se escrevem na nossa história presente.

"Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?" (Castro Alves, Vozes d'África). Onde estão, hoje, as vozes levantadas? Onde estão os gritos pelos direitos humanos? Convém denunciar e clamar e agir.

segunda-feira, maio 12, 2008

Na mesinha, um vaso de begônias...

Ontem recebi do meu amor um grande abraço, daqueles tão significativos, que dispensam palavras. Mas elas vieram, sinceras, intensas, acompanhando um vaso de begônias:

- Obrigado por seres a mãe dos meus filhos.

Não, não repeti o lugar-comum:

- Não precisava...

Precisava sim. Cada vez mais precisamos manifestar e aceitar afetos, bem-quereres. Acolhi o abraço, as palavras e as flores.

Olho o vaso de begônias, abro as cortinas, há sol lá fora. Respiro fundo, penso afetuosamente nos meus amores, começo com novo alento um novo dia.

domingo, maio 11, 2008

No Dia das Mães

(Para todas as mães, em especial para aquelas cujos filhos já partiram)

“Quando eu morrer, filhinho,
seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
e leva-me para dentro da tua casa.
Despe-me o ser cansado e humano
e deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é.”

fragmento do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimmo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, maio 08, 2008

Carta-acalanto para a mãe de Isabella

Querida Ana Carolina de Oliveira,

Você não me conhece pessoalmente. Sou mãe, avó, educadora, cidadã (e, atualmente, alguém que se esforça para tornar-se um ser humano melhor e sonha construir um mundo em que o amor seja cada vez mais possível). E, como tal, queria manifestar - a você, a seus pais e a toda a sua família - a minha imensa solidariedade. Imagino que devem estar recebendo o apoio e o afeto de milhares de pessoas do Brasil e do mundo. Mas carinho nunca é demais.

Procuro mas não encontro as palavras certas para confortá-la. Não há na língua portuguesa nenhuma palavra para nomear a dor inimaginável de quem perdeu um filho, especialmente uma criança.

Queria dizer-lhe apenas, nesta carta-acalanto, que ao solidarizar-me com você, procuro também serenizar um pouco o meu coração e apaziguar a dor deste luto. Que sempre a acompanhe a certeza de que soube amar e cuidar bem da sua pequena, a certeza de que soube dar a ela muito amor e foi por ela plenamente correspondida. Guarde esta linda imagem de amor materno e filial. Certamente ela a ajudará a atravessar melhor este momento e os que ainda virão. Acolha também a convicção, forjada no ideal de justiça, de que, no que depender de profissionais sérios e competentes e da sociedade em geral, "Isabella não será esquecida".

quarta-feira, maio 07, 2008

Coisas de criança 19 - Amizade

Há uma nova música no Canal Panda que o pai e a menina adoram.  Fala sobre a amizade e o refrão é como se segue:

 

Quando estamos tristes

Quem nos ouve, quem lá está

Melhor que ter amigos não há

Quando temos festa

Quem alegra, quem lá está

Melhor que ter amigos não há

 

A letra, melodia e colorido da imagem cativaram-lhes ao ponto de cantarem juntos.

- Canta de novo papá!

terça-feira, maio 06, 2008

Coisas de criança 18 - A menininha, o tempo e a distância

Como uma criança ainda muito pequena consegue entender noções tão abstratas para ela, como a imensa distância entre os países, onde residem seus familiares paternos mais próximos (os avós, a tia-madrinha), ou a extensão do tempo que falta para que ela, que vive num país de clima frio, possa desfrutar novamente as delícias do Verão?

Maravilho-me com algo aparentemente comum a todas as crianças. Mas o fato é que a menininha, com apenas dois anos de existência, não esquece que nas férias passadas (entenderá lá o que são férias?) tomou banho de piscininha na casa da bivó paterna. Assim, neste último fim-de-semana com o pai, foi à gaveta pegar o biquini e pediu a ele que a levasse lá.

E quando interagia pela webcam com os avós paternos ("os avós do avião", como ela a eles se refere, em conversa com a tia-madrinha), de repente pediu para falar com a madrinha. O pai tentou fazê-la entender que a madrinha estava sem computador em casa e por isso não poderia vê-la.

Deve ter entendido, pois logo voltou a gargalhar gostosamente com alguns ícones animados, especialmente o do sapo que fisga com a língua uma mosca e logo solta um arroto (não é socialmente bem-educado, sabemos bem disso, mas é inegável que as crianças apreciam com naturalidade coisas escatológicas, como arrotar e soltar "pum").

- Mais! O do sapinho.

sábado, maio 03, 2008

Quem ama

não espera ser amado, apenas ama

espera o tempo que for preciso, mesmo que não tenha tempo

vai até onde for preciso, mesmo que não haja caminho

porque quem ama cria o tempo e o caminho

quem ama simplesmete ama

sem condições, sem marcações, sem lista de desejos,

sem variações, sem divisões, sem paixões de uma só noite

quem ama simplesmente

segue seu caminho e o seu tempo,

o caminho que cruza com o do que é amado,

no mesmo tempo do que é amado,

mesmo que o que é não seja um ser,

talvez uma planta, ou um gato, ou um livro, ou um lápis

quem ama por vezes nem sabe que ama

apenas ama

ama apenas

e o que sente não passa, fica, permanece,

ontem amamos, hoje amamos, amanhã também

com intensidade, mas sem sufocar

com ardência, mas sem picada

com calor, mas com ar, água e terra,

com alimento

Alguns versos e pensamentos I

"Não cuidarei dos rosais
que ele deixou, nem dos pombos,
que eles sequem, como eu seco,
que eles morram, como eu morro"

Rosalía de Castro

Espécie de cantiga de amigo do nosso tempo. Canto da ausência do ser amado. Cansada de esperar em vão, seca de afetos, a mulher rebela-se e decide não mais cuidar das coisas que ele deixou e que a fazem lembrar dele.
Obs.: Inicio nova série de postagens, com fragmentos de versos e pensamentos que, por diversas razões, me tocam.

terça-feira, abril 29, 2008

Uma vida e a vida enquanto uma criança

Na caixa perdida da arrecadação onde guardei a inocência que julgava poder usar um dia, encontrei uma pequena semente. Resolvi dar a semente para a menina, aproveitando para ensiná-la porque a terra, a água, o sol e o ar eram tão importantes para o crescimento daquela possibilidade que cabia na pequena mão que então a segurava. A menina sorriu ao olhar para mim, e nos lábios viam-se a inocência perspicaz que havia outrora guadado na caixa. Naquele momento percebi que a vida estava ali transmitida, não a vida que se opõe à morte, meramente física, mas a vida que não se ensina, que não se ganha, que não se perde, a vida que apenas se vive, como pode, de acordo com quatro elementos que nos sustentam. Queria sorrir assim, mas apenas saiu-me um sorriso de concordância. De qualquer forma, ela parecia satisfeita, como também o ficaria se lhe tivesse dado a própria caixa, ou laço que a atava, ou o pequeno grão de areia que estava no fundo. A vida enquanto uma criança não precisa de motivos, calendários, tempo ou espaço para simplesmente viver. É do que julgava guardado e esquecido que recuperei apenas a semente que transmito. Mas será uma possibilidade tão infinita um apenas? Não. Aquilo que deixa de viver lança a semente prévia e renasce, mesmo que no coração de uma vida enquanto criança, mesmo que na vida de um coração que se quer sempre criança.

A morte de Isabella e a eficiência da Polícia

Como mãe, como avó, como cidadã, como ser humano, sinto-me na obrigação de cumprimentar a Polícia Civil de São Paulo pela eficiência na investigação do crime contra a menina Isabella.

Foi um exemplo de profissionalismo, de dever bem cumprido. Devíamos nos orgulhar de termos profissionais tão competentes, ao invés de criticá-los. Outro exemplo de seriedade e competência vem-nos do promotor que acompanha o caso, o que nos deixa mais confiantes na possibilidade de ser feita justiça (a justiça possível, tendo em conta a pouca severidade de nossas leis).

Não, não foi "um espetáculo de pirotecnia". Mas, ainda que fosse, não é isto que deveria causar preocupação. Preocupante é o triste espetáculo diariamente oferecido por muitos dos nossos políticos. Preocupante é haver assassinatos, especialmente de crianças. Preocupante é a possibilidade de o(s) assassino(s) não ser(em) preso(s) e julgado(s). Preocupante é a brecha de se considerar a "primariedade" do(s) acusado(s) num crime contra a criança (no caso em questão, contra a própria filha). Preocupante é a leveza da pena, desproporcional ao peso do delito.

Sim, o fato vem ocupando um grande espaço na mídia - um espaço correspondente à comoção popular diante da brutalidade do crime. Sinal de que a sociedade ainda não perdeu a capacidade de se indignar diante de crimes hediondos, como este, e de clamar por justiça. Sinal de que se solidariza com a dor sem nome e sem sentido dos que efetivamente amavam a menina. Sinal de que repudia a frieza de quem matou barbaramente uma criança e não compatua com o silêncio de quem, em nome de certos valores e direitos, protege assassinos, calando o valor e direito maior, o da vida.

segunda-feira, abril 28, 2008

Isabella - a via crucis

A via crucis de Isabella (sem esquecer que infelizmente, no Brasil e no mundo, há muitos outros algozes de muitas outras Isabellas, atrasando a evolução espiritual da humanidade). Quando começou o primeiro passo do seu calvário? Tudo indica que ainda no carro, a caminho de casa. O ferimento na testa (a coroa de espinhos, a primeira queda...) deixou marcas de sangue em três lugares do veículo (Indícios que alguém, quase com sucesso, tentou apagar...Por que?)

Uma fralda e uma toalha serviram para estancar o sangue do rosto da menina (o lenço de Verônica, mas sem a sua piedade...), enquanto era levada até ao apartamento. (Alguém quase conseguiu eliminar os vestígios dos tecidos, lavando-os com alvejante. E também limpou o rastro de sangue do chão... Por que?)

A menina, inerte, totalmente indefesa, foi posta sentada no chão (a segunda queda...). Sua sentença de morte (qual a acusação?) já estava assinada: sufocá-la com pesadas mãos de adulto, tirar-lhe o ar por infinitos minutos, matá-la por asfixia (o suplício, a quase morte, antes da definitiva queda...). Só faltava agora o(s) seu(s) assassino(s) pensar(em) num modo de se livrar(em) do corpo sem que recaísse sobre ele(s) a culpa.

Defenestrá-la, através do rasgo aberto na rede de proteção, foi a decisão fria do(s) seu(s) algoz(es). Imagem de uma cueldade inimaginável, de tamanho horror, que ultrapassa qualquer ficção. Dependurada pelos pulsos, braços para o alto, corpo pendente no vazio (a terceira queda, a crucificação...), a menina balançou no ar e depois despencou no abismo.

Impossível sobreviver a tantos tormentos. Mesmo assim, seu coraçãozinho continuou a bater, quase imperceptivelmente, mas por pouco tempo. O breve tempo talvez de poder ver o rosto materno ou de sentir sua presença (a descida da cruz, "stabat mater"...).

Só que Isabella não veio ao mundo para morrer na cruz. (Ninguém vem para sofrer, mas para ser muito amado e amar, para ser feliz). Menos ainda para ser sacrificada (em nome de que, Deus meu?) em plena infância. Era simplesmente uma criança, um ser humano lindo, de sorriso florescente.

Humanamente, mesmo que, perante a lei dos homens, seu(s) assassino(s) seja(m) condenado(s) e cumpra(m) pena, é impossível perdoá-lo(s). Porque não pede(m) perdão. Porque sabia(m) o que fazia(m). Resta - a nós e ao(s) assassino(s) - esperar o juízo divino. Talvez só Ele possa absolvê-lo(s).

sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril - "foi bonita a festa, pá"

Sim, foi bonita a festa, como cantou Chico Buarque. E nós aqui, do outro lado do cais, ficamos carentes das sementes de cravos no nosso jardim.

Contudo, passada a euforia, veio o desencanto. E ficou um gosto amargo, um certo travo do que poderia ter sido e não foi.

Toda revolução deve ser permanente. Do contrário, corre o risco de cair na cristalização e tornar-se estátua de si mesma.

Isto é válido também para as pessoas. Quantas vezes não nos convertemos em pousos de pombos, prisioneiros de um determinado fato, congelados numa imagem, fixados no tempo.

segunda-feira, abril 21, 2008

Coisas de criança 17

Ontem foi mais um dia especial para os avós: dia de ver e falar com a netinha através da webcam. Desta vez, um prazer triplicado, com a presença dos dois filhos. Três amores, enchendo de alegria e luz as suas vidas.

A princípio, a menininha cobria o rosto com um livro aberto, e gargalhava gostosamente, brincando de se esconder da câmera. O livro, prenda da madrinha, traz um coração na capa e conta a história de uma fada que tem justamente o nome da menininha. Aos poucos ela foi deixando ver a boquinha, um canto da face, os olhos, e por fim o rosto todo...

Em seguida, a brincadeira mudou para uma espécie de karaoquê com a música do "Balão Mágico". Essa canção marcou a infância do pai e da madrinha da menininha. A avó se lembrava perfeitamente do começo ("Super fantástico amigo/que bom estar contigo/ no nosso balão), mas a memória falhou na segunda estrofe. O jeito foi apelar para o lá-lá-lá... e prosseguir cantando.

Mas com certeza, até o próximo encontro, a avó já conseguiu reaprender toda a canção. E então ela poderá cantá-la inteirinha, fazendo coro com a menininha.

domingo, abril 20, 2008

Isabella - o reverso de um parto

A imagem do buraco na rede por onde a pequena Isabella foi arremessada acutila-me. Esse rasgo (aberto com a ajuda de dois instrumentos cortantes, segundo a perícia) contraria todos os princípios do acolhimento humano.

Pomos redes protetoras nas janelas para proteger as crianças de possíveis quedas. É preciso uma frieza e uma crueldade inimagináveis para praticar um ato hediondo como esse.

Simbolicamente, é o reverso de um parto. Quando uma criança está para nascer, mãos humanas aparam-na cuidadosamente, acolhem-na, trazem-na para a vida. Assim Isabella com certeza chegou ao mundo: amada, desejada, cuidada, protegida.

Mas as mãos que seguraram Isabella pelo vão e lançaram-na indefesa para o abismo, fizeram-na desnascer abruptamente, violentamente, longe da rede de proteção de todos os que verdadeiramente a amavam.

Quis o acaso (se é que existe acaso) que a mãe conseguisse estar ao lado da menina nos instantes de trânsito entre a vida e a morte. Preciso acreditar que a simples presença materna, sua voz doce, seu toque macio, chegaram de alguma forma até a menina, serenizando a sua angústia e estupefação, confortando-a, acolhendo-a na passagem para outra forma de vida, para um lugar onde não se arremessem crianças indefesas para o abismo.

quinta-feira, abril 17, 2008

No dia dos teus anos

Aqui na Terra, o tempo parou para ti. Não fazes mais anos. Para nós, que aqui ficamos, não. Continuamos a contar os minutos, os dias, os anos.

Querido pai, hoje, aqueles que mais te amaram, amanheceram pensando, com afeto e uma pontada de dor: hoje é dia dos teus anos.

E, como não puderam expressar-te esse pensamento afetivo, trocaram mensagens entre si, procurando escrever a dor imensa da tua ausência.

Há aqueles que a cada ano que passa são cada vez mais esquecidos. A sua imagem se desvanece pouco a pouco, acabando por desaparecer. Contigo dá-se justamente o inverso: ela cresce, reverbera, revelando cada vez mais a projeção maiúscula de um ser humano invulgar, raro, lindo.

Tenho muito orgulho de ter tido o privilégio de ser tua filha. Fui abençoada por receber de herança o teu nome honrado, irretocável. Era isto o que gostaria de te dizer hoje, no dia em que completarias 83 anos.

quarta-feira, abril 16, 2008

Llansol e Bach

Foi descoberta por musicólogos uma composição para órgão, de J. S. Bach, ainda desconhecida.

Leio esta notícia, enviada por meu filho. Sei que pensou em mim e na Maria Gabriela. Acolho, comovida, esse pensamento sobre a Amiga, que recentemente partiu.

Ela não mais poderá ouvir essa cantata de Bach aqui na Terra, enquanto descasca ervilhas. Mas lá, na cena do encontro fulgurante da música e do texto, lá onde pode haver a jubilosa ressurreição, ambos experimentam novas possiblidades harmônicas. Tocam, trocam saberes e fulgores. E saboreiam, juntos, a sopa que Maria Gabriela preparou.

quarta-feira, abril 09, 2008

Acalanto para o neto do coração

(de autoria da avó)*

Meu menino nana, nana,
Que já vem o João Pestana
No macuru, macuru**.

Vem o sono, vem o sonho,
Muito lindo, muito lindo,
E o menino sossegado,
Vai adormecer sorrindo...

Meu menino nana, nana,
Que já vem o João Pestana
No macuru, macuru.

* do Livro de Acalantos, em preparação
** macuru: berço indígena. Amazônia: balanço de segurança, formado por talas, em que as crianças podem balançar sem perigo.

terça-feira, abril 08, 2008

Coisas de criança 16 ou A primavera em rede

Neste princípio de primavera, o pai levou a pequena menina à praia. Ela brincou na areia, fazendo os grãos de areia escoar entre seus pequenos dedos, sorrindo feliz. Acho que primavera é como ver uma criança a sorrir.

Este post nasceu num comentário meu para um outro blog, e renasceu por sede de rede e continua aqui.

quinta-feira, abril 03, 2008

Isabella - mais uma infância interrompida

Isabella tinha apenas cinco anos. Não mais brincará, não mais sorrirá, não mais crescerá.

Sua breve vida foi interrompida de uma forma inimaginável, provavelmente por aqueles que a deveriam proteger.

Como isso foi/é possível? A dor diante dessa morte violenta provoca-me um sentimento sem nome: indignação, revolta, descrença no ser humano...

Quando filhos assassinam os próprios pais, o crime choca-nos pela dupla transgressão: serem capazes de matar; e serem capazes de praticar esse ato justamente contra aqueles que lhes deram a vida. Mas quando pais ou responsáveis matam uma criança indefesa, o crime é ainda mais hediondo, por contrariar todos os princípios humanos.

Infelizmente, sabemos que a perversidade existe, que há pessoas muito perturbadas, com sérios desvios de caráter. Não sou loucos, têm consciência de que infringem leis e, cientes disso, procuram ocultar seus atos. Disfarçam, mentem, jamais os assumem.

Contudo, por mais "normais" que os prováveis assassinos pudessem parecer, certamente eram perceptíveis no seu perfil alguns sinais de perversão. Por que as pessoas de bem que viviam próximas à criança não deram um grito de alerta, evitando, assim, essa tragédia (como aquele senhor de Goiânia, que teve a coragem de denunciar a suspeita de maus-tratos contra uma menina de doze anos, salvando-a das torturas a que era submetida, e que poderiam ter resultado na sua morte)?

Como disse um psicólogo, comentando este assassinato terrível, causa espanto o silêncio das "boas pessoas". Quando nos calamos diante de uma possível situação de violência contra inocentes, podemos estar alimentando o "ovo da serpente" que nos devorará mais tarde.

quarta-feira, abril 02, 2008

Dia Mundial do Livro Infantil

Hoje comemora-se mundialmente o Dia do Livro Infantil em homenagem a Hans Christian Andersen, o autor de A Sereiazinha e O Patinho Feio, entre outras histórias inesquecíveis.

Penso nos livros que vivem no meu imaginário, contribuindo para uma Infância com arte*. O começo feliz foi o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Depois vieram muitos outros. Felizmente a estante está cheia, viva, receptiva a novos leitores. Mas sempre haverá espaço para os livros que continuam a chegar.

*(Título do livro de literatura infantil que escrevi recentemente)

terça-feira, abril 01, 2008

Coisas de criança 15




A avó comoveu-se com algumas fotografias da menininha que a filha lhe enviou. Numa delas, vê-se a menininha de costas, com as mãozinhas apertadas atrás (um gesto-jeito muito dela) e um par de asas diáfanas, como uma fadinha (a madrinha gosta de brincar com ela de soltar as "asas da imaginação" e ela A-DO-RA).

Na outra foto, vê-se apenas os pequenos pés duplamente calçados: a menininha, também de costas, calça os sapatos da madrinha, como as meninas costumam fazer.

A avó sorri, lembrando-se de que a filha, quando pequena, também costumava arrastar sandálias enormes pela casa. Elegeu esta foto para fundo de tela do seu computador. Na próxima semana, colocará a das asinhas. Assim, vai mantendo os que ama perto dos olhos e do coração.

segunda-feira, março 31, 2008

Impressões da paisagem





O repórter freelancer belga Luc de Smet, especializado em jornalismo científico, enviou-nos mais imagens que costuma captar pelo mundo fora. Gosto muito das texturas e da cores, mas sobretudo da capacidade que este jornalista tem de encontrar beleza no canto remoto, na dobradura extemporânea, na superfície descascada e na pele tatuada das cidades.

quarta-feira, março 26, 2008

O enigma do humano e a ficção científica


O que há em comum entre filmes de Ficção Científica, como Blade Runner (Scott, 1982) e Imaginação artificial (Spielberg e Kubrick , 2001)?

Ambos provocam instigantes inquietações em torno da antiga pergunta-enigma, cada vez mais atual - o que é o homem?

terça-feira, março 25, 2008

Bem-vindo, querido neto do coração!

Hoje é um dia memórável: o seu dia, o dia em que você enfim chegou. Todos o aguardávamos, ansiosos.

A sua avó do coração ainda não teve a ventura de contemplar o seu rostinho. Mas já o sonhou à distância. E consegue imaginar você envolto num halo de afeto e felicidade, docemente acolhido por seu pai e sua mamãe.

Bem-vindo a este mundo!

quarta-feira, março 19, 2008

A neta, a avó, o bisavô e a tradição da Páscoa

A Páscoa se aproxima. É uma data que traz uma memória viva do meu pai. Ele deixou-nos a tradição de receber o compasso Pascal com tapete de flores à entrada da casa. E sobre a mesa finamente guarnecida com a melhor toalha, variadas iguarias e doces conventuais.

Ele partiu, mas a tradição continua, celebrada sobretudo em nome dele, como se ainda estivesse presente na festa (e sentimos que está).

Também gostaria de deixar uma memória de convívio afetivo que se tornasse uma tradição para a minha netinha (e para quem mais chegar...). Que fosse celebrada espontaneamente, como os meus filhos fazem pelo avô.

Ainda não tive a ventura de passar com a minha netinha uma festa importante, como a Páscoa, o Natal e o Ano Novo. Se eu pudesse estar com ela nesta Páscoa, iniciaria uma tradição bem lúdica: procurar ovinhos (poucos e pequenos, para não fazer mal) e prendinhas escondidas pela casa (se fosse na cada do bisavô, poderia ser entre as plantas do jardim).

Fica a sugestão. Quem sabe alguém (penso no filho, ou na filha, ou em ambos...) que tenha o privilégio de conviver com a menininha amada proponha a ela a brincadeira, em nome da avó distante?

terça-feira, março 18, 2008

Descobrindo a América, ainda que tardiamente

Apesar de longo convívio com os livros, confesso que desconhecia o Popol vuh, livro sagrado dos maias que conseguiu sobreviver, com algumas transformações ao ser transmitido pela tradição, à destruição sistemática empreendida pelos colonizadores espanhóis.

Mea culpa. Deveria conhecer esse e outros livros fundamentais da cultura latino-americana. Mas antes tarde do que nunca. E mais gostaria de conhecer, se não fosse, para tantos conhecimento a adquirir, tão curta a vida.

segunda-feira, março 17, 2008

Adoecer, sem batatas na testa


Dor no corpo. Febre. Gripe. Cama.

Na infância, quando eu ou minha irmã ficávamos febris, minha mãe costumava pôr rodelas de batata crua na testa, firmando-as com uma faixa.

Não sei se há alguma verdade científica nisso, mas o fato é que parecíamos melhorar à medida que as rodelas iam ficando escuras.

Como nós não tínhamos mimos nenhuns, eu achava doce adoecer só para poder ter uns minutos de atenção da minha mãe.

sábado, março 15, 2008

Mais um tributo à Amiga

Maria Gabriela Llansol é o perfil desta semana no sítio electrónico Edit on Web. O texto é de autoria de Maria de Lourdes Azevedo Soares.

Outras visitas


Ontem de manhã, quando fiz um intervalo nas atividades de computador, fui à varanda. Os macaquinhos não estavam mais lá. Comeram os pedacinhos de banana e foram embora, deixando saudades...

De tarde, nova visita de bichos. Desta vez, uma imensa mariposa (imensa mesmo) pousou na batente da porta que dá para a varanda. A princípio assustei-me, pensando que era um morcego (na noite anterior entraram alguns, e esvoaçaram freneticamente pela casa, atraídos talvez pelos pedaços de fruta que deixei para os macaquinhos).

Depois, comecei a pensar que, para não assustá-la, teria de dormir sem correr a cortina (não consigo dormir com claridade...). De repente, quando precisei acender a luz, ela levantou vôo e, fascinada pela luminosidade intensa da lâmpada, entrou no globo do lustre. Desliguei o interrutor imediatamente, para não queimá-la. E fiquei aguardando ansiosa que meu marido chegasse, para ajudar-me a libertá-la.

Foi uma operação de salvamento delicada. Mas conseguimos retirar o globo e levá-lo até à varanda, com o bocal tampado com uma revista, para ela não se debater e se machucar ainda mais. Cuidadosamente, destampamos o bocal, virando-o na direção da liberdade. Ao sentir as lufadas de ar, imediatamente a mariposa bateu asas e pousou, livre, na parede da varanda, resguardando-se da chuva.

De manhã, não estava mais lá. Também não estava morta no chão. Talvez tenha encontrado um refúgio, quando a chuva cessou...

sexta-feira, março 14, 2008

Uma visita inesperada 3


Ontem, à tardinha, julguei ouvir um chamado, vindo da copa da amendoeira que derrama seus galhos sobre a varanda.

Apurei os ouvidos e o olhar. Lá estavam eles, dois sagüizinhos,também a me observar, irriquietos. Há muito não recebia tão bem-vindas visitas, com jeito de crianças travessas.

Corri à cozinha. Lamentavelmente, na geladeira só tinha banana madura demais, à espera de virar doce. Mesmo assim, decidi cortar meia banana em pedadinhos. Deixei-os enfileirados sobre o parapeito, sempre observada de longe por dois pares de olhos atentos. Depois, chamei os sagüizinhos carinhosamente e me afastei, para deixá-los comer à vontade.

Primeiro veio um. Comeu três pedacinhos meio desconfiado e retornou logo ao galho. Só um pouco depois veio o outro. Mais tarde, um deles (como saber qual?) retornou e comeu novamente.

Pensei que, satisfeitos, iriam embora. Mas, desta vez, não foi assim. Excursionaram pelos galhos até ao anoitecer e depois aninharam-se na parte mais alta da árvore, sempre a olhar atentamente para a varanda.

Choveu torrencialmente no início da noite. Pensei na aflição dos macaquinhos, mas não consegui enxergá-los, tal era a escuridão. Ainda estariam lá, encolhidos nos ramos? Teriam ido embora?

Assim que acordei corri à varanda. Não os vi de imediato, camuflados no meio da folhagem. De repente, surpresa: consegui distingui-los, quase diante dos meus olhos.

No parapeito, nova fileira de pedaços de fruta, a servir de café da manhã. Logo mais saberei se ainda estão lá...

terça-feira, março 11, 2008

Pensando na Luz de Maria Gabriela Llansol

Rio de Janeiro, 11 de março de 2008

Querida amiga,

ontem, 10 de março (data que equivocadamente consta como do seu nascimento em algumas notas biográficas), estivemos com você numa cerimônia singela e profundamente bela.

Durante a Missa da Luz, na Paróquia da Ressurreição, entoamos preces e cânticos de fé, na convicção de que você estava conosco e no espaço edênico, "à luz da ressurreição" . Nas momentos finais, os amigos e familiares foram convidados a receber, na frente do altar, uma vela acesa e um cartão em homenagem ao ente querido que partira.

Eu e o meu companheiro acendemos a vela de ternura por você, querida amiga.

Na saída, abraçamos o amigo que me apresentou à sua obra, e a quem serei para sempre grata por me ter propiciado este encontro definitivo. Ele estava presente, é claro. Também estavam presentes uma amiga de longa data e sua mãe. E estas presenças deram-me grande conforto.

Andamos um pouco a pé, juntos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No percurso, convocamos vários pensamentos afetivos: pensamos em você, querida Maria Gabriela, com um sorriso largo, acompanhada do seu ambo, na foto de abertura do livro Amigo e Amiga; falamos da sua imensa generosidade, acolhendo os legentes que vinham vê-la, atraídos pelo fulgor dos seus textos; partilhamos, comovidos, a alegria e o privilégio de poder ler seus livros e os textos dos críticos que souberam perceber a importância da sua obra.

Alimentamo-nos dos "pães do imaginário" e dos pãezinhos de gergelim do lanche, sem ruptura entre o corpo e o espírito.

Por fim , abraçamo-nos com um "até logo" nada distraído, fora do hábito de servir os afetos. Com um desejo sincero de nos reencontrarmos em breve, sabendo que sempre estaremos juntos, com você, nos textos do fulgor.

Era isto que gostaria de dizer-lhe, hoje, querida Maria Gabriela.

com imenso afeto da amiga, dos amigos.

Ps.: continuo a pensar em Témia e, sempre e cada vez mais, em Ana ensinando a ler a Myriam - a figura que mais fortemente me atraiu para a paisagem dos seus textos.

domingo, março 09, 2008

Coisas de criança 14

Ontem foi um dia especial: dia do aniversário do vovô.

Como de costume, o pai pôs a menininha no colo, diante da webcam, para ela interagir com os avós distantes.

Só que desta vez cantaram um trecho de "Parabéns pra você" (só um trechinho: ela ainda é muito pequena para conseguir se concentrar numa música inteira...).

No meio da conversa, o pai perguntou:
-Então, já deste parabéns pro vovô?

Prontamente, ela respondeu:
- Eu já di.

Enquanto o pai repetia a forma correta (dei, eu já dei), a avó sorria, lembrando-se da admirável competência lingüística dos pequenos aprendizes da língua, que apreendem as regras das conjugações dos verbos. Simplesmente a menininha, como ocorre com muitos outros falantes, aplicava "corretamente" a terminação do pretérito perfeito!

Ontem, um dia especial

Por vezes lançamos frases-pensamentos que encontram profunda ressonância em outras pessoas.

A escritora Maria Adelaide Amaral, numa entrevista, confidenciou o porquê de considerar muito especial a sua relação com o seu companheiro :

- Ele consegue fazer com que eu revele o melhor de mim. Ele me torna uma pessoa melhor. (cito de memória)

Esta frase, simples e intensa, marcou-me profundamente. Guardei-a porque senti que se aplicava perfeitamente à minha vida. Há muito queria dizê-la ao homem que me acompanha há 37 anos.

Disse-lhe no cartão de aniversário, ontem, no Dia da Mulher.

sábado, março 08, 2008

Imagens curativas 2- Os Anjos Sublimes e Independentes da Guarda

Leio o belo texto da Etelvina, "Melissa, a guardiã". Penso imediatamente na guardiã Chiquinha, a fiel gata branca que arranhava a porta do quarto do meu pai, com um miado longo de cortar o coração, logo após a partida de seu dono. Abri-lhe a porta, deixei-a subir na cama e entoar felinamente o seu rito de despedida. Vi-a farejar como um cão, "Anjo da Guarda Sublime", percorrendo, um a um, os lugares dele. Depois retirou-se mansamente, lançando-me um olhar cúmplice, que jamais esquecerei.

Tomo nas mãos dois dos livros de Maria Gabriela Llansol pousados junto à minha mesa de trabalho. E leio:

"Disse-me que os animais são Anjos protectores, e eu sabia que já vivia sob a sua guarda. Para mim, o Anjo mais sublime é o do Cão, o anjo mais independente é o Anjo do Gato (...).

Fazem-me falta aqui o meu Anjo Sublime da Guarda, e os meus Anjos Independentes da Guarda; há entre nós um laço, um suspiro de fidelidade, noites e noites em que eles, no jardim, iluminam de liberdade a casa" (Amar um cão,[p. 19])

"Comunidades havia que tinham apenas o que sentiam, sem saber o que experimentavam. Tal acontecia, sobretudo, com as comunidades em que predominavam plantas ou animais ou estrelas. Tomavam por livro o seu mapa envolvente, sem que soubéssemos se nalgum deles estaríamos incluídos" (O Senhor de Herbais, p. 322)

quinta-feira, março 06, 2008

Imagens curativas 1 - transfigurando a dor em beleza


A avó anda meio triste, sentindo dor pela perda da Amiga. Quando recebeu a notícia de que ela partira, uma sensação extremamente dolorosa, física, apertou-lhe o coração.

Lembrou-se, então, das imagens curativas a que a Amiga recorrera, quando perdera o seu Amigo (Amigo e Amiga. O curso do silêncio de 2004). Com ela e como ela, recorrendo às imagens desse livro, poderia aprender a transfigurar a dor em beleza. Se apurasse os ouvidos, talvez pudesse ouvir um som semelhante a "Tsi-z'li" ("Tsi-z'li", "espécie de melodia de felosa-verde-listada, muito raro na Europa"), em forma de chamamento da Amiga, a lhe dizer, serenamente: "_____estou bem".

Principiou a ouvir uma outra melodia, de sonoridade semelhante: titi, titi. Não, não era canto de ave rara. Era chamado de criança-em-educação, ainda quase pré-linguagem, a crescer como o piano de O começo de um livro é precioso e O Jogo da liberdade da alma.

Sentiu então o impulso de transfigurar o negro do luto numa farândola de cores e movimentos, como a da criança do texto (fragmento inédito) que a Amiga lhe oferecera.

Em resposta ao chamamento, a avó pediu à mãe do netinho do coração para brincar um pouco com o menininho, não mais através da fresta da rede protetora, mas diretamente, no chão da varanda da casa dele. A mãe concordou prontamente, mesmo sem entender a razão de tão súbito pedido.

Surpreendido e feliz, o menino acolheu a Titi quando ela bateu à porta da sua casa. Ambos brincaram como nunca, espalhando brinquedos na varanda. Quando a Titi se despediu, à tardinha, em lugar da dor afilada sentiu uma doce leveza. Respirou amplamente, e repetiu o canto que desejava ouvir:

- " 'Tsi-z'li' ______ estou bem"

A avó, a neta e os cataventos


Nas férias passadas, a menininha encantou-se com os cataventos. Não conseguia falar a palavra, pois mal acabara de completar dois anos. Com as mãozinhas viradas pra fora e muito brilho nos olhos, solicitava a todo o momento a avó, para que ela confirmasse a beleza da novidade e do nome:

- Oh! É o cacavento, vovó!

A avó então repetia pausadamente as sílabas da palavra, sublinhando a sílaba correta:

- É, meu amor, é o ca-TA-ven-to.

A menininha olhava atentamente a avó, como quem quer aprender a fazer leitura labial. E logo conseguiu dizer a palavra corretamente.

Todos os dias, após o jantar, a avó, a netinha e o avô sentavam-se na beirada do muro, a apreciar juntinhos os cataventos, a girar no alto da serra que fica diante da casa da aldeia.

Então a avó lembrou-se do refrão de uma música brasileira e pensou que ele tinha tudo a ver com aquele momento. E cantou-o para a menininha, fazendo com as mãos os movimentos do catavento:

- Que maravilha, a girar! ... Que maravilha, a girar!

Pouco tempo depois, ambas já cantavam e rodavam juntas as mãos, como se fossem dois cataventos também a girar, só que do lado de cá, como quem conversa com o vizinho do lado de lá.

Que maravilha! Sim, que maravilha é viver e brincar!

quarta-feira, março 05, 2008

Coisas de pais e filhos 4

Há mães que esperam cartas, telefonemas ou outras manifestações de carinho dos filhos, e recebem. Outras há que esperam em vão. Bom mesmo é quando elas recebem, sem esperar, lindas mensagens afetivas.

Ontem à tardinha, quando viu o carteiro passar e entregar uma volumosa correspondência, a mãe teve um pressentimento. Esperava a chegada de um livro, vindo de Portugal. E, de fato, ele veio. Mas não esperava encontrar, entre as demais cartas, um cartão de Feliz Dia das Mães, enviado pela filha querida, atualmente a estudar na Inglaterra.

A mãe leu-o emocionada e depois guardou-o junto de outras cartas preciosas. Em seguida, pôs o retrato que vinha junto do cartão na face lateral da caixa de retratos da menininha e da família. Assim, sempre que a saudade bater forte, pode ver os seus amores.

Enquanto cuida das tarefas diárias, a mamãe sorri, pensando que agora terá três Dias das Mães para comemorar: o do Brasil, o de Portugal e o da Inglaterra. Sorri mais ainda por saber que entre pais e filhos há reciprocidade amorosa todos os dias.

terça-feira, março 04, 2008

"Tsi-z'li", à luz da ressurreição


"Entre as coisas vivas, o que mais aprecio é a ressuscitação das coisas
mortas,
dar-lhes o lugar no eterno retorno do mútuo que elas merecem.

'tsi-z'li'

_________ estou bem"

Maria Gabriela Llansol. Amigo e Amiga. O curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 141-143

segunda-feira, março 03, 2008

Velando a amiga III

A Amiga partiu. Foi ser luz, ao encontro do seu ambo.
Deixou-nos o texto do fulgor, singularidade irrepetível.

sábado, março 01, 2008

Parabéns pra você, cidade do Rio de Janeiro


1º de Março. A cidade do Rio de Janeiro completa 443 anos de fundação. Parabéns, cidade menina-e-moça, abençoada por Deus, bonita por natureza. Linda demais, mesmo quando amanhece com chuva, como ocorreu hoje, dia da sua data natalícia. Maravilhosa, apesar de tão pouco cuidada por quem de direito.

Minha alma carioca canta, saudando a cidade em que escolhi viver.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Coisas de criança 13

A avó da menininha escreveu um livro sobre Literatura Infantil, dedicando-o em especial à pequena netinha.

Logo que recebeu as provas finais, feliz com a bela capa e por ver o trabalho pronto, resolveu enviá-lo aos filhos e à neta, que residem do outro lado do cais.

Entusiasmada, a filha, tia-madrinha da menininha, pôs no colo a destinatária privilegiada do livro, apreciando com ela os detalhes da capa ( - Vamos ver que bichinhos estão desenhados?) e lendo-lhe a dedicatória que a avó escreveu:

- Dedicado em especial à pequena * (e a quem mais chegar....)

A menininha olhava e ouvia tudo atentamente. enquanto, com o seu jeitinho característico, torcia com as duas mãozinhas as pontas da camiseta.

De repente, comentou:

- Eu não sou pequena!

Ao saber dessa história através da filha, a avó pensou:

- Claro, tem razão, meu amor... você não é pequena, se comparada com os bebês da turma dos pequenos da sua creche (com certeza você ouviu as professoras referindo-se assim a eles e, por isso, fez essa comparação), mas é pequenina para os seus avós que tanto te amam, e era ainda menor, um bebezinho, quando a vovó começou a redigir os primeiros textos do livro que dedicou a você...

Um novo cais


O nosso Toni agora tem mais cais. Vale a pena visitar. Chama-se Sede de Rede.

Há uma parte que diz assim: "E é no cais que encontro lugares que nunca vi, pessoas que julgava não ter a oportunidade de conhecer. O cais é o porto de encontro, mas é só o início, só o início."

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A avó e os netos do coração



Todos os dias, quando chega da creche, o bebê corre à fresta que separa a sua varanda da do apartamento vizinho, e chama:

- Titi! Titi!

Titi, para ele, é o nome da vizinha. E ela prontamente responde:

- Uh!
- Uh! - repete o menininho.
- A titia está aqui, meu amor!

Ambos trocam pequenos objetos pelos buracos da rede protetora. De vez em quando, a titi precisa se ausentar, mas antes explica para o menininho:

- A titia vai tomar banho e depois vai caminhar com o titio, está bem? Tchau, até logo, meu amor!

Quando retorna, espanta-se com a série de carros e bonequinhos que o bebê conseguiu passar para a sua varanda. Sempre atento, ele logo percebe quando há alguém do outro lado. E começa tudo outra vez:

- Titi!
-Uh! Estou aqui!

A titia não sabe direito como esse caso de amor começou. Lembra-se que a irmã do menininho, quando era bebê, também gostava de interagir com ela através da varanda, mas de modo diferente, admirando-se de vê-la no reflexo do vidro espelhado. O fato é que, não importa a maneira, os pequeninos conseguem perceber o quanto ela gosta de crianças. E ela ama muito esse neto do coração, assim como ama a netinha que vive longe (a menininha das histórias deste blog). E, com certeza, será imenso o afeto que sentirá (já sente) pelo outro neto do coração, que em breve vai nascer, também longe, filho de uma amiga muito querida.

Para ela, todos eles estão juntos, muito perto, envolvidos pelo mesmo anel de fulgor.